A ciência da reviravolta: como escritores exploram nossos cérebros


Vera Tobin 26 Mai 2018 (atualizado 26/Mai 14h45)

ARTIGO ORIGINAL The science of the plot twist: How writers exploit our brains The Conversation 11 de maio de 2018

Autoria: Vera Tobin

Tradução: Camilo Rocha

 

Recentemente, fiz algo que muitas pessoas considerariam impensável, ou no mínimo perverso. Antes de assistir “Vingadores: Guerra Infinita”, li de propósito uma resenha que revelava todos os principais pontos da trama, do começo ao fim. Não se preocupe, não vou compartilhar nenhum dos spoilers aqui. Ainda que eu pense que a aversão a spoilers – que A.O. Scott, do The New York Times, recentemente lamentou como “um tabu fóbico e hipersensível contra a discussão pública de qualquer coisa que acontece na tela” – seja um pouco exagerada. Como cientista cognitiva que estuda a relação entre cognição e narrativas, eu sei que filmes – como todas as histórias – exploram nossa tendência natural de antecipar o que vem a seguir. Essas tendências cognitivas ajudam a explicar porque reviravoltas na trama podem ser tão satisfatórias. Mas, de certa forma, contraintuitivamente, também explicam porque saber sobre uma reviravolta antes de ela acontecer – o temido “spoiler” – realmente não estraga nem um pouco a experiência. A maldição do conhecimento Quando você pega um livro pela primeira vez, você geralmente quer ter alguma ideia sobre o que está prestes a começar – “cozy mysteries” (histórias de mistério mais leves, passadas em uma comunidade pequena), por exemplo, não devem conter violência ou sexo explícitos. Ao mesmo tempo, você provavelmente também espera que não irá ler algo totalmente previsível. Até certo ponto, o medo de spoilers tem fundamento. Você só tem uma oportunidade de aprender algo pela primeira vez. Uma vez que aprendeu, esse conhecimento afeta o que você percebe, o que espera – e mesmo os limites da sua imaginação. Um aspecto importante do prazer das reviravoltas, também, não vem do choque da surpresa, mas de rever partes anteriores da narrativa à luz da reviravolta O que sabemos nos pega de diversas maneiras, uma tendência geral conhecida como “a maldição do conhecimento”. Por exemplo, quando sabemos a resposta de um enigma, esse conhecimento torna mais difícil estimar o quão difícil aquele enigma será para outra pessoa resolver. Iremos pressupor que ele é mais fácil do que realmente é. Quando sabemos qual será a conclusão de um evento – seja um jogo de basquete ou uma eleição – tendemos a superestimar o quão provável era esse resultado. Informações que encontramos no início influenciam nossa estimativa do que é possível depois. Não importa se estamos lendo uma história ou negociando um salário. Qualquer ponto de partida para o raciocínio – não importa o quão arbitrário ou aparentemente irrelevante – ancora nossa análise. Em um estudo, especialistas legais, que receberam um caso criminal hipotético, defenderam penas mais longas quando tiraram números maiores em dados jogados aleatoriamente. Reviravoltas amarram tudo Seja de modo consciente ou intuitivo, bons escritores sabem de tudo isso. Em parte, a mágica de uma narrativa eficaz funciona ao se aproveitar desses, ou de outros, hábitos previsíveis de pensamento. “Red herrings” (nome dado em inglês para uma pista falsa na história), por exemplo, são um tipo de âncora que estabelece falsas expectativas – e pode tornar as reviravoltas ainda mais surpreendentes. Um aspecto importante do prazer das reviravoltas, também, não vem do choque da surpresa, mas de rever partes anteriores da narrativa à luz da reviravolta. As surpresas mais satisfatórias ganham força ao nos dar um modo novo e melhor de enxergar sentido no material que veio antes. É outra oportunidade para histórias torcerem a maldição do conhecimento em seu favor. Lembre-se que uma vez que sabemos a resposta a um enigma, suas pistas podem parecer mais transparentes do que eram antes. Quando revisitamos partes anteriores da história à luz desse conhecimento, pistas bem construídas ganham uma nova e satisfatória significância. Considere “O sexto sentido”. Depois de soltar sua grande reviravolta na trama – que o personagem de Bruce Willis foi por todo o tempo uma das “pessoas mortas” que só a protagonista criança poderia ver –, ele reprisa flashes de cenas que adquirem novo sentido à luz da surpresa. Vemos agora, por exemplo, que sua esposa (na verdade, sua viúva) não pegou a conta em um restaurante antes que ele pudesse pegá-la por estar irritada. Em vez disso, foi porque estava, ao que sabia, jantando sozinha. Mesmo anos depois do lançamento do filme, espectadores se divertem com essa reviravolta, saboreando o grau em que deveria ser “óbvio se você prestar atenção” em partes iniciais do filme. Os benefícios e desvantagens do spoiler Ao mesmo tempo, estudos mostram que, mesmo quando as pessoas têm certeza a respeito de um desfecho, elas quase sempre sentirão suspense, surpresa e emoção. Sequências de ação ainda são emocionantes; piadas ainda são engraçadas, e momentos comoventes ainda podem nos fazer chorar. Como demonstraram recentemente os pesquisadores Jonathan Levitt e Nicholas Christenfeld, da Universidade da Califórnia em San Diego, spoilers não estragam a surpresa. Em muitos casos, os spoilers ativamente realçam a diversão. De fato, quando uma virada importante em uma narrativa é mesmo surpreendente, ela pode ter um efeito catastrófico na diversão – como muitos espectadores de “Guerra Infinita” indignados podem atestar. Se você sabe da reviravolta antes do tempo, a maldição do conhecimento tem mais tempo de operar sua mágica. Elementos iniciais da história parecerão prenunciar o final mais claramente quando você sabe qual é esse final. Isso pode fazer com que o trabalho como um todo pareça mais coerente, coeso e satisfatório. É claro, a antecipação é um prazer delicioso por si só. Saber de reviravoltas de trama antes do tempo pode reduzir essa excitação, mesmo que o conhecimento prévio não estrague o prazer que a história lhe dá. Especialistas em marketing sabem que o que os spoilers estragam é a urgência do desejo dos consumidores de assistir ou ler uma história. As pessoas podem até ter seu interesse e antecipação tão enfraquecidos que decidem ficar em casa, privados do prazer que teriam caso nunca tivessem sabido do desfecho. Vera Tobin é professora assistente de ciência cognitiva na Case Western Reserve University

Link para matéria: https://www.nexojornal.com.br/externo/2018/05/26/A-ci%C3%AAncia-da-reviravolta-como-escritores-exploram-nossos-c%C3%A9rebros

© 2018 | Todos os direitos deste material são reservados ao NEXO JORNAL LTDA., conforme a Lei nº 9.610/98. A sua publicação, redistribuição, transmissão e reescrita sem autorização prévia é proibida.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s