A Psicologia da Pobreza


Os cientistas sociais que estudam a pobreza podem ser divididos em dois grandes grupos. De um lado os pesquisadores, na maioria economistas, que acreditam que os pobres respondem de forma racional às circunstâncias em que se encontram. Para esse grupo, a situação de pobreza decorre de fatores externos aos indivíduos, e portanto fora de seu controle.

Do outro lado estão pesquisadores, na maioria psicólogos e sociólogos, que defendem que a pobreza modifica o comportamento do indivíduo. Nesse caso, uma pessoa de baixa renda pode agir de maneira incompatível com o objetivo de superar a pobreza, e tal comportamento seria uma consequência da própria situação em que se encontra. Para esse último grupo, portanto, a pobreza pode se tornar uma armadilha: ser pobre faz com que o individuo tome más decisões (financeiras, de saúde, etc.) que o fazem permanecer na mesma situação.

No restante do post, vou discutir dois estudos que utilizam métodos experimentais para tentar entender se a situação de escassez é realmente capaz de alterar a conduta de uma pessoa.

Como a pobreza pode afetar o comportamento?

Uma das hipóteses é a de que os pobres usam grande parte de sua capacidade mental para se adaptar às suas circunstâncias, e dado que nossa capacidade mental é limitada, sobra pouca energia para outras atividades. Por exemplo, um trabalhador de baixa renda se preocupa muito mais com questões básicas, como alimentação e moradia, do que um trabalhador de renda média. Nesse caso, o trabalhador de renda média tem mais recursos mentais disponíveis para outras atividades, como se concentrar no trabalho e nos estudos. Essa hipótese é conhecida como mental bandwidth.

Em um estudo publicado na revista Science, Sendhil Mullainathan e co-autores realizaram dois experimentos para testar esta hipótese. No primeiro, eles recrutaram pessoas em um shopping center dos EUA para responder a perguntas que medem os níveis de cognição e concentração. Antes de os participantes responderem às perguntas, alguns deles foram apresentados com um cenário fictício que os fazia pensar nas finanças pessoais. Por exemplo, eram perguntados o que fariam se o carro precisasse de um conserto de $1.500. A ideia por trás desse design é de trazer à tona as preocupações financeiras.

Os resultados mostram que participantes com menor renda foram mais afetados pela alusão ao cenário fictício do que os participantes de maior renda. Para os participantes mais pobres, ter que pensar sobre sua situação financeira fez com que seu desempenho nas questões diminuísse substancialmente. Já o desempenho dos participantes de renda mais alta não foi afetado.

Neste mesmo artigo, os autores descrevem um segundo experimento realizado com agricultores de cana-de-açúcar na Índia. A colheita da cana-de-açúcar é feita uma vez por ano e os agricultores não tem acesso ao mercado de crédito. Portanto, esse agricultores são efetivamente pobres algumas semanas antes da colheita, quando todo o rendimento do último ciclo já foi gasto, e se tornam ricos nas semanas que se seguem à colheita.

O experimento consistiu em aplicar testes de função cognitiva aos agricultores antes e depois da colheita. Os resultados mostram que o desempenho do mesmo agricultor melhorou após a colheita. Mais importante, os autores apresentam evidências de que o resultado não pode ser explicado por diferenças em nutrição ou stress, e concluem que a própria situação de pobreza afetou a capacidade cognitiva desses agricultores.

Estes resultados são bastante interessantes, mas estão longe de formar um consenso. Em outro estudo usando experimentos, e ainda não publicado, Stephanie Wang, Leandro Carvalho, e Stephan Meier investigaram a capacidade cognitiva e as decisões econômicas de famílias de baixa renda nos EUA antes e depois do dia de pagamento. Como quase todas essas famílias têm apenas uma fonte de renda e nenhuma poupança, elas se encontram em uma situação de escassez alguns dias antes do pagamento, mas não nos dias subsequentes.

Note que se a hipótese do mental bandwidth estiver correta, as pessoas que acabaram de receber seu pagamento deveriam ter melhor desempenho nas questões cognitivas.

O resultado deste experimento, entretanto, revelou que todos os participantes tiveram um desempenho similar na avaliação, e portanto não foram afetados pela situação de escassez. Mas os autores encontraram evidências de ao menos uma diferença entre os indivíduos antes e depois do dia do pagamento: os que estão há poucos dias de receber se mostraram mais impacientes. É interessante notar, contudo, que o maior nível de impaciência existe somente em questões envolvendo dinheiro. Quando os participantes são confrontados com escolhas intertemporais envolvendo níveis de esforço em uma tarefa real, as diferenças desaparecem.

Os resultados contraditórios destes dois trabalhos deixam claro que muita pesquisa ainda precisa ser feita para que tenhamos uma visão mais clara sobre se, e de que modo, a pobreza afeta o comportamento. Caso novos experimentos demonstrem que a situação de escassez de fato diminui a capacidade cognitiva, e portanto leva as pessoas a tomarem más decisões, os métodos da economia comportamental podem se mostrar uma arma cada vez mais importante no combate à pobreza.

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