Como a 1ª base militar da China no exterior mexe com a geopolítica, segundo este professor João Paulo Charleaux


 

05 Ago 2017 (atualizado 07/Ago 14h46) Especialista em segurança internacional fala ao ‘Nexo’ sobre o significado geopolítico da presença chinesa no Chifre da África FOTO: STRINGER/REUTERS – 02.09.2015 MILITARES CHINESES PARTICIPAM DE PARADA MILITAR EM PEQUIM   A China inaugurou nesta terça-feira (1º) sua primeira base militar no exterior, no Djibuti, país africano localizado num ponto estratégico do comércio internacional de petróleo, entre o Golfo de Áden e o Mar Vermelho. Os chineses já vinham realizando operações navais na região desde o final de 2008, para combater a ação de piratas que, a partir da costa da Somália, estavam sequestrando embarcações de países asiáticos para pedir milionários resgates em troca da libertação dos tripulantes. Agora, a nova base militar estabelece pela primeira vez uma presença definitiva na região. O governo chinês anunciou que o local servirá para dar apoio logístico “a escoltas navais na África e no Oriente Médio, às operações de paz e à ajuda humanitária”.   A presença tem total apoio do governo do Djibuti, cujo ministro da Defesa esteve presente na inauguração da base. Além da China, também os EUA, a França e o Japão possuem instalações militares no país africano. Dos 195 países monitorados pelo Banco Mundial, o Djibuti ocupa a 170ª posição e a China a 2ª, na comparação do PIB (Produto Interno Bruto) – soma de todos os bens e serviços produzidos por um país. A região em que se localiza o Djibuti – o Chifre da África – é uma das mais pobres e conflitivas do mundo. DISPARIDADE   Qual o contexto do movimento chinês A China é uma potência nuclear que ocupa um dos cinco assentos permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas, único órgão internacional com atribuição para autorizar o uso legal da força nas relações internacionais. China e Rússia são os países que possuem maior poderio militar no mundo depois dos EUA. A agenda geopolítica de americanos e chineses colide em alguns pontos. O mais recente é a reivindicação chinesa de expandir seus limites marítimos por meio do aterramento e ampliação de arquipélagos localizados a meio caminho do Japão e da Indonésia. Usando navios cargueiros e dragas, o gigante asiático tem, desde 2013, aterrado dezenas de recifes de corais do arquipélago Spratly. As Forças Armadas chinesas pavimentaram pistas de pouso e, com um compasso sobre o mapa, redesenharam unilateralmente sua soberania sobre mais de 700 ilhotas até então inabitadas.   Para o governo americano, a base naval no Djibuti “reflete e amplifica a influência  da China, que aumenta o escopo de suas forças armadas”. Pequim afirmou, no entanto, que “a China não busca a expansão militar”. Para explorar os significados desse movimento militar chinês, o Nexo conversou, por e-mail, com o especialista em Segurança Internacional e professor de relações internacionais na FMU-SP e FESPSP, Bernardo Wahl. Quais as implicações práticas da abertura dessa base chinesa? BERNARDO WAHL Trata-se da primeira base militar chinesa no além-mar, ou seja, fora do entorno geopolítico regional chinês. Do ponto de vista simbólico, isso é significativo. A explicação oficial do governo em Pequim é que tal instalação servirá para auxiliar e reabastecer suas forças navais de manutenção da paz na região, como a missão anti pirataria no Golfo do Áden e projetos humanitários na África e no oeste asiático. Essa base no Djibouti representa a extensão natural dos interesses em expansão e da missão de segurança da China na região e sinaliza as cada vez maiores ambições globais chinesas. Pode ser compreendida no contexto da chamada estratégia do ‘colar de pérolas’: o estabelecimento de uma rede de ativos militares e comerciais ao longo do Oceano Índico de modo a projetar poder no exterior – o que eventualmente pode gerar tensões com a Índia, cujas disputas fronteiriças com a China, no Himalaia, estão ocupando as notícias internacionais. Em um panorama mais amplo, a instalação no Chifre da África também pode ser entendida no quadro da iniciativa chinesa One Belt, One Road [um cinturão, uma rota] – ou a nova Rota da Seda -, a criação de eixos de infraestrutura terrestre e marítima da Ásia ao Mediterrâneo. Imagens de satélite mostraram que essa instalação é maior do que se imaginava anteriormente, possuindo inclusive espaço subterrâneo. EUA, França e Japão também têm bases militares no Djibuti, mas não são tão fortificadas quanto a chinesa. Essa instalação faz parte do esforço chinês em construir uma marinha oceânica, de águas azuis [águas internacionais], mas isso ainda está no processo inicial. Para fins de exemplo, até o momento, a China tem apenas um porta-aviões operacional, o Liaoning, enquanto os EUA possuem 10, embora esse número possa chegar a 19. A China caminha para ser uma potência militar mais poderosa que os EUA? BERNARDO WAHL Ainda é cedo para dar uma resposta definitiva a essa pergunta. O que podem ser observadas são tendências: por um lado, os EUA sob o governo Donald Trump, pelo menos por enquanto, consolidam, através de um retraimento da política internacional, o processo de declínio do poder relativo norte-americano que se iniciou com os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 e passou pela crise econômica de 2008. Por outro lado, a China assume cada vez mais, embora não de maneira definitiva, e ainda com muitos desafios, uma postura de busca de liderança global, o que pode ser exemplificado pelo posicionamento do presidente Xi Jinping no Fórum Econômico Mundial de Davos no início de 2017, quando ele defendeu a ordem internacional liberal. Em termos militares, os EUA continuam sendo a principal potência mundial. Ainda levará algumas gerações para que a China alcance esse patamar, se ela seguir esse caminho. Apenas para se ter uma ideia, em 2016 os gastos militares dos EUA foram da ordem de US$ 611 bilhões e, os da China, US$ 215 bilhões, conforme dados do Sipri (Stockholm International Peace Research Institute). São os dois maiores gastos militares do mundo. A história da ascensão e queda das grandes potências ensina que umas são superadas pelas outras, mas ainda está muito incerto se a China ultrapassará de fato a liderança norte-americana no campo militar. Os EUA têm capacidade e resiliência para se ‘reinventarem’. Todavia, Pequim está desenvolvendo capacidades que podem eventualmente desbalancear um conflito em favor dos chineses: é o caso da segurança cibernética. O espaço cibernético, de certa forma, muda a lógica dos conflitos no mundo real, dando mais poder a atores mais ‘fracos’. Por exemplo: um grupo hacker tem o potencial de derrubar o sistema de energia elétrica de uma cidade. Entretanto, ataques no ciberespaço podem gerar retaliações militares cinéticas, isto é, na realidade física e concreta, onde Washington até agora é mais forte. Assim, essa pergunta ainda vive sob a ‘névoa da guerra’. O que diferencia a rivalidade que os EUA mantêm com ​a Rússia da rivalidade que mantêm com a China nos assuntos de defesa? BERNARDO WAHL Rússia e China são percebidas pelos EUA como ameaças e, dependendo da interpretação, como potências ‘revisionistas’ e, até mesmo, no que em inglês se chama de ‘frenemy’ (‘friend and enemy’ – ‘amigo e inimigo’ simultaneamente). No geral, Moscou e Pequim direcionam seus esforços em favor de relações internacionais multipolares – isto é, com diversos centros de poder -, não centradas em Washington, como ocorreu no unipolarismo dos anos 1990. Por um lado, a Rússia é uma ameaça mais consolidada na psique norte-americana, por conta da experiência na Guerra Fria. Moscou é vista na Europa como ameaça – embora os EUA talvez não pretendam mais ser os garantidores da segurança europeia, como vêm fazendo desde o fim da Segunda Guerra Mundial – e é país importante para resolver questões no Leste Europeu, como na Ucrânia, e na resolução da guerra multidimensional na Síria, bem como na questão das armas nucleares. A Rússia é o país que mais detém armas nucleares, seguida dos EUA. Por outro lado, a China é uma potência em ascensão e as ambições chinesas poderiam gerar conflitos nos mares do sul e do leste da China, já que os EUA também foram os garantidores da segurança no Pacífico desde o fim da Segunda Guerra Mundial. A expansão chinesa pode levar a uma ‘arapuca’ de Tucídides [historiador grego que narra a ascensão de Atenas e o conflito que isso gerou com Esparta]. Além disso, a China também possui um papel importante na resolução da crise em torno da Coreia do Norte, que se tornou mais assertiva sob o governo de Kim Jong-Un, o qual chegou a testar um míssil balístico intercontinental na data da mais recente comemoração da independência estadunidense (4 de julho). A crescente cooperação militar entre Rússia e China, através de exercícios militares complexos e vendas de armamentos, também preocupa os EUA. Enfim, a retração internacional de Washington cria espaços vazios nas relações internacionais, os quais aos poucos estão sendo preenchidos por outras nações. ESTAVA ERRADO: O gráfico da primeira versão deste texto anunciava a comparação de PIB per capita entre China e Djibuti. Na verdade, os números se referiam ao valor absoluto do PIB de cada país. A informação foi corrigida às 14h37 do dia 7 de agosto de 2017.

Link para matéria: https://www.nexojornal.com.br/entrevista/2017/08/05/Como-a-1%C2%AA-base-militar-da-China-no-exterior-mexe-com-a-geopol%C3%ADtica-segundo-este-professor

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