Um olhar psicanalítico acerca de grupos de distribuidores das empresas de marketing de rede e de fiéis de várias instituições religiosas


16/10/2009

Esse texto visa trazer à tona, sob a perspectiva  psicanalítica freudiana, um pouco da descrição de Gustave Le Bon e William McDougall acerca da mente grupal, acerca de como o comportamento individual muda quando as pessoas pertencem a um grupo e como dentro desse grupo elas executam comportamentos que não manifestariam sozinhas.

Gustave Le Bon (07/05/1841 a 13/12/1931) foi um psicólogo social, sociólogo e físico amador francês. Foi o autor de várias obras nas quais expôs teorias de características nacionais, superioridade racial, comportamento de manada e psicologia das massas. Le Bon tratou, em grande medida, de descrever o “comportamento”, a “mentalidade” e os “sentimentos” das “camadas populares” em situação de “agregação”, seja por motivação política, seja por crença religiosa. Mas o termo tem outras conotações: pode ser a expressão do “povo” em geral, ou seja, em estado de dispersão, e nesse caso é usado principalmente para designar o conjunto da nação, ou ainda um grupo qualquer (mesmo quando composto por elites políticas e intelectuais), desde que reunido fisicamente num mesmo espaço, com qualquer tipo de propósito conjunto. Essa proposição e os argumentos de Le Bon para justificá-la, serviu de parâmetro para o estudo sobre Psicologia de Grupo publicado por Sigmund Freud em 1921.

William McDougall nasceu a 22 de junho de 1871 em Chadderton, Lancashire. Formou-se em medicina na Universidade de Londres, e em 1899 integrou a expedição de um grupo de antropólogos e biólogos de Cambridge ao estreito de Torres, entre a Austrália e a Nova Guiné, onde aplicou testes psicológicos nos nativos. Sua obra An Introduction to Social Psychology (1908; Introdução à psicologia social) contribuiu em muito para ativar o interesse pelos fundamentos do comportamento social. Em Physiological Psychology (1905; Psicologia fisiológica) e Psychology, the Study of Behaviour (1912; Psicologia, o estudo do comportamento), prestigiou o enfoque biológico.

Publicou Body and Mind – A History and Defense of Animism (1911; Corpo e mente – história e defesa do animismo), que teve forte reação. Lecionou, a partir de 1920, na Universidade de Harvard, Estados Unidos, e em 1927 transferiu-se para a Universidade Duke, em Durham. McDougall morreu em Durham, Carolina do Norte, em 28 de novembro de 1938.

Nesse artigo, as principais ideias desses dois estudiosos do comportamento humano serão utilizadas para iluminar um pouco mais o comportamento de distribuidores de marketing de rede  e fiéis de várias instituições religiosas, uma vez inseridos em seus respectivos grupos.

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Le Bon e os diferentes indivíduos no grupo

Na descrição de Le Bon por Freud, os indivíduos, ao serem transformados em um grupo, colocam-se na posse de uma espécie de mente coletiva que os faz sentir, pensar e agir de modo diferente do qual cada um faria se estivesse em isolamento. Há certas idéias e sentimentos que surgem ou se transformam em atos, mas que só se manifestam quando os indivíduos estão dentro de um grupo. O grupo psicológico é um ser provisório, formado por elementos heterogêneos que por um momento se combinam e formam um novo ser que apresenta características diferentes daquelas possuídas isoladamente.

A superestrutura mental, cujo desenvolvimento nos indivíduos apresenta diferenças, é removida, e as funções inconscientes, que são semelhantes em todos, ficam expostas. Indivíduos de um grupo apresentariam características que não possuíam anteriormente.

Diga-se de passagem que, para Freud, não é necessário dar tanta importância às novas características. Seria o bastante esclarecer que, num grupo, o indivíduo é colocado sob condições que lhe permitem arrojar de si as repressões de seus impulsos instintuais inconscientes. As características aparentemente novas são na realidade manifestações desse inconsciente, no qual tudo o que é mau na mente humana está contido como uma predisposição.

Ora, se eu tenho consciência de que o que o grupo faz é expor aquilo que estava reprimido, e que portanto não se trata de algo novo no indivíduo e sim manifestações de seu inconsciente, não podemos responsabilizar somente a liderança de um grupo pelo comportamento dos demais. Ou seja, está naquele grupo quem se identificou com ele, e não somente pessoas ingênuas que foram enganadas por qualquer tipo de fraude. Isto tem que ser dito.

Como exemplo do poder de um grupo para libertar instintos inconscientes e para moldar o comportamento de um sujeito, podemos tomar como exemplo a excitação coletiva vislumbrada através da catarse (o purgar, o “vômito” das emoções reprimidas) de uma vítima supostamente possuída por um demônio, que pelo trabalho do pastor é expulso daquele corpo numa suposta obra de Deus. Mas que fique bem claro aqui: não podemos dizer que, algumas vezes, não ocorram alguns eventos que até possam ser considerados de libertação emocional e espiritual em alguns indivíduos, em determinadas circunstâncias. Contudo, devemos ficar atentos para as libertações em “escala industrial”, ligada à “Teologia da Prosperidade”, e da utilização deliberada, por parte de diversos líderes religiosos e de líderes do marketing de rede, de técnicas de manipulação auxiliadas pelo conhecimento de determinados comportamentos de indivíduos em grupo.

Em empresas de marketing multinível, como por exemplo Herbalife, Forever, Amway, Mary Kay etc, geralmente a suposta libertação ocorre no jugo da liberdade financeira, da independência financeira. Por exemplo, os distribuidores que estão à frente de um evento e aqueles distribuidores que pertencem a uma escala hierárquica inferior do plano de marketing de uma dessas empresas estão preparados, imbuídos, treinados para bater palmas de forma coletiva, para abordarem um potencial prospecto e utilizar as técnicas aprendidas nos eventos da empresa, de forma ordenada e planejada com antecedência, a fim de convencer o potencial prospecto de que uma vez seguido tim-tim por tim-tim o roteiro elaborado pela empresa e distribuidores top, fatalmente o incauto se transformará em um vencedor, da estirpe de Tim Sales, Oleg Deripaska ou Warren Buffett  (mesmo que os recrutas que utilizam essas técnicas não saibam muito bem como aquilo tudo funciona).

Todavia, lembrando novamente, não foi somente o grupo e os líderes que modificaram os indivíduos que lá estiveram. O grupo serviu como um veículo que permitiu que suas repressões fossem colocadas de lado e seus impulsos instintuais inconscientes viessem a dominá-lo. Freud diz que não existem características novas no sujeito, e sim que sua predisposição em agir daquela forma encontrou lugar para se expressar. O grupo não aceita muitas críticas externas porque ele QUER estar lá.

Não que dentro desses grupos não existam aqueles que estejam de boa fé, mas fatalmente é uma ínfima minoria. Quando começam a ouvir os benefícios de se estar naquele grupo se tornam cegas, pois também são assim na essência! Então, desse ponto de vista, não há nada de novo surgindo nelas causado pelo efeito das reuniões, elas querem aquilo. E as técnicas de persuasão e manipulação mental potencializam a ligação que essas pessoas terão a partir dali com aquele grupo.

Para Le Bon sendo analisado por Freud,  nos grupos ocorre um fenômeno que é denominado contágio. Num grupo, sentimentos e atos são contagiosos a ponto do indivíduo sacrificar seu interesse pessoal pelo grupo (comandado, é claro, pelos sempre atuantes e presentes líderes e ou pastores, que sabem muito bem o que estão fazendo). O contágio é uma manifestação, um efeito da sugestionabilidade. No grupo, sob a influência de uma sugestão, o sujeito empreenderá a realização de certos atos com irresistível impetuosidade fortalecida pela reciprocidade no grupo. Um grupo é impulsivo, mutável e irritável, levado quase exclusivamente por seu inconsciente. A dificuldade de julgamento dentro dele é grande. Não tolera demora entre seu desejo e a realização do que deseja. É crédulo e aberto a influências. Os sentimentos são simples e exagerados, só conhece a CERTEZA.

Quer dizer, o indivíduo sacrificar seu interesse pessoal aqui pode significar a necessidade do dinheiro que precisa naquele momento, daí compra produtos ou entrega o dinheiro à igreja (sem fé, mas esperando retorno). O sacrifício pelo grupo faz referência ao que aquele grupo pode lhe proporcionar, as vantagens, os privilégios, a afeição dos membros e do próprio líder. Ocorreu a sugestão, quer dizer, para ter “isso” você precisa abdicar “daquilo” (papel do líder, reforçado pela atitude de outros membros). O sujeito só vai ter esse comportamento em grupo, só será sugestionável se isso já fizer parte dele, pelo menos naquela fase, naquele momento da vida, ou faz parte de sua personalidade como um todo. Existem também aqueles que vão pela fé. Mas não é o caso da massacrante maioria. E isso acontece por que vê um e outro fazendo e que receberam excelentes resultados. E desejam aquilo que o outro tem. Deseja ser como aquele grupo. Não importa o que digam a respeito dele, ele se identifica com o grupo!

Observem que grupos pertencentes a determinadas instituições religiosas e a essas empresas não permanecem com os mesmos indivíduos por muito tempo. Ao contrário, estão sempre recrutando mais e mais. Existe uma alta rotação na sua base. Por que esses indivíduos, quando se dão conta que seus desejos não estão sendo satisfeitos e que estão ficando no “prejuízo”, pulam fora. Não perseveram.

No caso de empresas de MMN, um exemplo clássico de sacrifício pelo grupo são as coreografias com as mãos e as dancinhas que as pessoas executam, tendo por finalidade o auxílio à mentalidade vencedora. Ou então a força, o incentivo que o grupo fornece para aquela pessoa que está reticente em convidar uma pessoa querida. Com a “força” do grupo, a pessoa executa aquilo que é “soprado” por este, em nome do “projeto pessoal” e da família maravilhosa à qual o convidado do recruta reticente poderá pertencer (claro, o incentivo e a “força” são colocadas à disposição desde que os novos recrutas continuem comprando e fazendo parte do bolo de comissões e bônus dos uplines designados nos planos de marketing particulares). Se o recruta consciencioso não fizer aquilo que está sendo indicado por seus líderes, poderá ser rechaçado de forma grosseira (como exemplo “largue mão dessa visão de perdedor”, ou “o caminho para o sucesso é esse”) ou então ser deixado sutilmente de lado. No caso de uma instituição religiosa, a entrega de uma contribuição mensal COMPULSÓRIA para a “Igreja”, para além do dízimo, é o exemplo mais claro de sacrifício do interesse pessoal pelo grupo. “Todo mundo faz, é dom de Deus, então por qual motivo não farei?”.

Em outras palavras, no caso dessa contribuição mensal compulsória, várias igrejas utilizam textos bíblicos fora de contexto para usar como pretexto para outros objetivos. E como quase ninguém lê ou leu a Bíblia acredita no que está sendo dito. O dízimo é entregue à Igreja pelos fiéis pelo fato de que muitos destes esperam receber de Deus algo em troca (material mesmo, e são muitas vezes alertados que quem não dá o dízimo está roubando de Deus). Agora os sacrifícios, as contribuições mensais compulsórias, são as ofertas que são pedidas além do dízimo, como algumas coisas que são vendidas nos cultos. “Compre a corneta da fé para purificar sua casa, custa só 10 pratas”. Algo que o próprio Cristo, para o leitor segue os textos bíblicos e dele tem conhecimento, destruiu no seu embate com os comerciantes na porta do Templo.

Um grupo só pode ser excitado por estímulos excessivos. Para produzir efeito sobre ele não é necessário ter lógica nos argumentos, mas deve-se pintar em cores fortes, exagerar e repetir a mesma coisa diversas vezes. Por isso há a necessidade da existência de um sistema de acompanhamento levado a cabo com mão de ferro nesse tipo de organização, com o objetivo de manter o domínio: no caso de várias empresas de MMN, eventos semanais de treinamento de potencial humano, ou então de encontros menores para recrutamento. No caso de várias instituições religiosas, vários encontros semanais para manutenção do domínio,  o que nem sempre tem a ver com adoração pura e simples e louvor à figura de Deus.

Hitler, por exemplo, soube usar bem desse expediente. A economia da Alemanha, suas instituições políticas e seu povo, naquele momento, passavam por um período de grande crise. Seu povo sentia realmente necessidade de ter seu moral elevado. Os judeus, que nem tinham suas origens lá, eram bem mais prósperos. E passaram a ser vistos como intrusos e odiados por serem de outra raça. Ele lançou mão do anti-semitismo para justificar a calamidade de seu povo. E conseguiu convencê-lo por um bom período de tempo. O mesmo tipo de raciocínio vale para as empresas de marketing de rede, seus recrutas, e para muitas instituições religiosas e seus fiéis. Líderes desse tipo de empresa tentam pintar de negro o que gostam de chamar de economia do “mercado tradicional”, decadente e injusta, pra logo em seguida falar das maravilhas do MMN, em como esse sistema seria melhor do que o que chamam de “mercado tradicional” (como se o mercado do MMN não precisasse do excomungado mercado tradicional para sobreviver, como se o MMN não fosse injusto também, como se ambos não pertencessem a uma lógica capitalista mais geral e complexa).

Não estando em dúvida quanto ao que é verdade ou erro, pois tem consciência de sua força, um grupo pode ser tão intolerante quanto obediente à autoridade. Respeita a força e só ligeiramente pode ser influenciado pela bondade, que considera um sinal de fraqueza. Exige de seus heróis força e até violência. Quer ser dirigido, oprimido e temer seus senhores. É conservador, tem aversão por inovações e progressos, e respeito ilimitado pela tradição.

Para uma empresa de MMN essa descrição se encaixa perfeitamente: o mote principal é seguir de cabo a rabo o plano de marketing que supostamente faz sucesso há tempos. Nada de mudar aquilo que TEORICAMENTE já dá certo. Num evento de uma empresa desse tipo, geralmente a apresentação o plano de marketing é seguida de “depoimentos” ou “testemunhos”, e logo em seguida usualmente segue-se o “sermão amedrontador”. Pessoas da audiência virão ao palco relatar as suas histórias. “Eu estava reprimido no meu emprego, agora tenho liberdade financeira”. “Eu tinha artrite e ela se foi!”. “Eu estava desempregado e agora ganho $ nessa maravilhosa empresa!”. Essa é uma demonstração da utilização da falácia da evidência anedótica, uma manipulação psicológica que funciona. Depois de ouvir numerosos casos de curas milagrosas através de um produto supostamente milagroso, ou de uma mudança de vida fantástica, a pessoa comum na audiência com um problema menor está certa de que ela pode ser curada ou que ganhará muito dinheiro. Em decorrência disso, a sala fica carregada de medo, culpa e intensa expectativa e excitação.

O grupo para não se sentir responsável pelos seus atos sente mesmo essa necessidade de ter alguém no controle; se a maioria não está satisfeita, troca-se o líder, mas isso não é o mais comum. Existe sempre o respeito à autoridade que quanto mais força e violência manifesta (que seja verbal), mais força passa para o grupo. Isso por que os líderes representam figuras parentais. Imaginem crianças que querem estar sob a proteção dos pais, e que para isso se sacrificam, pois não querem perder a afeição do mesmo e nem serem punidas. Mudanças não são bem vindas, pois estão exatamente onde gostariam de estar, na situação que desejam estar!

Quando o indivíduo se reúne no grupo suas inibições individuais caem e todos instintos cruéis, brutais e destrutivos adormecidos, despertam para encontrar gratificação livre. Soma-se a isso o fato de que as ideias mais contraditórias podem existir lado a lado e tolerar-se mutuamente sem conflito. Isso se chama vida mental inconsciente.

Freud analisando Le Bon nos indica que os grupos estão sujeitos aos poderes mágicos das palavras. A razão e os argumentos são incapazes de combater certas palavras e fórmulas (revestidas de técnicas como comandos embutidos hipnóticos, mensagens subliminares e PNL). Os grupos, para Le Bon, nunca ansiaram pela verdade. Exigem ilusões e não podem viver sem elas. Constantemente dão ao que é irreal precedência sobre o real; são quase tão intensamente influenciados pelo que é falso quanto pelo que é verdadeiro. Possuem tendência evidente a não distinguir entre as duas coisas. Essa descrição cai como uma luva de pelica sobre o comportamento de distribuidores de marketing de rede, que na sua maioria são movidos por uma fé cega na verdade que teria sido “revelada” em algum evento ou numa conversa com alguém muito habilidoso na utilização de técnicas de persuasão e manipulação mental. A necessidade de acreditar faz com que os recrutas ignorem flashes de luz advindos de argumentos consistentes e racionais. A mesma coisa para as instituições religiosas e seus “modos” visando aumentar o tamanho do rebanho.

Portanto, frisando: não são apenas as técnicas de persuasão e manipulação mental que provocam a entrada de um indivíduo em um grupo. Um sujeito qualquer passa a fazer parte de um grupo porque ele gostou daquilo que viu, ouviu,  sentiu. Ele deseja estar lá, naquele lugar, naquele momento de sua vida. Com a força do grupo e das técnicas de persuasão ele passa a manifestar aquilo que estava reprimido no seu inconsciente (louvar a tal “independência financeira”, expor sua ganância, seu orgulho etc).

Freud analisando Le Bon diz que um grupo é como um rebanho obediente que se submete instintivamente a qualquer um que se indique chefe. Embora isso ocorra, o líder para ser líder deve se ajustar ao grupo em suas qualidades pessoais. Primeiro, deve ser fascinado por uma intensa fé (numa ideia) a fim de despertar a fé do grupo. Tem de possuir vontade forte e imponente que o grupo, que não tem vontade própria, possa dele aceitar. Fazem-se notados pelas ideias que acreditam.

Tanto nas muitas instituições religiosas como nos grupos de distribuidores multinível, esse ajustamento do líder ao grupo e do grupo ao líder pode ser percebido através da construção da figura do grande líder: uma autoridade moldada, para quem acredita e se encanta com ele e com as ideias apregoadas por ele, em cima da idéia de alguém acima de qualquer suspeita, mesmo que tenha até vendido a alma pro diabo pra conseguir aquilo que deseja! E notem que o ato de ser fascinado por uma intensa fé várias vezes está revestido de mentiras e/ou falácias.

Mas não devemos confundir uma mentira com uma falácia: as mentiras são desvios ou erros sobre fatos reais; já as falácias são discursos, ou tentativas de persuadir o ouvinte ou leitor, promovendo um engano ou desvio. Isso ocorre pelo fato de que as estruturas de apresentação de informação falaciosa não respeitam uma lógica correta ou honesta, pois foram manipuladas certas evidências ou ainda porque há insuficiência de prova concreta e convincente para determinada afirmação.

Uma afirmação falaciosa pode ser composta de fatos verdadeiros, mas sua forma de apresentação leva a conclusões erradas. Ela é um argumento logicamente inconsistente, inválido, ou falho na capacidade de provar eficazmente o que afirma. São argumentos que se destinam à persuasão e podem parecer convincentes para grande parte de um público alvo, mas não deixam de ser falsos por causa disso.

Para saber mais sobre sofismas e falácias, clique aqui.

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A descrição de Mcdougall da mente grupal

Consoante Freud, em sua análise de Mcdougall, em certas circunstâncias, os princípios éticos de um grupo são mais elevados que os dos indivíduos que o compõem. Na coletividade os indivíduos são capazes de um alto grau de desprendimento e devoção. Já isoladamente o interesse pessoal é quase a única força motivadora.

McDougall descreve diferentes tipos de grupo. No caso mais simples, quando não possui organização, trata-se de uma “multidão”, e para que esta seja considerada um grupo psicológico é preciso que tais indivíduos tenham interesse comum em um objeto. O resultado mais importante na formação de um grupo é a “exaltação ou intensificação de emoção”. As emoções são excitadas até um grau que elas raramente atingem sob outras condições, constitui experiência agradável para os interessados. Isso ocorre segundo McDougall através do contágio emocional. Quanto maior o número de indivíduos em que essa emoção é observada, maior a interação e a compulsão a fazer o mesmo que os outros em harmonia com a maioria. Quanto mais grosseiros e simples os impulsos, mais aptos a propagar-se no grupo.

A intensificação é favorecida por outros fatores, o grupo passa a segurança de ser insuperável, substitui a sociedade detentora de autoridade cujos castigos o sujeito teme. Quer dizer, tomando como base um líder ou outro de uma empresa de marketing de rede ou de dada instituição religiosa, esse diria que para a multidão de um culto ou evento que não há problema nos atos mentir, iludir, enganar, se esse comportamento fará o recruta “chegar lá”. Faz o recruta sentir que o que o mundo externo (mundo externo pode ser a família, os amigos, vários estudos sobre o assunto) comunica não importa, mas o que importa é seguir a palavra do líder, como verdade absoluta. Mas o potencial recruta acredita pelo fato de que quer acreditar, pelo fato de que naquele momento de sua vida ele precisa acreditar, pelo fato de que suas crenças e valores, em determinado nível, sentiram-se atraídas por esse tipo de discurso.

McDougall diz que as mentes de inteligência inferior fazem com que as de ordem mais elevada desçam a seu próprio nível. Em geral a intensificação da emoção cria condições desfavoráveis para o trabalho intelectual correto, sua atividade mental não se acha livre, há uma redução, em cada indivíduo, de seu senso de responsabilidade por seus próprios desempenhos.

Instituições religiosas adeptas da Teologia da Prosperidade e eventos de diversas empresas de marketing de rede são mestras em fazer isso. Seus componentes podem facilmente ser moldados como fanáticos, mesmo os mais inteligentes, que irão com muito prazer trabalhar com afinco e em alguns casos até morrer pela causa sagrada, no caso de algumas instituições religiosas. Sutphen chama esse razoado de um substituto para a fé perdida do fanático, e freqüentemente a instituição religiosa oferece um substituto para a sua esperança individual. Segundo ele, todos os cultos possuem esse tipo de crente em sua composição. Eles serão encontrados também na política, nas igrejas, nos negócios e nos grupos de ação social. São os fanáticos nestas organizações, e são sociáveis, seguidores, deixam-se conduzir por outros indivíduos. Eles procuram por respostas, significado e por iluminação somente fora de si mesmos ou fora da relação pessoal com a entidade divina que supostamente e hipoteticamente acredita.

Sutphen afirma que esse tipo de crente não está decidido a apoiar e afagar o seu ego; tem, isto sim, uma ânsia de se livrar dele. Eles são seguidores, não em virtude de um desejo de auto-aperfeiçoamento, de conhecimento profundo e do contato subjetivo com algo maior, mas porque isto pode satisfazer sua paixão pela auto-renúncia! São eternamente incompletos e eternamente inseguros. Seus seguidores querem converter outros para o seu modo de vida ou impor um novo estilo de vida.

Citado até agora um grupo sem organização,  McDougall contrasta o comportamento de um grupo organizado. Enumera cinco “condições principais” para elevação da vida mental coletiva a um nível mais alto.

Primeira, existência de um grau de continuidade de existência no grupo. Material (os mesmo indivíduos persistem no grupo por certo tempo) e formal (desenvolvimento no grupo de sistema de posições fixas ocupadas por uma sucessão de indivíduos).

Segunda, em cada membro do grupo deve se formar alguma idéia definida da natureza, composição, funções e capacidades do grupo, para a partir disso desenvolver uma relação emocional com o grupo como um todo.

Terceira, o grupo ser colocado em interação (talvez sob forma de rivalidade) com grupos semelhantes, mas que dele difiram em muitos aspectos.

Quarta, o grupo deve possuir tradições, costumes e hábitos, especialmente tradições, costumes e hábitos tais, que determinem a relação de seus membros uns com os outros.

Quinta, o grupo ter estrutura definida, expressa na especialização e diferenciação das funções de seus constituintes.

Entre distribuidores de determinadas empresas de marketing multinível essas condições são notórias. Nas empresas em que essas condições não são claras, traços dessas características são encontrados. Aqueles que estão em um grau mais elevado na hierarquia do sistema de distribuição comandam aqueles que entram, ficam por determinado tempo e depois saem como resultado inexorável da rotação na base do sistema de distribuição. E quase sempre são os mesmos que estão na parte mais elevada da hierarquia do sistema de distribuição. Algumas instituições  religiosas também possuem uma hierarquia: por exemplo, mestre, pastor, obreiro, ajudante etc, sempre imbuídos em cuidar do rebanho pra que esse recrute mais fiéis para a instituição.

Num grupo de recrutamento de novos distribuidores, sempre existem aqueles que lá estão para dar suporte técnico (luz e som, por exemplo), outros para evocar emoção, outros para divertir a platéia etc. Esse grupo forma entre si uma unidade relativamente coesa, que se sente segura ao buscar executar um trabalho com fins a deixar a impressão de que aquela família é uma família a qual todos os potenciais recrutas podem dela fazer parte. Os recrutas são incitados a imaginarem-se desde sempre executando com prazer uma tarefa ou outra, em nome do bem-estar regozijado ao estar perto daquelas pessoas tão nobres e em nome de algo maior.

Um grupo de algumas empresas de marketing de rede ou de algumas instituições religiosas podem entrar em conflito com grupos de empresas similares e até com grupos da mesma empresa. Dentre grupos da mesma empresa, pode ocorrer a diferenciação de foco entre um tipo de sistema e outro, como o Plano Total e o EVS, ambos da empresa Herbalife. Entre grupos de empresas diferentes que vendem produtos similares, e com o mesmo tipo de treinamento, ocorre com determinada frequência, como entre vários distribuidores das empresas Herbalife e Forever.

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E então, como proceder diante dessas forças?

Se técnicas de lavagem cerebral, a força de um grupo  e a vontade individual são realmente poderosas tanto em várias instituições religiosas quanto em empresas multinível (para o escopo do que aqui foi abordado), como podemos lidar com isso, pra tentar evitar o pior? Fornecemos a resposta a você de bate-pronto: desenvolver o pensamento crítico, senso moral  e de justiça elevados. Quando você está ciente de como a “coisa” funciona você possui melhores condições de saber, de estar próximo da melhor decisão a ser tomada. Você fica numa posição privilegiada porque sabe mais sobre a forma e que está inserido o funcionamento de nossa mente. E isso inclui, é claro, as pessoas inteligentes. Daí que, ao sabermos que formas de controle mental funcionam, também podemos, através do exercício do raciocínio, colocar esta informação nas mãos de um número maior de pessoas. Mas somente aquelas pessoas que realmente não possuem ligações com o campo das ideias, crenças e valores reproduzidas no ambiente de uma empresa como essa é que tirará de letra e não entrará numa furada. Se ele estiver precisando naquele momento de preencher algum vazio existencial e a “palavra” do distribuidor de MMN fizer sentido pra ele, provavelmente cairá feito um patinho, ou pelo menos será muito tentado a isso.

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Fontes:

FREUD, S. Psicologia de grupo e a análise do ego (1921). IN: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Trad. de Christiano Monteiro Oiticica. Rio de Janeiro: Imago,  1980, v. XVIII, p. 87-179.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Gustave_Le_Bon

http://www.pensador.info/autor/Gustave_Le_Bon/

http://www.anpuhsp.org.br/downloads/CD%20XVII/ST%20II/Marcia%20Cristina%20Consolim.pdf

http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/lebon.html

http://d.yimg.com/kq/groups/21890629/1723658973/name/PSICOLOGIA+DE+GRUPO.ppt.

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Leia também:

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Entrevista com o especialista em fraudes do MMN – Jon Taylor

Entrevista com a especialista em fraudes do MMN – Tracy Coenen

A procura do MMN perfeito

O que está errado com o marketing multinível?

Sofismas e falácias dos distribuidores de MMN

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Depoimento: O Show de Truman

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