Marketing Multinível: subproduto da degradação do tecido sócio-econômico-moral


06/06/2013

Há um tempo atrás, um de nossos leitores havia comentado, quase num desabafo, como na nossa sociedade em geral e no marketing multinível em particular as pessoas podem querer “se dar bem” a qualquer custo, principalmente nos casos em que sabem que  o “lucro auferido” será decorrente do prejuízo e infelicidade dos outros. Esse post, longe de querer ser exaustivo, visa contribuir para lançar mais ideias acerca do assunto e aprofundar a compreensão dessa questão.

Contextualização

De uns 25 anos para cá se manifesta de forma progressiva um novo ethos. Algo que estava adormecido, em latência desde os idos do pós-2ª guerra, e que por conta de movimentos no âmbito do poder político, econômico e cultural veio à tona. Trata-se do ethos da “grande oportunidade”, do “prêmio”, da “próxima grande ideia”. A marcha lenta e deliberada em direção ao sucesso hoje é considerada uma condenação do destino. Junto à próxima grande ideia comercial está o novo modelo a ser consumido, seja relativo a ideias, comportamentos, produtos e serviços. Tudo o que importa é o dinheiro. Dada essa atitude que vem dominando mentes e corações, poucos passam a expressar preocupações morais. A riqueza é só o que se tem em vista; vale inclusive destruir os outros para alcançá-la. A lógica capitalista da acumulação de capital (D – M – (MP/FT)…. P……. M’ – D’ – …, com D’>D ao fim de cada processo!!) transmutou-se e contaminou os diversos setores ligados à vida humana.

Odiernamente há uma corrosão enorme das crenças e dos valores da sociedade transportadores de elementos de solidariedade, respeito ao próximo, tolerância, humildade, ação coletiva, cultivo de costumes locais, tudo em prol da massificação cultural, ligada principalmente a valores egoístas e individualismo exacerbado: arrogância, vaidade, falsidade, ganância, cobiça etc, que desabrocham em indiferença, violência (não só física, mas verbal, psicológica, social). É o rapto da subjetividade e, de certo modo, da identidade que pensa o mundo à sua volta, ou seja, a metamorfose de toda e qualquer cultura em valores abstratos que, por isso, são adaptáveis em qualquer local do mundo: consumo individualizado, personalizado, apelo à sensualidade que beira a vulgaridade, exibição corporal e de ideias sem conteúdo, fotogenia, estereotipagem, massificação, cultura da ignorância, da indiferença etc.

 

Essa é uma forma de ver o mundo e de encará-lo advinda de vários setores da sociedade americana há tempos, exportadores que são de formas ideológicas e culturais que na maior parte conduzem à despolitização, emburrecimento e trivialização da existência de todos os dias e possuem capacidade para modelar fantasias, a fim de fornecer um alívio para a miséria material, intelectual e moral gerada pelo próprio sistema de dominação econômica, política, cultural e militar por eles criado.

Hoje essa visão toma conta do aparato estatal em diversos países e de todas as formas de reprodução social em todo o mundo, mesmo com os resultados gerados a olhos vistos pelo estouro da bolha financeira nos EUA em 2008, resultado da mesma lógica perversa que eles mantêm em suas “pregações”.

Na Europa, a austeridade levada a cabo pelo controle institucional do grupo ligado à chanceler alemã Angela Merkel sobre o Banco Central Europeu e a Comissão Europeia (pois o FMI já dá sinais de afrouxamento em relação a essa austeridade) destila, sem nenhuma cerimônia, o estalo do arrocho fiscal, do câmbio ainda sobrevalorizado e da política monetária restritiva como forma de sair da crise, mas essa diretriz, na prática, é um moedor de carne humana manifestado no desemprego de 27 milhões de pessoas no continente – umas 20 milhões só na zona do euro, ou 12% da população economicamente ativa. No início a crise estava restrita à Islândia, Grécia, Portugal, Irlanda. Agora já se alastra pela Itália, Espanha, países do Leste europeu e começa a espetar a França, segunda economia da zona do euro. E isso fora a elevação dos índices de emprego informal, trabalho precarizado, aumento do crime organizado, da prostituição, do desrespeito às minorias, aos estrangeiros e aos direitos humanos. O mesmo setor financeiro agradece essa posição. E estrategicamente consegue colocar elementos de seus quadros nessas instituições! É a raposa cuidando do galinheiro, para manter seus interesses a pleno vapor.

É o círculo vicioso de arrocho fiscal, fritura social e privilégio às finanças rumo ao fundo do abismo. Uma lógica que esquarteja o Estado e esfacela o tecido social.

E as pessoas? Os seres humanos? E o emprego e condições de trabalho? São um mero detalhe dentro da lógica restritiva de inflação, câmbio, juros, política fiscal, tributária para satisfazer grupos “selecionados”.

Vejamos agora um pouco da configuração dessa visão de mundo nos EUA. Em elucidativo artigo, Henry Giroux aponta que, ano passado, na corrida pela sucessão à Casa Branca, o candidato a vice derrotado na chapa republicana Paul Ryan chegou a dizer que a batalha do futuro é “uma luta entre o individualismo e o coletivismo”, num aceno para o macartismo e a retórica da guerra fria dos anos 50.

Em sintonia com Ryan, Rick Santorum, advogado e político membro do mesmo partido e da Opus Dei disse que “o presidente Obama está tornando os Estados Unidos viciados no narcótico da dependência do governo”, promovendo assim a visão de que o governo não tem a responsabilidade de promover redes de segurança para os pobres, os doentes, os deficientes e os mais velhos.

Essa é uma espécie de versão revigorada do darwinismo social selvagem e cruel: “recompensemos os ricos, penalizemos os pobres e deixemos cada um se virar como puder”. No caso, os ricos aí estão ligados ao sistema financeiro – beneficiados por uma transferência de recursos sem paralelo na história americana e mundial, que provocou o brutal aumento da desigualdade de renda nesse país -, ao setor de recursos naturais e todos os mercados satélites desses dois setores. Os menos favorecidos são vistos com nojo, desprezo, como alvo dos ajustes promovidos pelo deus mercadoExiste também um ataque em ampla escala ao contrato social, ao estado do bem estar socialà busca pela igualdade econômica e a qualquer vestígio viável de responsabilidade moral e social, bases para a criação de comprometimento social e de responsabilidade cívica.

 

Todavia tem mais: sob a liderança da finança desregulada, os espaços, instituições e valores que constituem o público agora a ela se rendem e passam a ser vistos simplesmente como outro mercado a ser explorado para atendimento de suas demandas.

 

Giroux nos lembra que, com fanáticos religiosos e de mercado no poder, a política se torna extensão da guerra; ganância e interesse pessoal pisoteiam com requintes de maldade qualquer preocupação com o bem estar alheio; a razão é superada pela emoção baseada em certezas absolutas e em agressão militarista; ceticismo e dissidência são vistas como trabalho do DIABO.

 

E aqui vem a boa sacada de Giroux: fanatismo de todo o tipo, principalmente religioso, cultura consumista e estado de guerra funcionam em parceria com as forças econômicas que encorajam a privatização, os incentivos fiscais corporativos, a crescente desigualdade de renda e riqueza e maior fusão entre as esferas financeira e militar para diminuir a autoridade e o poder da governança democrática.

Voltemos nossos olhos para o Brasil. Veja as mensagens cotidianas da mídia de massa, caro leitor: as manchetes estão, no fundo, voltadas para a sucessão presidencial de 2014 e a demonização de alguns avanços alcançados nos últimos 10 anos, sejam econômicos, democráticos, com o objetivo de revogar as balizas sociais que influenciaram a ordenação da economia na última década. Estão voltadas para desconstruir o cerne do que deve ser preservado. Assistam, como exemplo, o Bom Dia Brasil da Rede Globo, ou leiam o Estadão para entenderem do que falo.

Saul Leblon faz um interessante apanhado daquilo que essas forças sociais, portadores do culto da ideologia teocrática dos mercados autorregulados, querem de fato para o país e o povo:

• renúncia a qualquer ordenação pública do desenvolvimento – o que subordina a sociedade aos movimentos pró-cíclicos dos mercados, desguarnecendo-a de salvaguardas tanto na ascensão, quanto no subsequente declínio das curvas de investimento, emprego e renda;

• abertura externa irrestrita a capitais e mercadorias, com redução bruta de tarifas sobre importações, o que implica a renúncia a um projeto industrializante próprio, com consequências trabalhistas e sociais dissolventes;

• extinção das exigências de conteúdo nacional nas compras das estatais, o que esteriliza o pré-sal como alavanca de um derradeiro e decisivo impulso industrializante no Brasil do século 21;

• cortes substantivos no gasto público, o que contrata uma ofensiva contra a rede de segurança social vigente, que inclui da Previdência ao Bolsa Família;

• livre cambismo, com a adoção de um laissez-faire suicida em relação a um preço decisivo da economia em tempos de globalização financeira e produtiva.

Portanto, essas forças sociais reacionárias no Brasil, herdeiras e subservientes a interesses por vezes de grandes grupos políticos e econômicos mundiais, por vezes amorfos, abstratos querem aplicar o mesmo receituário que hoje faz a zona do euro estar em termitente instabilidade e a bater recordes em desemprego e faz com que os EUA tenham apenas uma retomada de crescimento tímida desde a crise de 2008, com a manutenção de elevadas taxas de desemprego e da deterioração de vários outros indicadores econômico-sociais. 50 milhões de americanos não podem COMER se não obtiverem ajuda do Estado.

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Dessensibilização, violência e padronização dos costumes e crenças

James Petras expõe outro fator crucial utilizado como uma avalanche para conquistar mentes e corações: manipulação cultural global sustentada pela ressignificação da linguagem política e cultural. Na Europa do Leste, especuladores e mafiosos que se apossaram de terras, empresas e riqueza são descritos como “reformadores”. Contrabandistas são descritos como “empresários inovadores”.No ocidente, a concentração de poder absoluto para contratar e despedir nas mãos da administração e a acrescida vulnerabilidade e insegurança do trabalho é chamada “flexibilidade laboral”. Nos países mais pobres e em desenvolvimento, a venda de empresas públicas nacionais a monopólios multinacionais gigantes é descrita como “ruptura de monopólios”. “Reconversão” é o eufemismo para o retorno às condição do século XIX de trabalho despojado de todos os benefícios sociais. “Reestruturação”” é o retorno à especialização em matérias-primas ou a transferência de rendimento da produção para a especulação. “Desregulação” é a mudança no poder para regular a economia do Estado que minimamente olha para sua população menos favorecida para a banca internacional, a elite do poder mundial. No Brasil, vagabundo que cria esquema Ponzi, pirâmide financeira ou de produtos é chamado de empresário, empreendedor, pessoa de sucesso. “Ajustamento estrutural” na América Latina significa transferir recursos para investidores e rebaixar pagamento ao trabalho. Os conceitos de reforma, reforma agrária e mudanças estruturais, que eram originalmente orientados para a distribuição do rendimento foram cooptados e tornados símbolos para a reconcentração da riqueza, do rendimento e do poder nas mãos de alguns setores.

Orientada para padronizar os costumes, essa manipulação cultural está presente em vários canais de comunicação e na expressão de diversos grupos de poder: mídia televisiva e sua indústria do efêmero e das celebridades instantâneas, que visam direcionar a atenção para as celebridades, personalidades e mexericos privados, e não para a discussão profunda do social, da substância econômica e condição humana das populações e seus semelhantes. A Globo e outras emissoras e sua programação, no mínimo, alienante são exemplos genuínos, além do Facebook (é, Face também), Instagram etc; grandes indústrias produtoras de bens em massa; setor financeiro, que utiliza fartamente os instrumentais neoclássico e austríaco, faces econômicas dessa visão de mundo e ação no mundo (ou falta dela) para tentar legitimar o individualismo, a perspectiva egoísta e buscar reforçar o controle cultural e as promessas ilusórias do “livre mercado”; sindicatos que defendem mais interesses de grupinhos internos do que da classe em si; partidos políticos povoados de pilantras; igrejas que ensinam a chamada “Teologia da Prosperidade”, entre outros grupos que visam dar direção moral, intelectual, comportamental e política à massa, para que ela esteja subordinada a seu conjunto de interesses; esses fatores unidos acabam contribuindo sobremaneira para a dessensibilização da vida social, do respeito por si mesmo e pelo próximo.

 

Exemplo dessa dessensibilização é o assassínio em massa por Estados nacionais, com EUA e China na linha de frente, transformado num acontecimento corriqueiro, uma atividade aceitável, como foi o caso da guerra do Iraque e, recentemente, bombardeios a civis sírios. Lembram-se do vídeo vazado pelo soldado Bradley Manning, que mostra soldados num helicóptero Apache metralhando civis no Iraque, como se estivessem jogando PlayStation 3, e quase tendo orgasmos com a morte desses civis? Hoje Manning está sendo julgado e pressionado a fazer uma confissão falsa para terem um motivo formal com o intuito de indiciarem por conspiração Julian Assange, criador do Wikileaks, recluso na Embaixada Equatoriana em Londres.

 

A maioria das pessoas perdeu a noção de que provocar o sofrimento humano é chocante, estúpido, desrespeitoso, e sequer se indigna com isso. Pior: começa a acreditar que TODO o povo ou grupo atacado é agressor e terrorista, e por isso não tem problema ser aniquilado, para o bem da “nação”. Matou um a mais, não tem problemas: efeito colateral de guerra.

Outro exemplo de falta de sensibilidade e respeito pelo próximo: convencer uma senhora humilde e simplória de 70 anos a gastar seu parco dinheirinho para entrar num esquema Ponzi de divulgação de anúncios ou qualquer outra coisa, prometendo mundos e fundos quando esquemas como esses possuem duração limitada e perdas certas para a quase totalidade dos participantes.

Por conta desses mecanismos alienantes, cheios de símbolos e simulacros de quem quer dominar mentalmente o outro, não se dão conta de que o ataque possui por trás objetivos de grupos que visam dominância geopolítica e geoeconômica da região. Atos de guerra objetivando poder, conquista, domínio (como temos vários exemplos ao longo da história humana). Violência física e cultural em “alto nível”.

E essas são apenas duas faces da violência existente nos dias de hoje. Existem também outros tipos, tendo em conta estudo de Marcelo Luz, como a violência ambiental, simbólica, contra minorias, violência sexual, política, social, mas as que mais nos interessam são a autoviolência, violência psicológica e verbal.

– A autoviolência – ex.: vícios como o alcoolismo, o tabagismo, o consumo de drogas, o workaholism, a compulsão alimentar e outras formas de autopunição etc.

– A violência psicológica – consiste em minar a autoestima e acabar com a mente de alguém por meio da rejeição, depreciação, preconceito, discriminação, ameaça, desrespeito, humilhação, assédio moral, silenciosa hostilidade, entre outras atitudes. Graves sequelas emocionais podem acompanhar, durante muito tempo, os indivíduos ou grupos afetados, a exemplo das pessoas que saem das diversas redes multinível e ficam com suas vidas de pernas pro ar, num beco sem saída, sem conseguir sequer chegar à porta de casa por conta de tamanha tristeza, culpa, vergonha e falta de perspectiva. Essas empresas tentam executar (e em diversos casos conseguem) a substituição do ego pessoal pelo ego ideal do modelo de mundo por elas preconizado (o “se dar bem”), deixando pouco ou nenhum espaço para a originalidade pessoal.

Em outras palavras, elas tentam a todo custo uniformizar as consciências dos prospectos, assim como faz o cristianismo mais radical, ou o islamismo. Uma vez dentro, o membro do grupo de MMN ou grupo religioso perde sua autonomia própria e passa a viver segundo padrões anacrônicos, como: obediência cega àqueles hierarquicamente superiores, vestes especiais (Herbalóides com PINs, por exemplo), adoção do vocabulário e ideário da empresa/igreja como única chave válida de compreensão do mundo. Quem não compartilha da mesma visão de mundo do convertido passa ser considerado como “criatura”, herege, condenado ao fogo do inferno, “não escolhido para entrar na cidade celestial”, fracassado, derrotado, atrasado, ladrão de sonhos entre outras bobagens mais.

– Violência verbal: consiste no uso da palavra escrita ou falada para humilhar, insultar, ofender, diminuir, ameaçar, coagir, enganar, manipular ou agredir alguém. Inclui-se aqui, entre tantos exemplos, o comportamento dos recrutas da base do MMN, como já vimos aos milhares nesse blog, que xingam, agridem, atacam, chamam de fracassado, perdedor, ladrão de sonhos aqueles que criticam o sistema ou mesmo aqueles que saíram do sistema após perceberem a verdadeira natureza de suas entranhas ou após terem perdido dinheiro.

 

Pois bem, a dessensibilização e a violência são apenas alguns dos instrumentos utilizados pelos grupos que visam dar direção moral, intelectual, comportamental à massa, com o intuito de fazer valer algumas de suas pretensões; outros são a glorificação do transitório, das relações impessoais como “liberdade” quando essas condições refletem a disfunção e subordinação de uma massa de indivíduos a uma forma totalizante de poder, universalização, ressignificação e mistificação de símbolos, categorias, conceitos através da destruição de laços sociais e identidades, de seu esvaziamento e substituição pela forma acima de ver o mundo, enquanto ocorre a desarticulação da família, da própria sociedade civil, e fornece tempo, por exemplo, para argutos das finanças pilharem a economia, ou vagabundos e canalhas enganarem as pessoas com as promessas de ganhar dinheiro fácil ou mesmo “com muito trabalho” recrutando pessoas, utilizando até mesmo a inocência, espírito de bondade e a mansidão de alguns.

Essas “armas” utilizadas por esses grupos, como vimos anteriormente, encontram vazão em canais criados pelos tais aparelhos privados de hegemonia, e passam também a ideia de que soluções individuais para problemas econômico-sociais são as melhores.

E a conclusão lógica carregada por essa mensagem é clara!

As vítimas são culpadas pela sua própria pobreza e fracasso, o êxito passa a depender somente de esforços individuais. O pessoal do MMN é cuidadosamente adestrado para encampar essa visão, tendendo evitar qualquer crítica ao sistema e “elogiando” aqueles que são contrários a ele.

Esse é um panorama da face desse processo. Desse rolo compressor que passa por cima das tradições de solidariedade, de lealdade familiar e de amizades, do aprofundamento de vínculos pessoais, da própria democracia – quando são feitas campanhas maciças dos meios de comunicação que enfocam personalidades -, da generosidade e da busca da dignidade social em nome do individualismo, do egoísmo, da alienação/fanatização, do consumismo, da autorrealização pessoal.

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Marketing multinível: explosão de esquemas é subproduto dessa lógica que domina mentes, corações e instituições

MMN é um modelo de DISTRIBUIÇÃO de produtos, no qual a empresa joga para o prospecto toda a responsabilidade pelo repasse do produto/serviço ao consumidor final. Se o recruta não conseguiu vender ou recrutar, pra empresa está tudo bem, pois o produto já foi vendido, a nota faturada e o dinheiro apropriado! Outros serão recrutados pro lugar daquele que encalhou com produtos e/ou não conseguiu brincar de recruta-recruta. Ou seja, utiliza a pulverização das responsabilidades e a ocorrência FACTUAL da rotação na base do sistema para minimizar RISCOS! Pra empresa é uma forma excelente e relativamente segura de aumentar o faturamento e o lucro.

Esse modelo, manifestado em sistemas específicos que mantêm coerência com o conceito geral, possui mais de 60 anos de idade, ou seja, não é novo, mas de uns 20 anos pra cá encontrou legitimação, meios e formas de expansão, não só no Brasil e EUA, mas no México, Colômbia, Europa, Sudeste Asiático, enfim, tem-se proliferado em todo o mundo. Em cada um desses locais há um grau diferente de penetração do sistema, mas há fatores em comum, conjugação de alguns fatores que combinados tornam a atividade “explosiva”:

1) a natureza dos sistemas, seja vertical, horizontal, matricial, stairstep/breakaway, binário etc, leva a maioria a perder dinheiro; algumas características que provocam essa perda saltam aos olhos:

–         recrutamento em múltiplos níveis incentivado por comissões, sobreposições, adiantamentos, compras etc. para recrutar distribuidores que se transformarão em novos recrutadores adicionais;

–         o avanço na hierarquia de distribuição se dá pelo recrutamento, e não por vendas;

–         existência de pay-to-play (pagar pra jogar), através de compras obrigatórias, viagens para “aprendizado” etc;

–         a empresa multinível paga as comissões e/ou bônus a mais de cinco níveis de “distribuidores”;

–         o pagamento das comissões ligadas a cada participante upline iguala ou excede o pagamento feito pela venda de produtos, desincentivando a venda a varejo e incentivando excessivamente o recrutamento, o que provoca uma concentração extrema da distribuição dos rendimentos no topo da hierarquia do sistema.

Sistemas multiníveis começaram a pipocar nos EUA na década de 80 (lembram da Amway e Herbalife?) e nos anos 90 no Brasil. Nos anos 80, os EUA e Inglaterra viveram um período de desregulamentação financeira, trabalhista, de câmbio em prol de ajustes recessivos, que lançaram milhões de pessoas no ostracismo, no desemprego. A flexibilidade do trabalho, precarização e trabalho part-time começaram a tomar conta dos discursos, e adivinhem uma das formas de precarização que lá estava, revestida de pompa? O marketing multinível.  Não é mera coincidência que essa época tenha se tornado um campo fértil para o surgimento desses esquemas.

Só para vocês se lembrarem, dentro do contexto dos valores, individualismo e egoísmo discutidos nesse post, a finada Margareth Thatcher, que governou a Inglaterra por longos anos fazendo escola, chegou a afirmar que não existe sociedade, somente indivíduos e famílias!

No Brasil, a forte chegada das empresas de MMN se dá na década de 90, após a liberalização comercial, estabilidade monetária, desregulamentação financeira, além da importação  e disseminação da cultura trash. Liberalização comercial e financeira intempestivas levaram à desagregação do parque industrial, ao aumento do desemprego e, conjugadas a introdução da cultura da “grande oportunidade”, criou caminhos e oportunidades para que esses esquemas proliferassem.

 

2) parca legislação específica para o setorNos EUA, os lobbies das empresas junto ao Congresso americano e a “mãe Utah” – estado americano berço de empresas de MMN – fazem com que haja um desequilíbrio na relação com o consumidor e com que não haja punição para esquemas fraudulentos. No Brasil, a legislação já está superultrapassada, datando da década de 50. Não é à toa que vemos esquemas pipocando a todo o momento, muitos deles recentemente com claras características Ponzi.

3) utilização de técnicas de persuasão e manipulação mental, carregadas com essa cultura do egoísmo e da indiferença discutida acima. Nesse sistema a pessoa é ADESTRADA a se comportar de tal maneira que o resultado é um ser totalmente dependente e propalador do discurso dos grupos do esquema, portadores do ethos da “grande oportunidade”, do “prêmio”, da “próxima grande ideia”, do indivíduo “vencedor” – aquele que no fundo (ou na superfície mesmo) não está nem aí para o que acontece com a outra pessoa. Esta passa a ser apenas um mero trampolim para que o prospecto bata suas metas. Um número, por assim dizer, e que tem utilidade enquanto estiver ativo no sistema, seja comprando produtos e serviços para que ele ganhe comissões, seja recrutando pessoas.

Existe todo um processo sedutor na retaguarda da maravilhosa oportunidade, carregado de técnicas de PNL e indutores hipnóticos, reforçadores de crenças e valores que estavam adormecidos, latentes na mente do prospecto (lembrem-se dos valores e comportamentos da sociedade moderna discutidos nesse mesmo post) ou mesmo comandos plantadores de informações, crenças e valores antes INEXISTENTES que conduzem ao comportamento desejado pelos comandantes do sistema (diretores, lideranças, recrutadores e afins) cravado no fundo do inconsciente da pessoa (refiro-me aqui ao inconsciente ericksoniano, e não freudiano).

Em outras palavras, nesse último caso um novo mapa da realidade, uma nova visão de mundo é implantada na mente da pessoa, por conta dela ter permitido que isso acontecesse durante o transe hipnótico, ou o grupo, com a força do evento e as técnicas que nele são aplicadas, expõe aquilo que estava reprimido, e que portanto não se trata de algo novo no indivíduo e sim de manifestações de seu inconsciente. De crença e valores incrustadas lá dentro. Nesse caso, quem fica nesse grupo é quem se identificou com ele, e não somente pessoas ingênuas que foram enganadas por qualquer tipo de espertalhão.

Então, basicamente existem esses dois tipos de prospectos, que se unem em torno de um objetivo comum: fazer aquilo que lhes foi designado pelas lideranças. Na prática é isso, embora às vezes tentem camuflar o fato com expressões/comandos como “não, damos a liberdade para ele decidir se quer entrar”, ou “você tem livre arbítrio, e você quem irá decidir”, isso depois de terem despejado somente benesses na mente do incauto. Ou seja, essa de livre-arbítrio é mentira, manipulação. Falar de livre arbítrio normalmente já é complicado, e é ainda mais e mais relativo num ambiente feito para fisgar o sujeito com falácias carregadas de elementos persuasivos.

Para tentar ganhar dinheiro sendo distribuidor, deve-se saber que existe timing para a entrada, na busca de auferir ao máximo os bônus advindos do RECRUTAMENTO, que é a atividade fim do sistema, em detrimento da venda direta. A entrada deve ser rápida, a pessoa não pode pensar, ponderar, raciocinar, deve ser absorvida rapidamente pelo grupo, suas técnicas e seus mantras. A atenção da pessoa é desviada, introduzindo-se então a informação que leva a pessoa a praticar a lógica íntima do sistema, o recrutamento contínuo e frenético na busca dos bônus e da manutenção da qualificação adquirida para não se perder os bônus. Ou mesmo leva a pessoa fazer estoques para não perdê-la. E essa pessoa fica dentro até quando o dinheiro permite, seja grana do bolso, seja de terceiros (via recrutamento), ou quando vê que, mesmo ganhando uns trocados, está participando de um esquema amoral e ilegítimo que prejudica aquele que está próximo, ou seja, seus downlines e os downlines dos outros. Em nosso blog, nos comentários dos posts sobre a Forever, Monavie, Herbalife, My Travel, Mary Kay  e outras vemos exemplos de pessoas que assim agiram.

É a jogada íntima por trás do sistema. É assim que funciona.  É assim que as empresas conseguem o grosso do faturamento que auferem e é assim que os líderes dos esquemas ganham dinheiro.

Mas então o que fazer para começarmos a enfrentar essa lógica sistêmica desagregadora, fragmentadora, que dá liga a atitudes canalhas e a esses tipo de esquemas? Bem, um começo é agir com conhecimento de causa, sabedoria, atitude, atenção, sinceridade, humildade, respeito por nós mesmos e pelo outro, tolerância, amor ao próximo. Buscar a reconstituição dos laços familiares e de amizade genuínos, não intermediados por qualquer fração de dinheiro. Conhecimento prescinde de educação. Sabedoria de vivência. Atenção de calma, de livramento de angústias e aflições. Sinceridade de uma mente reta. Humildade de dignidade, responsabilidade e honestidade. Tolerância de compreensão e benevolência. Amor ao próximo de humanidade e também espiritualidade (não somente do sentido religioso da palavra). Sabendo-se aonde está pisando, então, podemos nos unir, em meio à tendência à fragmentação social que permeia a sociedade moderna, e propor, por exemplo, uma nova legislação para o sistema de venda multinível. Ou para ficar esperto quando se houve uma proposta: “ih, tô fora disso;  a possibilidade de me ferrar e ferrar os outros é muito grande aqui”.

Voilá!!!

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