Segundo livro da trilogia sobre Getúlio Vargas destaca a solidão do poder


Segundo livro da trilogia sobre Getúlio Vargas destaca a solidão do poder
Obras do escritor Lira Neto chega na próxima semana às livrarias, revelando como as decisões políticas em momentos de crise combinam com o isolamento

 

Por: Leonardo Cavalcanti –

Publicado em: 03/08/2013 14:49 Atualizado em:

Uma das característica do poder é a solidão. No instante final, as decisões são sempre individuais e, ao poderoso — tratamos aqui de presidentes —, não é oferecida a desculpa do erro em equipe, do equívoco compartilhado. Nada resta. O isolamento aumenta ainda mais durante turbulências políticas ou econômicas. Enquanto o tucano Fernando Henrique procurava o silêncio da biblioteca do Palácio da Alvorada e ali vagava horas, o petista Luiz Inácio Lula da Silva buscava distância dos próprios pares na Esplanada, e, assim, partia em direção ao homem comum. Dilma Rousseff, refém da própria e atual crise, debruça-se sobre relatórios e recebe um número mínimo de assessores nos fins de semana, por mais que a sombra do mentor político a acompanhe.

Até certo ponto próximas do real, as informações acima são escassas, rasas demais para perceber a solidão dos personagens, algo devastador para alguém dado ao convívio social. No livro Getúlio, do governo provisório à ditadura do Estado Novo (Companhia das Letras) — o segundo volume de uma trilogia iniciada no ano passado —, o escritor Lira Neto é capaz de trazer ao leitor a figura de um presidente sozinho em grande parte do tempo, por mais cercado de militares e civis que pudesse estar durante os anos de 1930 e 1945.

O trabalho de Lira — um cearense de 50 anos, jornalista de formação — é mais uma vez obsessivo. Se no primeiro tomo, lançado em meados do ano passado, Getúlio Vargas foi apresentado na origem, desta vez passa a ser retratado no pleno exercício do poder. E na solidão que o representa. Estamos diante do político revelado. Em tempo: o terceiro livro será lançado em agosto de 2014, uma data simbólica, evidentemente: os 60 anos do suicídio do político gaúcho.

Apuração
O segundo livro — disponível a partir do próximo sábado nas livrarias — apresenta o período entre a posse de Getúlio no Catete e a queda, depois de um golpe de Estado, em 1945. Como no primeiro volume, a leitura é leve e instigante. Ponto para Lira Neto, um dos melhores biógrafos da atualidade. Antes da trilogia Getúlio, o cearense escreveu Padre Cícero (Companhia das Letras, 2009), Maysa (Globo, 2007), O inimigo do rei (Globo, 2006) e Castello (Contexto, 2004). É o contador de histórias na melhor forma. Ele alia apuração com objetividade, características do bom jornalismo, mas também avança sobre a academia com características do mais bem cuidado pesquisador. Ao unir os dois mundos como se únicos, Lira apresenta uma qualidade rara de ser encontrada, tanto dentro de uma redação quanto nas universidades. Aqui, o motivo para exaltar o mergulho profundo do escritor: a disciplina.

De volta a Getúlio, em 29 de fevereiro de 1932, ele escreve no caderninho: “Chego a Petrópolis sem novidade”, para emendar um dia depois: “A situação continua em crise”. Nada mais reforça a solidão de um homem do que a falta de um fato novo. Naquele momento, o governo provisório, iniciado em outubro de 1930, estava rachado, como explica Lira Neto no livro: “Os liberais acusavam os tenentistas de usar Getúlio como fachada civil para impor uma ditadura militar. Por sua vez, os tenentistas acusavam os liberais de não desejar realmente mudanças profundas para o país.” Teses estapafúrdias da época parecem ainda atuais. Para os tenentistas, a convocação de eleitores e a restauração da Constituição apenas levariam o país ao voto de cabresto e ao coronelismo. Alguma dúvida sobre tal lógica ser a mesma em relação ao voto dos nordestinos hoje em dia? Bem, só é preciso ir à padaria mais próxima de casa e ficar a escutar a conversa alheia para perceber o quanto o preconceito vigora.

Refúgio
Em Petrópolis, Getúlio refugiava-se dos dois grupos, adiando decisões, fazendo concessões pontuais ou mesmo confundindo assessores, militares ou civis. Numa das passagens, os sócios do Clube 3 de Outubro, formado por gente interessada em prolongar o governo provisório, partiu do Rio em direção à cidade da região serrana fluminense. Estavam ali para prestar apoio ao presidente, mas, principalmente, ouvir de Getúlio uma declaração de apoio aos tenentistas. Se nos primeiros momentos do discurso as palmas ecoaram no salão de honra, o final foi um tanto decepcionante, a ponto de os militares ficarem na dúvida sobre as reais intenções de Getúlio.

Além dos bastidores do poder, neste segundo volume, Lira Neto mostra um Getúlio na intimidade de um homem. E aqui também sozinho. Um dos momentos é a partida da amante, Aimée, que foi viver na França, e depois nos EUA. Em 31 de dezembro de 1938, Getúlio escreve: “À noite, houve a clássica ceia em família. Assim passou-se para mim o ano, tendo uma ponta de amargura por alguma coisa longínqua, que era a minha fina razão de viver”.

Outro momento solitário é a morte do filho Getúlio Vargas Filho, aos 23 anos, em 2 de fevereiro de 1943, por causa da poliomielite. Durante o velório, o “velho” pediu aos presentes para saírem da sala. E ali ficou a olhar o rosto de Getulinho por quase 30 minutos até ser alertado por Alzira Vargas, a filha, que, na intimidade, chamava o pai de patrão (ler trecho abaixo). Getúlio, portanto, deve ser lido por gente ávida por bons textos. E quanto a Fernando Henrique, Lula e Dilma — ou qualquer presidente, brasileiro ou estrangeiro —, o trabalho de Lira Neto não deixa de ser sobre a história de cada um deles. Pelo menos em relação à inexorável solidão enfrentada ao longo do exercício do poder. Tudo tem um preço.

TRECHO

No velório de Getulinho no Catete, antes de fecharem o caixão para transportá-lo ao cemitério, o pai pediu para que esvaziassem a sala e o deixassem a sós com o corpo do filho por alguns minutos. O desejo do presidente foi prontamente atendido. Alzira permaneceu à porta de entrada, para impedir que aquele último adeus paterno fosse interrompido por terceiros. Quinze minutos depois, ela entreabriu a porta, e o pai estava na mesma posição que o deixara antes: Getúlio sentado em uma cadeira que aproximara do esquife, olhava silencioso para o rosto do filho.

Alzira então decidiu deixá-lo ali, sozinho, por mais alguns instantes. Decorrido outros 10 minutos, ela afinal resolveu entrar e, puxando uma cadeira para sentar ao lado do pai, passou-lhe levemente a mão nas costas.

“Patrão, está na hora de ele ir embora”, falou, em voz baixa.Getúlio, sem tirar os olhos do caixão, lamentou:“Eu tenho enorme dificuldade de acreditar que a generosidade, a gentileza, a genialidade e o caráter do Getulinho serão enterrados junto com a sua carne…”Para Alzira, era a forma que o pai, sempre tão oblíquo na hora de revelar os sentimentos mais íntimos, encontrara de questionar de uma vez por todas o seu conhecido materialismo.

Getúlio, do governo provisório à ditadura do Estado Novo
Lira Neto/Cia das Letras, R$ 52,50

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