O Feijão e o Sonho


O Feijão e o Sonho
Nesta tarde de domingo, 29/09/2013, faleceu o ator Claudio Cavalcanti.

Deixou um acervo de mais de 50 novelas na rede Globo de televisão. Belo legado, pois Claudio era do tempo em que as novelas eram muito mais que uma mania nacional, eram um programa de entretenimento com uma dose de cultura, pois boa parte delas eram baseadas em obras literárias, onde o importante era deixar um exemplo, contar uma historia de vida, influenciando a população de forma maciça e inteligente.

Dentre tantos personagens interpretados pelo ator me lembrei de um que marcou muito a minha adolescência, e meu coração de jovem romântica, comum na época. O Juca de O Feijão e o Sonho, novela baseada no romance de Orígenes Lessa exibida em 1976. Juca (Campos Lara) era um escritor, pobre e romântico, casado com Maria Rosa (Nívea Maria), obrigado a trabalhar em empresas que não gostava, ou dar aulas de matemática, à noite, para garantir o sustento da família, sendo o tempo todo confrontado pela esposa que tentava sempre trazê-lo para a realidade da vida. O próprio ator conta certa vez que foi o papel que mais amou atuar, porque o fazia lembrar da vida de seus pais, onde a poesia do próprio pai era soterrada pela realidade a cobrar-lhe as responsabilidades do casamento e da família.

“O Sonho (Juca – o poeta), vive as turras com o Feijão (Maria Rosa – a realidade), relação conflituosa, em que o poeta se obriga a preterir o romantismo e ilusão em que vivia, em vistas às necessidades materiais que lhe era cobrada, desistindo dos seus sonhos e transformando-o num homem mais prático.

O Feijão e o Sonho enfoca o contraste entre o sonho e a realidade, que tantas vezes encontramos no nosso dia-a-dia. Os sonhos muitas vezes abdicados vencidos pelas dificuldades.

A dualidade no transcorrer da vida se mostra evidente sempre, os conflitos não poucas vezes nos fazem mudar de rumo e trilhar outros caminhos .

“RESUMO DO LIVRO – O FEIJÃO E O SONHO – ORÍGENES LESSA

A trama gira em torno de Campos Lara, poeta que vive a embalar o sonho da criação literária, alheio aos aspectos práticos da luta pela sobrevivência. Casado com Maria Rosa, a relação é um desajuste só.

Campos Lara sonhando, escrevendo, poetando; Maria Rosa batalhando, preocupando-se e, principalmente, azucrinando a vida do irresponsável marido.

Os rendimentos conseguidos pelo poeta, dando aulas ou escrevendo para os jornais são extremamente escassos e insuficientes para fazer frente às despesas da família.

Os credores não dão sossego; o senhorio cobra os aluguéis atrasados; o dono da farmácia deixa de fornecer medicamentos para a filharada adoentada; a alimentação é parca e de má qualidade: a vida é um inferno.

A todo esse desacerto, Campos Lara não dá a mínima atenção. Sua cabeça, povoada de versos e de orgulho intelectual não desce do limbo em que se encontra para encarar problemas triviais de manutenção familiar. Seus mirabolantes projetos literários enchem sua vida e seu tempo.

Pula de emprego em emprego, vê seus alunos escaparem e os que permanecem são os que não podem pagar. Maria Rosa luta desesperadamente contra a miséria e o infortúnio.

Ao final, com a situação financeira mitigada, mas não de todo regularizada, Campos Lara e Maria Rosa ajustam-se e sonham com o futuro do filho caçula.

Será advogado… Engenheiro… Até que Campos Lara descobre que seu filho será, como ele, poeta…

E isso o enche de orgulho, esquecendo todo o drama e o sofrimento que palmilhou durante toda uma existência, exatamente por dedicar-se à poesia, uma atividade sem qualquer compensação financeira, num país de analfabetos”. (Texto extraído da internet).

O FEIJÃO E O SONHO – ABORDAGEM JUNGUIANA

O tema não apresenta nenhuma novidade, sustenta-se sobre duas linhas básicas:

O Feijão é o lado prático da vida. A necessidade de o indivíduo prover o próprio sustento e o da família. A luta pela sobrevivência que se desenvolve em cada momento da trajetória do homem pela vida afora. O sonho é a fantasia, a quimera que cada um tem dentro de si.

A aspiração de grandeza, de desligamento dessa realidade tão dura e desagradável. As duas linhas formam a grande antítese alicerçadora da vida.

Os que se fixam no Feijão tornam-se amargos, desagradáveis, agressivos. A obsessão pelo lado prático da existência impede-os de tomar uma atitude carinhosa, compreensiva, aconchegante diante daqueles que deles se aproximam.

Os adeptos do Sonho perdem o senso da realidade e tornam-se desajustados em um mundo excessivamente materialista. São criticados, espezinhados, humilhados e sua vida é um rosário de sofrimentos e de dor.

Orígenes Lessa não inovou em nada, mas apenas deu forma literária a uma história conhecida e repetida desde sempre: o artista sonhador, pobre e incompreendido; a mulher que o impele à luta e o obriga a encarar o lado prático da vida.

Na exploração inteligente do idealismo tão próprio da juventude ainda não batida pelo tempo e pela desilusão.

O Grand Finale fica por conta da escolha do filho caçula por seguir a carreira literária, então com o apoio paterno. Tem o pai desta forma, no filho, a possibilidade de realizar seus próprios sonhos, como acontece também de maneira fácil e bem conhecida de todos nós.

A dualidade sempre foi tema forte na obra de C.G.Jung, não poucas vezes ele nos mostrava o quanto esse tipo de situação é constante na existência humana. Os sonhos sempre foram de suma importância na terapia analítica, por isso mesmo, foi alvo de profundos estudos inclusive a partir da obra Freudiana que iniciaram as observações.

“Sonhos são realizações de desejos ocultos e são ferramenta que busca equilíbrio pela compensação. É o meio de comunicação do inconsciente com o consciente”.

“Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta”.

No final o casal se acerta, porque se ama, no pensamento Junguiano: “Onde o amor impera, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro”.

O pai poeta, por fim se realiza no filho. Conforme a psicologia analítica, “Os filhos tendem a realizar aquilo que seus pais não puderam ou não conseguiram realizar”.

Em toda sua obra, Jung jamais nos diz para não sonhar, apenas para aprendermos a lidar com os sonhos de maneira que eles não nos tirasse a realidade impossível de ser ignorada, mas nos possibilitasse entendimento de como torná-los reais.

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