Tecnologia gera mais emprego que demissões. Depende do país


Restaurante inaugurado ano passado na China tem entre os funcionários 30 robôs que cozinham, entregam pedidos e dão boas vindas aos clientes
– JIANAN YU / REUTERS

 

RIO — Ao entrar em um ônibus no Rio de Janeiro, é raro se deparar com um trocador. O uso intensivo dos cartões com chip nas catracas é um exemplo de como a tecnologia pode substituir o ser humano em determinadas funções, e esse é um temor crescente entre os profissionais. Um estudo divulgado pela Deloitte em novembro do ano passado apontou que 35% dos empregos do Reino Unido estão sob risco de serem extintos durante as próximas duas décadas. Contudo, três pesquisadores da própria consultoria realizaram uma pesquisa com um contraponto mais otimista. Com base em dados censitários dos últimos 140 anos, eles demonstraram que a tecnologia criou mais empregos do que destruiu.

— A tecnologia destrói empregos. Isso acontece, nós não discutimos isso — diz Alex Cole, um dos autores do novo estudo, ao lado de Ian Stewart e Debapratim De. — Em todos os estágios da humanidade a tecnologia substituiu trabalhadores. Isso acontece de forma mais acentuada desde a Revolução Industrial, e vai continuar acontecendo. Mas ela também melhora as condições de vida, os salários e cria mercados que não existiam. É triste para quem perde o emprego e não consegue se qualificar para outra função, mas a economia como um todo sempre se ajustou.

O estudo conduzido pelo trio de economistas é inovador por apresentar um novo olhar sobre a relação entre tecnologia e trabalho, tanto que foi indicado ao Prêmio Rybczynski, da Sociedade Britânica de Economistas de Negócios. O argumento, dizem os pesquisadores, é que o discurso atual de temor de desemprego em massa é enviesado pelo pelos efeitos da extinção de empregos frente à relativa imprevisibilidade de negócios futuros.

— Há 20 anos não era possível prever que a rede Starbucks surgiria oferecendo café com Wi-Fi — exemplifica Cole. — Os smartphones surgiram há menos de dez anos e já criaram um imenso mercado de trabalho.

 

PROCESSO LENTO E IMPREVISÍVEL

De acordo com os pesquisadores, no imaginário a tecnologia é vista como uma momento na história quando uma invenção brilhante muda o mundo, contudo, “a realidade é mais prosaica, de uma progressão longa e caótica na qual forças não relacionadas, ao longo do tempo, adicionam, refinam e aplicam a tecnologia”. A máquina a vapor, por exemplo, foi inventada em 1711 para bombear água para fora de minas de carvão inundadas, e mais de 50 anos depois James Watt a refinou para ser capaz de produzir mais energia e impulsionar a Revolução Industrial. O grande impacto da eletricidade na produtividade americana aconteceu apenas na década de 1920, mais de 40 anos após os experimentos de Thomas Edison.

E esses longos e imprevisíveis processos provocam efeitos profundos indiretos e pouco aparentes. O carro foi condição essencial para o surgimento dos subúrbios americanos, que impulsionaram a construção civil e a indústria automobilística durante a segunda metade do século passado. A entrada da mulher no mercado de trabalho foi facilitada por invenções como a pílula anticoncepcional e os eletrodomésticos.

— A destruição trazida pela tecnologia é direta e visível, o que não acontece com a criação — explica Cole.

Com dados do Censo britânico desde 1871, quando os primeiros dados sobre ocupação foram coletados, e do Labour Force Survey, de 1992, o trio de economistas mostra que as “máquinas assumiram tarefas mais repetitivas e laboriosas, mas nunca chegou perto de eliminar a necessidade do trabalho humano em nenhum momento dos últimos 140 anos”.

Claro que determinados setores foram altamente afetados. A agricultura, por exemplo, era responsável em 1871 por 6,6% da força de trabalho e caiu para 0,2% em 2011. O mesmo aconteceu em outros setores, como o trabalho em fábrica, e em campos inusitados, como o de lavanderia. Em 1901, com população de 32,5 milhões de habitantes, o Reino Unido tinha 200 mil trabalhadores lavando roupas. Em 2011, com população de 56,1 milhões, são apenas 35 mil pessoas no setor.

E os dados também apontam para setores que tiveram crescimento no número de empregos por causa da tecnologia. Nos últimos 35 anos, dois setores tiveram grande destaque no Reino Unido, o de gerência em tecnologia da informação, que cresceu 6,5 vezes, para mais de 327 mil; e de programadores e desenvolvedores de softwares, que triplicou para mais de 270 mil.

Os pesquisadores também destacam setores que tiveram rápido crescimento e já desapareceram ao longo destes 140 anos. O caso mais dramático é o de telefonistas e operadores de telégrafo. No auge, na década de 1971, eram mais de 120 mil trabalhadores no setor, número que não chega a 20 mil hoje.

Entretanto, o maior impulso dado pela tecnologia para a geração de empregos é quase invisível. Com a redução no uso intensivo de mão-de-obra, setores como agricultura e manufatura aumentaram a produtividade e os preços despencaram. O percentual gasto mensalmente pelo britânico com alimentos caiu de 34,8% em 1950 para 11,4% em 2014. Nos EUA, um televisor de 16 polegadas custava US$ 795 em 1948, quase um quarto do salário médio anual, ou cerca de US$ 12 mil atualizados. Hoje, uma TV topo de linha pode ser comprada por menos de US$ 1 mil.

— As pessoas passaram a gastar menos com custos essenciais e a jornada de trabalho foi reduzida. Com isso, o trabalhador tem mais dinheiro disponível e mais tempo para gastar com bens e serviços. Hoje, temos mais cabeleireiros do que nunca. Em 1871, existia um profissional para cada 1.793 habitantes, agora existe um para cada 287 — diz Cole.

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