Nirvana


NAMO TASSA BHAGAVATO ARAHATO SAMMABUDDHASA
HOMENAGEM AO BENDITO, O ESPIRITUALMENTE PREFEITO, O HARMONIOSAMENTE DESPERTO.

 

Hoje o tema que vou falar é Nirvana.

Nirvana é em Sanskrito; em Pali é Nibbana.
Este conceito Nirvana, tem sido discutido por muitos Budistas, como também por não budistas e as pessoas tem-se confundido com este termo, que se converteu num termo “ que não pode ser explicado “. As pessoas dizem que não pode ser expresso por palavras.
Mas eu diria que foi completamente explicado pelo Buda e é possível pô-lo em palavras e explicá-lo.
A palavra Nirvana segundo eu entendo tem duas partes ‘Nir’ e ‘Vana’.
Nir quer dizer ‘Não’ é o prefixo ‘não’. E ‘Vana’ quer dizer ‘movimento’. ‘Vana’, é como outra palavra que se aproxima dela e que é ‘Vayo’, ‘Vana’ é movimento.
Por outras palavras,
Nirvana é o estado mental que não se perturba com nada.
É a perfeita imperturbabilidade da mente.

Isto é o que Nirvana é, segundo o meu entendimento.
Quando falamos de Nirvana, temos três aspectos.
Um é o que chamaria ‘Aspecto Cognitivo’ de Nirvana.
A seguir o que chamaria ‘Aspecto Adjectivo de nirvana e por ultimo o ‘Aspecto Activo’ de Nirvana.
Agora, antes de entrar numa discussão detalhada destes aspectos, temos de compreender primeiro, ao que é que chamam Samsara, porque Nirvana tem relação com Samsara.
Samsara é o ciclo de Renascimentos.
Isto é, as pessoas nascem e cada vez que nascem, morrem; e cada vez que morrem, renascem.
Isto torna-se um ciclo perpétuo.
Isto quer dizer que temos vivido muitas vidas no passado e viveremos inumeráveis vidas no futuro, a menos que este processo seja detido.
E porque queremos deter este processo? É o importante a entender.
Este processo de continuação da vida em forma de renascimentos não é visto como algo agradável nos ensinamentos do Buda.
Não nascemos sempre como seres humanos.
O renascimento ocorre em distintos habitats, ou distintos mundos.
Uma pessoas pode nascer num ‘mundo celeste’ ou num ‘mundo infernal’, ou num ‘mundo dos Petas’, que são mundos de aspectos, alguns bons outros maus. E também é possível nascer como animal e ainda como ser humano. Mas o problema é que o lugar onde iremos renascer depende do que se chama ‘Karma‘.
Karma refere-se ao nosso estado emocional. Isto é importante.
É por isso que o Buda disse: (Cetana aham bhikkhave kammam vadami).
A palavra ‘cetana’ refere-se ao estado emocional de acordo com o tipo de emoção com que vivemos, o estado de animo que mantemos na vida.
Se mantemos um bom estado de animo durante a vida, no momento da morte, morreremos com um bom estado de animo e renasceremos numa boa situação. Se temos um mau estado de animo, se cultivamos um mau estado de animo, como preocupar-se constantemente ou zangar-se com as coisas constantemente ou ser codicioso constantemente, este tipo de estado de animo, resultará num mau estado de animo no momento da morte e isso conduzirá a um mau renascimento.
É por isso que o Buda uma vez tomou um pouco de areia nas suas unhas e perguntou aos seus discípulos “O que é mais? a areia nas minhas unhas ou a areia que está na terra?” Os discípulos disseram, “Comparando a areia desta terra, a das suas unhas é muito menos”. Ao que o Buda disse, “Dos seres humanos que renascem, os que renascem em bons lugares são como a areia das minhas unhas e aqueles que renascem em maus lugares são como a areia desta terra.
Isto quer dizer que na maioria das vezes renascemos em maus lugares, porque na maioria das vezes vivemos com maus estados de animo.
Excitamo-nos emocionalmente e deixamo-nos levar pelas emoções. É por isso que quase sempre há mau renascer.
Mas por outro lado, se por casualidade somos capazes de purificar a nossa mente por meio da meditação e outras boas formas de viver, se purificarmos a mente, como resultado, renascemos numa boa situação.
Pode-se nascer nos mundos celestes, mas acontece que mesmo assim os mundos celestes não são vistos como lugares permanentes, do ponto de vista do Budismo.
Os mundos celestes, também são impermanentes e há morte aí. E uma vez, que uma pessoa morra, pode cair novamente e renascer em maus lugares.
Então o simples purificar a mente e ir a mundos celestes, não é a solução para o problema que o Buda assinalou.
É por isso que a única forma de sair do ciclo, é alcançar o Nirvana, que é deter este processo de renascimentos. Isto é o importante.
Se pretendemos alcançar o Nirvana, não o podemos fazer sem primeiro ter purificado a mente e purificar a mente não é só ter bons pensamentos na mente, é acima de tudo ser livre de uma ilusão que temos.
Essa ilusão é a de que EXISTIMOS. Essa é a ilusão.
Cremos que existimos como um “si mesmo” e enquanto pensarmos em termos de um “si mesmo” e pensarmos em termos de “EU” ou “MIM” ou “MEU”, pensar nestes termos é ser incapaz de alcançar o Nirvana.
Então temos de começar por pensar de maneira diferente.
E qual é esta nova maneira de pensar?
É muito importante compreender esta nova maneira de pensar.
Devemos compreender três coisas da vida.
Em Pali são: Anicca, Dukka e Anatta.
Anica, traduzo não como impermanência, mas sim como instabilidade. Instabilidade é um termo muito importante a compreender.
A primeira coisa que temos de compreender é que:
Não há ‘ENTIDADES’ no mundo.
Isto é algo que a ciência moderna compreendeu.
Isto significa que só há ‘ACTIVIDADES’ no mundo, não ‘ENTIDADES’.
Originalmente as pessoas pensavam, inclusive os cientistas, que tudo é feito de átomos e que estes eram indestrutíveis.
Mas à medida que o tempo foi passando e a ciência progrediu, começaram a descobrir que inclusive os átomos, eram constituídos por partículas. E agora descobriram que inclusive as partículas podem-se apresentar em forma de onda em vez de partículas reais.
Por outras palavras, tudo se converte em ‘Uma Actividade’. Inclusive as partículas são activas.
Quando no budismo falamos da “Existência”, (o existir), não estamos falando de uma ‘Entidade Estática’ ou de uma entidade que não se está movendo, estamos falando da continuidade de uma actividade, como uma chama.
Quando olhamos a chama, pode parecer algo que está ‘existindo’ como ‘entidade’, mas na realidade é uma actividade o que está ocorrendo e a continuidade da chama é simplesmente a continuidade de uma actividade e esta continuidade está aí presente na dependência de certas condições. Se uma das condições desaparece a actividade detêm-se e então não se pode perguntar; Para onde foi a chama? Porque a chama não é uma entidade que vá a algum lado. É simplesmente uma actividade que se deteve.
De maneira similar, quando pensamos numa pessoa ou individuo, esse individuo (ao falar de individuo nos referimos ao corpo e à mente), o que chamamos corpo, também é uma actividade e essa actividade está em marcha todo o tempo, portanto como se supõe que vivemos, essa actividade está em marcha e quando falamos de morte, simplesmente falamos da detenção dessa actividade e quando falamos da mente, a mente tão pouco é uma entidade, é simplesmente uma actividade.
Por outras palavras, quando dizemos que uma pessoa renasce e continua na seguinte vida, na realidade estamos falando da continuidade de uma actividade, não na permanência de uma entidade.
É por isso que quando falamos de instabilidade, estamos falando de uma actividade que não é estável mas sim instável.
É como uma pedra de gelo que quando muda a temperatura deixa de ser uma pedra de gelo e converte-se em água, inclusive a água converte-se em vapor e diz-se invisível.
Desta forma todo o mundo é instável. Esse é o significado de Anicca.
Mas esta instabilidade está produzindo infelicidade. Não gostamos de ver que as coisas sejam instáveis, não gostamos que a nossa vida seja instável, mas o que vemos é que uma pessoa que nasce, começa a envelhecer, depressa adoece e morre.
Esta é a instabilidade da vida. Essa instabilidade da vida é desagradável, não nos faz felizes.
Mas porquê esta instabilidade?
A causa real desta infelicidade não é a instabilidade.
A causa real da infelicidade é o nosso desejo pela estabilidade  e esse desejo pela estabilidade é um desejo cego, que não está consciente das realidades da vida.
Não está consciente de que a vida é um processo de actividade instável.
Pensamos em termos de Entidades e queremos que a entidade perdure. É por isso que só mediante renunciar ou desfazer-se desta emoção cega é que a infelicidade cessa.
Então a segunda realidade da vida é essa infelicidade que se produz e assim tudo é instável e está produzindo infelicidade, não é “como queremos” e não podemos fazer nada para alterar a situação. Isso quer dizer que não está debaixo do nosso poder e se não está debaixo do nosso poder, não podemos chamar-lhe “MEU”.
Quando falamos de possessão, falamos de ter controle sobre aquilo que possuímos. Se possuímos algo, seja uma casa, um automóvel ou o que seja, podemos fazer o que queremos com eles. Podemos vender, desfazer etc. Mas se não temos poder sobre eles, então isso quer dizer que não nos pertence realmente.
Da mesma maneira este corpo começa a envelhecer, não podemos detê-lo. O corpo cai enfermo, não podemos detê-lo. Isso quer dizer que não temos poder sobre o corpo. Podemos mover os membros, mas esse tipo de controle é simplesmente limitado. Se um membro se paralisar não o podemos mover. Por outras palavras, não temos controle sobre o corpo e assim também sobre a nossa mente.
O que chamamos mente, tão pouco está completamente sob o nosso controle, porque se pensarmos; Vou deixar de pensar. Não o podemos fazer. Vem todo o tipo de pensamentos à nossa mente. Inclusive, pensamentos sem nosso conhecimento.
Coisas como estas indicam o facto de que não somos donos de nada no mundo. Não possuímos nada no mundo. E se não possuímos o corpo e a mente, não há nada ao qual chamar (meu mesmo) ou (eu).
Então, se pudemos compreender estas três qualidades da vida; a instabilidade, o sofrimento criado por esta e a impersonalidade ou a não possessão das coisas, então a noção (eu sou) desaparece e quando a noção (eu sou) desaparece, todos os nossos desejos, ódios, medos e preocupações não tem cabimento e o que acontece é que a mente se acalma.
A mente na realidade não é uma coisa mas sim uma actividade. E essa actividade é na realidade a reacção de um organismo à estimulação.
Quando falamos de mente, falamos da reacção de um organismo a um estimulo. Essa reacção pode surgir como uma reacção emocional, que será o motivo para a acção.
Se nos enfurecermos, somos levados a uma reacção como seja lutar, discutir ou matar. E se é um desejo, como um desejo sexual ou algo semelhante, essa paixão essa avidez, também conduzirá a uma acção para obter o que desejamos.
Se é medo, também essa emoção levará a uma acção para eliminarmos o que tememos.
Desta forma, as nossas emoções conduzem-nos, mas se pudermos manter um estado de calma e tranquilidade mental, então todos estes actos emocionais se deterão.
Então no Budismo o importante é deter esta reacção, que é causa de toda a infelicidade.
Nas técnicas moderna de tratamento do stress, também falamos disto.
Então o verdadeiro significado da palavra Nirvana, é portanto tranquilizar a mente, deixar de reagir. E se actuarmos assim, será uma resposta, em vez de uma reacção, que é uma acção sem emoção.
É um estado mental calmo e tranquilo que conduz a um acto racional.
Então Nirvana, ainda que a miúdo se fale dele, como algo que não pode ser completamente explicado, pode ser explicado e são estes três aspectos, o aspecto cognitivo que é a compreensão de que não há um (si mesmo), o aspecto afectivo, que é a calma e tranquilidade da mente, e o aspecto activo, em que os actos não são emocionais, mas sim respostas.
Um acto calmo, deliberado, pensado e racional.

Esse é o significado de Nirvana

Bhante Punnaji

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