O fim melancólico de Anita Ekberg, musa de “A Doce Vida”


A atriz sueca tinha 83 anos e vivia em uma clínica para idosos, na Itália

TIZIANA FABI / AFP
Imagem regista Anita Ekberg em 2010TIZIANA FABI / AFP

Anita Ekberg faz uma breve participação em A Doce Vida (1960), minutos suficientes para ilustrar no clássico de Federico Fellini uma das sequências mais famosas da história do cinema. Ao fim de uma noitada em Roma com o jornalista vivido por Marcello Mastroianni, sua personagem, apropriadamente uma voluptuosa diva de Hollywood em visita à cidade, banha-se com seu vestido de gala justo e de decote generoso na Fontana di Trevi. Com a morte da atriz sueca, neste domingo, aos 83 anos, esta cena antológica foi evocada nas boas lembranças de cinéfilos em todo o mundo. A causa da morte de Anita não foi informada. Ela estava internada desde o Natal em um clínica em Rocca di Papa, localidade a cerca de 30 quilômetros de Roma.

Luis Fernando Verisssimo relembra a filmagem da famosa cena na Fontana di Trevi

Anita teve um fim de vida melancólico e solitário. Os papéis em produções menores foram rareando até seu último trabalho, em 2002, na minissérie da TV italiana Il Bello delle Donne.Em 2011, ela havia voltado ao noticiário quando, por meio de um administrador nomeado pela justiça italiana, solicitou apoio financeiro à Fundação Fellini. Na ocasião, Anita havia deixado sua casa nos arredores de Roma, em razão de um incêndio provocado por ladrões, para morar em um lar de idosos. Locomovia-se com dificuldades devido a uma queda que lhe fraturou o fêmur, em 2009. Segundo pessoas próximas, recebia poucas visitas e tinha ainda como projeto lançar um livro de memórias. Em entrevista ao jornal Il Corriere della Sera disse certa vez que se sentia “um pouco sozinha”, mas que não se arrependia de ter “amado, chorado e enlouquecido de felicidade”.

Kerstin Anita Marianne Ekberg era seu nome. Nasceu na cidade sueca de Malmo em 29 de setembro de 1931, sexta de oito irmãos. A beleza e as formas curvilíneas colocaram a jovem loira na passarela para ser eleita Miss Suécia, em 1950. Foi na viagem aos Estados Unidos para concorrer ao Miss Universo que o monumento escandinavo chamou a atenção em Hollywood. Virou protegida do bilionário Howard Hughes, que além de sugerir que ela trocasse de nome, achou que a garota poderia ficar ainda mais belos com algumas intervenções estéticas. Sensata, ela dispensou as sugestões do poderoso magnata.

Mas a carreira de Anita no cinema, entretanto, não seguiria os passos de outra ex-modelo platinada que despontava, Marilyn Monroe. As limitações dramatúrgicas e a aparente frieza que lhe deu o apelido de “iceberg” não ajudaram Anita a ir muito além dos papéis secundários que valorizavam suas formas perfeitas e sua aura de símbolo sexual.

Curiosamente, as duas beldades tiverem em comum no começo de suas carreiras uma parceria com o comediante Bob Hope – com ele, Anita filmou Férias em Paris (1958) e Rififi no Safari (1963). Quando Marilyn teve de se afastar de uma turnê que fazia com Hope pelos EUA, Anita a substituiu com sucesso. O gaiato humorista dizia que os pais da sueca mereciam ganhar o Prêmio Nobel de arquitetura.

Após participar de filmes populares como a comédia Artistas e Modelos (1956) e o drama histórico Guerra e Paz (1956), Anita estrelou filmes menores na Europa, como o épico O Escudo Romano (1959). Foi por essa época, provavelmente, que Fellini viu em uma revista a foto da atriz refrescando os pés na Fontana di Trevi. A imagem que balançou o mestre garantiu o convidou para Anita viver o papel que a imortalizaria entre as grandes musas do cinema, basicamente vivendo ela própria. Transgressora e escandalosa em seu tempo, a erótica sequência de A Doce Vida foi homenageada no filme argentino Elsa e Fred (2005), recentemente refeito nos EUA.

E foi com Fellini que Anita teve dois outros momentos simbólicos em sua carreira: estrelando o curta dele no projeto coletivo Boccaccio ’70 (1962),  e relembrando com Mastroianni, em Entrevista (1987), a parceria do trio em A Doce Vida. Anita foi oficialmente com os atores Anthony Steel, entre 1956 e 1959, e Rik Van Nutter, de 1963 e 1975. Não teve filhos.

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