COMPORTAMENTO DE MANADA – QUANDO O HOMEM AGE EM BANDO.


This entry was posted on 01/09/2017

Comportamento de manada ou psicologia das massas descreve como indivíduos de um grupo podem agir coletivamente sem direção centralizada. O termo pode referir-se o comportamento dos animais em rebanhos, bandos de aves, cardumes de peixes e assim por diante, bem como o comportamento dos seres humanos em manifestações, motins, greves gerais, eventos esportivos (torcidas organizadas), encontros religiosos e episódios de violência em massa (Braha, 2012).

Manada de gnus atravessando o rio Mara. No comportamento de massas é possível ver que búalos africanos se juntam para espantar predadores como o leão. Veja aqui

Manada de gnus atravessando o rio Mara. No comportamento de massas é possível ver que búfalos africanos se juntam para espantar predadores como o leão. Veja aqui

Muitas vezes vemos torcedores sendo presos por se envolver em brigas de torcidas organizadas mas que individualmente nunca teriam cometido atos criminosos.

Filósofos como Søren Kierkegaard e Nietzsche Friedrich estavam entre os primeiros a criticar o que se referiam como “a multidão” (Kierkegaard) e “moral herdada” e do “instinto de rebanho” (Nietzsche) na sociedade humana. Pesquisas feitas por psicólogos e economistas modernos identificaram a presença do comportamento de manada em seres humanos para explicar fenômenos que ocorrem quando um grande número de pessoas se aglomera e age da mesma forma ao mesmo tempo.

Quem cunhou o termo “comportamento de manada” foi o cirurgião britânico Wilfred Trotter em seu livro “Peace and War” publicado em 1914 e posteriormente tal comportamento foi descrito em situações que envolviam influências sociais, tendências econômicas (tais como “emulação”), onde certos indivíduos de um determinado grupo imitam outros membros de um status mais elevado.

Em 1903 o sociólogo Georg Simmel tratou este comportamento como “impulso de sociabilidade no homem”, descrevendo as formas de associação adotadas por um conjunto de indivíduos separados e como são constituídos em um sociedade. Freud chamou este comportamento de “psicologia das massas”, Carl Jung chamou de “inconsciente coletivo” e Gustave Le Bon de “mente popular”. Então notamos que muitas vezes o mesmo comportamento tem diferentes nomes.

Cardumes tem a vantagem de parecer grande quando um predador se aproxima e podem intimida-lo. Além de favorecer um eventual escape em caso de ataque.

Cardumes tem a vantagem de parecer grande quando um predador se aproxima e podem intimida-lo. Além de favorecer um eventual escape em caso de ataque.

A psicologia das massas é um ramo da psicologia social que propõe várias teorias para explicar as maneiras em que uma multidão difere e a forma que interage com os indivíduos dentro dela. Sabe-se que o comportamento de grupo é fortemente influenciado pela perda de responsabilidade do indivíduo (Greenberg, 2010 & Toch, 1988). Isto explica muitos impulsos vistos em torcidas organizadas ou em frentes políticas que acabam entrando em confronto.

Um dos primeiros debates sobre psicologia da multidão começou em Roma no primeiro Congresso Internacional de Antropologia Criminal Novembro de 1885. A reunião foi dominada por Cesare Lombroso e seus colegas italianos que enfatizou os determinantes biológicos. Embora seja um tema antigo, há pouca pesquisa sobre os tipos de comportamento e a adesão da multidão, e não há consenso sobre o como classifica-las.

Geralmente, os pesquisadores em psicologia de massas têm centrado suas pesquisas sobre os aspectos negativos de multidões (Reicher, 2000), mas não são todas as multidões que são voláteis ou negativas na natureza. Por exemplo, em multidões do início dos movimentos socialistas os indivíduos foram convidados para colocar um vestido e marchar em silêncio pela rua. Um exemplo mais moderno envolve manifestações sobre o movimento dos direitos civis. Multidões podem refletir e desafiar as ideologias realizada em seu ambiente sociocultural. Elas também podem servir a funções sociais integradoras, como a criação de comunidades temporárias (Greenberg, 2010 & Reicher, 2000).

Multidões pode ser ativas (agressivas) ou passivas (públicas). As multidões ativas podem ser divididos em agressivas, escapistas, aquisitivas, ou expressivas (Greenberg, 2010). As multidões agressivas são muitas vezes violentas e compreendem motins e torcidas organizadas. As escapistas são caracterizados por um grande número de pessoas em pânico tentando sair de uma situação perigosa. É onde muitas vezes acontece pisoteamento de pessoas. As multidões aquisitivas ocorrem quando um grande número de pessoas esta lutando por recursos limitados, tais como as multidões que saquearam mercados após o furacão Katrina em 2005 ou em situações de miséria como na Venezuela. Uma multidão expressiva é qualquer outro grande grupo de pessoas reunidas para um propósito ativo.

A desobediência civil, shows de rock e religiosos se enquadram nesta categoria (Greenberg, 2010).

rock

Exemplo de multidão expressiva em um show punk onde acontece uma roda.

A literatura científica sobre multidões e seus comportamentos ajudou, por exemplo, a mudar concepções sobre as ações tomadas pelas multidões durante a Revolução de 1789. A partir da segunda metade do século 19 houve um grande interesse científico no campo sendo estudado pelo médico e antropólogo francês Gustave Le Bon se tornou seu teórico mais influente (Manstead & Hewstone, 1996; Reicher, 2000).

Le Bon destacou que as multidões se formavam em três fases. A primeira, chamada de submersão, os indivíduos na multidão perdem o seu sentido de auto-responsabilidade individual e pessoal, sendo fortemente induzido pela anonimato da multidão (Reicher, 2000). Algo muito parecido ocorre com o cyberbullying, caracterizado por um conjunto de pessoas que se unem para maltratar ou violentar verbalmente o outro de forma sistemática e repetitiva. Embora o cyberbullying não consista em agressões físicas, é comumente visto como menos danoso, mas tem graves consequências, tanto quanto as do bullying físico. O abuso sofrido pela vítima do bullying virtual é, em sua maioria, de cunho psicológico, no entanto ela pode chegar a se tornar física em casos extremos. Ameaças de morte, agressão física e publicação de informações pessoais de vítimas são alguns dos meios mais violentos.O agravante vem justamente da capacidade de manter o anonimato e da isenção da responsabilidade. O agressor nem sempre, ou quase nunca é identificado, uma vez que é possível manter-se anônimo no mundo virtual. Estudos indicam que essa impessoalidade pode ser um dos agravantes da epidemia desse fenômeno, uma vez que o contato virtual e indireto pode dessensibilizar as partes envolvidas na agressão, já que não há contato direto com o sofrimento da vítima ou com as consequências do seus atos (Brasil Escola).

A segunda fase descrita por Le Bon, é o contágio na qual refere-se a propensão que os indivíduos em uma multidão tem em seguir cegamente as idéias e emoções predominantes da multidão. Este efeito é capaz de espalhar entre os indivíduos através de mecanismos submersos (Greenberg, 2010). Neste ultimo ponto, as ideias e emoções da multidão são atraídos principalmente a partir de um inconsciente social compartilhado. Este comportamento vem de um arcaico compartilhamento inconsciente incivilizado na natureza. Ele é limitado pelas capacidades morais e cognitivas dos membros menos capazes, mas para Le Bon as multidões poderiam ser uma força poderosa apenas para destruição (Reicher, 2000).

Le Bon defendia que os membros dessa massa sentiam uma sensação diminuída de culpabilidade legal, devido à dificuldade em processar os membros individuais de uma multidão (Greenberg, 2010). Esta ideia de fomento ao anonimato e geração de emoção foi contestada por alguns críticos. Um deles é Clark McPhail que aponta estudos que mostram que a multidão não assume uma “vida própria”, mas que é guiada por certos pensamentos e intenções dos membros do grupo (McPhail, 1991). Norris Johnson (1987), um pesquisador da área que investigou o pânico em um concerto de 1979 e junto a Organizaçao Mundial da Saúde concluiu que a a multidão era composta por grupos pequenos de pessoas, cujas intenções eram ajudar uns aos outros.

Outra falha da teoria de Le Bon é que ele ignora o contexto socio-cultural da multidão, que alguns teóricos argumentam enfraquecer a mudança social (Reicher, 2000). R. Brown contesta a suposição de que multidões são homogêneas, sugerindo vez que existem participantes em um continuum, diferindo em sua capacidade de alterar as normas sociais (Greenberg, 2010).

Sigmund Freud, o pai da psicanálise (que hoje é considerada por muitos uma pseudociência)  também discutiu sobre o comportamento de massa e descreveu-o como consistindo principalmente na ideia de desbloquear a mente inconsciente. Isso ocorre porque o centro do super-ego, ou moral da consciência é deslocado pela multidão maior, sendo substituído por um líder carismático da multidão. McDougall argumenta algo próximo a Freud, dizendo que as emoções simplistas são generalizadas e emoções complexas são mais raras. Em uma multidão, a experiência emocional geral compartilhada reverte para um denominador mínimo comum criando níveis primitivos de expressão emocional (Manstead & Hewstone, 1996). Esta estrutura organizacional é como uma “horda primitiva” de uma sociedade pré-civilizada se revolta contra o líder na tentativa de restabelecer a moralidade individual, ou a fim de escapar dela (Manstead & Hewstone, 1996). Moscovici expandiu essa ideia, discutindo como ditadores como Mao Zedong e Joseph Stalin usaram psicologia de massa para colocar-se nesta “horda” (Moscovici, 1976).

Comportamento de aves em revoadas formando nuvens.

Comportamento de aves em revoadas formando nuvens.

Uma outra perspectiva deste assunto é vem da teoria desindividualização que defende que em certas situações típicas de multidão, fatores como o anonimato, unidade do grupo, e excitação podem enfraquecer controles pessoais, tais como a culpa, vergonha, comportamento auto-avaliação. Isto distancia as pessoas de suas identidades pessoais e reduz a sua preocupação com a avaliação social (Manstead & Hewstone, 1996; Reicher, 2000). Esta falta de restrição aumenta a sensibilidade individual para o ambiente e diminui premeditação racional, culminando a um comportamento anti-social (Manstead & Hewstone, 1996; Reicher, 2000). Algumas teorias mais recentes têm indicado que a desindividualização se desdobra sobre pessoas devido à situação na qual estão inseridas e que tem uma forte auto-consciência como um objeto de atenção. A falta de atenção, então, liberta o indivíduo a partir da necessidade de comportamento social normal (Manstead & Hewstone, 1996).

Há também a proposta chamada de teoria de convergência (Allport, 1924) na qual determina que o comportamento de massas não é um produto da multidão em si, mas sim a multidão é um produto da união de indivíduos, criando uma mente única (Greenberg, 2010; Reicher, 2000).

Floyd Allport, defende que um indivíduo em uma multidão se comporta exatamente como ele se comportaria sozinho, só que mais intensamente. Na teoria da convergência, multidões se formam a partir de pessoas com disposições semelhantes, cujas ações são, então, reforçadas e intensificadas pela multidão (Reicher, 2000) defendendo então que as reivindicações da teoria de convergência não são irracionais mas em vez disso, as pessoas em multidões expressam crenças e valores existentes, de modo que a reação da massa é o produto racional dos sentimentos populares generalizados.

Ainda sim, esta teoria é questionada por algumas pesquisas que descobriram que as pessoas envolvidas nos motins de 1970 eram menos propensas do que seus pares não-participantes e que a determinação social da multidão nasce de intenções individuais (Reicher, 2000).

A teoria da norma emergente criada por Ralph Turner e Lewis Killian estendeu a ideia de que as normas emergem de dentro da multidão e que multidões têm pouca unidade em seu início, mas durante um período de desenvolvimento surgem ações apropriadas de membros que saem da linha e criam normas da multidão (Reicher, 2000). Esses gatilhos são identificados através de personalidades ou comportamentos distintos. Os seguidores que formam a maioria da multidão, como as pessoas tendem a ser criaturas de conformidade que estão fortemente influenciados pelas opiniões dos outros (Forsyth, 2012). Isso tem sido demonstrado nos estudos da conformidade efetuados pelo Sherif e Asch onde membros multidão são ainda mais convencidos pelo fenômeno da universalidade, e criam uma tendência persuasiva da ideia de que se todos na multidão estão agindo de tal e tal maneira, então ele não pode estar errado (Greenberg, 2010).

Atuação de Black Blocs em São Paulo.

Atuação de Black Blocs em São Paulo.

Essa proposta, de norma emergente, permite a ambos os tipos movimentação de massas, positivas e negativas, como as características distintivas e comportamentos chave que podem ser positivos ou negativos na natureza. Um líder anti-social pode incitar a ação violenta, mas uma voz influente da não-violência em uma multidão pode levar a massa (Manstead & Hewstone, 1996). A grande crítica desta teoria é que a formação e seguimento de novas normas indicam um nível de auto-consciência que esta, muitas vezes, em falta nos indivíduos das multidões (como evidenciado pelo estudo de desindividualização). Outra crítica é que a idéia de normas emergentes não leva em conta a presença de normas socioculturais existentes (Manstead & Hewstone, 1996; Reicher, 2000), além de não explicar por que certas sugestões ou indivíduos alcançam status normativo, enquanto outros não (Reicher, 2000).

A identidade social postula que o comportamento emn massa é um sistema complexo composto principalmente do conceito de pertencer ou não a diversos grupos sociais. Estes grupos têm diferentes valores, normas morais, comportamentais e ações do indivíduo que dependem de qual membro de grupo (ou da não-adesão) é mais pessoalmente saliente no momento da ação (Reicher, 2000). Esta influência é evidenciada pelos resultados que quando o propósito declarado e os valores de um grupo de mudanças, os valores e os motivos dos seus membros vão mudando também. As multidões são uma amálgama de indivíduos, os quais pertencem a vários grupos em conflito. No entanto, se a multidão está principalmente relacionada a algum grupo identificável (como cristãos ou ativistas de direitos civis), então os valores desse grupo irão ditar a ação da multidão (Reicher, 2000). Em multidões que são mais ambíguas, os indivíduos assumem novas identidades sociais como um membro da multidão. Esta associação de grupo fica mais saliente por confrontos com outros grupos, uma ocorrência relativamente comum para multidões (Manstead & Hewstone, 1996).

A identidade de grupo serve para criar um conjunto de normas de comportamento determinando grupos que legitimam a violência e que para outros é inaceitável. Este padrão são formado a partir de valores declarados, mas também das ações dos outros no meio da multidão, e às vezes de alguns em posições de tipo de liderança (Manstead & Hewstone, 1996). Ou seja, multidões refletem idéias e atitudes sociais prevalecentes.

Victor Rossetti

Palavras chave: Netnature, Rossetti, Comportamento de massa, Psicologia das massas.

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Referências

Allport, Floyd (1924). Social Psychology. Boston. p. 295.
Braha, D (2012) Global Civil Unrest: Contagion, Self-Organization, and Prediction. PLoS ONE 7(10): e48596
Forsyth, D.R. (2012). Handbook of Psychology (Second ed.).
Greenberg, M.S. (2010). Corsini Encyclopedia of Psychology.
Johnson, Norris R. “Panic at ‘The Who Concert Stampede’: An Empirical Assessment.” Social Problems. Vol. 34, No. 4 (October 1987): 362–373.
Manstead, ASK; Hewstone, Miles (1996). Blackwell Encyclopedia of Social Psychology. Oxford, UK: Blackwell. pp. 152–156.
McPhail, C. (1991). The myth of the madding crowd. New York: Aldine de Gruyter.
Moscovici, S. Social influence and social change, Academic Press, 1976.
Reicher, Stephen (2000). Alan E. Kazdin, editor in chief, ed. Encyclopedia of psychology. Washington, D.C.: American Psychological Association. pp. 374–377.
Toch, Hans (1988). “Psychology of Crowds Revisited”. Contemporary Psychology 33 (11): 954.
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