“Não sei se eu faria tuuudo de novo. Não posso fazer nada além de ser o mais honesto que consigo”, afirma Phil Collins


Um dos nomes mais populares da história do pop, Phil Collins Retomou a carreira com a turnê e o livro “Ainda Estou Vivo”, que chegam nesta semana a Porto Alegre

Divulgação / Divulgação
Divulgação / Divulgação

Aos 67 anos, Phil Collins fala pausadamente, com bom humor e humildade. Esse tem sido o espírito da sua volta aos palcos, como deixa claro o título da turnê que ele trará nesta terça-feira a Porto Alegre, que é o mesmo da autobiografia que chega segunda às livrarias: Not Dead Yet (“ainda não estou morto”). A expressão é a resposta irônica de quem passou alguns anos longe dos holofotes – por um período, as únicas notícias publicadas a seu respeito davam conta de problemas de saúde – e chegou a anunciar a aposentadoria, em 2011. Durante a parada, o ex-Genesis, que é um dos músicos mais populares de todos os tempos, lutou contra o alcoolismo e se afastou da família e da música. A volta por cima veio com os anúncios do livro e dos shows, a partir de 2016. Aqui, ele fala sobre essa volta, relembra o passado e até projeta o futuro – que pode inclusive incluir uma volta do Genesis.

Sua passagem anterior por Porto Alegre foi há mais de 40 anos. o que os seus fãs podem esperar do novo show? 

Tenho de dizer que desejo voltar para a América do Sul desde esses shows que fizemos nos anos 1970, em Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro. Foi uma das coisas que eu disse quando nos reunimos para definir a turnê de reunião do Genesis, em 2007: “Vamos para a América do Sul. Vamos tocar nos lugares onde nunca tocamos ou nos quais só tocamos uma vez, como Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro”. Só que a turnê foi sequestrada pelo nosso empresário, que a levou para a Europa e América do Norte. A vontade de ir para o Brasil permaneceu. Será ótimo voltar a tocar para espectadores dos quais é possível conseguir uma reação honesta para o que eu faço, já que ainda não me viram ao vivo. Esse é um dos motivos para eu querer voltar.

Quando você esteve em Porto Alegre, em 1977, o Genesis se apresentou duas noites, mas o segundo show foi mais curto porque o baixista e guitarrista Mike Rutherford teve um problema estomacal. você lembra disso? 

Lembro que ele estava muito, muito doente. E nós tivemos que fazer aquele show com ele correndo para o banheiro a toda hora…

Hipólito Pereira / Agencia RBS
Show do Genesis em Porto Alegre em 1977: experiência marcanteHipólito Pereira / Agencia RBS

Você montou o repertório da turnê atual com músicas de toda a sua carreira? 

Sim. O show tem cerca uma hora e meia a uma hora e 45 minutos. Tentamos colocar o máximo possível de músicas nesse tempo. Acredito que o público vai gostar porque vamos revisitar períodos diferentes da minha vida. Tocaremos um par de músicas do Genesis, mas esta é a minha turnê, não a do Genesis.

Desde que você retornou aos palcos, seu filho Nicholas, de 16 anos, tem assumido a bateria. Apesar das dificuldades físicas, você tem conseguido tocar um pouco também? 

Não, eu não consigo. Há muitas coisas erradas com a minha saúde.

Acredita que algum dia tocará bateria novamente? 

Duvido. Minha mão esquerda não responde bem, meu pé direito também. Se eu não sou capaz de tocar tão bem como no passado, prefiro não tocar nem um pouco.

Ultimamente, você tem permanecido sentado durante os shows. Isso impacta o show? 

Permaneço sentado porque passei por uma operação nas costas e é doloroso ficar de pé por muito tempo. Mas, quando eu digo isso, soa pior do que é de fato. Acredito que o público não sinta muita diferença, não parece incomodar ninguém. A banda é grande e muito ativa. Há muito o que ver. Há uma grande produção. Não é um show chato, ao contrário do que possa parecer pelo fato de que fico sentado. E eu me acostumei a isso.

O título do seu livro, Ainda Estou Vivo, sugere que você encara o envelhecimento com senso de humor. 

Sim. Há uns seis anos, as pessoas me perguntavam muito sobre a minha saúde, porque isso estava sendo muito noticiado nos jornais. E eu não estava mantendo muita coisa em segredo. Então (o título) simplesmente parecia ser adequado, com esse humor inglês, sabe? Só acho que os editores não gostaram muito…

E os produtores da turnê? 

Tampouco. Eu só disse: “Confiem em mim, confiem em mim”. E combinou muito bem com as fotos que fizemos (para a capa do livro e a divulgação do show, entre as quais a da página ao lado). É para ser engraçado. Não deve ser levado muito a sério. Foi a maneira inglesa que encontrei para dizer a quem me perguntava sobre minha saúde. E acho que o título significa que há mais coisas por vir. No momento em que escrevi o livro, ainda não sabia que voltaria a fazer turnês. Estava fazendo alguns shows de caridade, mas nada sugeria que eu retornaria à estrada. Você começa a escrever sobre a sua vida e se pergunta se é isso aí, se poderia haver mais, então acho que acendeu a faísca de que talvez eu ainda poderia fazer mais.

Em 2011, você anunciou sua aposentadoria. o que fez você voltar atrás? 

Acho que foram principalmente a minha família e o meu empresário, que incentivaram dizendo: “Por que você não vai lá e faz de novo? Enquanto você ainda conseguir cantar…”. Foi um jeito de me encorajar. Fico feliz, porque tenho de admitir que gosto muito de estar no palco.

Como é a sensação de voltar à estrada após alguns anos aposentado? Você sentiu falta da rotina de trabalho? 

É um clichê, mas você sente falta dos aplausos, de ser apreciado. Isso fez parte da minha vida durante muito tempo. E é algo que eu provavelmente subestimei. Quando você está no palco e as pessoas estão gostando de vê-lo tocando as músicas que você escreveu, e ao final você alcança uma espécie de clímax, ao tocar a música certa no momento certo… É maravilhoso.

O palco é o seu local favorito? 

Sim, provavelmente. Sobretudo quando tenho um dos meus filhos atrás de mim, tocando bateria.

Nicholas faz um bom trabalho? 

Sim, ele é fantástico. Ele definitivamente segura a onda.

Além de Nicholas, sua filha Lily também enveredou pelas artes e hoje tem uma carreira destacada como atriz. Você acompanhou a escolha deles pela vida artística? Quais conselhos você deu? 

Não os encorajei nem os desencorajei. Deixei que decidissem por eles mesmos. Tentei dar alguns conselhos, mas algumas vezes eles ouvem, outras não. Sabe como é, né? Tenho cinco filhos. A mais velha é uma produtora de TV, tem a Lily, o Simon, que também é músico, o Nicholas e o Matthew, que joga futebol e também está indo para a América do Sul, mas para jogar futebol.

Profissionalmente? 

Não, ele tem 13 anos. Mas é isso que quer fazer da vida.

Sua família virá para o Brasil? 

Acho que virão para alguns dos shows. Matthew tem escola. Nicholas está perto do fim da escola. E, obviamente, ele tem de vir porque é o baterista. Matthew virá a alguns. Nós sempre tivemos pequenas rotinas durante as turnês. O meu filho mais novo, que hoje tem 13 anos, tinha os seus trabalhos específicos. Sempre que eu entrava no camarim, depois dos shows, era ele quem me alcançava o meu desodorante. Nicholas tinha o seu trabalho também. É uma daquelas boas rotinas de família.

Reprodução / Phil Collins
Antes de completar 30 anos, Collins lançou o primeiro disco solo, “Face Value” (1981), que deu início a uma série de sucessos só interrompida nos anos 1990. Em 2016 (imagem à direita), ele reencenou a capa do álbum para o seu relançamentoReprodução / Phil Collins

Nos anos 1980, você se consolidou como um gigante da música pop, permitindo-se extravagâncias como usar um avião supersônico para voar de Londres à Filadélfia e, graças ao fuso horário, participar de dois shows do Live Aid na mesma noite. Como é alcançar esse nível de sucesso? o que isso faz com sua cabeça? 

Não acho que tenha mexido com minha cabeça. Eu estava simplesmente muito ocupado toda hora. E curtindo. Não havia tempo para ficar arrogante. Na verdade, não havia nem tempo para gastar o dinheiro ganho. Então, não penso nisso nesses termos. Fui convidado a fazer ótimas coisas por muitas pessoas das quais eu gostava, gente como Eric Clapton e Robert Plant, e eu realmente gostei disso. Nunca parei para pensar na fama.

As pessoas me perguntavam muito sobre minha saúde. Então o título “Ainda estou Vivo” simplesmente parecia ser adequado, com esse humor inglês, sabe? só acho que os editores (do livro) não gostaram muito. e os produtores da turnê tampouco.

PHIL COLLINS

Você tem memórias fortes daquela época? 

Sim, quando escrevi o livro, tive a ajuda de um jornalista que me fazia muitas perguntas. Quando nós conferimos a transcrição, ele ficou impressionado com a quantidade de coisas de que eu lembrava. É porque eu gostei muito do que vivenciei. Não sei se eu faria tuuudo de novo, mas posso dizer que tive muita sorte.

No livro, você fala de seus problemas com o alcoolismo e do quanto ele prejudicou as suas relações familiares. Como você superou isso? Você bebe hoje em dia?

Foi quando me aposentei e não tinha muito a fazer que o problema começou. Antes, estava tudo bem. Ficou ruim quando me separei da minha família. Isso lhe dá muito tempo livre. Hoje eu tomo um drinque ou dois. Mas nunca ultrapassei os limites. Isso é sério, pessoas morreram ao ultrapassá-los.

Em geral, as biografias mais reveladoras são as não autorizadas. O que o levou a falar abertamente sobre sua vida? 

Acho que, se você vai escrever um livro sobre a sua vida, deve fazê-lo com honestidade. Não faz sentido guardar. Tenho certeza de que deixei pessoas chateadas ao dizer, no livro, o que eu pensava, ou o que ocorreu em diferentes períodos da minha vida, mas não posso fazer nada além de tentar ser o mais honesto que consigo.

Seu mais recente álbum de inéditas, Testify, foi lançado em 2002. Você está escrevendo novas canções ou planejando um novo disco? 

Não. Tenho algumas coisas alinhavadas, mas não escrevo nada há um tempo. Moro com Nicholas e Matthew, tocamos em casa, mas não estou escrevendo nada no momento. Talvez eu escreva, se sentir o ímpeto.

Há poucos dias, Tony Banks, ex-tecladista do Genesis, disse que estava aberto a uma reunião com você e Mike Rutherford. Isso é algo com o que os fãs podem sonhar? 

Tony veio nos ver, quando tocamos no Albert Hall, em Londres, e Mike também. E ambos amaram o jeito de Nicholas tocar. Lembro de dizer a eles que, se o Nic pudesse tocar bateria conosco, talvez pudéssemos fazer algo juntos. Não sei. Mas tudo é possível.

Então não está fora de questão? 

Não. Na verdade, estava, mas você acaba de trazer o assunto de volta. Se fizéssemos (uma turnê) de novo, voltaríamos à América do Sul.

Por pouco você não vai encontrar seu ex-parceiro de Genesis, o guitarrista Steve Hackett, em Porto Alegre. Ele fará um show com músicas da banda na cidade em 20 de março. Vocês se falam? 

Não. Quer dizer, nós mantemos contato por e-mail. Não sei se ele se envolveria. Se fizéssemos algo, e este é um grande “se”, ainda não conversamos sobre isso, teríamos de discutir quem estaria envolvido. Eu vejo Tony e Mike e converso muito com eles, considerando que vivemos longe. Mas não tanto com Steve.

A indústria musical mudou muito nos últimos anos. Como você viu esse processo e como procura se adaptar a ele? 

Acho fantástico quando um artista sobe ao palco e as pessoas ficam em pé dizendo ‘obrigado’. Só que não temos mais muito disso hoje em dia.

PHIL COLLINS

Não penso muito a respeito disso, francamente. Alguém me lembrou que o Grammy havia sido realizado, e foi aí que me dei conta de que eu havia esquecido. Na verdade, não me considero muito envolvido com a indústria, certamente não da maneira em que eu costumava ser. Mas as coisas mudam, às vezes para melhor, às vezes para pior. Acho realmente fantástico quando um artista sobe ao palco e as pessoas ficam de pé dizendo “obrigado”. Só que nós não temos mais muito disso hoje em dia. Não há mais músicas assim atualmente, músicas que você toca em um show e as pessoas se levantam ao final, músicas que as pessoas ouvem e sentem que viveram algo. Há, é claro, artistas da minha era que ainda fazem isso, mas já não há muitos de nós.

O que você quer dizer com “não temos mais muito disso”? As novas gerações de artistas são muito diferentes? 

Está tudo diferente. Hoje existe muita nostalgia. Quando as pessoas vêm me ver, elas estão revivendo a sua vida, as músicas de outras épocas. A indústria mudou, isso é fato, mas as coisas são do jeito que elas são. As pessoas crescem, querem algo, e eventualmente elas fazem uma volta de 360º e passam a querer algo que descartaram, como o vinil e o CD. Algo que foi chamado de obsoleto de repente volta à moda. É por isso que não penso muito sobre essas coisas. Só faço o que eu faço e espero que mais alguém goste.

  • O SHOW 
  • Phil Collins se apresentará no Beira-Rio, em Porto Alegre, às 21h15min de terça-feira. A abertura será da banda Pretenders, às 19h45min. Os ingressos, entre R$ 270 e R$ 680, estão à venda em eventim.com.br (com taxa) e no estádio (sem taxa), de terça a domingo, das 12h às 20h.
  • O LIVRO 
  • Ainda Estou Vivo 
    Biografia, editora BestSeller, 410 páginas, R$ 54,90.
    A chegada às livrarias está marcada para esta segunda-feira (26 de fevereiro).
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: