Sexualidade de Leonardo da Vinci


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controvérsia sobre a sexualidade de Leonardo da Vinci parte das informações sobre as relações pessoais de Leonardo, provenientes de registros históricos e dos escritos dos seus muitos biógrafos, cuja disposição para discutir os aspectos relacionados com a identidade sexual do artista variou com as atitudes da época em que viveram[1][2]. O seu biógrafo quase contemporâneo, Vasari, descreve dois belos jovens como “amados” de Leonardo em vários pontos dos escritos sobre a sua vida[3]. No século XX, vários biógrafos tornaram mais explícita a referência à homossexualidade de Leonardo[4], embora outros tenham concluído que em grande parte da sua vida, Leonardo foi celibatário[5].

São João Batista 1513-1516

A nota biográfica mais explícita em relação à vida íntima de Leonardo é um registro de um tribunal florentino que descreve a acusação anônima de sodomia com prostituto masculino (Jacopo Saltarelli) feita contra Leonardo (e outros dois acusados), quando ainda se encontrava na oficina de Verrocchio. Dois meses depois Leonardo foi ilibado por falta de provas[6]. A sodomia era considerada um crime muito grave, passível de condenação a pena de morte, razão pela qual eram exigidas provas claras da sua prática e raramente eram condenados os acusados. A homossexualidade na Florença de Leonardo era de tal forma tolerada que Florenzer era utilizado á época na Alemanha para referir em calão um homossexual[7]. As denúncias falsas eram bastante frequentes nesse tempo, utilizadas anonimamente pelos inimigos do denunciado. É possível que tenha sido esse o caso com Leonardo. Não existe evidência que, na sua longa carreira depois de deixar Florença, Leonardo tenha sido acusado de novo do mesmo crime.

Elizabeth Abbott, na sua History of Celibacy (“História do Celibato”), argumenta que embora Leonardo fosse, provavelmente, homossexual, o trauma do caso da acusação de sodomia condenou-o ao celibato para o resto da sua vida[8]. Uma opinião semelhante sobre um Leonardo homossexual mas casto aparece no famoso artigo de 1910 de Sigmund FreudLeonardo da Vinci e uma Memória da sua Infância, que analisa uma recordação de Leonardo em que ele descreve como, quando ainda bebê, foi atacado por uma ave de rapina que lhe abriu a boca e “me enfiou a cauda por entre os lábios repetidamente”. Freud indicou que o simbolismo era claramente fálico, mas argumentou que a homossexualidade de Leonardo seria apenas latente: que ele nunca teria agido em conformidade com os seus desejos sexuais[9][10]. Os escritos e os livros de notas deixados por Leonardo revelam uma luta com a sexualidade: numa passagem famosa dos seus livros de anotações, Leonardo afirma “o acto da procriação e tudo com ele relacionado é tão nojento que a raça humana rapidamente desapareceria se não existissem caras bonitas e inclinações sensuais[9][10].

Na sua vida adulta, Leonardo relacionou-se pouco com mulheres e nunca casou; entre os seus numerosos esboços anatômicos apenas se encontram dois desenhos detalhados dos órgãos reprodutivos femininos, um dos quais invulgarmente distorcido[2]. No entanto, David M. Friedman refere que isso não é evidência de uma sexualidade diminuída, apenas de uma redução de interesse pelas mulheres. Argumenta que os livros de anotações de Leonardo revelam que o interesse de Leonardo por homens e pela sexualidade não foi perturbado pelo julgamento em tribunal, e concorda com o historiador de arte Kenneth Clark quando este refere que Leonardo nunca se tornou um assexuado[9][11].

The Incarnate Angel, (desenho a carvão, c. 1515) claramente relacionado com o quadro “São João Batista”.

Serge Bramly também refere que “o facto de Leonardo advertir contra a a luxúria não significa que ele próprio fosse casto”[2]. Michael White, em Leonardo: The First Scientist indica que é provável que o julgamento tenha provocado em Leonardo um sentimento de cautela e defesa em relação às suas relações pessoais e à sua sexualidade, mas não o terá dissuadido de manter relações íntimas com homens: “não há muitas dúvidas de que Leonardo continuou a ser um homossexual praticante.”[12].

Os registos históricos mostram que, depois do julgamento, Leonardo manteve duas ligações de longa duração com rapazes: os seus dois alunos Gian Giacomo Caprotti da Oreno, de alcunha Salai ou Il Salaino (com o sentido de “diabinho”), que chegou à sua casa em 1490 com apenas 10 anos[13][14], e Francesco Melzi, o filho de um aristocrata de Milão, que se tornou seu aprendiz em 1506. Outras relações, com um homem desconhecido chamado Fioravante Domenico e com um falcoeiro, Bernardo di Simone, são sugeridas na biografia escrita por Michael White, embora as relações com Salai e Melzi tenham sido as mais duradouras.

Vasari descreve Salai como um “gracioso e bonito rapaz com um belo cabelo ondulado” e o seu nome é referido (embora riscado) no verso de um desenho erótico por Leonardo, The Incarnate Angel; redescoberto em 1991 numa colecção alemã, trata-se de um de uma série de desenhos eróticos de Salai (e outros?) por Leonardo, originalmente na British Royal Collection, sendo possivelmente uma variante bem-humorado do seu “São João Batista”[15]. O “Diabinho” fez jus ao seu nome: um ano após o ter recebido, Leonardo elaborou uma lista das suas qualidades, incluindo “ladrão, mentiroso, teimoso e glutão”. Apesar do seu mau comportamento geral – foi apanhado a roubar dinheiro e valores em, pelo menos, cinco ocasiões, gastou fortunas em vestuário e morreu, talvez, num duelo – Salai manteve-se como companheiro, assistente e serviçal de Leonardo por trinta anos, tendo recebido, em testamento, a Mona Lisa, já então muito valorizada.

Vinte anos mais tarde, o conde Melzi foi um companheiro mais tranquilo, embora talvez menos excitante, para o velho Leonardo. Numa carta, Melzi descreve a intimidade da sua relação com Leonardo como sviscerato et ardentissimo amore (“profundo e ardentíssimo amor”), e foi ele, mais que Salai, que acompanhou Leonardo nos seus últimos dias em França[16][17]. Melzi teve subsequentemente um papel importante como guardião dos livros de apontamentos de Leonardo, preparando-os para publicação de acordo com os desejos do seu mestre. No entanto, apesar de ser Melzi quem acompanhou Leonardo no seu leito de morte, um dos dois retratos que o artista manteve sempre na sua mesa de cabeceira foi o retrato de Salai como São João Batista, sorrindo enigmaticamente e apontando para o ceú com um dos dedos.

Referências

  1. Ir para cima White, Michael (2000). Leonardo, the first scientist. London: Little, Brown. p. 137. ISBN 0316648469(Leonardo’s homosexuality has been) “a subject too sensitive to investigate candidly.”
  2. ↑ Ir para:a b c Bramly, Serge (1994). Leonardo: The Artist and the Man. [S.l.]: Penguin. ISBN 0140231757
  3. Ir para cima Vasari, Giorgio (2006). The Life of Leonardo Da Vinci. [S.l.: s.n.] p. 26. ISBN 1428628800
  4. Ir para cima White, Michael (2000). Leonardo, the first scientist. London: Little, Brown. p. 7. ISBN 0316648469(Leonardo was) “a homosexual vegetarian born out of wedlock.”
  5. Ir para cima Abbott, Elizabeth (2001). History of Celibacy. [S.l.]: James Clark & Co. p. 21. 493 páginas. ISBN 0718830067
  6. Ir para cima Saslow, Ganymede in the Renaissance: Homosexuality in Art and Society, 1986, p.197
  7. Ir para cima White, Michael (2000). Leonardo, the first scientist. London: Little, Brown. p. 70. ISBN 0316648469
  8. Ir para cima Abbott, Elizabeth (2001). History of Celibacy. [S.l.]: James Clark & Co. p. 341. 493 páginas. ISBN 0718830067“To minimize or deny his homosexual orientation, he probably opted for the safety device of chastity.” (“Para minimizar ou negar a sua orientação sexual, ele provavelmente optou pela segurança da castidade”)
  9. ↑ Ir para:a b c Friedman, David M (2003). A Mind of Its Own: A Cultural History of the Penis. [S.l.]: Penguin. p. 48. 376 páginas. ISBN 0142002593
  10. ↑ Ir para:a b Freud, Sigmund (1964). Leonardo Da Vinci and a Memory of His Childhood. [S.l.]: Norton. ISBN 0393001490
  11. Ir para cima Clark, Kenneth (1988). Leonardo da Vinci. [S.l.]: Viking. 274 páginas. “Those who wish, in the interests of morality, to reduce Leonardo, that inexhausible source of creative power, to a neutral or sexless agency, have a strange idea of doing service to his reputation.” (“Os que desejam, no interesse da moralidade, reduzir Leonardo, essa fonte inexaurível de poder criativo, a um objecto neutro ou assexuado, tem uma estranha ideia sobre como contribuir para a sua reputação”)
  12. Ir para cima White, Michael (2000). Leonardo, the first scientist. London: Little, Brown. p. 95. ISBN 0316648469
  13. Ir para cima White, Michael (2000). Leonardo, the first scientist. London: Little, Brown. p. 133. ISBN 0316648469
  14. Ir para cima Oreno website (Italian)
  15. Ir para cima Sewell, Brian. Sunday Telegraph, April 5, 1992
  16. Ir para cima Michael Rocke, Forbidden Friendships epigraph, p. 148 & N120 p.298
  17. Ir para cima Crompton, Louis: Homosexuality and Civilization. NY, 2003. p.269
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