Direitos humanos, feminismo e igualdade racial: O que aprender com a trajetória da vereadora Marielle Franco


5ª vereadora com mais votos no Rio, socióloga foi assassinada nesta quarta-feira (14), após denunciar ações truculentas da PM.

DIVULGAÇÃO/PSOL
Entre as bandeiras defendidas pela vereadora, estava a preocupação com o impacto da violência e o acesso a serviços como creche.

Nascida em 1979 na Favela da Maré, na zona norte do Rio de Janeiro, a vereadora Marielle Franco (PSol) construiu uma trajetória de luta por direitos humanosfeminismo e igualdade racial. Contrária à intervenção federal de militares no Rio, a socióloga foi assassinada a tiros em seu próprio carro na noite da última quarta-feira (14), após denunciar ações truculentas da Polícia Militar.

Em 2016, foi a 5ª vereadora mais votada na cidade, com apoio de 46.502 eleitores. Ela não esperava mais do que 6 mil votos. “Fiquei muito feliz com essa votação expressiva porque eu acho que é uma resposta da cidade nas urnas para o que querem nos tirar, que é o debate das mulheres, da negritude e das favelas”, disse, à época ao Jornal da PUC-Rio, faculdade onde estudou.

Na campanha, Marielle destacou a importância da afetividade e assertividade das mulheres na luta por melhores condições sociais. “Não é sensibilidade. Não é mimimi. É firmeza”, afirmou. Entre as bandeiras, estava a preocupação com o impacto da violência e o acesso a serviços como creche.

A gente não tem que normalizar o entrar na favela e ter que acender as luzes ou sair da favela e ter que ouvir de agente de segurança que ainda não matou ninguém. A gente vai entrar, vai sair, vai fazer política, vai resistir, vai dar a cara. Isso é uma das coisas que me orgulha.

Foi nessa mesma eleição que Pedro Paulo (MDB) ficou em 3º lugar na disputa pela pela prefeitura do Rio. O candidato apoiado pelo então prefeito, Eduardo Paes (MDB), havia sido denunciado pela esposa, Alexandra Marcondes Teixeira, por violência doméstica.

Para a socialista, o debate contribuiu para o resultado nas urnas. “Acho que havia uma demanda represada muito grande, em especial no debate de gênero”, afimou ao Globo, após o resultado das eleições.

Este caso do Pedro Paulo, de se focar tanto na agressão específica a Alessandra (sua ex-mulher), tem até um quê de moralismo. Eu debato o feminismo no sentido mais amplo, de que este governo do PMDB agride as mulheres diariamente, na defasagem de vagas nas creches, no caos do transporte público.

Na época, Marielle era coordenadora da Comissão de Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). A atuação na área começou efetivamente em 2006, quando integrou a equipe da Comunidade da Maré na campanha de Marcelo Freixo (PSol) a deputado estadual. Marielle trabalhava na na integração do candidato com os movimentos sociais.

A luta social foi impulsionada também por um episódio pessoal. Em 2005, uma de suas amigas mais próximas foi vítima de uma bala perdida em um tiroteio entre policiais e traficantes na Maré.

Formada da PUC-Rio em Ciências Sociais, a vereadora chegou ao Ensino Superior por meio de uma bolsa integral no Pré-Vestibular Comunitário da Maré. “Cheguei à PUC muito arredia, ainda tomada pela sensação de pertencimento à favela. Eu me distanciava muito das patricinhas, dos mauricinhos, porque afinal eram de outra classe e outra renda”, contou ao jornal da Universidade.

Durante o curso, ficou grávida de Luyara aos 18 anos, motivo pelo qual não se envolveu com o movimento estudantil. “Eu já era mãe, então houve épocas em que eu trabalhei em dois horários”, contou.

Como socióloga, trabalhou como educadora infantil na Creche Albano Rosa, na Maré, se tornou professora e pesquisadora. Fez mestrado na Universidade Federal Fluminense (UFF) em Administração Pública. A dissertação foi uma análise da política de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro, com foco na Unidade de Polícia Pacificadora (UPP).

Denúncia contra forças de segurança na intervenção

RICARDO MORAES / REUTERS
Duas mulheres se abraçam próxima à cena do crime na noite desta quarta-feira (14), no Rio de Janeiro.

Relatora da Comissão da Câmara de Vereadores do Rio criada para acompanhar a atuação das tropas na intervenção federal na área de segurança do Rio, Marielle denunciou nos últimos dias ações de violência da Polícia Militar em operações na Favela de Acari, na Zona Norte do Rio.

No sábado, ela compartilhou em seu perfil no Facebook o relato de que policiais do 41º Batalhão da PM do Rio teriam aterrorizado moradores da comunidade. “Precisamos gritar para que todos saibam o está acontecendo em Acari nesse momento.” De acordo com o texto, 2 jovens teriam sido mortos.

https://www.facebook.com/plugins/post.php?href=https%3A%2F%2Fwww.facebook.com%2FMarielleFrancoPSOL%2Fposts%2F544774959241434&width=500No mesmo dia, ela postou a notícia do coletivo Fala Akari. De acordo com o relato, policiais do 41º BPM entraram na favela atirando por volta das 6 da manhã de sábado. “CHEGA de esculachar a população. CHEGA de matar nossos jovens”, escreveu a vereadora.

Uma escola em Guaratiba, na Zona Oeste do Rio, receberá o nome de Marielle, em uma homenagem. A unidade será inaugurada em 4 meses, de acordo com o prefeito do Rio, Marcelo Crivella (PRB).

Crivella decretou luto oficial de 3 dias e lamentou a morte da vereadora, mas não tratou de investigações do crime. “Nesse momento em que estamos sofrendo uma intervenção é realmente paradoxal. A gente esperava ter mais segurança, mas essa segurança ainda não chegou. Espero que chegue logo, que a gente não tenha que amargurar o que estamos sofrendo agora”, afirmou ao anunciar ações na área de educação nesta quinta-feira (15).

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