Violência contra a mulher: debates em escolas já produzem resultados positivos – Bloco 3


O projeto “Conversando sobre a Lei Maria da Penha nas escolas” já está produzindo resultados no Rio de Janeiro. Tudo começou quando o Ministério Público e a Secretaria de Educação resolveram discutir o problema com os alunos das escolas localizadas nos bairros com maiores índices de violência contra a mulher. As palestras, que começaram em agosto do ano passado, continuam em 2016. Também foram distribuídas cartilhas para os jovens conhecerem mais sobre a lei e folders com informações sobre medidas de proteção.

Discriminatória, intimidadora, brutal, histórica:

“Desde a agricultura, quando o homem começou a tomar posse das terras, ele achou que tinha direito sobre o corpo da mulher para garantir que os filhos fossem os herdeiros da terra. Desde então, o homem acha que ele é o dono da mulher. Então, a gente vem reproduzindo determinada cultura machista.”

O sentimento de posse transformou-se em violência. Quem explica é a psicóloga Patrícia Amazonas. No estado do Rio de Janeiro, as mulheres são 65,5% das vítimas de ameaça, 64% das vítimas de lesão corporal dolosa e 83,2% das vítimas de estupro. Os dados são do Dossiê Mulher 2015, pesquisa realizada anualmente pelo Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro. O estudo analisou as ocorrências registradas nas delegacias em todo o estado no ano de 2014. Os bairros que obtiveram os maiores índices de violência contra mulher foram Campo Grande, Santa Cruz, Bangu, Realengo, Taquara e Centro. Com base nesse cenário, o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro em parceria com a Secretaria de Educação resolveram discutir o problema com os alunos das escolas localizadas nesses bairros. A promotora de justiça Lúcia Bastos é uma das idealizadoras do projeto “Conversando sobre a Lei Maria da Penha nas Escolas”, no Rio de Janeiro. As palestras começaram em agosto do ano passado:

“A gente queria focar mesmo no seguinte: chamar atenção desses jovens para a gravidade desse tipo de violência contra a mulher e para alertar, também, que esse tipo de violência deve ser, de toda forma, repudiada. Então, muitas vezes, certas condutas que são reproduzidas, naturalizadas e, muitas vezes, banalizadas a gente quer demonstrar que isso é uma ofensa real à liberdade do outros.”

Até agora já foram visitadas 16 escolas da rede pública de ensino. Mais de 1000 alunos foram alcançados, além dos professores. Também foram distribuídas cartilhas para os jovens conhecerem mais sobre a Lei Maria da Penha e folders com informações sobre medidas de proteção. A assistente da Coordenação de Diversidade e Inclusão Educacional da Secretaria de Educação, Sueli Ramos, afirma que o debate fez muitos alunos se identificarem com o problema:

“Nós percebemos que, em algumas escolas, isso mexeu muito, sensibilizou muito alguns alunos. Houve o interesse sim de alguns alunos, de algumas escolas, de ficar. Até mesmo uma escola que é de uma área de maior risco, que a gente chama de área de risco aqui no Rio de Janeiro, onde tem as UPPs. Então, nessas escolas, esses alunos foram super atentos e alguns foram se identificando e fazendo perguntas.”

Por outro lado, esse conhecimento pode gerar dificuldades de adaptação para crianças que presenciam a violência contra a mulher na família. Para a psicóloga Patrícia Amazonas, especialista em educação e gênero, trabalhar o tema nas escolas exige também um preparo dos pais.

“A gente pode ter alguns embates, alguns entraves. Porque você pode ter um aluno que, em casa, ele vê o pai bater na mãe e o pai torna isso normal. Então, ele pode chegar em casa e dizer: ‘Ah, lá na escola estão dizendo que o homem não deve bater na mulher’; e o pai pode chegar na escola reclamando. Então, como isso pode ser abordado, inclusive ampliando e não só debatendo isso com os alunos, como ampliando com uma orientação aos pais.”

Algumas atividades desenvolvidas nas escolas já trouxeram resultados. É o que afirma a representante da Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro, Sueli Ramos:

“O que acontece com uma menina quando ela está namorando? Às vezes ela permite agressões que, pra ela, na hora é uma brincadeira, ela não sabe que aquilo é agressão. Ela é humilhada e isso chamou muito a atenção, porque foram relatados casos por professores de meninas que procuraram os professores a partir daí até pra relatar isso.”

A inserção do debate nas escolas promove o envolvimento e a participação dos alunos. Esse aprendizado pode reverter um quadro de violências contra a mulher. Para a psicóloga Patrícia Amazonas, os benefícios a longo prazo são a superação do sentimento de posse e a ampliação do respeito:

“E se a gente começa a discutir isso desde cedo nas escolas, tentando ampliar e mostrar às crianças que não existe essa coisa de propriedade, e sim, que o que vincula as pessoas é o amor, e o amor é um vínculo, de maneira geral, libertário e de respeito, então, as pessoas vão muito mais colaborar e se solidarizar do que, na verdade, violentar.”

As palestras nas escolas do Rio de Janeiro voltam no início deste ano.

No quarto capítulo da Reportagem Especial, conheça o projeto “Só um tapinha?”, que tenta conscientizar alunos do ensino médio.

Edição – Mauro Ceccherini
Reportagem – Ana Gabriela Braz e Bianca Marinho
Trabalhos técnicos – Marinho Magalhães e Paulino Souza
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