‘A violência doméstica contra a mulher é um problema cultural’, diz delegada


Até novembro, delegacia de Várzea Grande registrou 3.750 ocorrências.
Casos de ameaça, injúria e lesões corporais são os mais comuns.

Lislaine dos AnjosDo G1 MT

Delegada Daniela Maidel, que atua em defesa da mulher em Várzea Grande (Foto: Divulgação/PJC)
Delegada Daniela Maidel, que atua em defesa da
mulher em Várzea Grande (Foto: Divulgação/PJC)

A cultura do silêncio ainda faz com que muitas mulheres se mantenham caladas ao sofrerem algum tipo de violência doméstica. A avaliação é feita pela delegada Daniela Maidel, que atua na Delegacia Especializada de Defesa da Mulher, da Criança e do Idoso em Várzea Grande, região metropolitana de Cuiabá. Apesar da unidade atuar em defesa de três grupos vulneráveis distintos, a violência contra a mulher lidera o número de casos atendidos, segundo a delegada.

“A maior demanda é de violência doméstica contra a mulher, aquelas que acontecem dentro de casa, sendo que os casos de ameaça, lesão corporal e crimes contra a honra (injúria) lideram as ocorrências. Em segundo lugar aparecem os casos de violência contra a dignidade sexual, que mais ocorrem contra crianças e adolescentes”, afirmou.

Até o mês de novembro, a delegacia havia registrado 3.750 ocorrências de todas as naturezas, sendo que 794 casos resultaram na instauração de inquéritos policiais e 904 foram concluídos. Para Daniela Maidel, a análise dos casos mostram que, muitas vezes, os casos de violência contra a mulher ou contra crianças e adolescentes estão intimamente ligados.

“A mãe vem e denuncia uma lesão corporal e quando, você questiona os filhos, percebe que tem alguma coisa por ali e aí aparece um abuso. Ou acontece o contrário: a criança relata ser vítima de um abuso e conta que a mãe uma vez viu, mas que o pai ou padrasto bateu nela, falou que ia matá-la se ela fizesse alguma coisa. Existe uma grande quantidade de casos que envolve os dois tipos de violência. E aí você descobre que aquele lar  está ceifado pela violência”, avaliou.

Para a delegada, a violência doméstica é um problema cultural que envolve desde o uso da agressão verbal ou física para atingir seus objetivos quanto pela objetificação da mulher, que, segundo ela, ainda é vista como uma “coisa” pela sociedade.

“É um sentimento de posse que é colocado nas cabeças das pessoas desde pequena. Eu mando a ‘coisa’ embora, eu obrigo a ‘coisa’ a ficar, se a ‘coisa’ não ficar comigo não vai ficar com ninguém. Isso não é ciúme, é reflexo de uma educação machista, de que homem não pode perder. E o nascedouro disso tudo é na nossa cultura. Se criarmos meninas e meninos como seres humanos, que quando discordam sabem conversar e não usam violência como argumento, nós teremos uma sociedade melhor”, disse.

Delegacia de Defesa da Mulher em Várzea Grande (Foto: Divulgação/PJC)
Fachada da Delegacia de Defesa da Mulher em
Várzea Grande (Foto: Lislaine dos Anjos/G1)

Vergonha
Segundo a delegada, o mais chocante é ver o tempo pelo qual a violência pode se arrastar e até onde ela pode chegar, em alguns casos. “Na maioria das vezes em que a vítima morreu por causa de violência doméstica, você descobre que ela já era agredida há anos ou já havia sofrido várias agressões, mas que nunca havia registrado ocorrência, nunca havia denunciado”, afirmou.

Conforme Daniela, há também muitos casos em que as vítimas registram a ocorrência, mas não processam criminalmente os acusados, o que impede a polícia e a Justiça de tomarem qualquer atitude ou dar continuidade ao processo. Para Daniela, além da agressão sofrida, a pressão da sociedade e a cultura do silêncio ainda são obstáculos a serem superados pelas vítimas.

“Às vezes, a vítima quer a medida protetiva, mas não quer processar o agressor. A nossa cultura fala mais alto quando o assunto é violência doméstica. Existe uma pressão muito grande da família em cima da mulher. A primeira pergunta sempre é: ‘você vai processar o pai dos seus filhos? É uma cultura do silêncio, que faz com que a mulher pense que ela deve relevar tudo o que vier, sem questionar, enquanto que, em uma relação harmônica, ninguém precisa relevar nada, simplesmente respeitar’, afirmou a delegada.

Eu mando a ‘coisa’ embora, eu obrigo a ‘coisa’ a ficar, se a ‘coisa’ não ficar comigo não vai ficar com ninguém. Isso não é ciúme, é reflexo de uma educação machista, de que homem não pode perder. E o nascedouro disso tudo é na nossa cultura”
Delegada Daniela Maidel

Em alguns casos, segundo Daniela, as vítimas esperam a situação chegar ao extremo para somente então procurarem a polícia. Há casos de vítimas que alegam sofrer violência física há pelo menos 20 anos, mas que esperaram os filhos crescerem para dar um basta à situação, muitas vezes sem possuírem provas que ajudem a incriminar o suspeito.

“Nós fazemos procedimentos policiais. Precisamos de autoria, de materialidade. A pessoa me diz que o homem sempre bateu nela, mas ela nunca deu entrada em um hospital, nunca mostrou a agressão ou desabafou a situação para alguém por vergonha. Isso dificulta bastante”, disse.

Daniela salientou que, em alguns casos, não há como a vítima desistir de um processo. “Em caso de crimes de ameaça, injúria, n[os dependemos da representação da vítima. Mas, em caso de lesão corporal, precisamos apenas da denúncia da vítima e, nesse caso, não tem como desistir depois”, explicou

Violência disseminada
Conforme a delegada, a maior parte dos agressores e das vítimas possuem entre 25 e 50 anos de idade, mas a violência doméstica está disseminada por todas as classes e entre todos os tipos de relacionamentos, sejam casos de casais héteros e homossexuais até problemas entre pais e filhas, padrastos e enteadas e irmão e irmã. “Há casos de agressores e vítimas com apenas 18 anos. Muitas vezes, na fase de namoro já é possível identificar um relacionamento abusivo”, alertou.

Na avaliação de Daniela, a violência doméstica não é desencadeada apenas por uso de álcool ou drogas, usado como justificativa por alguns agressores quando interrogados, mas é algo que já está dentro de cada um, seja pela índole ou pela criação que recebeu.

“Se você cresce em uma casa em que você vê o seu pai batendo na sua mãe, onde não existe um diálogo, acaba reproduzindo aquilo, entende que pra se comunicar tem que bater, que é a única forma de chamar a atenção. Essa criança, quando crescer e usar drogas ou beber, vai exteriorizar o que estiver sentindo por meio de atos violentos”, analisou.

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