Qual o motivo da esquerda difamar Downton Abbey?


Por Jerry Bowyer [*]

A primeira coisa a fazer é admitir que sou um fã de Downton Abbey. Na verdade, assisti a todos os episódios duas vezes. Mas, em minha defesa, equilibrei as coisas passando pelo menos uma hora com minha motoserra para cada hora gasta no Masterpiece Classic.

huntingUma das primeiras coisas que se percebe, quando se faz parte do público cativo das produções da BBC, é que Downton é extraordinariamente bem equilibrado tanto religiosamente quanto ideologicamente. Um outro aspecto a ser notado por quem assiste muito a BBC é que os personagens referem-se a si mesmos na terceira pessoa ao invés da primeira. Mas isso é outro assunto…

Se o espectador está esperando mais do mesmo da BBC, Downtono surpreenderá. É diferente do mordomo Jarbas de PG Wodehouse, correndo atrás de seu amo. É diferente do enfoque dado aos ricos como em Brideshead Revisted, cheia de idosos ranzinzas e alcoólatras, e a homossexualidade reprimida de seus rebentos. É diferente de Easy Virtue de Noel Coward com sua sátira a hipocrisia que surge entre os ricos e seus comportamentos religiosos e sexuais disfuncionais… sim, de novo o clichê da repressão.

Os ricos de Downton não são reprimidos, eles são contidos. Eles não são incestuosos, tolos e retrógrados; eles são inteligentes e pensativos. No geral eles tratam seus funcionários bem, se preocupam com bem-estar deles e, por sua vez, são geralmente respeitados por eles. São, em uma palavra, admiráveis. E, para um drama de época, essa abordagem é, em uma palavra, surpreendente. E surpresa é um elemento essencial de um drama convincente.

Filmes e séries sobre os modos da aristocracia Eduardiana representados por cavalheiros impiedosos são maçantes, como o zumbido constante e sem fim (até que alguém a desligue) de uma lâmpada fluorescente. Downton Abbey é o que George Gilder chamaria o rompimento entrópico dos bastidores da revolta contra o velho mundo. Para retratar Lord e Lady Grantham como algo diferente de bêbados, tolos, hipócritas, tarados ou frígidos (ou na melhor das hipóteses, ambas as coisas) é em si um ato de rebeldia cultural.

Esta é a razão da esquerda estar atacando Downton Abbey. A coluna Art Beat do New York Times noticiou que os críticos britânicos estão difamando Downton Abbey. Aparentemente Downton Abbey é uma necrofilia cultural esnobe (caso não tenha ideia do que isso signifique deixe pra lá) e sua popularidade nos Estados Unidos se dá pela ascensão do Tea Party e a oposição dos conservadores ao imposto sobre a herança. Pior ainda, Julian Fellowes é um simpatizante do feudalismo. Definitivamente não é o tipo de pessoa decente.

A primeira vista pode-se pensar que isso foi longe demais, colocar politica onde não cabe. Mas pensando bem, a reação da esquerda é compreensível. Eles e Julian Fellowes estão em lados opostos. Mas isso não quer dizer que Julian Fellowes esteja no lado da direita e eles do lado da esquerda. É que Fellowes está no centro e eles na extrema esquerda. Downton Abbey não é uma apologia a velha ordem. Apenas lhes dá o devido reconhecimento.

image-1-for-christmas-tv-gallery-687066892Sim, Lord Grantham é admirável mas não é perfeito. Ele tem um caso com uma das camareiras. Ele injustamente perde as estribeiras com o Sr. Bates. Ele perde toda a fortuna na família em um mau investimento. Ele tem pouca estima pelos católicos (e Julian Fellowes certamente o repreenderia pois é um católico praticante). O mais trágico é ele deixar sua solidariedade por seus iguais resultar em uma decisão médica que leva a morte de sua filha.

No geral, Lord Grantham é leal, inteligente, decente e benevolente. O mundo há de mudar; ele sabe disso, mas ele quer que a mudança se dê de forma gradual. Sua esposa e filhos não são mais sagazes que ele (um diferencial a favor do seriado em relação a todas as outras representações televisivas de uma família), mas às vezes demonstram uma sensatez maior que a dele… assim como ocorre no mundo real.

Fellowes parece dizer que a velha ordem teve seus dias; apesar de não ter sido perfeita foi boa enquanto durou. Ela merece um enterro decente e boas memórias. Ele parece querer dizer que a mudança como um fim em si mesma é tão destrutiva quanto preservar algo pelo simples prazer de preservar. Emancipação da mulher, bacana. O aumento de um conjunto de regulamentações, péssimo. Meu amigo John Tamny (editor desse site) deu-me um bom prisma da filosofia política de Fellowes expressa em suas obras.

Mas Downton Abbey é também uma tréplica à moda atual da luta de classes. Em uma recente entrevista com o Wall Street Journal:

“Eu penso que – não está implícito e sim explícito – em ‘Downton,’ a possibilidade de todos nós sermos bem-sucedidos, sendo desnecessário manter essa luta de classes permanentemente – para a maioria dos espectadores, o fato das pessoas levarem estilos de vida diferentes com realidades econômicas e expectativas diferentes é perfeitamente aceitável.”

“Se você é incapaz de lidar com isso,” ele continua, “ então sua vida se tornará insuportável. E eu penso que os políticos encorajam as pessoas a nutrir uma certa animosidade por aqueles que vivem em uma realidade distinta das suas, o que eu acredito ser muito improdutivo e nada inovador.”

Então a mensagem de Downton Abbey é pela conciliação de classes. A verdade é que os seus críticos estão na extrema esquerda do espectro político, e talvez esse seja o motivo de Downton Abbey deixá-los irritados, pois o sucesso da série indica que os radicais da esquerda só falam por si mesmos e não pela América [como querem nos fazer acreditar].

Isso também revela algo igualmente importante para o futuro da nossa cultura: a de que para as redes de TV é desnecessário estar no lado esquerdo do espectro político. Histórias simpáticas à virtude, preservação da propriedade e admiração da nobreza e da riqueza podem ser contadas maravilhosamente e para amplas audiências, e eu suspeito que haverão mais [seriados] nessa linha no futuro.

[*] Jerry Bowyer. “Down on Downton: Why The Left is Torching Downton Abbey”. Forbes, 14 de Fevereiro de 2013.

Tradução: Rodrigo Carmo

Revisão: William Dellatorre

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