Big Data encontra o Big Brother à medida que a China se move para avaliar seus cidadãos


Por Rachel Botsman [*]

O governo chinês planeja lançar seu Sistema de Crédito Social em 2020. O objetivo? Julgar a confiabilidade – ou não – de seus 1,3 bilhões de habitantes

Em 14 de junho de 2014, o Conselho de Estado da China publicou um documento sinistro, intitulado “Esquema de Planejamento para a Construção de um Sistema de Crédito Social”. Em termos de documentos de política chinesa, era um caso longo e bastante árduo, mas continha uma idéia radical. E se houvesse um índice nacional de confiança que avaliasse o tipo de cidadão que você é?

Imagine um mundo em que muitas de suas atividades diárias sejam constantemente monitoradas e avaliadas: o que você compra nas lojas e on-line; onde você está em um determinado momento; quem são seus amigos e como você interage com eles; quantas horas você gasta assistindo conteúdo ou jogando videogames; e quais contas e impostos você paga (ou não). Não é difícil imaginar, porque a maior parte disso já acontece, graças a todos aqueles gigantes de coleta de dados como Google, Facebook e Instagram ou aplicativos de monitoramento de saúde como o Fitbit. Mas agora imagine um sistema onde todos esses comportamentos são classificados como positivos ou negativos e transformados em um único número, de acordo com regras estabelecidas pelo governo. Isso criaria sua Pontuação Cidadã (Citizen Score) e diria a todos se você é confiável ou não. Além disso, sua pontuação seria classificada publicamente em relação à de toda a população e usada para determinar sua elegibilidade para uma hipoteca ou um emprego, onde seus filhos podem ir à escola — ou mesmo apenas suas chances de obter um relacionamento.

Uma visão futurista de um Big Brother fora de controle? Não, já está em andamento na China, onde o governo está desenvolvendo o Sistema de Crédito Social (SCS) para avaliar a confiabilidade de seus 1.3 bilhões de cidadãos. O governo chinês está lançando o sistema como uma maneira oportuna de medir e aprimorar a “confiança” em todo o país e construir uma cultura de “sinceridade”. Como a lei afirma: “Isso forjará um ambiente de opinião pública onde manter a confiança seja algo glorioso. E fortalecerá a sinceridade nos assuntos governamentais, sinceridade comercial, sinceridade social e construção da credibilidade judicial”.

Outros são menos otimistas quanto ao seu propósito mais amplo. “É muito ambicioso em profundidade e alcance, incluindo o controle do comportamento individual e de livros que as pessoas estão lendo. É o rastreamento do consumidor da Amazon com um toque político orwelliano”, é como Johan Lagerkvist, especialista em internet da China no Instituto Sueco de Assuntos Internacionais, descreveu o sistema de crédito social. Rogier Creemers, um especialista com pós-doutorado especializado em direito chinês e governança no Instituto Van Vollenhoven da Universidade de Leiden, publicou uma tradução abrangente do plano, comparou-o com “análises de Yelp com o Estado babá vigiando por cima de seu ombro”.

Por enquanto, tecnicamente, participar do Citizen Scores da China é voluntário. Entretanto em 2020 será obrigatório. O comportamento de cada cidadão e pessoa jurídica (que inclui todas as empresas ou outras entidades) na China será avaliado e classificado, quer queiram ou não.

Antes de sua implantação nacional em 2020, o governo chinês está adotando um método de observação e aprendizado. Neste casamento entre a supervisão comunista e o “capitalismo” proativo, o governo concedeu uma licença a oito empresas privadas para criar sistemas e algoritmos para a pontuação de crédito social. Previsivelmente, gigantes do Big Data atualmente executam dois dos projetos mais conhecidos.

O primeiro é com a China Rapid Finance, um parceiro do gigante da rede social Tencent e desenvolvedor da aplicação de mensagens WeChat com mais de 850 milhões de usuários ativos. O outro, o Sesame Credit, é administrado pelo Ant Financial Services Group (AFSG), uma empresa afiliada da Alibaba. A Ant Financial vende produtos de seguros e fornece empréstimos a pequenas e médias empresas. No entanto, a verdadeira estrela da Ant é o AliPay, seu braço de pagamentos que as pessoas usam não só para comprar coisas on-line, mas também para restaurantes, táxis, mensalidades escolares, bilhetes de cinema e até mesmo para transferirem dinheiro uns aos outros.

O Sesame Credit também se uniu a outras plataformas geradoras de dados, como a Didi Chuxing, a companhia de transporte privado urbano que foi a principal concorrente da Uber na China antes de adquirir as operações chinesas da empresa americana em 2016, e Baihe, o maior serviço de paqueras online do país. Não é difícil ver como tudo isso acrescenta quantidades gigantescas de dados importantes que o Sesame Credit pode aproveitar para avaliar como as pessoas se comportam e classificá-las de acordo.

Então, como as pessoas são classificadas? Os indivíduos no Sesame Credit são medidos por uma pontuação que varia entre 350 e 950 pontos. A Alibaba não divulga o “algoritmo complexo” que usa para calcular o número, mas revelam os cinco fatores considerados. O primeiro é o histórico de crédito. Por exemplo, o cidadão paga sua conta de energia ou telefone pontualmente? A seguir, a capacidade de realização, que define nas suas diretrizes como “a capacidade do usuário de cumprir suas obrigações contratuais”. O terceiro fator é a característica pessoal, verificando informações pessoais como o número de telefone celular e o endereço de alguém. Entretanto a quarta categoria, comportamento e preferência, é onde fica interessante.

Sob este sistema, algo tão inócuo quanto os hábitos de compra de uma pessoa se tornam uma medida de caráter. Alibaba admite que julga as pessoas pelos tipos de produtos que compram. “Alguém que joga videogames durante dez horas por dia, por exemplo, seria considerado um ocioso”, diz Li Yingyun, Diretor de Tecnologia do Sesame. “Alguém que compra frequentemente fraldas seria considerado como um pai possivelmente, que em geral é mais facil ter um senso de responsabilidade”. Portanto, o sistema não apenas investiga o comportamento — ele o molda. Ele “empurra” para longe os cidadãos de compras e comportamentos que o governo não gosta.

Os amigos também são importantes. A quinta categoria é o relacionamento interpessoal. O que a escolha de amigos virtuais e suas interações dizem sobre a pessoa avaliada? Compartilhando o que o Sesame Credit se refere como “energia positiva” on-line, boas mensagens sobre o governo ou o quão bem a economia do país está indo farão sua pontuação subir.

A Alibaba é categórica em dizer que, atualmente, qualquer coisa negativa publicada nas mídias sociais não afeta as pontuações (não sabemos se isso é verdade ou não porque o algoritmo é secreto). Entretanto você poderá assistir o desenlace disso quando o sistema de classificação do cidadão pelo governo for oficialmente lançado em 2020. Mesmo assim, ainda não há nenhuma sugestão de que qualquer uma das oito empresas privadas envolvidas no projeto piloto em curso será responsável por administrar o sistema próprio do governo, é difícil acreditar que o governo não desejará extrair a quantidade máxima de dados para o seu SCS, dos projetos-pilotos. Se isso acontecer e vir a se tornar a nova norma sob o SCS do governo, isso resultará em plataformas privadas que atuam essencialmente como agências de espionagem para o governo. Eles podem não ter escolha.

Publicar opiniões políticas dissidentes ou links que mencionam a Praça da Tiananmen nunca foi uma boa ideia na China, mas agora poderia prejudicar diretamente a classificação de um cidadão. Contudo aqui está o verdadeiro detalhe: a própria pontuação de uma pessoa também será afetada pelo que seus amigos virtuais dizem e fazem, além de seu próprio contato com eles. Se alguém a quem eles estão conectados publicar um comentário negativo, sua própria pontuação também será arrastada para baixo.

Então, por que milhões de pessoas já se inscreveram para o que equivale a um período de experiência para um sistema de vigilância governamental aprovado publicamente? Pode haver razões mais obscuras e não declaradas — medo de represálias, por exemplo, para aqueles que não se rendem — mas também há uma isca, sob a forma de recompensas e “privilégios especiais” para os cidadãos que provem ser “confiáveis” no Sesame Credit.

Se sua pontuação alcançar 600, você pode retirar um empréstimo na Just Spend de até 5.000 yuan (cerca de £ 565) para fazer compras online, desde que seja em um site Alibaba. Ao alcançar 650 pontos, você pode alugar um carro sem fazer um depósito caução. Você também tem direito a check-in mais rápido nos hotéis e ao uso do check-in VIP no Aeroporto Internacional de Pequim. Aqueles com mais de 666 pontos podem obter um empréstimo em dinheiro de até 50.000 yuan (£ 5.700), obviamente, da Ant Financial Services. Consiga acima de 700 e você poderá solicitar viagens para Singapura sem documentos de apoio, como uma declaração de emprego. E com 750, você obtém uma aplicação acelerada para um disputado visto Schengen pan-europeu. “Eu acho que a melhor maneira de entender o sistema é como uma espécie de uma criança bastarda filha de um esquema de fidelidade”, diz Creemers.

Altas pontuações já se tornaram um símbolo de status, com quase 100.000 pessoas se gabando de suas pontuações no Weibo (o equivalente chinês do Twitter) há apenas alguns meses do seu lançamento. A pontuação de um cidadão pode até afetar suas chances de namorar ou casar, porque quanto maior a classificação de Sesame, mais proeminente seu perfil de namoro estará em Baihe.

O Sesame Credit já oferece dicas para ajudar os indivíduos a melhorar sua classificação, incluindo alertas sobre as desvantagens de fazer amizade com alguém que tenha uma baixa pontuação. Isso pode levar à ascensão de conselheiros de pontuação, que compartilharão dicas sobre como ganhar pontos ou consultores de reputação dispostos a oferecer conselhos especializados sobre como melhorar estrategicamente uma classificação ou sair da lista negra de confiança.

De fato, o Sistema de Crédito Social do governo é basicamente uma versão Big Data ludificada dos métodos de vigilância do Partido Comunista; o inquietante dang’an. O regime manteve um dossiê de cada indivíduo que acompanhava as transgressões políticas e pessoais. O dang’an de um cidadão o acompanha por toda a vida, das escolas aos empregos. As pessoas começaram a informar sobre amigos e até membros da família, levantando suspeitas e reduzindo a confiança social na China. O mesmo acontecerá com os dossiês digitais. As pessoas terão um incentivo para dizer aos seus amigos e familiares: “Não publique isso. Não quero que você prejudique sua pontuação, mas também não quero que prejudique a minha”.

Também estamos fadados a ver o nascimento de um mercado negro de reputações vendendo métodos ilegais de aumento da confiabilidade. Da mesma forma que as “curtidas” do Facebook e os “seguidores” do Twitter podem ser comprados, os indivíduos pagarão para manipular sua pontuação. E quanto a manter o sistema seguro? Os hackers (alguns até respaldados pelo estado) podem mudar ou roubar as informações armazenadas digitalmente.

“Pessoas com baixas classificações terão velocidades de Internet mais lentas, acesso restrito a restaurantes e remoção do direito de viajar” Rachel Botsman, autora de “Who Can You Trust?”

O novo sistema reflete uma mudança de paradigma inteligente. Como observamos, em vez de tentar impor estabilidade ou conformidade com um grande bastão e uma boa dose de medo de cima para baixo, o governo está tentando fazer a obediência parecer como jogos. É um método de controle social mascarado em algum sistema de pontos e recompensas. É obediência lúdica.

Em um bairro moderno no centro de Pequim, o serviço de notícias da BBC foi as ruas em outubro de 2015 para perguntar às pessoas sobre suas classificações de Sesame Credit. A maioria falou sobre os altos níveis. No entanto, quem criticaria publicamente o sistema? Ding, sua pontuação pode diminuir. De forma alarmante, poucas pessoas entenderam que uma nota ruim poderia prejudicá-los no futuro. Ainda mais preocupante foi quantas pessoas não tinham ideia de que estavam sendo avaliadas.

Atualmente, o Sesame Credit não penaliza diretamente as pessoas por serem “não confiáveis” – é mais eficaz bloquear pessoas com presentes para o bom comportamento. Todavia Hu Tao, gerente-chefe do Sesame Credit, adverte as pessoas que o sistema foi projetado para que “as pessoas não confiáveis não possam alugar um carro, não possam pedir dinheiro emprestado e nem mesmo encontrar um emprego”. Ela até divulgou que o Sesame Credit se aproximou da Secretaria de Educação da China sobre compartilhar uma lista de seus alunos que colavam nos exames nacionais, para que no futuro eles pagassem por sua desonestidade.

As penalidades devem mudar drasticamente quando o sistema governamental se tornar obrigatório em 2020. De fato, em 25 de setembro de 2016, o Escritório Geral do Conselho de Estado atualizou sua política intitulada “Mecanismos de Aviso e Punição para Pessoas Sujeitas à Execução de Ruptura de Confiança”. O princípio primordial é simples: “Se a confiança é quebrada em um só lugar, as restrições são impostas em todos os lugares”, afirma o documento de política.

Por exemplo, pessoas com baixas classificações terão velocidades mais lentas na internet; acesso restrito a restaurantes, discotecas ou campos de golfe; e a remoção do direito de viajar livremente para o exterior, citando, “controle restritivo sobre o consumo dentro das áreas de férias ou negócios de viagem”. As pontuações influenciarão as aplicações de renda de uma pessoa, sua capacidade de obter seguro ou um empréstimo e até mesmo benefícios de previdência social. Cidadãos com pontuações baixas não serão contratados por certos empregadores e serão proibidos de obter alguns empregos, inclusive no serviço público, no jornalismo e no direito, onde é claro que você deve ser considerado confiável. Os cidadãos de baixa classificação também serão restringidos quando se tratar de se inscrever a si mesmos ou seus filhos em escolas privadas de custo elevado. Não estou inventando essa lista de punições. É a realidade que os cidadãos chineses enfrentarão. Como afirma o documento do governo, o sistema de crédito social “permitirá que os dignos de confiança andem por qualquer lugar sob o céu, tornando difícil para o desacreditado a dar um único passo”.

De acordo com Luciano Floridi, professor de filosofia e ética da informação na Universidade de Oxford e diretor de pesquisa do Oxford Internet Institute, houve três “mudanças de centralização” críticas que alteraram nossa visão de autocompreensão: Modelo de Copérnico da Terra em órbita ao Sol; Teoria de Darwin da seleção natural; e a afirmação de Freud de que nossas ações diárias são controladas pela mente inconsciente.

Floridi acredita que estamos entrando na quarta mudança, em que o que fazemos online e offline fundem-se em uma vida. Ele afirma que, à medida que nossa sociedade se torna cada vez mais uma infosfera, uma mistura de experiências físicas e virtuais, estamos adquirindo uma personalidade onlife – diferente de quem somos naturalmente no “mundo real” apenas. Vemos isso claramente no Facebook, onde as pessoas apresentam um retrato editado ou idealizado de suas vidas. Pense sobre as suas experiências com Uber. Você é apenas um pouco mais parassimpático com o motorista porque sabe que você será classificado? Mas as avaliações da Uber não são nada comparadas ao Peeple, um aplicativo lançado em março de 2016, que é como um Yelp para humanos. Ele permite que você atribua classificações e avaliações a todos que você conhece – seu esposo, vizinho, chefe e até mesmo seu ex. Um perfil exibe um “número Peeple”, uma pontuação baseada em todos os comentários e recomendações que você recebe. Assustadoramente, uma vez que seu nome está no sistema Peeple, está lá para sempre.Você não pode sair.

Peeple proibiu certos comportamentos ruins, incluindo mencionar condições de saúde privadas, dizer palavrões ou ser sexistas (seja lá como você avalie isso objetivamente). Porém, há poucas regras sobre como as pessoas são classificadas ou padrões sobre transparência.

O sistema de confiança da China pode ser voluntário ainda, mas já está tendo consequências. Em fevereiro de 2017, o Tribunal Supremo Popular do país anunciou que 6,15 milhões de seus cidadãos haviam sido proibidos de pegar vôos nos últimos quatro anos por delitos sociais. A proibição está sendo apontada como um passo em direção à lista negra no SCS. “Assinamos um memorando … [com mais de] 44 departamentos governamentais para limitar pessoas ‘desacreditadas’ em vários níveis”, diz Meng Xiang, chefe do departamento executivo da Suprema Corte. Outras 1,65 milhões de pessoas da lista negra não podem pegar trens.

Onde esses sistemas realmente caem no território de pesadelo é que os algoritmos de confiança utilizados são injustificadamente redutores. Eles não levam em consideração o contexto. Por exemplo, uma pessoa pode perder o pagamento de uma conta ou uma multa porque eles estavam no hospital; outro pode ser simplesmente um parasita. E nisso reside o desafio que todos nós enfrentamos no mundo digital e não apenas os chineses. Se os algoritmos determinantes da vida vieram para ficar, precisamos descobrir como eles podem abraçar as nuances, inconsistências e contradições inerentes aos seres humanos e como eles podem refletir a vida real.

Você pode ver o chamado plano de confiança da China como o encontro de 1984 de Orwell com os cães de Pavlov. Porte-se como um bom cidadão, seja recompensado e seja levado a pensar que você está se divertindo. Vale lembrar, no entanto, que sistemas de pontuação pessoal estão presentes no Ocidente há décadas.

Mais de 70 anos atrás, dois homens chamados Bill Fair e Earl Isaac inventaram pontuações de crédito. Hoje, as empresas usam pontuações FICO para determinar muitas decisões financeiras, incluindo a taxa de juros em nossa hipoteca ou se devemos receber um empréstimo.

Para a maioria dos chineses, eles nunca tiveram pontuação de crédito e, portanto, não conseguem crédito. “Muitas pessoas não possuem casas, carros ou cartões de crédito na China, de modo que esse tipo de informação não está disponível para medir”, explica Wen Quan, um blogueiro influente que escreve sobre tecnologia e finanças. “O banco central tem os dados financeiros de 800 milhões de pessoas, mas apenas 320 milhões têm um histórico de crédito tradicional”. Segundo o Ministério do Comércio Chinês, a perda econômica anual causada pela falta de informações de crédito é de mais de 600 bilhões de yuans (£ 68 bilhões).

A falta de um sistema de crédito nacional na China é a razão pela qual o governo é crê firmemente que o Citizen Scores está muito atrasado e precisa urgentemente consertar o que eles chamam de “déficit de confiança”. Num mercado mal regulamentado, a venda de produtos falsificados e de qualidade inferior é um enorme problema. De acordo com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), 63% de todos os bens falsos, de relógios a bolsas e alimentos para bebês, são originários da China. “O nível de microcorrupção é enorme”, diz Creemers. “Então, se este sistema específico resultar em supervisão e responsabilidade mais eficaz, provavelmente será bem-vindo”.

O governo também argumenta que o sistema é uma maneira de trazer as pessoas deixadas de fora dos sistemas tradicionais de crédito, como estudantes e famílias de baixa renda. A professora Wang Shuqin, do Escritório de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Capital Normal, na China, ganhou recentemente um concurso para ajudar o governo a desenvolver o sistema que ela se refere como “Sistema Social Fiel da China”. Sem esse mecanismo, fazer negócios na China é arriscado, ressalta, já que cerca de metade dos contratos assinados não são mantidos. “Dada a velocidade da economia digital, é crucial que as pessoas possam verificar rapidamente o mérito de crédito de cada um”, diz ela. “O comportamento da maioria é determinado pelo seu mundo de pensamentos. Uma pessoa que acredita nos valores socialistas fundamentais está se comportando de maneira decente”. Ela considera os “padrões morais” que o sistema avalia, bem como dados financeiros, como um bônus.

De fato, o objetivo do Conselho de Estado é elevar a “mentalidade honesta e os níveis de crédito de toda a sociedade”, a fim de melhorar “a competitividade geral do país”. É possível que o SCS seja de fato uma abordagem mais desejável e transparente para a vigilância em um país que tem uma longa história de vigiar seus cidadãos? “Como uma pessoa chinesa, sabendo que tudo o que faço online está sendo rastreado, eu prefiro estar ciente dos detalhes do que está sendo monitorado e usar essa informação para me ensinar a cumprir as regras?” diz Rasul Majid, um blogueiro chinês com sede em Xangai, que escreve sobre design comportamental e psicologia dos jogos. “Ou prefiro viver na ignorância e espero / desejo / sonho que a privacidade pessoal ainda existe e que nossos órgãos governamentais nos respeitem o suficiente para não levar vantagem?” Simplificando, Majid acha que o sistema lhe dá um pouco mais de controle sobre seus dados.

Quando falo aos ocidentais sobre o Sistema de Crédito Social na China, suas respostas são fervorosas e viscerais. No entanto, já avaliamos restaurantes, filmes, livros e até médicos. O Facebook, enquanto isso, agora é capaz de identificá-lo em imagens sem ver seu rosto; ele só precisa de sua roupa, cabelo e tipo de corpo para marcar você em uma imagem com 83% de precisão.

Em 2015, a OCDE publicou um estudo revelando que nos EUA existem pelo menos 24,9 dispositivos conectados por 100 habitantes. Todos os tipos de empresas examinam o “big data” emitido por esses dispositivos para entender nossas vidas e desejos, e para prever nossas ações de forma que nós mesmos não podíamos prever.

Governos de todo o mundo já estão no mercado de monitoramento e classificação. Nos EUA, a Agência de Segurança Nacional (NSA) não é o único olho digital oficial que segue os movimentos de seus cidadãos. Em 2015, a US Transportation Security Administration propôs a idéia de expandir as verificações de antecedentes do PreCheck para incluir registros de mídia social, dados de localização e histórico de compras. A idéia foi descartada após críticas pesadas, mas isso não significa que está morta. Nós já vivemos em um mundo de algoritmos preditivos que determinam se somos uma ameaça, um risco, um bom cidadão e até mesmo se somos confiáveis. Estamos nos aproximando do sistema chinês – a expansão da pontuação de crédito na pontuação da vida – mesmo que não saibamos.

Então, estamos indo para um futuro em que todos nós seremos marcados online e teremos nossos dados minerados? Certamente, a tendência é esta. Salvo algum tipo de revolta de cidadãos em massa para recuperar a privacidade, estamos entrando em uma época em que as ações de um indivíduo serão julgadas por padrões que não podem controlar e onde esse julgamento não pode ser apagado. As consequências não são apenas perturbadoras; elas são permanentes. Esqueça o direito de excluir ou ser esquecido, ser jovem e tolo.

Embora seja tarde demais para parar essa nova era, nós temos escolhas e direitos que podemos exercer agora. Por um lado, precisamos ser capazes de avaliar os avaliadores. Em seu livro The Inevitable, Kevin Kelly descreve um futuro onde os observadores e os observados se rastrearão de forma transparente. “Nossa escolha central agora é se essa vigilância é um segredo, um panóptico unidirecional – ou um tipo de “espionagem” mútua e transparente que envolve vigiar os vigilantes”, ele escreve.

Nossa confiança deve começar com indivíduos dentro do governo (ou quem estiver controlando o sistema). Precisamos de mecanismos confiáveis para garantir que as classificações e os dados sejam utilizados de forma responsável e com a nossa permissão. Para confiar no sistema, precisamos reduzir as incógnitas. Isso significa tomar medidas para reduzir a opacidade dos algoritmos. O argumento contra divulgações obrigatórias é que se você sabe o que acontece sob o capô, o sistema pode ser manipulado ou invadido. Entretanto se os seres humanos estão sendo reduzidos a uma classificação que possa impactar significativamente suas vidas, deve haver transparência em como funciona a pontuação.

Na China, certos cidadãos, como funcionários do governo, provavelmente serão considerados acima do sistema. Qual será a reação do público quando suas ações desfavoráveis não afetarem sua pontuação? Poderemos ver um Panama Papers 3.0 para a fraude na reputação.

Ainda é cedo demais para saber como uma cultura de monitoramento constante somada à classificação irá terminar. O que acontecerá quando estes sistemas, que traçam a história social, moral e financeira de toda uma população, entrarem em vigor? Quanto mais a privacidade e a liberdade de expressão (há muito sob cerco na China) serão enfraquecidas? Quem irá decidir de que rumo tomará o sistema? Estas são questões que todos devemos considerar, e em breve. Hoje a China, amanhã um lugar perto de você. As questões reais sobre o futuro da confiança não são tecnológicas ou econômicas; elas são éticas.

Se não estivermos vigilantes, a confiança distribuída pode tornar-se constrangimento em rede. A vida se tornará um concurso de popularidade sem fim, com todos nós competindo pela classificação mais alta que apenas alguns podem atingir.

Este é um extrato de Who Can You Trust? How Technology Brought Us Together and Why It Might Drive Us Apart (Penguin Portfolio) por Rachel Botsman, publicada em 4 de outubro. Desde que esta peça foi escrita, o People’s Bank of China atrasou as licenças para as oito empresas que conduziam pilotos de crédito social. Os planos do governo para lançar o Sistema de Crédito Social em 2020 permanecem inalterados.

[*] Rachel Botsman. “Big data meets Big Brother as China moves to rate its citizens”. Wired, 21 de Outubro de 2017.

Tradução: Cássia H.

Revisão: dvgurjao

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