H.G. Wells. O homem que inventou o amanhã


H.G.Wells surge na segunda fila de retratos da capa de Sgt Peppers

Foi o primeiro escritor a referir uma invasão da Terra por alienígenas, o poder da manipulação genética e o peso de uma guerra nuclear. Tudo antes do tempo. Nasceu há 150 anos

Por quatro vezes, o seu nome – Herbert George Wells face à lei, H.G. Wells para os leitores e admiradores, Bertie para família e amigos – foi associado ao Nobel da Literatura, que nunca conquistou. Em contrapartida, os seus escritos, e também a sua personalidade, garantiram-lhe o direito a integrar a lista de notáveis presentes na capa (um verdadeiro “quem é quem” da Civilização e da Cultura) de Sgt. Pepper”s Lonely Hearts Club Band, o mais idolatrado álbum dos Beatles, expoente da cultura rock, agora à beira de festejar o meio século. Acima de tudo, alguns dos seus livros permitem que ele ocupe um lugar de destaque entre a “santíssima trindade” na origem da Ficção Científica, em parceria com Júlio Verne, uns anos mais velho, e com Hugo Gernsback, vinte anos mais novo.

H.G.Wells surge na segunda fila de retratos da capa de Sgt Peppers

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Percebe-se bem porquê: ainda antes dos 30 anos, em 1895, o autor, inspirado por algumas bases científicas mas, sobretudo, munido de uma imaginação delirante (para alguns, próxima de obscuros dotes de adivinhação), já tinha publicado uma das suas obras de referência, A Máquina do Tempo, em que conseguia que o narrador e cientista, além da aventura de rumar a outras eras, fizesse eco dos ideais socialistas de uma sociedade sem classes. O ciclo que se seguiu ganha foros de espantoso: A Ilha do Dr. Moreau (1896) aborda, com assinalável pioneirismo a questão que hoje identificamos como manipulação genética; O Homem Invisível (1897) aprofunda de forma dramática as consequências sofridas por um cientista que utiliza o próprio corpo como cobaia, dando sequência a outro clássico, Dr. Jekyll e Mr. Hyde, de Robert Louis Stevenson, publicado no ano anterior; A Guerra dos Mundos (1898) materializa, pela primeira vez na Grande Literatura, uma invasão da Terra por seres de outro planeta, sendo Marte aquele que está mais à mão; por fim, Os Primeiros Homens Na Lua (1901) narra a épica viagem de um empresário, Bedford, e de um cientista excêntrico, Cavor, rumo ao satélite natural da Terra. Neil Armstrong só nasceria três décadas depois…

Visionário militante

Ninguém poderia exigir-lhe que acertasse em todos os pormenores, desfiados para enriquecer as suas criações – não consta, por exemplo, que a Lua seja habitada por uma espécie superior de insetos, muito incómodos (para não dizer mal) para a dupla de humanos que ali arriba. Mas dá que pensar, além dos argumentos já revistos, que Wells tenha publicado, ainda antes do eclodir da I Guerra Mundial, o livro The World Set Free, colocando no centro das atenções uma poderosíssima bomba que acabará por mudar o curso da Humanidade. E não espanta o saber-se que uns quantos responsáveis pela concepção e pela construção da bomba atómica foram leitores atentos da narrativa deste inglês de Bromley, Kent. Afinal de contas, Hiroshima e Nagasaki, a fechar a II Guerra Mundial, estavam, de novo, a mais de trinta anos de distância.

Wells definia-se, cientificamente, como um “discípulo insubordinado” de Charles Darwin. Aproveitou sempre elementos da sua formação académica – estudou Biologia e Química sem grande profundidade, sempre à custa de bolsas de estudo e da boa vontade de familiares distantes, um vez que o pai não dispunha de meios para garantir os estudos aos quatro filhos – para injetar verosimilhança aos seus fantásticos enredos. E, sem forçar a nota, tentou invariavelmente inocular os seus escritos com o seu próprio pensamento político, próximo das teses da Fabian Society, grupo de reflexão fundado em 1884 para promover, através da via reformista e num ritmo gradual, a criação de uma sociedade socialista. George Bernard Shaw, Bertrand Russell (por pouco tempo) e a sufragista Emmeline Pankhurst integraram esta sociedade que, em 1900, teve diretas responsabilidades na fundação do Partido Trabalhista. De resto, Wells chegou a ser candidato ao Parlamento britânico, por duas vezes, na primeira metade da década de 1920. Foi largamente derrotado em ambas as ocasiões, ficando por apurar com rigor se a sua desilusão com o Partido não terá nascido precisamente nesses desaires.

O pensamento de Wells foi-se modificando e estruturando: pacifista por natureza, veio a apoiar a participação inglesa no conflito de 1914-1918. Manifestou a sua profunda desilusão face ao modelo soviético, na sequência da denúncia dos crimes de Estaline, acabando por alertar para os perigos da “apropriação” da Ciência por fascistas e comunistas. Acabou por defender um planeta de um só Estado, com um só governo centralizado, que reconhecesse a especificidade dos povos. É sua a frase: “A nossa verdadeira nacionalidade é a Humanidade”.

A convenção nupcial

Segundo os seus biógrafos, foi um acidente que o atirou para o mundo dos livros: aos oito anos, partiu uma perna e ficou algumas semanas confinado a uma cama, acabando por compensar essa limitação temporária com o ávido consumo de livros de todos os géneros, muitos deles trazidos pelo pai, Joseph. Foi aprendiz de vários ofícios, ligados à indústria têxtil à hotelaria, períodos que definiu como “os mais infelizes” da sua vida. Foi conseguindo bolsas de estudo para cimentar a formação académica, chegando inclusivamente a exercer a docência.

Casou, pela primeira vez, aos 25 anos. Quatro anos mais tarde, estava divorciado, por se ter apaixonado por uma aluna, Amy Catherine Robbins, que preferia tratar por Jane. Esse segundo casamento durou 32 anos, até à morte de Amy. Nem por isso Wells deixou de manifestar e pôr em prática a sua atração pelo sexo feminino: coleccionou amantes, a partir de certa altura com o conhecimento e o consentimento da esposa. É-lhe atribuída a paternidade de cinco filhos extramatrimoniais, a juntar aos dois de que Jane foi mãe. Vincent Brone, um dos homens que estudou a sua vida, atribui esta “multiplicação” à ausência da mãe, Sarah, durante a infância de Bertie – a senhora teve que empregar-se como doméstica interna em face das dificuldades financeiras da família e os patrões nunca lhe permitiram que levasse consigo o agregado ou parte dele. Pelo que Sarah e Joseph, que nunca se separaram, acabaram por viver distantes um do outro, cabendo ao progenitor acompanhar e cuidar das crianças. Wells, quando questionado sobre a vida pouco ortodoxa que mantinha, no que tocava ao sexo feminino, respondeu à altura: “A indignação moralista é, na verdade, inveja com uma auréola”.

Wells foi também um desenhador compulsivo, com muitos dos seus esboços a ensaiarem visualizações de máquinas (porventura “utilizadas na ficção) e de armas. Escreveu, ficção à parte, sobre a guerra e vestiu até a pele do historiador. Como romancista, há quem lhe aponte, nos anos da maturidade, uma aproximação ao estilo e às preocupações de Charles Dickens – mas, como é do senso comum, dificilmente uma cópia atinge tanto valor como o original… George Orwell, o autor de 1984, diria, acerca de Wells, que ele se tinha tornado “demasiado razoável para compreender o mundo moderno”. Acossado pela diabetes, H.G. Wells, que nascera a 21 de setembro de 1866, morreu em casa, a 13 de agosto de 1966. Antes, acumulou duas “glórias”: a primeira, quando se descobriu que a Gestapo o tinha colocado entre os alvos prioritários a abater sumariamente, uma vez consumada a invasão de Inglaterra. A segunda teve lugar do outro lado do mar, quando Orson Welles utilizou A Guerra dos Mundos para, via rádio, aterrorizar a América com a invasão marciana. Não conseguiu cumprir o epitáfio prometido: “Eu bem vos avisei, patetas…”. Mas deixou um aviso arrepiante: “A história da Humanidade está a tornar-se cada vez mais uma corrida entre a educação e a catástrofe”. Quem puder garantir que Wells errou, que atire a primeira pedra.

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