Custo de Startup


Você talvez deva achar que começar uma startup é um negócio bobo, informal, sem custos e um pedacinho de paraíso. Mas a vida não é um eterno Startup Weekend. Não é uma eterna Campus Party. Mais, a vida não é uma eterna aceleradora ou programas de pré-aceleração. Ter uma startup é um negócio bem diferente desse auê gostoso que esses bons eventos/programas causam em nós. Seguir a jornada com muito cuidado com o canto das startups nunca é demais.

Assim, como prometido há algumas semanas, irei compartilhar uma série de artigos contando o dia-a-dia de uma startup, ou melhor, de como começar uma startup. Mais especificamente, sobre a minha startup, nossos desafios, etc. E, para começar, vou trazer um pouco de contexto, tudo bem? Seja paciente, tentarei ser bastante direto e objetivo, só que para isso eu preciso passar por este contexto para você entender como eu cheguei até aqui. Vamos nessa?

Uma rápida recapitulação

Uma das primeiras versões do Beved, em 2012

Há quase 5 anos, criei o Beved. Um Mercado Livre de cursos online. Na verdade, nos dedicamos tanto num nicho específico de mercado que parecemos mais com um General Assembly. Em 2014, pensando em diversificar, comecei a desenvolver, junto com meu time, um negócio que chamamos de “Netflix de Educação“. Testamos esse produto no mercado corporativo, onde queríamos atuar desde então. Após um ano de testes intensos, iterações, redesenhos, muita pesquisa e trabalho duro, “nasceu” o AIO.

O início de tudo é resolver um problema

Primeiro protótipo do então chamado Marketplace, do Beved
Primeiro protótipo do então chamado Marketplace em 2014, criado pelo Beved

Até chegar no conceito que viria a ser o AIO, ficamos ralando muito mais em desenvolver um produto/serviço que achávamos que o mercado precisava ao invés de detectar um problema real e, de fato, resolver esse problema. E não ficamos alguns dias nessa pegada. Passou quase um ano inteiro e a gente estagnado nisso.

Foi então que, finalmente, entendemos qual era o real problema que nosso produto resolve. E, com mais trabalho, adaptações, mudanças, chegamos ao AIO como produto “final”. Assim, nós não mais buscávamos resolver um acervo de cursos EAD para uma empresa ou entregar uma ferramenta de EAD, mas sim resolver um gap quase sem ninguém atuando: a base de conhecimento das empresas.

Quando percebemos que as empresas possuem uma necessidade enorme e urgente de documentar seus processos diários, únicos e extremamente pessoais, percebemos o quanto o AIO se encaixava na solução deste problema. Desde então, passamos a atacar este alvo maior oferecendo uma ferramenta para registrar, cuidar e distribuir esse conteúdo internamente nas empresas.

Na prática, nós temos uma plataforma para empresas (que se parece muito com um Youtube corporativo) fazerem onboarding de colaboradorescomunicação internatreinamento de itens específicos do dia-a-dia do negócio(cultura e valores, como emitir uma NF, metodologia de vendas, etc). Coisas que precisam ser desenvolvidas internamente e que são únicas para cada negócio.

Tá vendo, encontrar o problema e resolver esse problema não é uma tarefa tão simples. Gastamos quase 2014 inteiro pra fazer nosso Product Market Fit. Isso custou tempo e dinheiro, que não caiu do céu.

Conseguindo os primeiros clientes e um problema inesperado

contandomoedas

Desenvolvemos todas as mudanças e evoluções que o AIO precisava de fevereiro a junho de 2015. Em junho, fechamos um grande cliente que já estava em negociação desde novembro de 2014. Em novembro, mais um cliente bastante importante se uniu ao nosso serviço. Juntos, esses 2 clientes (mais alguns menores) foram responsáveis por cerca de R$8mil/mês de faturamento do AIO.

Até aí, em meados de dezembro de 2015, trabalhamos essa “spin-off” de forma paralela ao Beved, de Home Office e com apenas freelancers. Ainda neste período, tivemos um problema bem sério, com um antigo parceiro. Isso nos atrapalhou um pouco, especialmente porque atrasou nossos planos em quase 6 meses (Gastamos muito tempo estudando e estruturando com máxima segurança e respaldo jurídico nossos direitos e deveres junto a vários advogados – são 4 hoje. Isso custou tempo e dinheiro, mas é uma conversa para o futuro). Passado 2015 e superado estes percalços da vida, decidimos, finalmente, abrir um escritório.

Sob a chancela do nosso mascote, o BarbaRuiva.com, criamos um “guarda-chuva” para abrigar 3 iniciativas: BevedAIO e Vida de Startup. O escritório, do BarbaRuiva.com, cuida majoritariamente do AIO. E é aqui que essa história “começa” de verdade.

Abrir um CNPJ é pra quem fatura. Se você não fatura, você sequer tem um negócio ainda

Um cartão CNPJ, apenas para ilustrar
Um cartão CNPJ, apenas para ilustrar

Olha, eu não vou encher linguiça, ok? Nenhum negócio, tipo uma startup, começa com um CNPJ. O normal é começar com um protótipo/idéia, um MVP, buscar alguns clientes iniciais e, quando começar a emitir Notas Fiscais, contratar, etc passar a ser um problema, aí sim entra o momento de se pensar em abrir um CNPJ para o negócio. Tudo a seu tempo.

Obviamente, não estou estimulando você a praticar ilegalidade alguma. É apenas o fluir natural de um negócio. Primeiro comprova-se que seu produto resolve um problema, que há mercado, que é possível “ganhar dinheiro” nele e, somente então, pensa-se nas vias jurídicas desse negócio para, justamente, sua viabilização em todas as esferas. Lembre-se, ter um CNPJ significa ter um Contador também. E isso custa DINHEIRO. Coloque isso na sua conta sempre se lembrando que uma startup não passa de uma empresa como outra qualquer.

Pausa rápida: CONTRATOS SALVAM VIDAS. NÃO VIVA SEM UM

Revistinha do Tio patinhas
Revistinha do Tio patinhas

Não existe brodagem. Amizade. Camaradagem. Existe contrato. Papel assinado e autenticado. Nada menos que isso, meu caro. É isso mesmo. Faça um bom contrato com seus sócios. Não interessa se são melhores amigos. Apenas faça. As regras do jogo precisam sempre estar claríssimas. Não deixe de fazer isso o quanto antes. Caso contrário, bem, temos muitas histórias recentes, como eu, que podem testemunhar o quão prejudicial não ter um bom contrato e, se necessário, consultar bons advogados antes de seguir em frente.

Cuidado: picaretas, ladrões e semelhantes existem aos montes. E eles se travestem de algumas boas ações, carinha de ovelha, etc. Mas são lobos ardilosos.  Seja precavido para não ser enganado. Todo cuidado é pouco quando falamos de negócios. Assim sendo, proteja a seus sócios de si mesmo e vice-versa.

A escolha do local de trabalho (Home Office x Escritório)

Para mim, é um recomeço. Como qualquer startup, o AIO começou como um Produto Mínimo Viável que colocamos no mercado. Após fechar um par de clientes, decidimos sair do trabalho remoto e abrir um escritório para tocar o produto.

Eu trabalhei muitos anos de Home Office e posso dizer que é um negócio muito bacana. Tem muitos pontos positivos. Mesmo. Porém, tem vários negativos também. E, ressaltando os negativos, deixo como pontos de atenção estes:

  1. Trabalhar de casa dificulta muito diferenciar trabalho e casa, ou seja, o horário de parar, separar o que é trabalho e o que é vida pessoal;
  2. Home Office exige muita disciplina. Em casa, há muitas distrações. De Netflix, TV, Geladeira a esposa (almoços, programas, etc ;));
  3. Trabalhar de Home Office também dificulta a agilidade, comunicação e proximidade do seu time. Isso se agrava quando o assunto é time de vendas, por exemplo.

Tendo em vista estes pontos e tantos outros, começamos a buscar um local. Pensando em qualidade de vida para mim e para os colaboradores, fizemos uma escolha que atendesse, entre outros, os seguintes aspectos:

  1. Que o escritório tivesse uma boa infra-estrutura ao seu redor (restaurantes, bancos, linhas de ônibus);
  2. Que o escritório fosse fora da região Central ou Centro-Sul(Savassi/San Pedro Valley);
  3. Que o escritório ficasse localizado contra os principais fluxos e congestionamentos de Belo Horizonte (A cidade certa para inovar);
  4. Que o escritório ficasse próximo (não mais que 3km de distância) de onde eu moro.

Demoramos cerca de 1 mês para achar algumas opções. Delas, ficamos com 2 e, completando 45 dias de busca, fechamos qual sala receberia o escritório do BarbaRuiva.com. Ele fica a 2km de distância de onde eu moro, contra-fluxo para os colaboradores não pegarem trânsito na ida e na volta do trabalho, possui uma diversidade grande de linhas de ônibus, restaurantes, bancos, padaria, etc ao seu redor.

Tão bom quanto trabalhar na região central, porém com os benefícios de não estar nela, desde vagas de estacionamento aos itens que mencionei logo menos.

Contrate certo desde o iníco

Essa é uma “dica” relâmpago, mas crucial. Eu aprendi errando que, apesar de adorar Home OfficeFreelancers, etc, contratar certinho, CLTestagiário fichado corretamente, etc é invariavelmente o caminho certo e seguro.

Isso ajuda demais a evitar problemas futuros e também nos ajuda a sermos corretos desde o início. Este custo é bem alto neste começo, mas ele pode sair bem mais “barato” lá na frente. Não arrisque. Não lidere pelo mal exemplo. Busque fazer tudo certinho desde o início, por mais difícil e custoso (que é bem diferente de ser caro) que seja.

Quanto custou para chegar até aqui, hoje

Bem, um erro grave é eu não conseguir precisar isso. Mas, aproximadamente, nós gastamos algo pertinho de R$ 120.000,00. Este foi o custo inicial em 2015 para chegar com o AIO em 2016. Essa informação é importante, porque as vezes a gente acha que o custo de iniciar um negócio é zero enquanto esse negócio não se tornar algo mais sério. Mas isso não é verdade. O investimento de tempo, de dinheiro, etc contam muito. Então, faça as contas de quanto tempo você e seus sócios já gastaram, na ponta do lápis. Te garanto que o valor vai assustar e fará você repensar muitas coisas.

Quanto custa um escritório para 4 pessoas?

calculadora

Nós não fazemos muito as contas, né? Mas eu vou ajudar. Nosso escritório, por exemplo, possui 4 pessoas (administrativo e finanças ainda estão remotos), contando comigo. São 2 mesas grandes (como se fossem 4), 4 cadeiras, 4 computadores, 3 fones da Microsoft (vendedores), frigobar, filtro de água, ar condicionado, instalação do ar, cafeteira, aperitivos, filtros de linha, cortinas, quadro branco na parede, etc. Estes são os principais itens que nos preocupamos no começo (a cortina ainda não chegou e o quadro chega essa semana).

O total desses custos iniciais é próximo de R$ 6.000,00, pois ainda conseguimos economizar em vários itens, desde computadores semi-novos a mesas reaproveitadas de outro escritório. Mas não é um investimento qualquer. E olha que não pintamos parede nem fizemos nenhum tipo de decoração especial no espaço. Esse custo aí é para fazer o negócio no nível mais básico mesmo. Alguns custos podem variar pra cima ou pra baixo, mas não fugirá muito dessa média.

Os custos fixos também não são qualquer coisa e precisam estar na ponta do lápis. A internet de Fibra Óptica da GVT custa seus bons R$ 200, além do aluguel próximo a R$ 900 e do condomínio de R$ 250 (temos elevador, o que é uma benção). Lembra do Contador? Pois é, os R$ 440 dele entram aqui também.

Por isso, repito, tudo precisa ser feito com muito planejamento, pé no chão, cuidados diversos, atenção redobrada, dupla checagem dos itens, etc. Não são gastos desprezíveis, muito pelo contrário. São altos e precisam de todo o cuidado ao serem levantados.

Dependendo da situação, pode ser interessante você utilizar um Coworking por um período específico de tempo, por exemplo, pois pode sair mais barato que o custo fixo de um escritório. Aqui em BH eu gostei muito do Guaja, mas tem também o Impact Hub, com seu novo escritório na Savassi/San Pedro Valley.

Nós consideramos bastante essa opção de Coworking, porém ela não atendeu vários requisitos (que citei acima) e também porque queríamos um espaço nosso, mais privado e “escondido” para trabalharmos com tranquilidade. Por isso, nossa decisão final foi abrir este nosso escritório.

O “barato” de abrir uma startup na verdade custa muito mais caro

carteiravazia

Finalmente, começar uma startup acaba saindo bem mais caro que imaginamos. Pode ser que a gente economize aqui e ali, tenha mais sócios que funcionários ou algo do tipo. Mas, precisamos ter muito claro na nossa mente que ter um negócio significa, no final das contas, gastar algo em torno de R$12mil a R$15mil (4 pessoas mais o escritório) por mês para existir (sim, temos caixa e receita para isso). Não é algo simples, percebe? E olha, esse valor sequer contempla retiradas dos sócios. Então, este valor pode saltar inequivocamente para não menos que R$20mil mensais.

Por isso, é necessário um enorme PLANEJAMENTONão torre sua grana no impulso. Calcule. Pense. Organize bem as coisas (Lembra do Cucco, que perdeu R$ 500mil?). Se preciso, espere faturar um pouco mais. Ou, se você tem um capital de giro, seja bem “mão de vaca” no começo para não gastar além da conta no início. Ainda sim, tendo esse capital de giro ou não, você precisa se planejar MUITO BEM. Lembre-se, o Brasil, definitivamente, não é para amadores. Portanto, não vá para guerra sem ao menos colocar um capacete, ok?

Aprendizados finais, que, apesar de óbvios, valem a pena considerar/meditar

Suposto monge que eu achei no Google Imagens para representar essa conclusão ;)
Suposto monge tibetano meditando que eu achei no Google Imagens para representar essa conclusão 😉

Escolha pessoas que você possa confiar. Eu sei que é um tema complexo. Mas busque, ao máximo, ter pessoas muito ou extremamente confiáveis no início. Porque o início é mais difícil. Pessoas de confiança, que você já tenha trabalhado junto, ajudam a diminuir essas dificuldades. Em certos momentos, ajudam a superá-las de forma direta. Por isso, entre vários outros motivos, gastar um bom tempo escolhendo as pessoas certas é tão importante. Faça isso pelo seu bem e pelo bem do seu negócio.

Busque resultados. Não seja romântico. Isso é o que você menos precisa neste momento. Obter resultados é de suma importância para sobrevivência do seu negócio. Por isso, seja pragmático, extremamente objetivo e claro com suas metas e métricas. E, claro, esmere-se em alcançá-las.

Seja uma pessoa muito responsável. Cumpra suas tarefas, lidere pelo exemplo. Exale a cultura e valores que você deseja para sua empresa. Não permita que seus primeiros colaboradores copiem de você as piores práticas. Mas seja “severo” no sentido de que eles absorvam os pontos certos sobre este assunto. Repita quantas vezes seja necessário para ter certeza de que essa cultura e valores estão sendo enraizadas corretamente.

Por último, mas não menos importante, trabalhe muito. Não em quantidade de horas, mas em qualidade. Foco e produtividade (Aqui você tem um artigo excelente sobre produtividade, não deixe de ler)Mostre que é possível, das 9h às 18h (ou qualquer horário que seja, até apenas 4 vezes por semana), ralar com foco e fazer entregas de qualidade. Como disse antes, liderar pelo exemplo é uma das maiores coisas que você pode fazer. Faça, sem medo, de peito aberto.

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