A singularidade pesa como uma cruz


A singularidade pesa como uma cruz

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Esses dias estava lendo alguns trechos do livro “A era do ressentimento”, do grande filósofo brasileiro Luiz Felipe Pondé e refletindo sobre o que virou um mega cliclê, o tal do “Saia da Matrix…”. Nesse livro ele mostra de diversas formas o quanto é uma baita ilusão acharmos que conseguiremos “sair da Matrix”.

Eu escrevo constantemente sobre a importância de sermos autênticos, sinceros, verdadeiros etc. Isso de fato é maravilhoso, mas o preço que se paga para consegui-lo  é bem alto, e pouquíssimas são as pessoas dispostas a gastarem energia, tempo e dinheiro investindo no que deveria ser o mais importante, a busca por uma melhoria interna. É muito mais fácil e pouco doloroso ser o que o Pondé chama de “mimadinho” do que arregaçar as mangas e dar o melhor de si para ser autêntico.

Abaixo compartilho o trechinho do livro que me inspirou a escrever esse texto.

“Nunca foi tão impossível sustentar essa posição, porque a singularidade exige um percurso mais próximo dos exercícios espirituais dos velhos monges do deserto do que das preocupações com a felicidade típica dos mimados contemporâneos […] Uma pessoa corroída pelo ressentimento não suporta a singularidade porque ela escapa a qualquer enquadramento num projeto psicológico de si mesma. A singularidade pesa como uma cruz.”

Luiz Felipe Pondé

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Essa frase resume tudo: “A singularidade pesa como uma cruz”. E quem está disposto a carregar uma cruz pesada? Pouquíssimas pessoas! Tem até uma bela estorinha que fala sobre a cruz que cada um carrega pelo caminho. Ela tem o tamanho exato para podermos atravessar os abismos que porventura surjam. Não vou contá-la aqui porque provavelmente você já leu ou ouviu por aí. Caso seja novidade deixo o link de leitura [aqui].

Tenho a impressão de que cada vez mais, ao invés de as pessoas buscarem se tornar mais verdadeiras e autênticas, elas estão simplesmente imitando umas às outras. Até recentemente estava conversando com os amigos e comentando sobre uma nova profissão na qual muitos jovens estão “investindo pesado”, que é a de YOUTUBER. Nada contra quem tem canais no youtube e vive disso financeiramente falando. Estou fazendo uma crítica sutil aos muitos jovens que literalmente passam meses estudando: O que faz com que pessoas acessem mais seus conteúdos? Que tipo de conteúdo gera mais cliques? Que técnicas de gravação posso utilizar para prender a atenção de quem está assistindo por mais tempo? etc. etc.

E depois de se tornarem quase PhD’s em como fazer um vídeo que seja “viral”, tentam muitas vezes, de forma meio forçada, conseguir muitos views, likes e seguidores, para a partir daí ganhar dinheiro com isso.

Se você observar, não existe “originalidade” aí! Essa semana mesmo um amigo me perguntou por que eu não fazia um canal no youtube também. Claro que já pensei na ideia, mas não fiz e talvez não faça porque falo sobre o que me vem espontaneamente e sobre temas dos mais diversos possíveis. De uma forma geral, os canais no youtube seguem uma linha pré-estabelecida tipo: comédia, aventura, receitas, filosofia e por aí vai.

Gosto de variar temas, desde Psicologia até a Matemática e a Física, ou atividades físicas misturado com meditação. Ou política pincelando com comportamento humano. Percebe? E tem também a questão da regularidade. Não conseguiria ter a regularidade de postar um ou dois vídeos por semana, como os youtubers dizem que é bom…

Estou buscando me desvencilhar mais dessa ilusão de que somos muito diferentes, ou fazemos algo que é absolutamente único. Se observarmos com uma atenção mais apurada, é possível perceber que essa é uma manifestação do nosso EGO, que adora destaque, que ama ser “o exclusivo”. Estou com minhas palavras falando sobre obviedades, algo que não só pode, como sei que é falado ou escrito por outras pessoas também.

Talvez algum leitor até se questione: “E por que você escreve afinal?”. Escrevo pelo prazer que me dá. Pelo momento de alegria que me inspira e me faz abrir um sorriso. Pela certeza de que essas palavras podem tocar o coração de alguém etc.

No fundo, é daí que surge a singularidade, falar sobre o mesmo que muitos falam, mas com as minhas palavras. Inclusive uma das frases que me norteia na vida é a do grande Isaac Newton, que diz: “Se cheguei até aqui foi porque me apoiei em ombros de gigantes…”. Ele não teria descoberto suas leis, a equação da gravitação universal, criado o Cálculo diferencial e integral, estudado a natureza da luz, desenvolvido os binômios etc, sem toda a base matemática que já havia sido desenvolvida e estava à sua disposição para ser explorada, entende? Tenho essa humildade de reconhecer que me apoio nos ombros de gigantes, e que sem eles, jamais conseguiria enxergar da forma como enxergo hoje, jamais teria o conhecimento ou a sabedoria que adquiri.

Mulher-livre

Os grandes seres singulares que me inspiram, todos eles carregaram ou ainda carregam cruzes bem pesadas, mas deram conta de carregá-las! Não caíram na besteira de serrar pedacinhos e depois ficar na beira da estrada sem atravessar os abismos. Posso citar alguns deles: “Jesus Cristo, Buda, Gandhi, Yogananda, Sócrates, Osho, George Orwell, Nietzsche, Guimarães Rosa, Rubem Alves, Raul Seixas, Freud, Clarice Lispector…”. Só citei os que já se foram! Nossa! Vou citar exemplos dos que estão vivos ainda no ano de 2018: “Monja Coen, Mario Sergio Cortella, Jostein Gaarder, Alain de Botton, Jetsunma Tenzin Palmo, Dalai Lama, Thich Nath Hanh…”.

Se você ler um pouco sobre qualquer um deles ou muitos outros singulares, vai perceber que eles carregaram ou ainda carregam cruzes pesadas. Mas com a coragem e a determinação deles, deixaram imensos legados e uma luz para acender nos corações de milhares de pessoas.

Procure você também carregar a sua cruz e fortalecido pelo caminho, atingir essa singularidade sem a ilusão de sair da Matrix, porque não podemos fugir dela. Podemos estar nela sem sermos “mais do mesmo”, ou “mimados contemporâneos”, ou nas palavras do mestre Jesus: “estarmos no mundo sem sermos do mundo…”.

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