A vida começa depois dos 60


por Silvia Kochen

Pessoa velha, que tem muito tempo de existência. A definição dada pelos dicionários a “idoso” é coerente com a realidade dos fatos. Descabida, contudo, é a ideia que povoa a cabeça de muita gente de que aqueles que têm idade avançada se tornam incapazes à proporção que os anos passam. Felizmente, o conceito de velhice está mudando e adquirindo um outro entendimento. De 1999 a 2009, enquanto a população brasileira cresceu 12%, a parcela dos que tinham mais de 60 anos avançou 40% (o número de brasileiros com mais de 80 anos ampliou-se em 60%, no mesmo intervalo). Nesse período, os idosos passaram de 9,1% para 11,3% da população, e a previsão é que chegarão a representar 25% dos habitantes do país por volta de 2050. Importa frisar que boa parte deles trabalha e ocupa posição de relevo no contexto econômico, caindo assim por terra a ideia de que a velhice traz consigo decrepitude e invalidez. Não são poucas as pessoas que, ao chegar a essa altura da vida, se engajam em novas atividades e redefinem seu papel na vida.

Um exemplo bem-acabado desse novo panorama é dado por Maria Aparecida Oliveira, de 81 anos. Quando ela se aposentou, em 1981, achou que estava chegando ao fim. “Perdi todas as minhas colegas, que morreram pouco tempo depois de parar de trabalhar”, relata. Com o tempo livre, ela decidiu “viver a vida” e foi viajar.

Agenda cheia

Não são todos os que, como ela, dispõem de recursos para realizar o sonho de conhecer o Brasil e outros países. Porém, mesmo quando não está dentro de um ônibus ou de um avião, Maria Aparecida mostra que a vida pode ser plena, cheia de atividade, na própria cidade em que se mora. Às terças e às quintas-feiras, ela acorda cedo para ir ao Sesc Consolação, na capital paulista, onde é conhecida entre os colegas como “Cida Fofa”, devido ao porte e à simpatia. Ali ela ensaia no coral, faz aulas de hidroginástica e treino de natação. Nos outros dias da semana, lê e faz palavras cruzadas, além de tricotar e “crochetar” enxovais de bebê para doar a bazares beneficentes.

Nos fins de semana, invariavelmente, pega um cinema ou um teatro, programas que têm sua admiração. “Cida Fofa” conta que, 55 anos atrás, foi sorteada para ir ao programa “Almoço com as Estrelas”, campeão de audiência na época, apresentado por Ayrton e Lolita Rodrigues, na extinta TV Tupi. Sentou-se ao lado da atriz Maria della Costa, que a convidou a ver seu espetáculo. A partir daí, tornou-se amiga de vários atores e atrizes e caiu de amores pelo teatro. Porém, nunca passou da plateia. Foi só recentemente que pisou em um palco, quando participou de um coral que fazia parte de uma peça. “Dei meu nome para ver se consigo assistir a uma peça do diretor Antunes Filho, que deve incluir um coral”, ela revela.

Maria Aparecida mantém a agenda cheia porque cuida muito bem de sua saúde, que é boa, mas inspira certos cuidados. Tem bronquite desde jovem e lança mão de um tubo de oxigênio para garantir um sono tranquilo. Como praticamente não tem sensibilidade nos pés, anda com muito cuidado para não cair. Essa mulher de fibra já passou por um tratamento de câncer de pele, mas não gosta de falar de suas doenças. Para ela, isso é coisa do passado.

Tendência mundial

O envelhecimento da população brasileira, assim como acontece no resto do mundo, se relaciona à melhoria do padrão de vida e aos avanços da medicina, entre outros fatores. Nos países desenvolvidos convencionou-se que uma pessoa é idosa a partir dos 65 anos, idade que, nas nações em desenvolvimento, é de 60 anos. No Brasil houve um pico de nascimentos na década de 1960 e, em breve, os bebês daquela época estarão na casa dos 60 anos, observa Lúcia Cunha, pesquisadora da Coordenação de População e Indicadores Sociais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “É a primeira geração de idosos que irá usufruir das mudanças experimentadas pela sociedade brasileira, como o acesso ampliado à educação, as campanhas de vacinação e os esclarecimentos sobre a saúde”, diz ela. A tendência, segundo a pesquisadora, é a parcela idosa da população aumentar mais que as demais, por conta, principalmente, da diminuição da taxa de fecundidade da mulher brasileira.

O grupo de brasileiros com mais de 60 anos – que hoje compreende 21 milhões de pessoas – tem características muito específicas. As mulheres predominam, com 55,8%, pois, como é sabido, vivem mais que os homens. A viuvez não representa, no caso das mulheres, a constituição de um novo lar, ao contrário da maioria dos homens, que se casa novamente e muitas vezes com mulheres mais novas. No fundo, eles não conseguem se adaptar à vida solitária. Apesar disso, à medida que a idade avança, a tendência é haver mais gente vivendo só.

Boa parte dos idosos brasileiros está “com a vida ganha”: 58% são aposentados, 8% são pensionistas e 11% acumulam aposentadoria e pensão. Parece que eles não gostam de ficar parados, já que 18% trabalham, um número que cresce graças às boas condições físicas de parcela apreciável dessas pessoas. Na verdade, muitos desses “velhinhos” continuam na labuta diária porque o dinheiro da aposentadoria, curto, é insuficiente para suprir suas necessidades.

Empresas de marketing estimam que a renda mensal desse segmento gire em torno de R$ 7,5 bilhões, razão pela qual vem despertando as atenções de alguns fabricantes, que começam a colocar no mercado produtos específicos para idosos. Os lançamentos vão de apartamentos especialmente projetados (com pisos antiderrapantes e barras de segurança nos banheiros), cremes hidratantes para mulheres com mais de 70 anos e sapatos confortáveis até pacotes turísticos.

O maior problema dos idosos está relacionado à saúde, pois apenas 22,6% deles alegam não sofrer de doenças crônicas. Essa proporção cai para 19,7% entre os que têm 75 anos ou mais. As moléstias mais corriqueiras entre eles são a hipertensão (53,3%), os problemas de coluna (35,1%), a artrite ou o reumatismo (24,2%), as doenças cardíacas (17,3%) e o diabetes (16,1%).

“Envelhecentes”

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, o número de nascimentos na Europa e na América deu um salto vertiginoso, originando uma geração que ficou conhecida lá fora como baby boomers, expressão em inglês que designa os bebês concebidos nesse período de “explosão” de partos. Essa geração tornou-se adulta durante a década de 1960, uma época de paz e de abundância que ficou marcada pela luta dos adolescentes contra tabus e amarras que tolhiam seus passos. Agora, 50 anos depois, essas pessoas estão revolucionando o significado do envelhecimento, que se transformou num período de novas descobertas e projetos, e por isso vêm sendo rotuladas como “envelhecentes”.

“Esses idosos trazem uma experiência de vida que os torna diferentes dos de épocas anteriores”, diz o geriatra Alexandre Kalache, ex-diretor da Organização Mundial da Saúde (OMS) e consultor em temas relacionados ao envelhecimento. Ele explica que essa foi a primeira geração a ver crescer a participação da mulher na força de trabalho, a lutar por algumas bandeiras, como a democracia e a igualdade, e a focar sua atenção em temas como saúde e alimentação. “Essa geração exige seu lugar na sociedade, cobra certos direitos fundamentais, como a saúde, e quer participar da discussão de temas que afetam seu dia a dia”, analisa Kalache, que relaciona o “Estatuto do Idoso” (lei 10.741/2003) à nova postura assumida pelos “envelhecentes”.

O médico destaca que o jeito de envelhecer, hoje, é novo na história. No passado, ele comenta, o número de pessoas que chegavam aos 60 ou 65 anos era pequeno. “Nasci em 1943, quando a expectativa de vida do brasileiro não ia além de 43 anos. Na atualidade é de 73”, diz. O geriatra participa, no momento, de um projeto internacional focado na “cidade amiga do idoso”. A ideia é desenvolver propostas de políticas públicas em várias dimensões, tais como acessibilidade, serviços sociais e trabalho, com vistas a contemplar duas tendências mundiais: o envelhecimento e a urbanização.

Gente ativa

Tomando por base os dados do IBGE, é de se supor que a expectativa de vida do brasileiro cresça ainda mais, uma esperança fundada, entre outras coisas, no aumento significativo do número de pessoas centenárias com boa saúde e que ainda trabalham. Exemplos não faltam. Quem não conheceu a atriz Dercy Gonçalves, falecida em 2008, com 101 anos, e que chegou a comemorar seu centésimo aniversário em plena atividade no palco, com a comédia Pout pour Rir? O arquiteto Oscar Niemeyer é outro que, aos 104 anos, continua ativo, trabalhando, sem dar mostras de que um dia vai parar. Ao completar 98 anos, em 2006, ele se casou com sua secretária, de 60 anos.

Muitas outras pessoas desconhecidas do público seguem o mesmo caminho, reafirmando com suas experiências que a idade não é empecilho para a vida e o trabalho. Nair Fonseca Gonzales, residente em São Manuel, a 260 quilômetros de São Paulo, deve completar 99 anos em agosto próximo. É tão conservada que as pessoas não lhe dão mais do que 80. Tem duas filhas – uma de 78 anos, outra de 76 –, sete netos, sete bisnetos e um trineto.

Viúva desde 1972, Nair vive com a aposentadoria do marido, que era atendente em uma loja de autopeças. “A vida é linda e é boa para quem sabe viver”, diz a idosa, que exala otimismo. Ela gosta de festas e tem paixão pelas reuniões em família. Come de tudo; adora doces e é fã de vinho, que degusta vez por outra em momentos e épocas especiais.

Apesar da idade, Nair tem uma memória e um raciocínio privilegiados. Conversa com a mesma vivacidade com jovens e idosos, e não deixa perguntas sem respostas. Ela lembra que utilizou seu título de eleitor em 3 de maio de 1933, na eleição para a Assembleia Nacional Constituinte, quando, pela primeira vez, a mulher brasileira votou e seria votada em âmbito nacional. É uma pessoa informada, lê jornais e acompanha as notícias pela TV e pelo rádio. Talvez por isso cobre maior presença feminina na política e na economia.

Sua rotina diária é bem definida. Depois do café, bem cedinho, acomoda-se numa poltrona da sala e começa a tricotar (às vezes também faz crochê) para atender pedidos, especialmente de blusas, casaquinhos, sapatinhos e mantas para bebê (enxoval, como ela diz). Uma das encomendas mais recentes partiu de uma freguesa de Botucatu, cidade a 20 quilômetros de São Manuel, que se interessou pelo enxoval completo. Ela também confecciona colchas de lã e de linha com motivos coloridos.

Nair aprendeu a tricotar nos anos 1930 e hoje trabalha com a mesma vontade de 80 anos atrás. Ela conta que há 15 anos – portanto, já tinha passado dos 80 –, fornecia seus produtos para uma butique da capital, especializada na comercialização de roupas de criança, acrescentando, orgulhosa, que várias peças que confeccionou foram enviadas ao exterior por clientes que têm parentes fora do país.

Além de se ocupar com suas encomendas, Nair recolhe “o quilo” para o asilo Pousada da Colina, entidade que abriga dezenas de idosos em São Manuel. Ela faz isso desde os anos 1950 e até recentemente visitava os doadores de seu bairro, mas agora, impossibilitada – quebrou o fêmur, pela segunda vez –, são eles que trazem os donativos até sua casa.

Nem todos, porém, têm a mesma facilidade para se adaptar a essa fase da vida. Como explica Cláudio Alarcon, da Gerência de Estudos e Programas da Terceira Idade do Serviço Social do Comércio de São Paulo (Sesc-SP), os idosos têm necessidades bem específicas, mas manifestam uma dificuldade muito grande de saber o que fazer a partir desse momento. “A educação para o envelhecimento deveria fazer parte da vida da gente”, opina.

Quando as pessoas se afastam do mundo produtivo, como acontece com parcela ponderável das que se aposentam, perdem o sentido da vida, ressalta Lilia Ladislau, gerente adjunta do departamento comandado por Alarcon. Isso acontece com maior frequência no universo masculino: os homens se veem privados de seu espaço de trabalho e sofrem por nunca ter vivido antes o ambiente doméstico em sua plenitude. “Eles se intimidam, ficam como que inibidos para sair atrás de coisas prazerosas, enquanto as mulheres encaram essas nuanças com mais naturalidade.”

Alarcon lembra que essa situação é tratada pelos cientistas sociais como “síndrome do ninho vazio”. Explica-se: o homem perde o papel de provedor e a mulher fica sem os filhos, que já deram os primeiros voos sozinhos e vão se tornando independentes. Nessa fase, se não se lançarem de cabeça em novos projetos de vida, as pessoas sentem um enorme buraco, entram em depressão e veem sua saúde se debilitar.

Famílias menores

Não falta ajuda, nesse caso. Alarcon ressalta que o Sesc-SP deu início, em 1963, a um projeto pioneiro de grupos de convivência de idosos que tem servido de inspiração para experiências semelhantes em outros lugares, muitas vezes em parceria com o Sesc. A ideia é oferecer uma série de atividades aos mais velhos, ajudando-os a preencher suas necessidades de socialização e atualização de conhecimentos e desenvolvendo, ao mesmo tempo, novas habilidades. Além disso, eles são levados a avaliar o significado do envelhecimento, a cuidar da saúde, a investir na integração com as demais gerações e a abraçar novos projetos de vida.

As atividades do Sesc-SP direcionadas à terceira idade contemplam 33 mil pessoas e englobam a parte cultural (música, teatro, dança, cinema, artes plásticas etc.), social (excursões, festas e jogos recreativos) e esportiva (por exemplo, com hidroginástica, ioga e natação). Entre as iniciativas da entidade, há ainda as Escolas Abertas da Terceira Idade, para atualização de conhecimentos.

Alarcon revela que com a atual “epidemia de envelhecimento”, que deu origem a uma grande massa crítica de idosos, o Sesc tem procurado levantar as efetivas necessidades desse “velho do futuro”. A busca resultou em dois novos projetos: o estímulo ao trabalho voluntário, visando aproveitar sua experiência de vida, e a integração com as gerações mais novas. “Dois séculos atrás as famílias eram enormes: coexistiam na mesma casa várias gerações – avós, pais e filhos – e a convivência não era separada por faixa etária. Hoje, o quadro é outro, mas esse convívio com diferentes gerações é muito importante”, observa Alarcon.

O escultor Mário Clemente Ramos, de 63 anos, concorda com a observação do representante do Sesc. Ele está recebendo um “novo gás” representado pelo convívio com crianças e adolescentes que assistem às suas aulas de escultura em madeira no Museu de Arte Sacra de Embu das Artes, na Grande São Paulo.

Ramos, que se apresenta como “artista plástico, jamais como aposentado”, começou a trabalhar aos 19 anos na TV Cultura, assim que o canal iniciou suas atividades, no final dos anos 1960. Ficou lá até 2003, quando, vítima de uma das muitas crises amargadas pela emissora, perdeu o emprego. Nesse largo período, e por conta do trabalho que prestava à empresa, ele pulava da cama às 3 horas da manhã. “Ou seja, eu não tinha tempo para os meus três filhos”, relembra. Ao ser demitido, decidiu recomeçar a vida. “Queria ir para um lugar distante, no meio do mato, para plantar e curtir a arte, o ofício de que realmente gosto.”

Depois de um ano viajando, Ramos se fixou em Embu das Artes, junto com a mulher, a pintora Meire Lopes. Lá foi bem recebido pelos artistas locais, tendo-se engajado num projeto que visava incentivar o turismo cultural na cidade. Foi então que a trupe montou um quiosque para que os artistas pudessem exercitar suas habilidades à vista do público na praça central da cidade, um projeto que se estendeu por todo o mês de fevereiro de 2005. O evento terminou, mas Mário e a mulher continuaram trabalhando na “palhoça dos artistas”. E já se passaram sete anos.

Ramos acorda às 5h30 para cuidar da horta em sua chácara. Depois, leva a mulher para a escola onde ela dá aulas. Em seguida, segue para a “palhoça”, onde costuma ficar até as 19 horas. Ao chegar de volta a casa, depois de um pequeno intervalo, retoma as atividades artísticas.

“Quero morrer trabalhando”, diz Ramos. O escultor conta que mantém contato com ex-colegas da TV Cultura, e que alguns deles morreram pouco depois de pendurar a chuteira. “Sei de pessoas que se trancaram em casa, não suportaram a solidão e sucumbiram.” O artista ainda relata que tem um amigo aposentado que não quer contato com as pessoas. “Muitos acreditavam que o mesmo iria acontecer comigo. Enganaram-se todos.” Ele explica que se preparou por quatro anos para o dia em que seu trabalho já não dependesse de carteira assinada. Como? “Escrevendo um novo projeto de vida”, responde.

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