A vida começa aos 60


No Dia do Idoso, quem já passou dos 60 conta como reencontrou a felicidade com atividades em grupo


Convivência diária na Casa Emilien Lacay traz amizades e melhoria da coordenação motora e da capacidade cognitiva
Foto: Agência O Globo / Pedro Teixeira
Convivência diária na Casa Emilien Lacay traz amizades e melhoria da coordenação motora e da capacidade cognitiva – Agência O Globo / Pedro Teixeira

POR ANA CLARA OTONI

 

RIO — “Vejo passar com saudade a minha mocidade. Tudo vai e nada vem. Quem tinha muito antes hoje não tem”. Os versos declamados com ardor pelo militar da reserva Wanderley Francisco da Silva, de 78 anos, dizem de uma velhice solitária bem diferente da vivida por ele e por outros 70 idosos no Centro Municipal de Saúde Cecília Donnangelo (CMSCD), em Vargem Pequena. Todas as terças-feiras, seu Wanderley e a mulher, Aracy Affonso da Silva, de 75, se unem a um grupo para participar de oficinas gratuitas de memória, culinária, teatro, artesanato e atualidades. Na Barra, existem várias iniciativas que promovem a interação entre pessoas da terceira idade, e muitas são gratuitas e abertas ao público.

Ações do tipo são algumas das razões para se comemorar o Dia Internacional do Idoso, celebrado no dia 1º de outubro. O Brasil tinha cerca de 23,5 milhões de pessoas com mais de 60 anos em 2011, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do IBGE. E, na avaliação de Roberto Alves Lourenço, geriatra e professor da Uerj, a formação de grupos para a prática de atividades ajuda a combater e prevenir o isolamento social, a depressão e outras doenças:

— O idoso tem uma condição especial: precisa enfrentar problemas de saúde e isolamento cultural, por nem sempre interagir com as novidades. A prática de qualquer atividade em grupo é um mecanismo poderoso para sua socialização. Ali, ele recebe diferentes estímulos cognitivos.

Este é o caso da portuguesa Margarida Rosa Coutinho, de 78 anos. Com a morte do marido, há 20 anos, Margarida passou a morar sozinha e mantém pouco contato com os dois filhos: um mora em Recife e o outro, casado, nem sempre pode visitá-la. Desde que passou a frequentar a Casa Emilien Lacay, em Jacarepaguá, que oferece, gratuitamente, aulas de pintura, bordado, capoeira e canto, além de massoterapia, sua vida se tornou mais alegre.

— Eu não tinha vontade de comer, não tinha vontade de fazer nada. Já estava me entregando, mas, quando vim para cá, o pessoal me abraçou com muito carinho. Minha saúde melhorou. Hoje tenho amigas e canto fados que eu achava que já tinha esquecido — comemora.

Uma reviravolta na vida de Maria Luísa Boaventura, de 60 anos, fez com que ela aceitasse o convite de uma amiga para fazer aulas de computação no programa Universidade Aberta da Terceira Idade (UnaTi), da Unisuam, em Jacarepaguá:

— Eu me separei, depois de 35 anos de casamento, e perdi um filho, há 12 anos, mas não entrei em depressão; não tomo remédios. Sempre fui muito ativa: ainda trabalho uma vez por mês, acabei de voltar da Europa com a minha filha, faço ginástica e vim fazer a aula de informática para me distrair. Sei que, se não fosse esta minha capacidade de interagir, eu estaria morta.

Embora as aulas de computação sejam apenas às terças, Maria Luísa e os quatro amigos que a acompanham no curso não se encontram apenas uma vez na semana:

— Toda sexta nós nos reunimos no condomínio. Não importa o que vamos fazer. A ideia é estarmos juntos.

Outro grupo da terceira idade que descobriu um novo universo no contato com mais pessoas de sua faixa etária foi o da Associação Bosque Marapendi (ABM), que reúne mais de 20 condomínios. Lá, cem idosos realizam atividades recreativas dentro e fora do residencial.

— Temos gente dos 60 aos 100 anos, fazendo informática, pintura, bordado, crochê, colagem, jogos de cartas, passeios, viagens. Há até casais que começaram a namorar a partir desses encontros — conta Kátia Meira, voluntária da ABM.

— Isso aqui faz todo mundo feliz, porque há uma troca muito grande, todo mundo se ajuda — completa Beth Muchaluat, de 75 anos.

Uma das amigas de Beth, Elisa Alonso, de 83, frequenta a associação há dez anos e enaltece as amizades feitas a partir dos encontros, exclusivos para moradores.

— Estou aposentada, fiquei viúva e minha filha mora em Campinas. Desde que me mudei para a ABM, comecei a conhecer pessoas que hoje são as minhas companhias. A gente compartilha tristezas e alegrias.

Grupos de convivência entre idosos são uma das consequências da nova estrutura familiar, conforme Lilian Câmara, fonoaudióloga e gerontóloga do CMSCD:

— A família mudou e está menor. Os parentes trabalham fora e o idoso acaba ficando sozinho. O grupo compensa as perdas.

Uma turma que adora segunda-feira

Após perder a família, o aposentado Paulo Campagnac, de 75 anos, morador de Jacarepaguá, valoriza ainda mais os laços de amizade com os membros do grupo de teatro Cabeça de Prata, do qual é um dos fundadores.

— A perda é um processo natural; nós fazemos questão de ter esta consciência e aproveitar a vida. Este sentimento acaba contaminando todo o grupo, e não choramos por muito tempo quando morre alguém. Pelo contrário, recorremos à comédia, que é a melhor linguagem para fazer uma pessoa se sentir bem — defende.

O Cabeça de Prata é formado por 22 idosos, de 62 a 81 anos, e oferece aulas gratuitas de teatro. Além de amizades, o projeto levou alívio a Campagnac, que sofria com o reumatismo.

— Entro no palco e me esqueço da vida. A dor não acabou, mas agora eu fico muito mais para cima — relata.

No Retiro dos Artistas, em Jacarepaguá, a atriz e diretora de teatro Najla Raja desenvolve, há dez anos, um projeto que oferece aulas gratuitas de teatro, com oficinas de expressão corporal e improvisação. Ela ressalta a transformação que o trabalho provoca na vida dos idosos.

— Percebemos que muitas pessoas que são cardíacas, diabéticas, depressivas ou têm câncer passaram a tomar menos remédios, são mais felizes e formaram novos laços de amizades — afirma.

 

Najla comprovou na prática o que o estudioso Edelves Alves de Almeida concluiu em uma pesquisa publicada na revista da UnaTi da Uerj, em 2010, que comparou a qualidade de vida de idosos que participavam de grupos de convivência com a de outros que não o faziam. A constatação do trabalho, realizado em Itabira (MG), foi a de que os idosos cercados de pessoas da mesma faixa etária viviam melhor e tinham menos depressão.

À luz desta pesquisa, a afirmação de José Maria da Silva, de 78 anos, que frequenta a Casa Emilien Lacay de segunda a sexta, não causa espanto:

— No fim de semana, eu fico doida para que chegue segunda-feira.

Leia mais: https://oglobo.globo.com/rio/bairros/a-vida-comeca-aos-60-10209376#ixzz56AQLCDa3
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