SISTEMA JUST IN TIME: CONCEITOS IMPRESCINDÍVEIS


 

Eraida Kliper Rossetti1
Mauricio Sebastião de Barros2
Mirele Tódero3
Silvio Denicol Júnior4
Maria Emilia Camargo5

RESUMO

No processo de globalização no qual as organizações estão envolvidas atualmente, a
concorrência é imensa, os clientes estão cada vez mais exigentes, os recursos são escassos e
mais onerosos. Nesse ambiente, o atendimento aos requisitos de clientes, relativos ao tempo,
tornam-se um fator de diferenciação. A vantagem competitiva baseada na dimensão de tempo está associada aos objetivos da produção: velocidade, pontualidade , flexibilidade.

Este artigo apresenta uma revisão bibliográfica sobre a Manufatura Enxuta (ME), com foco principal em
Just in Time, que consiste de um sistema de programação para puxar o fluxo de produção e
um sistema de controle de estoques que possui

três objetivos:

  1. eliminar desperdício associado a qualquer atividade que não agregue valor,
  2. reduzir estoques e
  3. garantir que sempre que se faça necessário ter estoques, estes deverão estar disponíveis imediatamente antes do momento
    da utilização, assegurando a pontualidade.

Palavras-chave: Produção, qualidade, desperdício, estoques, reduzir, pontualidade, jit.

1. INTRODUÇÃO
O sistema Just in Time, doravante denominado JIT, foi desenvolvido no início da
década de 50 na Toyota Motors Company, no Japão, como um método para aumentar a
produtividade, apesar dos recursos limitados (MOURA e BANZATO, 1994).

Em japonês, as palavras para just in time significam “no momento certo”, “oportuno”.
Uma melhor tradução para o inglês seria o just in time, ou seja, em tempo, exatamente no
momento estabelecido. In time, em inglês, significa “a tempo”, ou seja, “não exatamente no
momento estabelecido, mas um pouco antes, com uma certa folga”. No entanto, o termo,
conforme Shingo (1996), sugere muito mais que se concentrar apenas no tempo de entrega,
pois isso poderia estimular a superprodução antecipada e daí resultar em esperas
desnecessárias.

Cada processo deve ser abastecido com os itens necessários, na quantidade
necessária, no momento necessário – just-on-time, ou seja, no tempo certo, sem geração de
estoque.

Toda atividade que consome recursos e não agrega valor ao produto é considerado um
desperdício. Dessa forma, estoques que custam dinheiro e ocupam espaço, transporte interno,
paradas intermediárias, refugos e retrabalhos são formas de desperdício e conseqüentemente
devem ser eliminadas ou reduzidas ao máximo.

Just in Time significa que, em um processo de fluxo, as partes corretas necessárias à
montagem alcançam a linha de montagem no momento em que são necessários e somente na quantidade necessária, afirma Ohno (1997). Uma empresa que estabeleça esse fluxo
integralmente pode chegar ao estoque zero. Do ponto de vista da produção, esse é um estado
ideal.

Segundo Uhlmann (1997), posteriormente o conceito de JIT se expandiu, e hoje é uma
filosofia gerencial que procura não apenas eliminar os desperdícios, mas também colocar o
componente certo, no lugar certo e na hora certa. As partes são produzidas em tempo de
atenderem às necessidades de produção, ao contrário da abordagem tradicional de produzir
para caso as partes sejam necessárias. O JIT leva a estoques bem menores, custos mais baixos
e melhor qualidade do que os sistemas convencionais.

2 Fluxo de uma idéia de bom senso

Quando o JIT (Just in Time) é citado – o material certo, disponível na hora certa, no
local certo, no exato momento de sua utilização – não se observa um conceito exatamente
novo. Esse conceito baseia-se na percepção de que se chegar tarde há paralisação do processo produtivo, e chegando muito cedo haverá um simples acúmulo de material sem utilidade naquele momento, requerendo espaço e capital, entre outros.

De acordo com Martins e Laugeni (2006), esse tipo de pensamento pode ser
considerado natural nas indústrias de fluxo contínuo.

Henry Ford, o propulsor da produção em massa, aplicou esse conceito já no início do século XX nas suas fábricas de automóveis onde as linhas de montagem eram concebidas de tal maneira que de uma estação de trabalho passava-se a seguinte no exato momento da sua utilização, caracterizando o que se denomina princípio seqüencial.

O encadeamento das submontagens, do abastecimento de materiais até o despacho do
produto final: todos seguiam esse princípio, que funcionava perfeitamente. Dados históricos
dão conta que o ciclo de produção do “Modelo T”, na década de 1920, era de somente quatro
dias, tempo invejável para a época. O entendimento dessa visão de mercado e da abordagem
da produção com as suas conseqüências podem ser reforçados com a atual concepção dada ao conceito Just in Time, que é o combate aos desperdícios de maneira contínua (conceito
kaizen).

Conforme Bernardes e Marcondes (2006), a metodologia JIT prevê um sistema de
gestão das pessoas conforme o descrito para a Qualidade Total, para que se garanta a
participação, o comprometimento e não conformismo do indivíduo. As metas colocadas pelo
JIT são amplas e ambiciosas. Não são alcançadas da noite para o dia, mas em um movimento
contínuo de aperfeiçoamento, denominado Kaizen, que engloba os seguintes aspectos:

a) zero defeitos;
b) tempo zero de preparação;
c) estoques zero;
d) movimentação zero;
e) quebra zero;
f) lead time zero;
g) lote unitário (uma peça de cada vez).
Uma produção JIT caracteriza-se por profundas alterações no conceito estrutural. A
clássica divisão por funções se vê substituída por células de manufatura, que são áreas de
tamanho e formato variáveis – diretamente relacionadas com o tipo de produto e maquinário
requerido – na fábrica, dedicadas à fabricação de um produto ou família de produtos que
tenham o mesmo processo, ou um processo muito próximo de fabricação.

Existe basicamente um certo número de postos de trabalho, arranjados de tal forma
que as pessoas fiquem muito próximas – formando uma equipe – e dispostos de tal forma a
permitir que os produtos possam ser fabricados integralmente dentro desta célula com uma
movimentação mínima de material.

As pessoas que trabalham nestas células têm por característica a multifuncionalidade –
elas sabem executar mais de uma das operações, inclusive o controle da qualidade, formando
assim uma equipe de responsáveis pelo seu produto como um todo. Para isto deve haver uma
perenização das transferências e realocações de pessoas e uma política de pessoal adequada a este modelo (enfoque nas pessoas).

Um sistema JIT deve apoiar-se em alguns elementos básicos, sem os quais serão muito
pequenas as chances de sucesso. Segundo exemplos citados por Bernardes e Marcondes
(2006):

Kanban: O JIT usa um sistema simples, chamado Kanban, para retirar as peças em
processamento de uma estação de trabalho e puxá-las para a próxima estação do processo
produtivo. As partes fabricadas ou processadas são mantidas em repositórios e somente
alguns destes repositórios são fornecidos à estação subseqüente. Quando todos os repositórios
estão cheios, a máquina para de produzir, até que retorne outro repositório vazio, que funciona
como uma “ordem de produção”. Assim os estoques de produtos em processo são limitados
aos disponíveis nos repositórios e só são fornecidos quando necessário.

O Kanban é um método de autorização da produção e movimentação do material no
sistema JIT. Na língua japonesa a palavra Kanban significa marcador (cartão, sinal, placa ou
outro dispositivo) usado para controlar a ordem dos trabalhos em um processo seqüencial. O
Kanban é um subsistema do JIT, eles não são sinônimos.

Tempos de Preparação: O objetivo do JIT é produzir em lotes ideais de uma unidade. Na
maioria dos casos, isso é economicamente inviável, devido aos custos de preparação das
máquinas, comparados com os custos de manutenção dos estoques. O que se procura é reduzir
os tempos de preparação ao máximo. Tempos de preparação baixos resultam em menores estoques, menores lotes de produção e ciclos mais rápidos. A redução dos tempos de preparação é um dos pontos-chave do sistema JIT.

Colaborador Multifuncional: Com ênfase nas mudanças rápidas e menores lotes, o
colaborador multifuncional torna-se necessário. Nesse sistema produtivo não há lugar para o
preparador de máquinas, pois esse trabalho deverá ser feito pelo próprio operador, que estará
preparado para efetuar as manutenções de rotina e também pequenos reparos na máquina a
qual opera. Dar ao operador da máquina tais habilidades faz parte do programa de
manutenção produtiva total (total productive maintenance – TPM).

Layout: O layout de qualquer fábrica é muito diferente com o sistema JIT, já que o estoque é
mantido no chão da fábrica entre as estações de trabalho e não em almoxarifados. É mantido
em recinto aberto, de modo a facilitar seu uso nas estações seguintes, sendo normalmente
baixo e apenas o suficiente para manter o fluxo produtivo por poucas horas. Isso leva a uma
substancial redução nos espaços necessários.

Qualidade: A qualidade é absolutamente essencial ao sistema JIT. Não só os defeitos
constituem desperdício como podem levar o processo a uma parada, já que não há estoques
para cobrir os erros. O JIT, entretanto, facilita em muito a obtenção da qualidade, pois os
defeitos são descobertos no próximo passo do processo produtivo. O sistema é projetado para
expor os erros e não os encobrir com grandes volumes de estoque.

Fornecedores: O relacionamento com os fornecedores é radicalmente alterado com o JIT.
Aos fornecedores é solicitado que façam entregas freqüentes diretamente à linha de produção.
Mudanças nos procedimentos de entrega, como maior proximidade, são muitas vezes
necessárias para que o fornecedor seja perfeitamente integrado ao sistema JIT. Dos
fornecedores também se requer que entreguem itens de qualidade perfeita, já que não sofrerão nenhum tipo de inspeção de recebimento. É necessária uma mudança radical na maneira como usualmente observam-se os fornecedores em sistema produtivos tradicionais.

Percebe-se assim que o JIT afeta praticamente todos os aspectos da operação de uma
estrutura de manufatura: tamanho dos lotes, programação, qualidade, layout, fornecedores,
relações trabalhistas entre tantos outros. Enquanto os efeitos são de conseqüência profunda,
assim são também os benefícios potenciais: giros de estoque mais rápidos, qualidade superior e substanciais vantagens de custos.

Segundo Sayer (1986), em uma analogia JIT clássica, a produção é vista como um
curso de água, o nível é visto como o estoque e, no fundo do curso de água, estão as pedras,
que são os problemas ou defeitos, como excesso de refugo, layout inadequado, longos tempos
de preparação, entre outros. Quando o nível de água está alto, vale dizer que os estoques estão
altos, isto encobre todas as pedras e, aparentemente está tudo bem no processo produtivo.
Quando, porém, baixamos o nível de água, os problemas ficam à vista.

3. DISCUSSÃO

O JIT é um sistema muito difundido pela indústria e atualmente é uma filosofia
gerencial, que procura não apenas eliminar os desperdícios, como também colocar o
componente certo, no lugar certo e na hora certa. O JIT conduz a estoques bem menores,
custos mais baixos e melhor qualidade do que os sistemas de produção convencionais.

O fim da linha de montagem é tomado como o ponto inicial. Para fornecer os
componentes usados na montagem, um processo final vai para um processo inicial para retirar apenas o número de peças necessárias, quando elas são necessárias. Nesta forma reversa, o
processo de fabricação vai do produto acabado de volta para o departamento onde teve início
a montagem dos materiais. Cada elo na corrente just in time está conectado e sincronizado.
Por essa razão, os níveis gerenciais são também drasticamente reduzidos. O Kanban é o meio
usado para transmitir informação sobre apanhar ou receber a ordem de produção.

Além de eliminar os desperdícios, a filosofia JIT procura utilizar a capacidade plena
dos colaboradores, pois, a eles é delegada a autoridade para produzir itens de qualidade para
atender, em tempo, o próximo passo do processo produtivo. Em um sistema JIT, em que a
qualidade é essencial, o colaborador deve eliminar os problemas assim que eles surgem. A
aplicação adequada do sistema JIT leva a empresa a obter maiores lucros e melhor retorno
sobre o capital investido, decorrente de redução de custos, redução dos estoques e melhoria na qualidade, que são os objetivos de todas as empresas (SOUZA, 2006).

os dez mandamentos do JIT

Segundo Martins e Laugeni (2006), os dez mandamentos do JIT são:

  1. a) Jogue fora velhos e ultrapassados métodos de produção;
  2. b) Pense em formas de fazê-lo funcionar – não porque ele não irá funcionar;
  3. c) Trabalhe com as condições existentes – não procure desculpas;
  4. d) Não espere a perfeição – 50% está muito bom no começo;
  5. e) Corrija imediatamente os erros;
  6. f) Não gaste muito dinheiro em melhorias;
  7. g) A sabedoria nasce das dificuldades;
  8. h) Pergunte “por quê?” pelo menos cinco vezes até encontrar a verdadeira causa;
  9. i) É melhor a sabedoria de dez pessoas do que o conhecimento de uma;
  10. j) As melhorias são ilimitadas.

4. CONCLUSÃO
Com base nas reflexões deste artigo, chega-se à conclusão de que os resultados de um
sistema JIT bem sucedido consistem do crescente envolvimento dos colaboradores, bem como

o foco na liderança através da qualidade, da redução de custos, redução no uso de espaço na
fábrica, baixo custo por unidade produzida e crescimento na produtividade de toda a força de
trabalho com um conseqüente aumento do retorno sobre o investimento. Ainda podem-se citar
como resultados o cumprimento das metas de produção, redução de prazos e crescente
flexibilidade para atender as demandas.
Em um sistema JIT, em que a qualidade é essencial, o colaborador tem a autoridade de
parar um processo produtivo se identificar algo que não esteja dentro do previsto. Deverá
também estar preparado para corrigir a falha, ou então, pedir ajuda aos colegas de trabalho.

Essa atitude e flexibilidade seriam impensáveis nos sistemas tradicionais de produção em
massa, no qual a linha de manufatura jamais poderia ser parada.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BERNARDES, Ciro e MARCONDES, Reynaldo C. Teoria Geral da Administração –
Gerenciando Organizações. 3 ed. São Paulo, 2006.

UHLMANN, Gunter Wilhelm. Administração: Das Teorias Administrativas à
Administração Aplicada Contemporânea. São Paulo, 1997.

MARTINS, Petrônio G e LAUGENI, Fernando P. Administração da Produção. 2 ed. São
Paulo, 2006.

MOURA, Reinaldo Aparecido e BANZATO, José Maurício. Jeito Inteligente de Trabalhar:
‘Just-in-Time’ a reengenharia dos processos de fabricação. São Paulo: IMAM, 1994.

OHNO, Taiichi. O Sistema Toyota de Produção: além da produção em larga escala. Porto
Alegre: Bookman, 1997.

SAYER, A. New Developments in Manufacturing: The just-in-time system, Capital and
Class, vol. 30, 1986, 371p.

SHINGO, Shigeo. O Sistema Toyota de Produção: do ponto de vista da engenharia de
produção. 2.ed. Porto Alegre: Bookman, 1996.

SOUZA, Jader. Gestão Empresarial – Administrando Empresas Vencedoras. São Paulo,
2006.

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