Teoria da Mente (ToM)


O texto a seguir é uma tradução de trechos do capítulo Teoria da Mente, do livro THE COMPLETE GUIDE TO ASPERGER’S SYNDROME (O GUIA COMPLETO PARA A SÍNDROME DE ASPERGER), de Tony Attwood (2015, p. 124-135).

O livro é este aqui, ainda sem tradução para o português:

Onde encontrar: Livraria Cultura

 

Tony Attwood

Tony Attwood

Sobre o autor:

Tony Attwood, PhD, é psicólogo clínico em Brisbane, Austrália, especializado em transtornos do espectro autista, com mais de 30 anos de experiência acompanhando indivíduos com autismo. Ele também é professor adjunto na Universidade Griffith, em Queensland – Austrália, e autor do best-seller Asperger’s Syndrome: A Guide for Parents and Professionals (Síndrome de Asperger: Um Guia para Pais e Profissionais), além de outros títulos relacionados.

 

 

Tradução: Audrey Bueno

(grifos, inserção de frases extra-texto do autor e glossário de abreviações organizados pelo tradutor)

GLOSSÁRIO DE ABREVIAÇÕES

ToM – Teoria da Mente

SAT – do inglês Social Attribution Task, ou Tarefa de Atribuição Social, em português

AAF – Autismo de Alto Funcionamento

SA – Síndrome de Asperger

ASD – do inglês Autism Spectrum Disorder, ou TEA – Transtorno do Espectro do Autismo, em português]

QI – Quociente Intelectual

 

 

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Eu vejo pessoas com a síndrome de Asperger como um fio brilhante na rica tapeçaria da vida.    (Tony Attwood)

Teoria da Mente

O termo psicológico Teoria da Mente (cuja abreviação usual é “ToM”) significa a habilidade de reconhecer e entender pensamentos, crenças, desejos e intenções das outras pessoas no intuito de dar sentido ao comportamento delas e prever o que farão em seguida. Também já foi descrita como “leitura da mente” ou “cegueira mental” (Baron-Cohen 1995) ou, coloquialmente, a dificuldade em “colocar-se no lugar do outro”. Um termo sinônimo é empatia (Gillberg 2002). A criança ou adulto com a síndrome de Asperger não reconhece ou entende as pistas que indicam o pensamento ou sentimento das outras pessoas no nível esperado para alguém de sua idade.

O diagnóstico deveria incluir uma avaliação da maturidade em relação às habilidades da ToM e existem diversos testes que podem ser usados com crianças, adolescentes e adultos (Attwood 2004d). Há histórias com questões envolvendo compreensão, que podem ser usadas para avaliar a habilidade em determinar o que algum personagem na história possa estar pensando ou sentindo. […] Simon Baron-Cohen e Sally Wheelwright desenvolveram tarefas de ToM (Teoria da Mente) para adultos (Baron-Cohen 2003), em que o avaliador registra se as repostas fornecidas pelo examinado demonstram habilidades de ToM, mas também o tempo gasto para que aquela resposta fosse dada em comparação a pessoas de mesma idade e se a resposta correta parece ter sido alcançada através de análise intelectual, aprendizado e memória, em vez de imediata e instintivamente.

Crianças típicas, especialmente após a idade de 5 anos, são notavelmente astutas em perceber e compreender pistas sociais que indiquem pensamentos e sentimentos. É como se a mente delas priorizasse pistas sociais acima de qualquer outro tipo de informação no ambiente, e elas têm uma teoria mental sobre o que tais pistas significam e como responder a elas. Essa habilidade domina a mente de pessoas típicas a tal ponto que projetamos comportamento social humano em animais e até mesmo objetos.

Um estudo intrigante feito por Ami Klin (2000) usou a Tarefa de Atribuição Social (Social Attribution Task – SAT, em inglês) que foi originalmente desenvolvida por Heider e Simmel (1944). Eles fizeram um filme de animação com um elenco de “personagens” que eram figuras geométricas, que se movem em sincronia uns contra os outros, ou como resultado da ação de outras formas. O filme dura apenas 50 segundos, mas tem seis segmentos sequenciais apresentados um por vez. Após cada segmento, pergunta-se à pessoa testada “O que aconteceu lá?” para que se obtenha uma narrativa do filme mudo. Perguntam-se também coisas como “Que tipo de pessoa é o grande triângulo ou o círculo pequeno?” Os autores do teste descobriram que estudantes universitários usaram mais palavras antropomórficas para descrever as ações (perseguindo, enganando e brincando) e sentimentos (assustado, eufórico ou frustrado) dos personagens.

Quando o mesmo teste (SAT) foi usado em pessoas com Asperger, foram observadas diferenças significativas entre elas e seus pares. Suas narrativas foram mais curtas e com enredos sociais menos elaborados. Muitos de seus comentários não foram pertinentes ao vídeo e elas apontaram apenas ¼ (25%) dos elementos sociais que haviam sido identificados pelo grupo-controle. Elas usaram menos termos relacionados a ToM e menos sofisticação social. Elas também produziram atribuições de personalidade mais simplistas e em menor número. As narrativas do grupo-controle, que facilmente atribuiu significado social à cena ambígua, incluíram descrições de bravura ou euforia, personalidades complexas e atribuições sociais que ofereceram uma História Social TM coerente. Em contraste¹, os narradores com síndrome de Asperger usaram diferentes termos para descrever o movimento das formas. Suas atribuições tenderam a focar nos aspectos físicos, descrevendo tais movimento como saltitantes ou oscilantes devido a um campo magnético. A pessoa com Asperger percebe mais o mundo físico que o mundo social.

1 [Nota do tradutor: é interessante observar que a riqueza na observação social apresentada pelo grupo-controle foi proporcionalmente inversa à riqueza de percepção visual apresentada pelas pessoas com SA (Síndrome de Asperger), o que reforça a famosa frase que Temple Grandin sempre ouviu de sua mãe: “Different, not less” – ‘Diferente, não menos’]

Um estudo subsequente usando figuras geométricas animadas descobriu, como esperado, que adultos com Asperger deram menos descrições das ações em termos de estados mentais e, além disso, o estudo pôde identificar quais áreas do cérebro foram envolvidas durante processo (Castelli et al. 2002). Em adultos (neuro)típicos, a atribuição dos estados mentais é mediada pela região do córtex pré-frontal, pelo sulco temporal superior e polos temporais, mas participantes no estudo que tinham Asperger mostraram menor ativação dessas regiões do cérebro. Há uma explicação neurológica para a deficiência ou atraso quanto às habilidades da ToM.

Foi sugerido que dificuldades com a ToM também afetam a autoconsciência e introspecção (Frith e Happé 1999). Ao conversar com Corey, um adolescente com Asperger, sobre a habilidade de “ler a mente”, ele disse, “Não sou bom em descobrir o que as outras pessoas estão pensando. Não tenho certeza do que estou pensando agora.” Portanto, parece haver uma dificuldade abrangente em refletir sobre pensamentos e sentimentos, quer sejam de outras pessoas ou de si mesmo.

É importante reconhecer que a pessoa com Asperger tem ToM ou empatia imatura ou deficiente, e não a ausência dela. Pressupor falta de empatia² seria um terrível insulto para pessoas com Asperger, com a suposição de que a pessoa não reconhece ou não se importa com os sentimentos dos outros. Elas se importam, sim, e muito profundamente, mas podem não ser capazes de reconhecer os sinais mais sutis dos estados emocionais ou “ler” estados mentais mais complexos.

2 [Nota do tradutor: Alguns teóricos hipotetizam a divisão da empatia em dois tipos: a cognitiva – relacionada à capacidade de compreender a perspectiva psicológica das outras pessoas; e a afetiva – relacionada à habilidade de experimentar reações emocionais por meio da observação da experiência alheia. (Wikipédia); portanto, seria como se a pessoa com Asperger tivesse dificuldade apenas com o primeiro tipo de empatia, mas não com o segundo, ou seja, tem dificuldade em compreender mas, quando alcança essa compreensão, é capaz de sentir plenamente as emoções referentes ao estado do outro.]

 

Efeitos do déficit na teoria da mente na vida cotidiana

Embora possamos compreender que a pessoa com a síndrome de Asperger tenha dificuldade em identificar o que alguém esteja pensando ou sentindo, é muito mais difícil imaginar como deve ser no dia a dia, pois pessoas típicas “leem a mente” relativamente fácil e intuitivamente. Nós podemos “ler” um rosto, e traduzir o significado da linguagem corporal e da prosódia (entonação, musicalidade) da fala. Nós também reconhecemos as pistas contextuais que indicam o tipo de pensamento predominante ou esperado. A seguir, estão algumas áreas da vida cotidiana que são afetadas pelos déficits ou atrasos nas habilidades da ToM em crianças e adultos com Asperger.

 

Dificuldade em ler as mensagens sociais/emocionais nos olhos do outro

Como saber como alguém pode estar se sentindo ou o que pode estar pensando? Um meio de fazermos isso e através da nossa habilidade de ler rostos, em particular a região ao redor dos olhos. É sabido já há algum tempo que crianças e adultos no espectro do autismo, incluindo a síndrome de Asperger, parecem engajar em menor contato visual que o esperado, tendendo a olhar o rosto do outro menos frequentemente e, portanto, perdendo mudanças na expressão alheia.

Chris era um adolescente com Asperger que tinha um interesse especial em astronomia. Antes de iniciar sua avaliação diagnóstica, seus pais lhe haviam orientado que não falasse comigo sobre esse seu interesse especial, pois seu entusiasmo e tendência a entediar as pessoas falando repetitivamente sobre o mesmo assunto o faziam parecer excêntrico. Contudo, eu sabia do conhecimento admirável de astronomia que ele possuía e comecei a perguntar a Chris sobre algumas fotos recentes da superfície de Marte que vinham sendo mostradas em programas de televisão. Chris sabia que embora eu estivesse muito interessado em falar sobre astronomia, assim como ele também estava, seus pais, que estavam presentes e o estavam observando, não aprovariam o tópico da conversa. Ele ficou confuso e se esquivou do conflito fechando os olhos, mas continuou a falar sobre astronomia. Eu então expliquei a ele a dificuldade que eu sentia em continuar uma conversa com alguém cujos olhos estavam fechados. Chris respondeu, “Por que eu iria querer olhar pra você se eu sei onde você está?”

Olhar para as pessoas não é somente para localizá-las e ver se se moveram. Nós olhamos para um rosto para determinar o que a pessoa possa estar pensando ou sentindo. Quando adultos e crianças com Asperger olham um rosto, para onde olham exatamente? A maioria das pessoas típicas focam nos olhos para ajudá-las a determinar os sentimentos e pensamentos de outrem. Os olhos são considerados “as janelas da alma”. Tecnologia de rastreamento visual pode ser usada para medir a fixação visual, e pesquisas recentes indicaram que adultos com Asperger tendem a olhar menos nos olhos e mais para a boca, corpo e objetos que os indivíduos do grupo-controle (Klin et al. 2002ª, 2002b). Esse estudo engenhoso determinou para onde alguém estava olhando durante uma filmagem de interação entre atores. Numa cena, enquanto indivíduos do grupo-controle fixaram no olhar de horror dos olhos arregalados dos atores, aqueles com Asperger ou com AAF (Autismo de Alto Funcionamento) fixaram na boca dos atores. A pesquisa mostrou que os sujeitos do grupo-controle fixaram duas vezes mais o olhar na região dos olhos que os sujeitos do grupo pertencente ao espectro do autismo. Ao olhar para a boca, a pessoa pode ajudar a processar a comunicação linguística, mas perderá a informação que pode ser transmitida na região dos olhos.

Outra pesquisa também mostrou que quando a pessoa com Asperger olha nos olhos de alguém, ela é menos capaz de ler o significado nos olhos que pessoas do grupo-controle (Baron-Cohen e Jolliffe 1997; Baron-Cohen et al. 2001a). Uma frase de uma pessoa com a síndrome de Asperger confirma a dificuldade em ler as mensagens na região dos olhos: “As pessoas passam mensagens com os olhos, mas eu não sei o que estão dizendo” (Wing 1992, p.131). Pessoas com Asperger têm dois problemas ao usar informação advinda dos olhos para determinar o que alguém esteja pensando ou sentindo. Primeiro, elas tendem a não olhar nos olhos como fonte dominante de informação quanto a comunicação social/emocional e, segundo, elas não são muito boas em ler os olhos nas vezes em que olham para eles.

 

Fazendo interpretações literais

Uma das consequências de déficits ou atraso nas habilidades da ToM é a tendência a fazer interpretações literais do que é dito. Eu observei a resposta literal de crianças com Asperger para pedidos tais como “Me dá uma mão?”, a reação emocional a comentários como “Ela está queimando de febre”, e confusão acerca de metáforas como “Já é hora de arregaçar as mangas”. […]

Sabemos há algum tempo que pessoas com Asperger têm dificuldade em reconhecer as pistas sociais relevantes e ler expressões faciais, mas temos nova evidência de que há também dificuldade em entender o significado do tom de voz de alguém, ou prosódia (Kleinman, Marciano e Ault 2001; Rutherford, Baron-Cohen e Wheelwright 2002), que normalmente habilitariam o ouvinte a ir além da interpretação literal. Somos capazes de compreender a incongruência (incoerência) entre expressão facial, tom de voz e contexto, e perceber quando alguém está brincando ou sendo sarcástico. Adultos e crianças com Asperger podem ficar confusos com sarcasmo, e sujeitos às brincadeiras dos outros, por serem ingênuos, crédulos, e partirem do princípio de que as pessoas querem dizer o conteúdo exato de suas palavras.

 

Ser considerado desrespeitoso e rude

Crianças ou adultos com Asperger podem não notar as dicas sutis de que alguém esteja ficando incomodado com o seu comportamento egocêntrico ou dominador numa conversa. A criança parece quebrar o código social e não responde a avisos. Se o adulto ou outra criança não sabe que esse comportamento é devido ao déficit ou atraso na ToM, a interpretação do comportamento é no sentido de fazer um julgamento moral: que a criança esteja sendo deliberadamente desrespeitosa e rude. Contudo, a criança não necessariamente tem qualquer intenção maldosa, geralmente não tem consciência de ter causado ofensa e pode ficar confusa sobre o motivo da outra pessoa estar brava.

Pessoas com síndrome de Asperger têm um entusiasmo impressionante por seus assuntos de interesse. No entanto, podem não reconhecer que os outros não compartilham do mesmo nível de entusiasmo delas sobre tais assuntos. Por olharem menos a outra pessoa quando estão conversando, podem não perceber ou reconhecer os sinais de tédio ou serem capazes de julgar se o tópico é relevante para o contexto ou prioridades da outra pessoa.

Quando a mãe pergunta à criança “O que você fez na escola hoje?”, crianças típicas saberão o que suas mães já sabem e o que gostariam e saber, ou achariam interessante sobre o que aconteceu na escola. Crianças com prejuízo na ToM podem não saber como responder essa pergunta. Ela quer saber tudo, do momento em que a criança entra na sala de aula ao momento que sai? O que seria importante para ela saber? O quanto ela já sabe? A criança com Asperger pode ter dificuldade em identificar eventos pela perspectiva da mãe, e poderá se recusar a responder a pergunta por ser muito difícil, ou dará um comentário excessivamente detalhado do dia. O monólogo então se torna tedioso.

[…]

Igualmente, tópicos ou atividades que são do interesse dos outros podem ser percebidos como entediantes pela pessoa com Asperger. Por exemplo, na escola, as crianças sentam para ouvir a outra contar uma história e costumam se interessar em ouvir o que o colega vai contar. A criança com Asperger pode não ser capaz de ter empatia com o contador da história e não se interessar por suas experiências. Pode, então, sofrer críticas por não prestar atenção. A tendência, portanto, em falar longamente sobre um assunto sem reconhecer o tédio no outro, ou ser desinteressado quanto ao interesse dos outros, tende a ser por déficits na ToM em vez de por falta de respeito ou desejo de comportar-se mal.

 

Honestidade e enganação

Noto que crianças com Asperger são geralmente espantosamente honestas. Se os pais perguntam se fizeram algo que não era permitido, é provável que admitiam prontamente que o fizeram. Outras crianças reconhecerão que o adulto não tem conhecimento o suficiente (isto é, não viram quem fez) e que podem usar de enganação para evitar as consequências.

Outra característica associada à síndrome de Asperger é que existe dificuldade em saber quando seria o caso de se contar “mentira por uma boa causa”, fazendo comentários que podem causar ofensa. Por exemplo, a criança pode notar a mulher obesa na fila do caixa e comentar que a mulher é gorda e que precisa fazer dieta. A opinião da criança é de que a mulher devesse ser grata pela observação ou conselho; […] outras crianças geralmente inibiriam tal comentário com base no entendimento dos pensamentos e sentimentos da outra pessoa. Crianças e adultos com a síndrome de Asperger parecem ter um vínculo maior com a honestidade e a verdade do que com os pensamentos e sentimentos das pessoas.

[…]

A habilidade em compreender o valor da enganação e reconhecer quando tal comportamento é esperado ocorre tarde na vida da criança com Asperger, geralmente no início da adolescência. Isso pode gerar dúvida em pais e professores, pois a criança tão excessivamente honesta agora reconhece que pode enganar as pessoas e evitar certas consequências. Contudo, o tipo de enganação pode ser imaturo e facilmente identificado por um adulto.

Onde a mentira se torna um problema para a família e amigos, explicações serão buscadas. Primeiro, devido ao déficit ou atraso na ToM, a pessoa com Asperger pode não dar-se conta de que a outra pessoa possivelmente ficará mais ofendida pela mentira do que por alguma pequena infração. Segundo, a pessoa com Asperger pode considerar a mentira como forma de evitar consequências ou como uma solução rápida para um problema social. Terá, ainda, dificuldade em admitir que a mentira pode ser uma maneira de manter a autoestima caso ela tenha uma autoimagem arrogante em que cometer um erro seja impensável.

Adultos com a síndrome de Asperger são famosos por serem honestos, terem um forte senso de justiça e por seguirem as regras. Eles acreditam fortemente na moral e na ética de princípios. Essas são qualidades admiráveis na vida, mas que podem causar problemas consideráveis quando o empregador, por exemplo, não compartilha dos mesmos ideais. Eu suspeito que muitos ‘delatores’ tenham a síndrome de Asperger. Conheço vários que aplicaram o código de conduta da empresa ou governo em que trabalhavam e reportaram corrupções e ações indevidas em seus próprios locais de trabalho. Eles ficaram surpresos posteriormente que a cultura organizacional, gerentes e colegas de trabalho não os tenham apoiado; isso pode levar à desilusão e depressão.

 

Senso de paranoia

Uma das consequências do déficit a teoria da mente (ToM) para a pessoa com Asperger é uma dificuldade em distinguir entre ações deliberadas (intencionais) ou acidentais de outra pessoa. Certa vez observei uma criança com Asperger que estava sentada no chão da sala de aula junto com outras crianças, ouvindo a professora ler uma história. Um menino começou a provocar essa criança, cutucando-a com o dedo em suas costas, enquanto a professora não estava olhando. A criança com Asperger tornou-se cada vez mais irritada e finalmente bateu no menino para que parasse. A professora estava olhando nessa hora, mas, sem estar ciente dos acontecimentos anteriores, reprimiu a criança com Asperger por ter sido agressiva. Outras crianças teriam explicado que tinham sido provocadas e reconheceriam que se a professora soubesse todas as circunstâncias, as consequências seriam menos severas e mais adequadas. Mas a criança com Asperger ficou em silêncio. A professora continuou com a história e alguns momentos mais tarde outra criança voltou para a sala após ter ido ao banheiro. Ao passar  cuidadosamente por trás da criança com Asperger, ela acidentalmente encostou em suas costas; a criança com Asperger não compreendeu que a situação nesse caso havia sido acidental e bateu na criança assim como havia feito com a outra que a estava atormentando anteriormente. Porém, nesse caso, a professora tinha consciência da dificuldade da criança em distinguir atos acidentais de deliberados e foi capaz de acalmar a situação com uma explicação.

Eu gostaria de acrescentar que a aparente paranoia em crianças e adultos com Asperger pode também ser devida a experiências sociais bem reais, onde encontram um grau maior de provocação deliberada que seus pares. Uma vez que outra criança tenha sido hostil, qualquer interação subsequente com aquela criança será confusa; a criança com Asperger tenderá a interpretar a interação como hostil, enquanto crianças típicas interpretariam mais as intenções da outra criança “caso a caso”, ou seja, dependendo do contexto e pistas sociais.

 

Resolução de problemas

Desde muito jovens, crianças típicas percebem que um outro alguém pode ter a solução para um problema prático e que outros podem estar interessados e serem capazes de ajudar. Esse insight em relação aos pensamentos e habilidades das outras pessoas não é automático para crianças com Asperger. Quando estão diante de um problema, procurar ajuda de alguém que provavelmente saiba o que fazer geralmente não é o primeiro e nem o segundo pensamento. A criança pode estar sentada ou parada próxima a alguém que obviamente poderia ajudar, mas parece “cega” e determinada a resolver o problema por si mesma.

 

Administrando conflitos

À medida em que crescem, as crianças se tornam mais maduras e hábeis na arte da persuasão, negociação e administração de conflitos. Elas se tornam cada vez mais capazes de compreender a perspectiva das outras pessoas e como influenciar seus pensamentos e emoções através de estratégias construtivas. Administrar conflitos de forma bem-sucedida requer considerável habilidade de ToM (Teoria da Mente), portanto é de se esperar que crianças e adultos com Asperger tenham dificuldade na resolução de conflitos. Observações e experiência de situações de conflito sugerem que crianças com Asperger sejam relativamente imaturas, tenham pouca variação de negociação e tendam a ser confrontadoras. Elas podem recorrer a estratégias ‘primitivas’ de resolução de conflito, tais como chantagem emocional ou adesão inflexível ao seu próprio ponto de vista. Eles podem falhar em compreender que teriam maiores chances de alcançar o que desejam se fossem cordiais com a outra pessoa. Quando uma discussão ou controvérsia termina, a pessoa com Asperger pode também mostrar menos remorso ou atenção a mecanismos de reparação do sentimento do outro, como um pedido de desculpa, por exemplo.

Um adulto geralmente precisa assessorar a criança com Asperger na resolução de conflitos durante toda a infância, mas durante a adolescência espera-se da criança que ela ceda, identifique e aceite o ponto de vista da outra pessoa, negociando, perdoando e esquecendo conflitos. Tais atributos podem ser ambíguos e estranhos para a criança com síndrome de Asperger, que pode ser percebida como apresentando sinais similares ao Transtorno Opositivo Desafiador. As características de resolução de conflito relevantes associadas à síndrome de Asperger nesse estágio são:

  • Dificuldade em conceituar as prioridades e perspectivas do outro
  • Habilidades limitadas de persuasão
  • Tendência em ser confrontadora e rígida
  • Relutância em rever sua decisão e admitir ter cometido um erro
  • Aversão em ser interrompida
  • Compulsão por completude, término, finalização
  • Tendência a punir em vez de elogiar
  • Tendência a evitar demandas, cumprir solicitações
  • Falta de conhecimento de estratégias alternativas

Assim, crianças com Asperger parecem se opor às decisões dos outros, desafiar suas prioridades e negar os motivos que lhe são apresentados. Elas podem ter um histórico de insistirem em suas decisões até que a outra pessoa ceda, e não reconhecerem os sinais de que não seria sábio continuar com a discussão. Outras crianças podem reconhecer as perspectivas, prioridades e razão do colega e, ao menos em nome da amizade, acatar o pedido ou decisão da outra criança. Elas esperam reciprocidade nesse aspecto da amizade. Crianças com Asperger e seus amigos podem precisar de orientação em quando e como fazer um pedido, ouvir e absorver o ponto de vista e prioridades da outra pessoa, para negociar algumas áreas de concordância e concessão e para procurar e aceitar a decisão de um árbitro. Acima de tudo, elas precisam aprender a não deixarem a emoção, especialmente a raiva, inflamar a situação. Técnicas de psicodrama/encenação podem ser usadas para ilustrar estratégias de resolução de conflito apropriadas e inapropriadas 3.

3 [Nota do tradutor: a criança com SA (Síndrome de Asperger) é aprendiz visual, de modo que VER a situação é o melhor meio de ajudá-la a compreender. Aprendem muito mais como que veem na TV do que com o que explicamos a elas, por exemplo. Assim, se essa criança diz “Sai da frente!”, a abordagem mais eficaz – em vez de dar sermão dizendo coisas tais como “Isso foi rude/Não é assim que se diz/Fale de outro jeito/Não fale assim com as pessoas/etc.” – é  DAR UM EXEMPLO de como fazer ou falar, dizendo a ela algo do tipo: “Diga ‘Com licença, por favor’” (essa dica é importante para o professor na escola também). Espere a criança repetir a frase correta (mesmo que contrariada, pois geralmente ficam agressivas quando corrigidas) e elogie (sem exagero, com um simples “Agora sim/Isso mesmo.”) e, se a pessoa ‘ofendida’ tiver sido você, dê a licença que a criança pediu assim que ela falar de forma adequada, o que a ensinará que falar adequadamente faz com que ‘incrivelmente’ ganhe as coisas que deseja e faz com que os outros sejam amáveis com ela. Pode parecer interesse no início, mas isso vai incutindo na criança um sentimento crescente de satisfação por ser amável com os outros. É claro que o processo é longo e nem sempre a pessoa vai atender ao pedido da criança apenas por que foi feito de forma educada, simpática, e nesses momentos a criança com Asperger muito provavelmente vai se revoltar dizendo “Mas eu pedi direito!”, dado o déficit da ToM que dificulta a ela que perceba as variações de contexto nas situações. É preciso paciência e, com o tempo, ela vai perceber que, mesmo nem sempre ganhando o que quer, há mais vantagens em ser gentil com as pessoas na maioria do tempo. É importante que os pais não cedam ao pedido autoritário e rude (embora haja momentos de descontrole intenso da criança, em que acaba sendo necessária certa ‘vista grossa’ dos modos da criança para que a situação não escale), mas não se deve perder de vista que o modo como a criança interage com os pais será o modo que tenderá a reproduzir socialmente, por isso é altamente recomendável nunca perder a oportunidade de ensinar e requerer a forma correta de se expressar como condição para atender o pedido da criança, pois a família é o seu laboratório e escola social.]

 

Introspecção e consciência de si mesmo

Uta Frith e Francesca Happé (1999) sugeriram que devido às diferenças na aquisição e natureza das habilidades da ToM no desenvolvimento cognitivo de crianças com síndrome de Asperger, elas podem desenvolver um tipo diferente de consciência de si mesmas. A criança pode adquirir habilidades de ToM usando a inteligência e experiência em vez da intuição, o que pode eventualmente levar a uma forma alternativa de autoconsciência à medida em que a criança reflete sobre o próprio estado mental e o de outras pessoas. Frith e Happé (1999) descreveram essa autoconsciência altamente reflexiva e explícita como sendo similar à dos filósofos.

Li autobiografias de adultos com Asperger e concordaria que há uma qualidade quase-filosófica. Quando uma forma diferente de ver e perceber o mundo é combinada com habilidades intelectuais avançadas, atingimos novos progressos em filosofia. É interessante notar que o filósofo Ludwig Wittgenstein4 tinha muitas das características de uma pessoa superdotada com síndrome de Asperger (Gillberg 2002).

4 [Nota do tradutor: vale a pena ler sua biografia, no link do nome do filósofo.]

 

Compreensão do constrangimento

Um estudo que examinou o entendimento de situações embaraçosas em crianças com autismo de alto funcionamento ou síndrome de Asperger, encontrou, como já era esperado, uma ligação entre habilidades de ToM e esse tipo de compreensão, mas um exame detalhado das respostas das crianças descobriu que havia algumas características especialmente interessantes (Hillier e Allinson 2002). As crianças com Asperger tenderam a avaliar algumas situações como embaraçosas enquanto crianças típicas não acharam tais situações constrangedoras, e tiveram alguma dificuldade em justificar o motivo pelo qual alguém se sentiria envergonhado. Em nível intelectual, elas tinham entendimento do conceito de embaraço, mas foram menos capazes de utilizar tal conceito em novas situações5.

5 [Nota do tradutor: Isso parece reforçar a ideia de que pessoas com SA aprendem os conceitos sociais racionalmente, memorizando os padrões de desempenho esperados para as situações que já conhecem, ou seja, que já ‘catalogaram’ em suas mentes.]

 

[…]

Simon Baron-Cohen e colegas desenvolveram um teste de detecção de ‘gafe’ usando uma série de histórias e observaram se crianças com Asperger reconheciam as gafes (Baron-Cohen et al. 1999ª). A gafe é definida como ‘uma ação ou comentário indiscreto’, e o estudo confirmou a experiência de muitos pais de que, em comparação aos seus pares típicos, as crianças com Asperger percebiam menos e cometiam mais gafes no dia a dia.

Crianças acerca dos 8 anos conseguem inibir seus comentários ou críticas por preverem a reação emocional do outro; isto é, elas guardam seus pensamentos para si mesmas para não embaraçar ou desagradar o colega. A pessoa com Asperger pode ser muito astuta em identificar erros e pode ser muito afoita em apontar esses erros, inclusive nos outros. Seus comentários podem ser interpretados como deliberadamente hostis e críticos, mas a motivação da pessoa com Asperger pode ter sido a de encorajar a perfeição e informar a pessoa sobre o erro. Já observei crianças com Asperger criticarem o professor na frente da sala toda. O erro do professor pode ser trivial, tal como um erro de ortografia, mas para o jovem com Asperger o desejo de corrigir o erro tem mais prioridade que o sentimento do professor.

Ansiedade

A incerteza de saber o que o outro esteja pensando ou sentindo pode ser um fator que contribui para a ansiedade. Marc Fleischer é um matemático talentoso que tem a síndrome de Asperger e, como a maioria das pessoas com Asperger, é uma pessoa terna que não deseja causar confusão ou incômodo aos outros.  Em sua autobiografia ele escreveu:

Devido a minha falta de segurança, tenho um medo terrível de incomodar os outros sem perceber ou querer, ao falar ou fazer a coisa errada. Eu gostaria de poder ler mentes, pois assim saberia o que desejam e poderia fazer a coisa certa. Socialização é mais difícil que qualquer equação matemática para mim. O que funciona para uma pessoa, não funciona para a outra. As pessoas nem sempre querem dizer o mesmo que dizem suas palavras, e nem sempre mantêm o que dizem. (Fleischer 2003, p. 110)

 

A velocidade e qualidade do raciocínio social

Pessoas neurotípicas são muito eficientes em usarem suas habilidades de ToM quando engajadas em situações sociais. Pesquisas mostraram que embora crianças e adultos com Asperger possam demonstrar habilidades de ToM bastante avançadas, podem levar mais tempo processando cognitivamente as pistas relevantes e respostas que os outros esperam, e requerem mais encorajamento e “deixas”. Suas respostas para perguntas que necessitem de habilidades de ToM podem ser menos espontâneas e intuitivas, e mais literais, idiossincráticas e irrelevantes (Bauminger and Kasari 1999; Kaland et al. 2002).

[…]

Uma das consequências em usar cálculo mental consciente em vez de intuição é o efeito no tempo da resposta. Numa conversa ou interação social, a pessoa com Asperger pode ser lenta em processar aspectos que requeiram ToM. […]

Também observei que habilidades de ToM podem ser influenciadas pela complexidade da situação, a velocidade da interação e o grau de stress. Em reuniões sociais em grupo, a quantidade de informação social pode ser esmagadora para alguém com Asperger. […]

O tempo necessário para se processar informação social pode ser comparado ao tempo que alguém que esteja aprendendo uma segunda língua levaria para processar a fala de alguém fluente no idioma 6.[…]

Quando relaxada, a pessoa com Asperger pode processar estados mentais mais facilmente, mas quando estressada, assim como em qualquer habilidade, a performance declina. […]

 

6 [Nota do tradutor: essa é uma analogia interessante, pois permite prever que alguém básico no idioma leve mais tempo para processar o que ouve, e que esse alguém básico pode tanto ser uma criança, que ainda tem uma ToM rudimentar, afinal, tais habilidades vão sendo desenvolvidas ao longo dos anos, à medida em que o indivíduo amadurece, mas esse aprendiz de idioma em nível básico pode ser, também, o adulto que não foi capaz de desenvolver satisfatoriamente suas habilidades de ToM, o que geralmente é verdade quanto mais severo for o nível de autismo. Nesse aspecto, há de se considerar que o fato de tornar-se adulto não garante um bom desenvolvimento da ToM, ou seja, nem todos os adultos atingem o mesmo nível de ToM, mesmo entre neurotípicos, de forma que alguns continuem sendo ‘falantes em nível básico’, enquanto outros (uma maioria dos adultos com autismo de alto funcionamento) acabem atingindo um nível intermediário. Alguns conseguem atingir um nível avançado, apresentando habilidades de ToM de forma mais elaborada, eficiente. Mulheres e pessoas com alto QI têm mais facilidade em alcançar um nível avançado de funcionamento da ToM. Há casos em que tais habilidades chegam até mesmo a serem maiores em pessoas com autismo de alto funcionamento do que em indivíduos neurotípicos, onde geralmente a diferença no QI é o fator determinante, ou seja, uma pessoa com autismo de alto funcionamento que também seja portadora de alto QI pode vir a desenvolver habilidades de ToM melhores que as que uma pessoa neurotípica, porém de QI mediano, afinal, a empatia também tem um componente cognitivo para o seu desenvolvimento. O livro Convivendo com Autismo e  Síndrome de Asperger, de Chris Williams e Barry Wright, traz nas páginas 40 e 41, gráficos que ilustram os diferentes níveis de cegueira mental (que é outro termo relativo à ToM) que indivíduos com e sem autismo podem apresentar, as variações entre os dois grupos e a intersecção que pode existir entre eles, onde pessoas mais capazes e com autismo podem atingir o mesmo nível de funcionamento da ToM encontrado em pessoas sem ASD (autismo), mas que não tenham um desenvolvimento cognitivamente avançado em tal habilidade. Ou seja, embora a pessoa com ASD esteja sempre em desvantagem nesse aspecto e tenda a desenvolver uma ToM mais simplificada em relação a pessoas neurotípicas, existem algumas pessoas neurotípicas que também desenvolvem a ToM de maneira simplificada, embora tenham um potencial inato maior que o encontrado no autismo, de modo que pessoas mais capazes com ASD possam apresentar um nível de funcionamento da ToM igual ou ligeiramente melhor que uma pessoa neurotípica menos capaz e que não utilize todo o seu potencial de desenvolvimento da ToM. Porém, esses casos estão em menor número, levando em conta que um QI no nível de superdotação (acima de 127 para alguns pesquisadores, e de 130 para outros) corresponde a cerca de 3-5% da população.]

 

Exaustão

Nós sabemos que a aquisição de habilidades de ToM pode ocorrer em atraso nas pessoas com síndrome de Asperger, e que ao longo do tempo essas pessoas podem atingir habilidades avançadas de ToM. Contudo, nós também precisamos reconhecer o grau de esforço mental requerido para que processem informação social. O uso de mecanismos cognitivos para compensar déficits na ToM leva à exaustão mental. Sucesso social limitado, baixa autoestima e exaustão podem contribuir para o desenvolvimento de depressão clínica. […]

 

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A síndrome de Asperger provavelmente é uma importante característica da nossa espécie ao longo da evolução.                              (Tony Attwood)

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