O DESENVOLVIMENTO DA FORÇA INTERIOR


A ALQUIMIA DO SOFRIMENTO

 

Se há um caminho para nos libertarmos do sofrimento

Devemos usar cada momento da vida para encontra-lo.

Só um tolo quer seguir sofrendo.

Não é triste ingerir conscientemente veneno?

VII DALAI LAMA

Muito tempo atrás, o filho de um rei da Pérsia foi criado na companhia do filho de um grande vizir. A amizade entre eles era tão grande que se tornou lendária. Quando o príncipe ascendeu ao trono, disse ao amigo: “Enquanto eu cuido dos assuntos do reino, escreva-me, por favor, um tratado sobre a história dos homens e do mundo, para que eu possa tirar dela as necessárias lições e assim saber a maneira adequada de agir”.

O amigo do rei consultou os mais famosos historiadores, os mais instruídos eruditos e os mais respeitados sábios. Cinco anos depois, orgulhosamente, ele se apresentou ao palácio.

“Senhor”, disse, “aqui estão trinta e seis volumes com a história completa do mundo, da criação à sua ascensão.”

“Trinta e seis volumes!”, gritou o rei. “Como terei tempo de lê-los? Tenho muito trabalho para administrar o meu reino, além de me ocupar das minhas duzentas rainhas… Por favor, amigo, condense a sua história.”

Dois anos depois, o amigo voltou ao palácio, desta vez com dez volumes. Mas o rei estava em guerra contra o monarca vizinho e só pôde ser encontrado no deserto, no topo de uma montanha, de onde conduzia a batalha.

            “A sorte do nosso reino está em jogo enquanto conversamos. Onde encontrei tempo para ler dez volumes? Por favor, resuma a sua história ainda mais.”

O filho do vizir partiu e trabalhou três anos para produzir um único volume, que oferecia uma visão acurada daquilo que era essencial. O rei, agora, estava legislando.

“Como você tem sorte de ter tempo para escrever calmamente… Eu, enquanto isso, tenho que discutir o valor dos impostos e a maneira de recolhê-los… Traga-me dez vezes menos páginas e dedicarei uma noite para estudá-las”.

O amigo obedeceu e, dois anos depois, terminou o trabalho. Mas quando voltou trazendo as suas sessenta páginas, encontrou o rei acamado, agonizando, com dores terríveis. O amigo também já não era mais jovem, estando seu rosto cheio de rugas emoldurado por uma juba de cabelos brancos.

“Bem”, sussurrou o rei com respiração moribunda, “e a história dos homens?”

Seu amigo olhou para o rei que estava para morrer e disse-lhe com serenidade e firmeza:

     “Eles sofrem, Majestade.”

 Sim, eles sofrem, a cada instante e no mundo inteiro. Alguns morrem nem bem acabaram de nascer; outras, ao darem à luz. A cada segundo que passa, pessoas são assassinadas, torturadas, espancadas, mutiladas, apartadas dos entes queridos. Outras são abandonadas, traídas, excluídas, rejeitadas. Algumas são mortas pelo ódio, pela ganância, ignorância, ambição ou inveja. Mães perdem seus filhos, e filhos perdem seus pais. Os hospitais estão cheios de doentes, alguns dos quais sofrendo sem esperança de receber tratamento, outros tratados sem esperança de cura. Os que estão morrendo suportam a dor, e os sobreviventes, o luto. Alguns morrem de fome, de frio, de exaustão; outros queimam-se no fogo, são esmagados pelas rochas ou levados pelas águas.

E isso é verdadeiro não só pra os seres humanos. Os animais devoram uns aos outros nas florestas, nas savanas, nos oceanos e nos céus. A cada momento, dezenas de milhares deles estão morrendo pelas mãos dos seres humanos, cortados em pedaços e enlatados. Outros sofrem tormentos infindáveis nas mãos dos seus donos, transportando pesadas cargas, acorrentados a vida toda; outros, ainda, são caçados, pescados, presos em armadilhas de aço, estrangulados em ciladas, asfixiados sob redes, torturados por causa da sua carne, do seu almíscar, do seu marfim, dos seus ossos, da sua pele, jogados na água fervente ou esfolados vivos.

Estas não são apenas palavras, pois retratam a própria realidade que integra a nossa vida diária: a morte, a natureza transitória de todas as coisas e sofrimento. Ainda que nos sintamos impotentes diante de tanta dor, virar a cabeça para o outro lado com indiferença é covardia. Temos que nos preocupar e fazer tudo o que pudermos para aliviar esses sofrimentos.

AS MODALIDADES DO SOFRIMENTO

 O budismo fala do sofrimento que permeia tudo, do sofrimento da mudança e da multiplicidade do sofrimento. O sofrimento que permeia tudo é comparável a uma fruta verde prestes a amadurecer; o sofrimento da mudança, a uma refeição deliciosa, mas que está envenenada; e a multiplicidade do sofrimento compara-se à transformação de um abscesso em um tumor. O sofrimento que permeia tudo ainda não é reconhecido como tal. O sofrimento da mudança começa com um sentimento de prazer que se transforma em sofrimento. A multiplicidade do sofrimento está associada ao aumento da dor.

Distinguem-se também três tipos de sofrer: sofrimento visível, oculto e invisível. O sofrimento visível é evidente por toda a parte. O oculto dissimula-se sob a aparência de prazer, de estar livre de preocupações, na diversão. É o sofrimento da mudança. Um gourmet degusta uma fina refeição e momentos depois sente a dor dos espasmos causados pelo veneno. Uma família se reúne alegremente para um piquenique no campo e de repente uma criança é picada por uma cobra. Pessoas se divertem dançando numa festa quando a tenda, de um momento para outro, pega fogo. Sofrimentos como esses podem surgir eventualmente em qualquer momento da vida, mas permanecem ocultos para aqueles que estão tomados pela ilusão das aparências e se agarram à crença de que as pessoas e coisas duram, como se pudesse ser intocadas pela mudança que afeta a tudo e a todos.

     Há também o sofrimento que permeia as atividades mais comuns. Ele não é tão fácil de identificar como uma dor de cabeça porque não nos envia nenhum sinal e não impede que funcionemos no mundo, já que faz parte do nossa rotina diária. Na aparência, o que poderia ser mais inócuo do que um ovo quente? Façamos uma concessão: talvez as galinhas criadas em fazendas não vivam tão mal, mas vamos entrar um pouquinho no mundo das granjas industriais. Os galos são separados das galinhas assim que nascem e enviados diretamente para o abate. Para que as galinhas cresçam mais rápido e ponham mais ovos, são alimentadas dia e noite sob iluminação artificial. A superpopulação faz com que se tornem agressivas, bicando e arrancando as penas umas das outras. Vivem tão apertadas nas suas gaiolas que se uma delas for colocada sozinha em pé, no chão, cairá por terra, porque não sabe mais andar. Nada desta história transparece no ovo quente que você come em seu café da manhã.

    Há, por fim, o sofrimento invisível, que é o mais difícil de ser percebido. Isso porque ele se origina da própria cegueira da nossa mente e aí permanece enquanto formos dominados pela ignorância e pelo egoísmo. A nossa confusão, ligada à falta de discernimento e de sabedoria, nos deixa cegos para aquilo que é oportuno realizar ou evitar, a fim de que nossos pensamentos, palavras e ações gerem felicidade e não sofrimento. Essa confusão, e as tendências a ela associadas, levam-nos a reencenar sempre o comportamento que está na base do nosso sofrimento, perpetuando-o. Para neutralizar esse julgamento falho e prejudicial, é preciso despertar do sonho da ignorância e aprender a identificar as maneiras sutis pelas quais a felicidade e o sofrimento são gerados.

Somos capazes de identificar o apego ao ego como a causa desse sofrimento? Em geral, não. É por isso que chamamos esse tipo de sofrimento de invisível. O egoísmo ou, mais precisamente, o sentimento doentio de que somos o centro do mundo – que chamaremos de “sentimento de importância do eu” – está na origem da maior parte dos pensamentos perturbadores. Do desejo obsessivo ao ódio, passando pelo ciúme, ele atrai a dor do mesmo modo que um ímã atrai a limalha de ferro.

Parece, então, que não há a menor escapatória para os sofrimentos que surgem de toda parte. Os séculos vêem passar profetas e sábios, santos e potentados, mas ainda assim os rios do sofrimento continuam correndo. Madre Teresa trabalhou por cinquenta anos pelos moribundos de Calcutá, mas, se os abrigos que fundou desaparecessem, esses pacientes estariam de volta às ruas como se essas casas nunca tivessem existido. Nos bairros vizinhos, eles ainda morrem na calçada. Medimos a nossa impotência pela onipresença, pela magnitude, pela multiplicidade e pela perpetuidade do sofrimento. Os textos budistas dizem que no samsara, o ciclo de mortes e renascimentos, é impossível encontrar um lugar que não seja atingido pelo sofrimento, mesmo que ele tenha o tamanho da ponta de uma agulha.

            Devemos nos deixar encurralar por uma visão como essa, deixando-nos dominar pelo desespero, pela loucura, pelo desânimo ou, ainda pior, pela indiferença? Incapazes de suportar a intensidade dessa visão pessimista, devemos ser destruídos por ela?

AS CAUSAS DO SOFRIMENTO

             Há algum modo de pôr fim ao sofrimento? De acordo com o budismo, o sofrimento sempre estará presente como fenômeno global; no entanto, cada indivíduo tem a possibilidade de liberar-se dele.

            Em se tratando do conjunto dos seres, com efeito, não se pode esperar que o sofrimento simplesmente desapareça do universo porque, na visão budista, o mundo não tem nem começo nem fim. Não pode haver nenhum começo verdadeiro porque nada pode repentinamente tornar-se alguma coisa. O nada é uma palavra que nos permite representar para nós mesmos a ausência ou até inexistência dos fenômenos do mundo. Mas uma simples ideia não pode originar absolutamente nada.

Quanto a um final de verdade, em que alguma coisa se torna nada, ele igualmente se revela impossível. Em qualquer lugar do universo em que exista a vida está presente o sofrimento: doenças, velhice, morte, separação dos entes queridos, coexistência forçada com aqueles que nos oprimem, privação de coisas de que necessitamos, confrontações com aquilo que tememos, e assim por diante.

Apesar de tudo isso, essa visão não equipara o budismo ao ponto de vista sustentado por alguns filósofos ocidentais, segundo o qual o sofrimento é inevitável e a felicidade está fora do nosso alcance. A razão para isso é simples: a infelicidade tem causas que podem ser identificadas e podemos agir sobre elas. Só quando identificamos erroneamente a natureza dessas causas é que podemos duvidar da possibilidade de cura.

O primeiro erro consiste em acreditar que a infelicidade é inevitável porque resulta da vontade divina ou de qualquer outro princípio imutável, e que, desse modo, sempre estará fora do nosso controle. O segundo equívoco é acreditar na ideia de que a infelicidade não tem causa identificável, que ela se abate sobre nós ao acaso e não depende da nossa vontade, não tem relação pessoal conosco. O terceiro engano origina-se de um fatalismo confuso, que retorna à ideia de que seja qual for a causa, o efeito será sempre o mesmo.

Se a infelicidade tivesse causas imutáveis, nós nunca poderíamos escapar dela. Seria então preferível, como diz o Dalai Lama, “não se atormentar com os problemas suplementares, ruminando sobre o próprio sofrimento. Seria melhor pensar em outra coisa, ir à praia e tomar uma boa cerveja!” Porque, se não houvesse nenhum remédio para o sofrimento, seria inútil torná-lo pior prestando mais atenção nele. Seria melhor aceitá-lo e distrair-se para senti-lo de modo menos cortante.

Mas tudo o que acontece realmente tem uma causa. Que incêndio não começa com uma centelha? Qual guerra tem início sem sentimentos de ódio, medo ou arrogância? Que sofrimento interior não nasceu do solo fértil da inveja, da animosidade, da vaidade ou, de modo ainda mais básico, da ignorância? Qualquer coisa ativa deve em si ser mutável; nada pode existir de maneira autônoma e imutável. Surgindo de causas impermanentes, a infelicidade é em si sujeita à mudança e pode ser transformada. Não há sofrimento eterno ou primordial.

Todos temos capacidade de estudar as causas do sofrimento e gradualmente nos libertar delas. Todos temos o potencial para dissipar os véus da ignorância, de libertarmo-nos do egoísmo e dos desejos mal colocados que provocam a infelicidade, de trabalhar pelo bem dos outros e extrair a essência da nossa condição humana. O que importa não é a magnitude da tarefa, mas a magnitude da nossa coragem.

AS QUATRO VERDADES DO SOFRIMENTO

  O primeiro obstáculo à realização da felicidade consiste em não reconhecer o sofrimento como aquilo que ele é. Com muita frequência, tomamos por felicidade coisas que não passam de sofrimento disfarçado. Essa ignorância nos impede de procurar as causas, e portanto, os remédios para nos curar do sofrimento. Somos como certos doentes que, inconscientes do mal que lhes aflige, não reconhecem os sintomas da enfermidade e negligenciam os cuidados médicos a que deveriam se submeter. Ou pior, como aqueles que se sabem sofredores, mas preferem praticar a política do avestruz em vez de seguir um tratamento.

Há mais de 2.500 anos, sete semanas depois de obter a Iluminação sob a árvore Bodhi, o Buda deu seu primeiro ensinamento no Parque das Gazelas, perto de Benares. Lá, ele ensinou as Quatro Nobres Verdades. A primeira verdade é a existência do sofrimento. Não só os sofrimentos óbvios que saltam aos olhos, mas também aqueles que, como vimos, existem de forma mais sutil. A segunda verdade diz respeito às causas do sofrimento: a ignorância que gera o desejo ardente, a maldade, o orgulho, e muitos outros pensamentos que envenenam nossa vida e a dos outros. Como esses venenos mentais podem ser eliminados, a cessação do sofrimento – a terceira verdade – é, portanto possível. A quarta verdade é percorrer o caminho que transforma essa possibilidade em realidade. Esse caminho é o processo pelo qual podemos usar todos os meios possíveis para eliminar as causas fundamentais do sofrimento. Em resumo, devemos:

Reconhecer o sofrimento,

Eliminar sua origem,

Realizar a sua cessação,

E para este fim praticar o caminho.

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QUANDO A AFLIÇÃO TRANSFORMA-SE EM SOFRIMENTO

Do mesmo modo como fizemos uma distinção entre a felicidade e o prazer, também é importante clarificar a diferença entre a infelicidade, ou mais exatamente o “mal-estar”, e as dores efêmeras. Estas dependem de circunstâncias exteriores, enquanto a infelicidade, ou dukha, é um estado de profunda insatisfação que dura até mesmo quando há circunstâncias exteriores favoráveis. Por outro lado, podemos sofrer física ou mentalmente – sentindo tristeza, por exemplo – sem perder a sensação de plenitude, sukha, que se encontra na paz interior e no altruísmo. Aqui há dois níveis de experiência, que podem ser comparados respectivamente às ondas e às profundezas do oceano. Na superfície pode estar ocorrendo uma furiosa tempestade, mas as profundezas permanecem calmas. O sábio permanece sempre ligado a elas. Já aquele que só conhece a superfície e não percebe as profundezas fica perdido quando é golpeado pelas ondas do sofrimento.

            Mas você pode perguntar: como posso deixar de me sentir abalado quando o meu filho está muito doente e sei que ele está para morrer? Como posso não sentir despedaçado quando vejo milhares de civis sendo deportados, feridos, mutilados, vítimas da guerra? Como se espera que eu faça cessar esse sentimento? Por que eu deveria aceitar algo assim? O mais sereno dos sábios ficaria abalado com isso. Quantas vezes não vi o Dalai Lama verter lágrimas pensando no sofrimento das pessoas que acabara de encontrar. A diferença entre o sábio e a pessoa comum é que ele pode manifestar um amor incondicional por aquele que está sofrendo e fazer tudo o que estiver ao seu alcance para atenuar essa dor, sem que com isso a lucidez da sua própria visão da existência se abale. O essencial é estar disponível para os outros, sem ceder ao desespero quando os episódios naturais da vida e da morte seguem o seu curso.

Há muitos anos fiz amizade com um sique, um homem dos seus sessenta e tantos anos, com uma bela barba branca, que trabalha no aeroporto de Delhi. Sempre que estou em trânsito, tomamos uma xícara de chá e discutimos sobre a filosofia e espiritualidade, retomando a conversa exatamente do ponto em que havíamos deixado vários meses antes. Um dia ele me disse: “Meu pai morreu há algumas semanas. Estou desolado, sua morte me parece tão injusta! Não consigo compreendê-la nem aceita-la”. E, no entanto, o mundo em si não pode ser chamado de injusto – tudo o que faz é refletir as leis de causa e efeito – , sendo a impermanência, a precariedade de todas as coisas, um fenômeno natural.

Com a maior doçura possível, contei-lhe a história daquela mulher que, dominada pela dor causada pela morte do seu filho, veio encontrar-se com o Buda para pedir-lhe que o fizesse voltar à vida. O Buda lhe disse que, para fazer isso, necessitava de um punhado de terra proveniente de uma casa onde nunca houvesse ocorrido nenhuma morte. Tendo visitado todas as casas na vila e vendo que todas tinham conhecido a perda e o luto, a mulher voltou ao Buda, que a confortou com palavras de amor e sabedoria.

Também contei a ele a história de Dza Mura Tulku, um mestre espiritual que viveu no Tibete oriental no começo do século XX. Ele havia constituído família e ao longo de toda a sua vida sentiu profunda afeição por sua mulher, uma afeição que era recíproca. Ele não fazia nada sem ela e sempre dizia que, se a perdesse, não conseguiria viver por muito tempo. Ela faleceu repentinamente. Os amigos e discípulos do mestre correram para ficar ao seu lado. Lembrando das palavras que eles tinham-no ouvido falar com tanta frequência, ninguém ousava dar-lhe a notícia. Por fim, com muito tato, um discípulo disse ao mestre que a sua esposa estava morta.

A trágica reação que eles temiam não aconteceu. O mestre olhou para eles e disse: ”Por que vocês estão assim tão consternados? Quantas vezes eu lhes ensinei que os fenômenos e seres são impermanentes? Até o próprio Buda teve que deixar o mundo”. Mesmo sentindo uma ternura profunda por sua esposa, e apesar da grande tristeza que provavelmente o invadiu, deixar-se consumir pela dor não teria acrescentado nada ao seu amor por ela, ao contrário. Era mais importante para ele orar com calma pela falecidade e ofertar a ela essa serenidade.

Ficar obcecado por uma situação ou pelas lembranças deixadas por uma pessoa amada que partiu, a ponto de ser paralisado pela dor por meses ou anos a fio, não é prova de afeição, mas de um apego que não é fonte de nada que seja bom nem para os outros nem para si mesmo. Se pudermos aprender a reconhecer que a morte faz parte da vida, a angústia gradativamente cederá lugar à compreensão e à paz. “Não creia que você me presta uma grandiosa homenagem se deixar que a minha morte se torne o grande evento da sua vida. O melhor tributo que você pode dedicar à sua mãe é continuar a ter uma vida rica e feliz”. Essas palavras foram ditas por uma mãe ao seu filho alguns instantes antes de morrer.

Assim, a forma como vivemos essas ondas de sofrimento depende da nossa atitude. Portanto, é sempre melhor preparar-se para os sofrimentos que estamos sujeitos a encontrar – alguns dos quais são inevitáveis, como a doença, a velhice e a morte – em vez de sermos pegos desprevenidos e afundarmos na angústia. Uma dor física ou moral pode ser intensa sem com isso destruir a nossa perspectiva positiva da existência. Uma vez que tenhamos obtido uma certa paz interior, é mais fácil manter a nossa firmeza e coragem ou recobrá-las logo, mesmo quando somos confrontados por circunstâncias externas difíceis.

       Esta paz interior vem por que a desejamos? É pouco provável. Não ganhamos a vida só por desejar ganhá-la. Da mesma maneira, a paz é um tesouro da mente que exige algum esforço para ser conquistado. Se nos deixarmos afundar em nossos problemas pessoais, por mais trágicos que sejam, só aumentaremos as nossas dificuldades e nos tornaremos um peso para aqueles que estão ao nosso redor. Se a nossa mente se acostuma a dar importância à dor que os eventos ou pessoas nos infligem, um dia o incidente mais trivial nos causará uma dor infinita. Como a intensidade desse sentimento aumenta com o hábito, tudo que nos acontecer acabará por nos afligir, e a paz não encontrará mais lugar dentro de nós. Todas as aparências assumirão um caráter hostil e nos rebelaremos amargamente contra o nosso destino, chegando a ponto de duvidar do próprio sentido da vida. É essencial adquirir uma certa paz interior de modo que, sem ferir a nossa sensibilidade, o nosso amor e o nosso altruísmo, possamos saber nos conectar com as profundezas do nosso ser.

Os aspectos mais atrozes do sofrimento – a miséria, a fome, os massacres – costumam ser menos visíveis nos países democráticos, onde o progresso material permitiu remediar alguns males que continuam a afligir os países pobres e politicamente instáveis. Mas os habitantes deste “melhor dos mundos” parecem ter perdido a capacidade de aceitar os sofrimentos inevitáveis que são as doenças e a morte. É comum, no Ocidente, considerar o sofrimento como uma anomalia, uma injustiça ou uma derrota. No Oriente, ele é menos dramatizado e visto com muita coragem e tolerância. Na sociedade tibetana, não é raro ver pessoas fazendo brincadeiras junto à cabeceira de um morto, o que pareceria chocante no Ocidente. Isso não é sinal de falta de afeição, mas da compreensão da inelutabilidade de provações como essas, e também da certeza de que existe um remédio interior para o tormento e a angústia de se encontrar sozinho.

Aos olhos de um ocidental, muito mais individualista, tudo o que perturba, ameaça e finalmente destrói o indivíduo constitui um mundo por si só. No Oriente, onde prevalece uma visão mais holística do mundo e onde se dá uma importância maior às relações entre todos os seres, bem como à crença em um continuum de consciência que renasce, a morte não é um aniquilamento, mas uma passagem.

SERES FERIDOS

   Algumas pessoas, quando crianças, conheceram tão pouca afeição e tanto sofrimento que se tornam adultos profundamente feridos. É difícil para elas encontrar um lugar de paz e amor dentro de si mesmas e, assim, confiar nos outros. Às vezes, no entanto, desenvolvem a curativa e fortalecedora faculdade da resiliência, que as torna menos vulneráveis às situações difíceis. Essa faculdade ajuda a transformar as condições adversas em força pessoal e a encontrar um caminho na vida. Mas também pode acontecer de elas, por muito tempo, carregarem tais feridas para seus relacionamentos.

            É fato bastante conhecido que os recém-nascidos e as crianças necessitam de muito amor e afeição para terem um crescimento saudável. Estudos realizados em orfanatos chineses e búlgaros, onde as crianças raramente são tocadas pelas pessoas que cuidam delas, e não estamos nem falando de afeto e amor, oferecem evidências conhecidas e trágicas de que o cérebro dessas crianças abandonadas não se desenvolve normalmente. Testemunhei mudanças extraordinárias em crianças de orfanatos nepaleses que, no início, pareciam inertes, pequenos seres “ausentes”, mas que em poucos meses, ao serem adotadas por pais que as amavam, que as acarinhavam e conversavam com elas, desabrocharam e se transformaram em crianças maravilhosamente espertas.

            Assim, o fato de termos recebido afeto e amor na tenra infância influencia muito a nossa capacidade de dar e receber amor mais tarde na vida, bem como o grau de paz interior que teremos. Se considerarmos as categorias, que foram descritas pela primeira vez por Mary Ainsworth e aplicadas por Phil Shaver e seus colegas em adolescentes e adultos 1, constataremos  que uma pessoa “segura”, além de desfrutar um alto nível de bem-estar, é também naturalmente aberta e capaz de confiar nos outros. Esses indivíduos são abertos às emoções e recordações, têm “coerência mental” bem elevada, não são hostis quando há discordância com os outros e são capazes de fazer concessões. Geralmente, lidam bem com o estresse.

            Uma pessoa “ansiosa e insegura” falta confiança em si mesma; ela duvida da possibilidade de encontrar bondade e afeição genuínas, ainda que anseie fortemente por isso. Essas pessoas são menos confiantes, mais possessivas e ciumentas, e deixam-se levar por suspeitas inoportunas, muitas vezes pertencentes ao domínio da imaginação. Ficam ruminando sem parar e são vulneráveis à depressão; tendem a ficar emotivas demais quando sob pressão. Uma pessoa “insegura e esquiva” preferirá manter os outros à distância do que correr risco de passar por mais sofrimento; evitará tornar-se muito íntima dos outros, seja por medo ou por silenciar toda emoção em sua mente, retirando-se para o casulo da auto-absorção. Essas pessoas têm uma auto-estima elevada, mas essa auto-estima é defensiva e frágil; não são muito abertas a emoções e recordações. Costumam ficar entediadas e distraídas e, por serem “autoconfiantes compulsivas”, não se mostram muito afetivas ou generosas.

            De acordo com Shaver e seus colegas, o padrão emocional dos pais, em especial o da mãe, influencia muito o da criança. Se a mãe é ansiosa e esquiva há 70% de chances de a criança “aprender” esse estilo no convívio com ela. O mesmo é verdadeiro para os padrões seguro e ansioso. Assim, a melhor coisa que podemos dar a uma criança é manifestar nosso amor e as qualidades pacíficas que existem dentro de nós, deixando a alquimia emocional trabalhar ao seu modo.

            Esses padrões emocionais adquiridos nos primeiros anos de vida ficam marcados para sempre, como traços imutáveis? Felizmente não. Phil Shaver e seus colegas mostraram também que as pessoas “ansiosas e inseguras” e “inseguros e esquivas” podem adotar um estilo emocional mais seguro se abrem para a afeição e outras emoções positivas. 2

            Como podemos ajudar as pessoas muito feridas? Oferecendo a elas amor suficiente para que alguma paz e confiança possam desabrochar em seus corações. Como elas podem ajudar a si mesmas? Engajando-se num diálogo significativo com um psicólogo humano e de bom coração, que use métodos comprovados, como a terapia cognitiva, e cultivando a bondade amorosa, a compaixão e a presença mental.

FAZER O MELHOR POSSÍVEL NO SOFRIMENTO

Laughing beautiful woman on a green meadow sheltering from the rainbow under an umbrellaSe o sofrimento nunca é desejável, isso não significa que, quando ele é inevitável, não possamos usá-lo para progredir no campo humano e espiritual. Como explica o Dalai Lama: “Um sofrimento profundo pode nos abrir o espírito e o coração, e nos abrir para os outros”. O sofrimento pode ser, para nós, um ensinamento extraordinário, a ponto de fazer-nos tomar consciência do caráter superficial da maior parte das nossas preocupações habituais, da passagem irreversível do tempo, da nossa própria fragilidade e, acima de tudo, daquilo que conta, real e profundamente, dentro de nós.

Tendo vivido vários meses à beira da morte e passando por dores terríveis, Guy Corneau, um psicanalista canadense, finalmente assumiu a atitude de “deixar as coisas acontecerem”. Parou de lutar contra uma dor que não podia ser aliviada e abriu-se para o potencial de serenidade que está sempre no fundo de nós.

Esta abertura do coração ficou cada vez mais marcante nos dias e nas semanas subsequentes. Mergulhei em uma beatitude inominável. Um vasto incêndio de amor tomou-me por dentro. Eu só tinha que fechar os olhos para partilhar dele, em doses longas e que me satisfaziam totalmente. […] Foi, então, que entendi que o amor era o próprio tecido deste universo, a identidade comum a cada ser e cada coisa. Só havia o amor e nada mais. […] A longo prazo, o sofrimento favorece a descoberta de um mundo em que não há separação real entre o exterior e o interior, entre o copo e a mente, entre eu e o outro. 

Seria absurdo negar que o sofrimento tem qualidades pedagógicas, quando usado sabiamente. Por outro lado, resignar-nos a sofrer, pensando “é a vida”, equivale a renunciar à possibilidade de mudança interior que todos podem empreender e que permite evitar que o sofrimento seja convertido em miséria. Não se deixar abater por causa de obstáculos como a doença, a inimizade, a traição, a crítica ou a má sorte não significa que os eventos não irão nos afetar ou que teremos superado esses obstáculos para sempre. Significa apenas que eles não irão bloquear o nosso progresso na direção da liberdade interior. Quando paramos de nos confundir com o sofrimento e tiramos o melhor dele, passando a usá-lo como um catalisador, precisamos também impedir que a ansiedade e o desalento conquistem a nossa mente. O mestre Shantideva escreveu no século VIII: “Se há cura, de que serve o descontentamento?  Senão há, de que serve o descontentamento?”

COMO LIDAR COM O SOFRIMENTO

Se é possível aliviar a aflição mental transformando a nossa mente, como aplicar este processo ao sofrimento físico? Como lidar com uma dor incapacitante, que chega aos limites do intolerável? Aqui convém distinguir dois tipos de sofrimento: a dor fisiológica e o sofrimento mental e emocional que ela engendra. Há várias maneiras de vivenciar uma mesma dor, com maior ou menor intensidade.

Do ponto de vista neurológico, sabemos que as reações emocionais à dor variam significativamente de pessoa para pessoa e que uma parte considerável da sensação de dor está ligada ao desejo ansioso de suprimi-la. Se permitirmos que a ansiedade domine a nossa mente, a mais benigna das dores logo se tornará insuportável. Portanto, a avaliação que fazemos da dor também depende da nossa mente: é esta que reage à dor com medo, revolta, desolação, incompreensão ou com o sentimento de impotência. Assim, ao vivenciarmos uma agonia, podemos acumular várias.

      Tendo compreendido essa ideia, como podemos controlar a dor em vez de sermos vítimas dela? Como não podemos escapar da dor, é melhor que a aceitemos em vez de tentar rejeitá-la. A dor persistirá tanto se ficarmos deprimido, quanto se nos agarrarmos à nossa resiliência e desejo de viver, mas neste caso manteremos a nossa dignidade e autoconfiança, o que faz grande diferença.

            Há vários métodos para atingir esse fim. Um deles é o uso de imagens mentais; outro permite que transformemos a dor, despertando para o amor e a compaixão; um terceiro nos ensina a lidar com o desenvolvimento da força interior.

O PODER DAS IMAGENS

    Para modificar a percepção da dor, a tradição budista utiliza o que a psicologia moderna denominou de imagens mentais. Podemos visualizar, por exemplo, um néctar benéfico, luminoso e que nos acalma, que penetra no centro da dor mais penosa e gradualmente a dissolve nos dando uma sensação de bem-estar. O néctar, então, permeia o nosso corpo todo e a dor diminui.

Uma síntese dos resultados publicados em mais de cinquenta artigos científicos demonstrou que, em 85% dos casos, o uso de métodos que envolvem a mente aumenta a capacidade de suportar a dor. 5 Entre essas diversas técnicas, a das imagens mentais provou ser a mais eficaz, ainda que, essa eficácia varie em função dos suportes visuais. Podemos, assim, visualizar uma situação neutra (imaginar que escutamos atentamente uma conferência) ou agradável (ver-nos num ambiente prazeroso, diante de uma paisagem maravilhosa). Há outros métodos usados para ajudar o paciente a esquecer a dor, como concentrar-se em um objeto exterior (assistir a uma exibição de slides, por exemplo); praticar um exercício repetitivo (contar de cem a zero, de três em três); ou conscientemente aceitar a dor. Esses três últimos, no entanto, não produziram resultados tão bons.

Para explicar essa diferença nos resultados, propôs-se a seguinte interpretação: as imagens mentais mobilizam mais a atenção do que os métodos baseados nas imagens exteriores, exercícios intelectuais ou atitudes, e portanto esse método é mais eficaz para aliviar a dor. Um grupo de pesquisadores descobriu que, após um mês de prática orientada com imagens mentais, 21% dos pacientes com enxaqueca crônica declarou sentir uma melhora notável, contra 7% do grupo de controle que não foi submetido ao treinamento. 

EXERCÍCIO Uso das imagens mentais

Quando um forte sentimento de desejo, inveja, orgulho, agressão ou ganância tomar conta da sua mente, tente imaginar situações que são fontes de paz. Transporte-se mentalmente para as margens de um plácido lago ou para o cume de uma montanha de onde tenha uma vista muito ampla. Imagine-se tranquilamente sentado, com sua mente vasta e clara como um céu sem nuvens, serena como um oceano sem ventos. Vivencie essa calma. Observe as suas tempestades interiores diminuírem e permita que esse sentimento de paz cresça e se desenvolva em sua mente. Compreenda que, mesmo que as suas feridas sejam profundas, elas não tocam a natureza essencial de sua mente, a luminosidade fundamental da pura consciência.

A FORÇA DA COMPAIXÃO

O segundo método que nos permite lidar com o sofrimento, tanto emocional quanto físico, está ligado à prática da compaixão.

A compaixão é um estado mental baseado na aspiração de que todos os seres sejam liberados dos seus sofrimentos e das causas desses sofrimentos. Dela resulta um sentimento de amor, de responsabilidade e de respeito por nós mesmos. Graças a esse sentimento de compaixão, assumimos o controle do nosso próprio sofrimento, unido ao dos outros, pensando que “os outros ao meu lado estão aflitos por privações e misérias semelhantes às minhas, e às vezes muito piores. Como eu gostaria que eles também pudessem ser liberados da sua dor!”. Depois disso, nossa dor não parecerá tão opressiva, e pararemos de fazer a amarga pergunta: “Por que comigo?”

Mas por eu deveríamos pensar no sofrimento das outras pessoas quando fazemos tudo que é possível para evitar o nosso? Ao fazermos isso não estamos aumentando a nossa própria carga? O budismo nos ensina que não. Quando ficamos absorvidos em nós mesmos, tornamo-nos vulneráveis, presas fáceis da confusão, impotência e ansiedade. Mas quando temos um sentimento poderoso de empatia diante do sofrimento dos outros, a nossa resignação impotente cede lugar à coragem, a depressão dá lugar ao amor, e a estreiteza da mente cede lugar à abertura para com todos os que estão ao nosso redor.

A compaixão e a bondade amorosa são as maiores entre todas as emoções positivas, desenvolvê-las aumenta a nossa capacidade de oferecer alívio ao sofrimento dos outros ao mesmo tempo que reduz a importância dos nossos problemas.

O DESENVOLVIMENTO DA FORÇA INTERIOR

     O terceiro método é o da contemplação. Esse é, sem dúvida, o menos evidente, mas podemos nos inspirar nele para reduzir os nossos sofrimentos físicos ou mentais. Ele consiste em contemplar a natureza da mente que sofre. Os mestres budistas ensinam: quando sentimos uma violenta dor física ou emocional, devemos olhar para essa experiência. Mesmo quando essa dor é lancinante, devemos nos perguntar se ela tem alguma cor, forma, ou outra característica imutável. Percebemos que, quanto mais tentamos focá-la, mais difusa se torna a definição da dor e dos seus contornos. No final das contas, chegamos a reconhecer que por trás da dor há uma presença consciente, não-corrompida, que não muda e que está além da dor e do prazer; é a mesma consciência que se encontra na fonte de toda sensação e de todo pensamento.

A natureza fundamental da mente é essa pura faculdade de conhecer. Podemos, então, relaxar a mente e tentar permitir que a nossa dor repouse nesse estado de atenção pura, nessa natureza clara e inalterável. Isso torna possível deixar de ser vítima passiva da dor e, pouco a pouco, resistir ou reverter a devastação que ela engendra na nossa mente.

Após a invasão chinesa do Tibete em 1959, Tenzin Choedrak, o médico pessoal do Dalai Lama, foi enviado a um campo de trabalhos forçados no nordeste do Tibete junto com uma centena de outros prisioneiros. Apenas ele e mais quatro sobreviveram. Ele foi transferido de um campo para outro por quase vinte anos, muitas vezes acreditando que iria morrer de fome ou vítima das sevícias que lhe infligiram. 7 Um psiquiatra especializado em estresse pós-traumático que tratou o doutor Choedrak ficou atônito com o fato de ele ter saído dessas provações sem manifestar o menor sinal da síndrome de estresse pós-traumático. Não sentia nem amargura nem ressentimento, manifestava uma bondade serena e não tinha nenhum dos problemas psicológicos habitualmente encontrados nesses casos, como ansiedade, pesadelos e assim por diante. Choedrak reconheceu que em vários momentos tinha sentido ódio daqueles que o torturavam, mas sempre retornava à prática de meditação sobre a paz interior e a compaixão. Foi isso que sustentou que seu desejo de continuar vivendo e, em última instância, o salvou.

Outro exemplo de alguém que passou por provações físicas inimagináveis é Ani Pachen. Após passar vinte e um anos detida, ela, que além de monja era uma princesa tibetana e fazia parte da resistência, foi mantida em total escuridão por nove meses.  O canto dos pássaros que alcançava sua cela era sua única forma de saber se era dia ou noite. Ela conta que, embora não estivesse “feliz” no sentido habitual da palavra, conseguia sustentar os principais aspectos de sukha olhando para dentro de si, conectando-se com sua prática de meditação e com seu mestre espiritual, contemplando o sentido da impermanência e as leis de causa e efeito, e tornando-se mais consciente do que nunca das devastadoras consequências do ódio, da ganância e da falta de compaixão.

Não estamos falando de uma tomada de posição intelectual, moral, cultural e filosoficamente diferente da nossa, e que poderia ser objeto de um debate sem fim. As experiências aqui descritas são prova de que é possível manter sukha mesmo quando submetidos regularmente à tortura, porque essas pessoas viveram adversidades e conseguiram mantê-la por anos a fio. A autenticidade daquilo que viveram é muito mais forte do que qualquer teoria.

Outro exemplo que me vem à mente é o de um homem que conheço há mais de vinte anos e que vive na província de Bumthang, no coração do reino do Butão, no Himalaia. Ele nasceu sem braços e pernas e mora na periferia de uma aldeia, numa choupana de bambu com apenas alguns metros quadrados. Ele nunca sai e raramente se desloca do seu colchão, estendido no chão. Ele chegou do Tibete há quarenta anos, trazidos por companheiros refugiados, e desde então vive nessa choupana. Só o fato de ainda estar vivo já é extraordinário, mas o que impressiona ainda mais é a alegria que ele irradia. Toda vez que o vejo, está com a mesma disposição mental, serena, doce e sem afetação. Quando levamos pequenos presentes – um pouco de comida, um cobertor, um pequeno rádio, ele diz que não era necessário trazer-lhe nada. “Do que posso precisar?”, pergunta ele sorrindo.

Em geral há alguém da vila em sua cabana – uma criança, uma pessoa mais velha, um homem ou uma mulher, que foram levar água, uma refeição, conversar um pouco. Acima de tudo, dizem eles, vão porque lhes faz bem passar algum tempo na companhia dele. Pedem-lhe conselhos. Quando surge um problema na vila, é a ele que recorrem para se orientar.

Dilgo Khyentse Rimpoche, mei pai espiritual, às vezes parava por ali para visitá-lo, no caminho de Bumthang. Dava-lhe a sua benção porque o nosso amigo pedia, mas Khyentse Rimpoche sabia que ela era menos necessária para ele do que para a maior parte dos outros. O homem havia encontrado a felicidade dentro de si, e ninguém podia tirá-la dele, nem a vida nem a morte.

Para entender como o sofrimento começa, deixe sua mente descansar naturalmente no momento, abandonando todos os pensamentos sobre o passado ou o futuro. O que você encontra é uma qualidade de abertura sem apego, confusão ou sofrimento. A mente está consciente e clara. Então você vê ou ouve algo e sua consciência se lança para isso, como uma flecha. Você experimenta algum sofrimento no próprio ato de perceber?

Então você pode notar detalhes — uma forma ou cor. Você experimenta algum sofrimento nesse ponto? Sua mente consegue permanecer relaxada assim que você percebe esses detalhes? Ela imediatamente analisa, categoriza e julga?

Observe o que acontece quando você julga o objeto que percebe. Você gosta ou não gosta. Olhe cuidadosamente para determinar quando surge pela primeira vez o distúrbio em sua mente. Sua predileção pelo objeto leva ao apego? Você pensa “eu preciso disso”? Se você não conseguir, vai sofrer? Sua aversão te leva a querer se livrar disso? Se não conseguir evitar, vai sofrer?

Você quer agir com base nesses sentimentos? Suas ações prejudicariam ou beneficiariam você e os outros? Elas trariam benefício tanto temporário quanto definitivo?

Veja a sequência de eventos em sua mente que levam de um estado pacífico de repouso até a percepção, julgamento e o surgimento de emoções venenosas. Observe como a mente faz surgir os quatro obscurecimentos: dualidade, venenos mentais, carma e padrões de comportamento. Observe o processo pelo qual o estado de relaxamento se rompe, não por circunstâncias externas, mas pelas reações de sua mente a elas.

Chagdud Tulku Rinpoche, em “Change of Heart“.

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