Hermann Hesse: conversas sobre o seu O Lobo da Estepe


Autor: Matheus Jacob Barreto

11 Mai 2015 – 12:47

Stéfanie Medeiros/ Olhar Conceito

[Antes de começar a coluna de hoje, vou repetir o aviso dado na coluna anterior (e farei isso por mais algumas semanas); a saber: “Acho interessante esclarecer algo que já me parecia claro, mas que talvez ainda não esteja: este texto (ou os anteriores, ou os próximos) não é uma análise propriamente dita – lhe falta profundidade de análise, profundidade essa que nem é meu objetivo desenvolver aqui nem me caberia alcançar num texto de jornal. Este texto é uma conversa com o leitor. Apenas isso. Somos o leitor e eu sentados conversando sobre estes artistas. Aviso feito, vamos à conversa de hoje.]

[Segundo aviso: aproveito o fato de morar na Alemanha para falar hoje e nas próximas semanas sobre autores de língua alemã e/ou autores brasileiros que tiveram alguma relação com a literatura em língua alemã. Ao final do intercâmbio voltarei à nossa literatura em língua portuguesa.]

Hermann Hesse (1877-1962) é, junto com Thomas Mann e Kafka, um dos autores alemães do século XX mais lidos no ocidente. Seus livros Demian (1919), Siddhartha (1922), Narziß und Goldmund (Narciso e Goldmund, 1930) e Das Glasperlenspiel (O Jogo das Contas de Vidro, 1943) fazem parte daquele pequeno grupo de livros que aliam altíssima qualidade estética a uma vendagem e a um sucesso imediatos. Talvez o seu livro de maior importância (entendo aqui por “importância” o efeito de um livro sobre os artistas daquela geração e das gerações seguintes, e também a influência dessas obras sobre leitores que não necessariamente estudem literatura [o “leitor comum”]) seja o romance Der Steppenwolf (O Lobo da Estepe, 1927).

Sobre O Lobo da Estepe escreveu Thomas Mann que o livro “o ensinou o que significa ler um livro”; falou Clarice Lispector em sua antológica entrevista à TV Cultura que leu o livro aos 13 anos e “tomou um choque”. É interminável a lista de escritores e “apenas leitores” cuja escrita, hábitos de leitura e postura frente à vida foram completamente mudados por O Lobo da Estepe de Hermann Hesse. Não fosse isso suficiente, o livro ainda é escrito com a maestria, segurança e controle que apenas alguns autores alcançam em suas carreiras. O abismo controlado, o desespero classificado, o choque planejado: tudo em O Lobo da Estepe carrega a ambivalência das horas extremas do homem. É tudo decisivo, cada frase previsivelmente carrega a próxima ao mesmo tempo em que carrega a surpresa, e de pedra em pedra o muro – ou o abismo – se presentificam.

Repito: essa conciliação de incomum qualidade estética e altíssimas vendas (ou sucesso em mercados editoriais tão diferentes quanto o alemão e o brasileiro – para ficar só em dois exemplos) é rara. De modo geral é preciso escolher um lado e abrir mão do outro, ou então temperar com mãos muito hábeis a proporção correta. A conciliação que Hermann Hesse (que Thomas Mann, que Dostoievsky, que Lygia Fagundes Telles) alcançou é já por si só um fato extraordinário.

Em poucas palavras: O Lobo da Estepe é narrado por Harry Haller, que é também o protagonista da narrativa – texto que, por sua vez, fora encontrada por um conhecido de Haller (mais especificamente: pelo sobrinho da senhora em cuja casa ele morara por algum tempo).

A narrativa cobre o tempo em que Haller ali viveu. Harry Haller é um homem de meia-idade, um esteta cuja admiração por Mozart, Handel, Wagner, Goethe e Novalis reflete suas aspirações ao sublime e ao eterno, ao sagrado e ao puro. Ao mesmo tempo é Haller – como somos todos nós – fraco, limitado, mesquinho, sujo, animalesco: um lobo. É o conflito entre o sagrado e o cotidiano (e não contra o profano, que ainda teria algo de grandioso em si). O que mais o aterroriza é mesmo o cotidiano, o burguês, o insignificante. Ele aspira aos grandes momentos, aos grandes destinos: no entanto, a vida não lhe pede heroísmos (como não pede a nenhum de nós).

A vida só lhe pede insignificâncias, e Haller resvala então com as mãos cheias de heroísmo inútil.

No meio do caminho de sua vida, 600 anos depois de Dante Alighieri, se vê Harry Haller em meio ao vulgar e ao ordinário. E justo ali conhece ele Hermine – que não sabemos nem se de fato se chama assim –, a mulher que o ensina a viver em troca de ensinar-lhe ele a morrer. Mais não conto para não estragar a leitura dos que se aventurarão por O Lobo da Estepe e também porque me parece inútil (ou pior: me parece trazer malefícios à própria história) tentar simplificá-la, colocá-la em algumas palavras. O Lobo da Estepe não aceita simplificações.

Haller não representa o homem de modo geral. Isso é, aliás, parte central da trama, é o motivo mesmo pelo qual Harry Haller sofre. Ele é parte de um grupo bem pequeno de pessoas cujo desajuste em relação à época em que vivem é tão grande e tão profundo que a fenda entre o Eu (ou os muitos, dezenas, centenas, milhares de Eus) e o mundo ao seu redor se torna insuportável, uma fenda afiada como a lâmina que se torna ao suicida cada vez mais tentadora. As pessoas do grupo ao qual Haller pertence são – ainda que não cometam esses homens suicídio – suicidas. A tentação está e estará sempre ali.

Esse impulso para a morte acaba aumentando a percepção de Haller em relação aos contrários e às contradições que a vida não só carrega consigo, mas que também a constituem. O alto e o baixo, o grandioso e o insignificante, o humor e o sofrimento (que não são na verdade exatamente contrários), o grande e o pequeno; e, quando esses contrários forem assimilados pelo homem, lembrar-se este mesmo homem que na verdade não existe “alto”, não existe “baixo”, não existe “grandioso”, não existe “insignificante” (e se existirem, de nada importam): e que assim volte ele ao zero, mas agora munido do conhecimento cabal de que a vida não se deixa conhecer. Aí, e somente aí, o homem poderia viver sem a perpétua tentação da morte – porém mais pronto do que nunca para ela.

Essas minhas linhas todas, obviamente, não dão conta nem de uma linha de O Lobo da Estepe – e nem é meu objetivo dar conta de mais. Este texto sabe que pouco ou nada pode falar sobre a força de um O Lobo da Estepe (apesar de [percebo eu agora], por teimosia, já estar este texto na terceira página).

A coluna de hoje, ouso por fim dizer, foi ainda menos útil do que as anteriores, e isso por um motivo: gastou 3 páginas para dizer o óbvio – que o livro O Lobo da Estepe não se deixa apresentar (o que, aliás, nenhum grande livro nos permite fazer. Apesar disso, desobedientes, continuamos escrevendo sobre eles nossas inúteis linhas). Os próprios livros (e só eles) se apresentam ao leitor, como fez a mim este O Lobo da Estepe em 230 páginas de forças estética e humana.

3 páginas depois, só o que posso é repetir aquilo que Clarice Lispector disse sobre o livro: um choque.

*A coluna Rubrica, publicada todas as segundas no Olhar Conceito, é assinada por Matheus Jacob Barreto. Matheus nasceu na cidade de Cuiabá/MT. Foi um dos vencedores das competições nacionais “III Prêmio Literário Canon de Poesia 2010” e “III Prêmio Literário de Poesia Portal Amigos do Livro de 2013”. Teve seus poemas vencedores publicados em antologias dos respectivos prêmios. Em outubro de 2012 participou da Bienal Internacional do Livro de São Paulo. Estuda na Universidade de São Paulo e mora na capital paulista. Escreveu o livro “É” (Editora Scortecci, 2013).

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