Budistas e armas


 

Gostaria de compartilhar com os amigos alguns conceitos relativos à posição do Budismo sobre armas de fogo e ao direito de defesa.

Há um conceito equivocado entre as pessoas de que o Budismo seria “pacifista”, no pior sentido da palavra, ou seja, que advogaria a capitulação irrestrita diante do inimigo, sem oferecer qualquer resistência.  Tal postura não é verdadeira e se deve ao desconhecimento da Doutrina Budista (Dharma) por parte dos representantes de instituições e templos que, sendo eles mesmos partidários de ideologias políticas totalitárias de esquerda – ideologias estas que pregam o desarmamento da população para um domínio total, confortável e sem resistência  por parte do governo -, afirmam ser isso “a posição budista”, ou seja, misturam suas ideologias políticas com o Budismo e confundem a cabeça das pessoas que buscam por esclarecimento.

O Budismo ensina “ahimsa”, um conceito que é muito citado mas pouco compreendido. O que é ahimsa? Para respondermos a essa questão é necessário contextualizarmos a sociedade em que tal palavra nasce.

A Índia Antiga era uma sociedade governada por guerreiros (kshatriya) e com uma longa tradição espiritual eminentemente guerreira. A Índia foi civilizada pelos aryas, uma civilização que partiu do Cáucaso e ocupou o Vale do Indo (e também diversas outras áreas da Europa), que substituiu uma cultura agrícola e pastoril por uma civilização guerreira, aristocrática e sacerdotal. A própria casta sacerdotal não se furtava a atividades guerreiras. Alguns estilos de combate indianos, inclusive, eram exclusivos dos brâmanes (sacerdotes).

A palavra “ahimsa” aparece no Rg-Veda, no Sama-Veda, na Isavasya Upanishad, no Yoga-Sutra de Patanjali, entre outros livros sagrados da Índia Antiga. Aliás a ideia de amor pela vida é védica, é o “Viswaprema”. Buda não as inventou, só divulgou as ideias já presentes na literatura védica e na cultura indo-ariana.

 A palavra “himsa”, em sânscrito (a língua clássica da Índia Antiga), quer dizer “ferimento”, “lesão”, “dano”, “mal”, “doer”, “malícia”. Himsa é a malícia ou a personificação do desejo de causar dano. “Himsarata” é o prazer em causar dano ou em prejudicar. “Himsakarman” é ato hostil ou injurioso. Sendo assim, “ahimsa” é, literalmente, “aquilo que não causa dano, mal”, ou “aquilo que não é feito com o desejo de causar dano”, “aquilo que não é feito maliciosamente”.

Violência, em sânscrito, é “prabalah” ou “vegavam”. O sentido dessas palavras é o de “exercer uma força contra aquilo que lhe causa obstáculo”, ou seja, não tem uma conotação negativa. É o mesmo sentido de “vento violento”, “choque violento” ou “violenta explosão”, sem um conceito moral intrínseco.

Atacar com violência um malfeitor que lhe causa problemas ou está lhe atacando não porta o sentido de “malícia”, de “desejo de causar dano”, “desejo de causar mal”, mas, pura e simplesmente, de se preservar, preservar a terceiros ou preservar um bem que está sendo usurpado ou atacado. Em outras palavras, você pode dar um tiro em um assaltante ou em um estuprador e não ter ferido o princípio de ahimsa. Se eu mato um agressor, não o faço por ‘malícia’ ou pelo prazer de matar, mas sim por um estado de sobeja necessidade. Se meu país é invadido e minha casa é atacada, tenho o direito de me defender. Isso não é contra o princípio de ahimsa.

 A idéia de empregar a palavra “violência” como algo negativo é moderna. Tomou sentido mais definido depois de Nietzsche, G. Sorel e o sindicalismo revolucionário. A palavra também adquire contornos negativos com Montesquieu, no “Espírito das Leis”.

 Para não nos alongarmos nessa questão, basta lembrar aos leitores que a maioria dos clássicos espirituais da Índia Antiga remetem a batalhas (Bhagavad-Gita, Ramayana, Mahabharata etc.) e que os deuses são apresentados portando armas, em posição de luta, usando carapaças, armaduras etc. Em uma rápida passada de olhos pelos avatares (manifestações) do deus Vishnu, por exemplo, podemos constatar que a maioria deles são manifestações guerreiras (Varaha, Narasimha, Rama, Parashurama, Krishna e o vindouro Kalki, ou seja, de dez avatares, seis são guerreiros).

É muito difícil acreditar que em uma sociedade com tal panorama cultural houvesse uma ideia como “não-violência”, ou seja, uma ideia de “demonização” de toda e qualquer ação violenta, de entreguismo, de rendição incondicional, de não uso da força, de não reação perante uma agressão ou coisa parecida.
No Bhagavad-Gita, um dos clássicos indianos mais conhecidos no Ocidente, por exemplo, Krishna aconselha Arjuna nos seguintes termos:

“Considerando seu dever específico de kshatriya (guerreiro), você deve saber que não há melhor ocupação para você do que lutar conforme determina seu dharma; e assim não há necessidade de hesitação.
Ó Partha, felizes são os kshatriyas a quem aparece esta oportunidade de lutar, abrindo-lhe a porta do paraíso.
Se, contudo, você não executar seu dever e não lutar, então certamente incorrerá em falta por negligenciar seus deveres e perderá sua reputação.” (Bhagavad Gita, Capítulo 2, versos 31, 32 e 33)

O Budismo nasce na Índia do século V a.E.C., e seu fundador, Siddharta Gautama, que é chamado de “Buda” (O Desperto) era um guerreiro, nascido na classe dos kshatriyas. É bem pouco crível que um guerreiro, nascido em meio de uma sociedade de guerreiros, educado desde a infância no manejo das armas, fosse um “entreguista” ou que advogasse a covardia e a não-reação diante de uma injusta agressão.

No Anguttara Nikaya (A.iii. 38.f ; iv 79f.), que é parte das escrituras sagradas do Budismo, podemos ver duas discussões entre Buda e o General Licchavi de Vesali, Siha, que era seu discípulo. Nos Jatakas (outra parte das escrituras sagradas do Budismo) também há referências ao discípulo de Buda, o General Siha. Nestes textos pode-se ler:

“O Buda ensina que o culpado merece castigo, e o digno de favor deve ser favorecido. Porém também ensina que não se deve fazer sofrer nenhum ser vivente, mas ter o coração cheio de compaixão e amor. Estes dois ensinamentos não são contraditórios, porque quem recebe castigo por seus crimes não sofre por maldade do juiz e sim em consequência de sua culpa. Suas más ações lhe acarretaram o mal que lhe inflige o executor da lei. Quando um magistrado castiga, deve estar livre de todo ódio; e o criminoso condenado à morte deve considerar que seu suplício é conseqüente do seu crime, e se compreende que o castigo purificará suas ações, alegrar-se-á da morte.


O Buda ensina que é deplorável toda guerra entre os homens; porém não condena os que guerreiam por uma causa justa, depois de haver esgotado todos os meios de conservar a paz.O causador da guerra merece execração.
O Buda ensina a completa renúncia ao ego, porém não ensina que as pessoas se entreguem às potestades sinistras. 

(…)

Aquele que luta pelo interesse egoísta de celebridade, grandeza, poderio ou riqueza, não receberá recompensa; porém, o que combate pela justiça e a verdade, receberá o galardão, porque será vitorioso, mesmo que sofra alguma derrota transitória antes do triunfo final.

(…)

Luta, pois, denodadamente, ó Siha, e combate com marcial esforço nas batalhas; ser soldado deverás e o Buda te abençoará.”

 

Essas palavras combinam com a imagem de um Buda que prega a capitulação frente ao mal?

 Em uma outra escritura sagrada do Budismo, o Sutra Mahayana do Grande Nirvana, podemos ler:

“Os defensores da correta Doutrina devem armar-se com facas, espadas e bastões. Mesmo que carreguem espadas e bastões, eu os consideraria homens que observam os preceitos.”

 Em várias outras passagens das escrituras budistas vemos o conselho dos diversos mestres de que o budista pode e DEVE se defender:

” Nos dias de antanho, o mundo era pacífico e a Doutrina Budista propagou-se por todas as nações. Naquela época, era adequado observar os preceitos sem o uso de bastões. Porém, esta época é perigosa e a Doutrina está obscurecida. Dessa forma, é apropriado carregar bastões  e desconsiderar os preceitos (relativos a isso). Se tanto o passado como o presente fossem épocas pacíficas, seria adequado observar os preceitos sem o uso de bastões em ambas as épocas. Deve-se basear a escolha conforme as situações especiais de cada época e nunca aderir literalmente a uma ou outra opção.”
(Mestre Chang-an , 561-632 .E.C., em seu “Anotações sobre o Sutra do Nirvana”)

Naquela época, século VI da Era Comum, ele aconselhava a usar bastões para a defesa. Hoje, com toda certeza, aconselharia pistolas, revólveres e outros instrumentos de acordo com cada época.

 Ainda hoje, em países onde há agressões à comunidade budista, os budistas se armam e são estimulados a se defender por lideranças autenticamente budistas.

 Atualmente no país de Burma, o monge budista Ashin Wirathu lidera um movimento extenso de resistência aos ataques de radicais islâmicos contra a comunidade budista. Os monges são encorajados a andarem armados e a fazerem a segurança dos templos e dos fiéis em caso de ataque. Da mesma forma, há o exército budista de resistência do povo Karen, que atua em Burma e em Myanmar contra as tentativas de sujeição violenta contra esse povo. Obviamente, a mídia “pacifista” condena esses grupos e deseja que simplesmente se rendam e sejam massacrados pelos agressores, assim como a maioria da mídia brasileira, politicamente manipulada, condena os atiradores desportivos e aqueles que querem ter o sagrado direito de se defenderem e de defenderem suas famílias e suas propriedades.

Nós, atiradores e partidários do DIREITO DE LEGÍTIMA DEFESA, temos o amparo de todas as grandes tradições religiosas. E eles, os que querem a população desarmada e vitimizada, têm o apoio da mentira, da ignorância, da hipocrisia e do descaso pela vida.

 (André Otávio Assis Muniz, Arcebispo Presidente da Organização Religiosa Budista Tendai Hokke Ichijô Ryu do Brasil, bacharel em Direito, atirador esportivo, membro da CBTD, membro da SASDE – Exército Brasileiro)

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