A Raiva e sua Solução


O caminho budista é o caminho do sacrifício das qualidades mentais nocivas e ações nocivas. A raiva e irritação são grandes obstáculos em nossas vidas, forças destrutivas que criam confusão, nublam e obscurecem a mente, geram dor e angústia, promovendo mal estar e sofrimento.

De um lado, somos sujeitos à raiva dos outros. Por exemplo, estamos sujeitos às palavras agressivas ditas por outras pessoas. Do outro lado, podemos nós mesmos acabar sentindo raiva nessas ocasiões e em outras.

Assim, todo esforço para evitar que nós expressemos esses sentimentos é, em si, a prática do caminho:

“Aqueles com raiva são obstruídos por ela como se ela fosse uma montanha. Mas se a pessoa com raiva controla-se mesmo que um pouco, isso mesmo já é chamado de Qualidade mental Saudável, como domar um cavalo selvagem.”
— SA 2.36 (Samyukta Āgama do cânone Chinês)

Mas como controlar esses sentimentos? Aqui, é útil ter em mente o nutriente da irritabilidade:

“E o que, monges, é o nutriente que alimenta a Aversão que não estava presente e que expande a Aversão que já estava presente? Há, monges, a característica irritante. O nutriente para o surgimento e expansão da Aversão é aplicar, frequentemente, atenção descuidada às características irritantes.”
— SN 46.2

Atenção Cuidadosa (yoniso manasikara em Pāli) significa aplicar atenção à origem: observar, em detalhes, como algo surge, diretamente. Essa atenção frequentemente leva a pessoa a um estado de equanimidade, onde ela não é afetada mentalmente por aquilo que ela observa. É um olhar objetivo, não com a intenção de fugir daquilo que se observa (que seria uma expressão de aversão), mas um olhar desapegado. Assim, “atenção descuidada” é não observar a natureza daquilo que chega aos nossos sentidos.

Dessa forma, Atenção Cuidadosa encapsula a metodologia do “Caminho do Meio” entre dois extremos que não funcionam: entre, de um lado, tentar ignorar e, do outro lado, ter a mente invadida pela irritação.

Se um Nobre Discípulo sente uma sensação dolorosa, ele a sente liberado [da sensação].
— SN 36.6

Ao treinar nos ramos do Grupo da Virtude do Caminho Óctuplo, o discípulo desenvolve freios em suas ações e palavras evitando comportamentos prejudiciais, rumo a se tornar uma pessoa mais tolerante. Porém esse grupo de práticas não aborda com mais profundidade os comportamentos prejudiciais da mente.

Assim, mais adiante, o Buda ensina como desenvolver radicalmente a tolerância na mente: sendo radicalmente intolerante em relação as qualidades prejudiciais presentes nela:

“Aqui, um discípulo não tolera um pensamento de aversão ou raiva. Ele abandona o pensamento, dissipa o pensamento, reconhece o pensamento [como aversão ou raiva], destrói o pensamento, extermina o pensamento. Ele não tolera um pensamento nocivo em sua mente nem um pensamento que visa prejudicar outros, ele não tolera a qualidade mental nociva. Ele os abandona, os dissipa, os reconhece [como prejudiciais], os destrói, os extermina.”
— AN 4.14

O Antídoto da Raiva

Para muitas pessoas, o mero reconhecimento de que a raiva na mente delas é nociva é suficiente para que elas a controlem e, muitas vezes, para que façam o sentimento desaparecer — mesmo quando elas são alvos de agressão. Para outras pessoas, porém, tal controle continua sendo uma tarefa difícil.

De acordo com o Buda, as práticas mais diretas para obstruir a nossa raiva são o cultivo da bondade e compaixão.

“Há essas cinco maneiras em que outros podem se dirigir a vocês: suas palavras podem ser oportunas ou inconvenientes, de acordo com fatos ou falsas, palavras suaves ou violentas, associadas ao bem ou ao mal, ditas com bondade ou com ódio.

Portanto, vocês devem treinar assim: “Minha mente se manterá inabalada, eu não direi nenhuma palavra nociva; viverei tendo compaixão pelo bem estar dessa pessoa, com uma mente bondosa sem raiva, sem hostilidade ou aversão.”
— MN 21

Esses dois fatores mentais, bondade e compaixão, impedem que a raiva e a crueldade, respectivamente, se instalem na mente:

“É impossível, não há como uma pessoa que praticou bondade, tendo cultivado a bondade e tendo consolidado-a, possa ter raiva invadindo sua mente. Essa possibilidade não existe pois esta é a solução da raiva: a bondade cultivada culminando na emancipação.

É impossível, não há como uma pessoa que praticou compaixão, tendo cultivado a compaixão e tendo consolidado-a, possa ter crueldade invadindo sua mente. Essa possibilidade não existe pois esta é a solução da crueldade: a compaixão cultivada culminando na emancipação.”
— AN 6.13

Finalmente, o Buda declara que tais qualidades são proteções:

“De que forma, discípulos, uma pessoa protege a si mesma e os outros? Sendo paciente, inofensivo, bondoso, e simpático. É dessa forma que se protege a si mesmo e aos outros.”
— SN 47.19

Dalai Lama.
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