Reflexões de um Asperger sobre o seu próprio isolamento


Reflexões de um Asperger sobre seu próprio isolamento

Artigo escrito em Janeiro de 2010:

Ontem fez um mês que mudei para minha nova casa,e já lá se vão quatro meses que mudei de Sao Paulo para Ribeirão Preto.Para onde me mudei é a minha terrinha natal, mas,estranho, eu me sinto isolado aqui!
Não por falta de gente:na mesma cidade estão meus únicos dois amigos que fiz na vida, minha mãe, minha sogra, toda a parentada enorme da minha esposa e tambem não moro sozinho, minha esposa claro, mora comigo debaixo do mesmo teto.
Porém as visitas tem sido poucas e quase não saio para visitar a ninguém.Nunca fui muito sociável,continuo não sendo.Não que eu não goste de ver meus amigos, minha mãe,etc e tal,mas…
O que, atualmente me da prazer nesta vida, o que eu faço todo dia que me agrada em minha rotina?Ficar baixando meus animes e ficar assistindo-os,baixar e colecionar imagens de anime hentai…Então não saio de casa porque gosto do mundo da internet,sem ela minha vida seria um tédio, um caos desesperador, sensualidade é o que preenche meu tempo.Ou melhor, a busca pela satisfação da minha carência afetiva através do erotismo dos desenhos animados japoneses é o que preenche meu tempo e mente o tempo todo,ou quase,fora o sonho de eu conquistar o carro Mercedes-Benz usado dos meus sonhos,passo também muito tempo pesquisando estes carros.Sem falar no tempo que passo escrevendo meus livros.
Durante toda a minha vida, fiquei refletindo sobre o valor da sociabilidade na vida das pessoas e qual o papel que ela tem no sentido de trazer felicidade a vida da gente.
Descubro que, em qualquer lugar que eu vá, para onde quer que eu me mude, o isolamento me acompanha.E descubro-me muito mais feliz estando comigo mesmo e minha esposa vivendo meu mundo de animes e Mercedes do que conversando com as pessoas, interagindo socialmente com elas.

No tempo sofrido que vivi em São Carlos,de 1986 a 1989, minha conclusão sobre sociabilidade era de que a dita cuja era de valor duvidoso:as cidades onde moramos só nos fazem sentido quando temos nossas pessoas queridas lá, e que a sociabilidade não traz necessariamente felicidade a ninguém ,e que muitas pessoas muito sociáveis são no fundo pessoas infelizes,dependentes emocionalmente das pessoas com as quais se relacionam.
Ainda hoje, não vejo muito como escapar de tal conclusão.Afinal, se eu fosse sociável, e fosse ficar visitando as pessoas ou recebendo as pessoas na minha casa, eu não teria tempo para baixar meus animes,nem ficar na internet.E ficaria demasiado ansioso para voltar a internet o quanto antes.
Claro que o isolamento traz alguns transtornos, em especial, a carência afetiva.Mas isto também não é privilegio do isolamento, pessoas muito sociáveis também são extremamente afetivamente carentes,embora não obcessivamente carentes como eu.
Alguns ícones marcaram a minha vida, durante as fases que eu passei.
Desde muito cedo, havia(e ainda há) uma obcessão em mim na busca de alguém que me consolasse e protegesse.Porquê?
Um ícone que sempre imaginei e sempre quis que fosse real, é o do Anjo Heróico.Desde que me conheço por gente fui fascinado em pensar que existisse um anjo que me protegesse e consolasse.Mas esta imagem evoluiu com o tempo.Quando eu era criança eu imaginava este anjo como uma linda mulher vestida em uma camisola longa,que abrigava minha cabeça entre os seios dela,me abraçava , me fazia caricias nos cabelos e me consolava.Este anjo estava sempre de olhos rasos e eu também.

Depois já na idade adulta, este anjo passou a ser uma mulher igualmente linda, mas completamente nua,que eu abraçava e ela me envolvia com as brancas asas dela e me isolava de qualquer perigo da cruel Realidade, e tinha uma espada poderosa em uma das mãos, com a qual me defendia ferozmente de todos os perigos.Esta anja me abraçava com uma das mãos, me abrigava a cabeça entre os seios, e de vez em quando me beijava docemente o rosto.E por vezes me levava a voar com ela,para longe da realidade, para me levar ao meu mundo de imaginação.
Então, porque tanta necessidade de proteção e consolo?Porque tanta carência?
Isto me faz lembrar um trecho de um livro meu, “Consiência de Viver”, onde o personagem principal , chamado “Ele”,que vivia sozinho numa casa há décadas, depois de abandonado pela família,tinha uma caixa de madeira fechada, amarrada com uma corda, a qual nem ele sabia o que tinha dentro, e não tinha coragem de abrir.Ele pensava consigo mesmo que ele protegeria a caixa, depois passou a pensar que a caixa o protegeria.Mas ,se a caixa era assim tão poderosa para protegê-lo do Espectro(um esqueleto de cavalo que andava sobre as patas traseiras e vivia a assustá-lo-na verdade a personificaçao da própria consciencia do Ele),quem o protegeria da caixa?Aí ele pensou que o armário o protegeria da caixa e a encerrou dentro do arm[ario.Mas quem o protegeria do armário?Seu pensamento foi o de que ele protegeria o armário, mas então, quem o protegeria?Quem era mais poderoso, o Homem, a Caixa ou o Armário?
No livro este dilema não teve solução.Mas é um dilema que, acho eu, todo asperger vive.

Para mim ,ser sociável significa me refugiar nas outras pessoas buscando proteção e consolo e um carinho que nem sempre, quase nunca(e quase nunca por maldade ou má vontade,diga-se de passagem)as pessoas podem oferecer, pois há um claro limite no que as pessoas podem ajudar as outras.
E qual o problema em ser isolado?
Era o que eu refletia em São Carlos, e ainda reflito,as pessoas podem ser felizes em viver só em casais,formar uma família ou enfim, manter pequeno o núcleo social que se acerca dele.
Eu simplesmente não me sinto bem em meio a uma montanha de pessoas.O barulho das ruas, ônibus, trânsito, caminhões, o barulho das pessoas conversando entre elas me inferniza a vida sobremaneira e me deixa irritado, pois nas ruas quero ficar com meu mp3 player ligado, escutando minhas músicas de anime e imaginando minhas estórias ou o que eu faria se ganhasse na loteria.Em festas, minha reação automática é me isolar voluntariamente o máximo possivel, e só aproveitar a comida. Me lembra os tempos que eu nao conseguia ter namorada, quando eu abordava as meninas, mas simplesmente não tinha o que conversar com elas e ficava minutos a fio pensando em que assunto “puxar’, para o extremo tédio e irritação delas.
É mais ou menos a mesma coisa:sinto que os assuntos que tenho para conversar são desinteressantes para as outras pessoas ,logo não tenho assunto para puxar com ninguém, e, por outro lado estou também desinteressado em ficar conversando.Acabo só conversando quando vejo as pessoas falando de um assunto que eu domine muito,aí meu ego entra em ação e tento dominar a roda, procurando ser o centro das atenções, meio que “ensinando” as pessoas e tentando conduzir o raciocínio delas para que elas cheguem as minhas conclusões e acabo não aceitando nenhuma outra.O que faz, às vezes, as pessoas se antipatizarem comigo.

Então, no que ser sociável me faria feliz?Em nada?
Não sei, nem tanto, pois eu sempre tive necessidade de ser o centro das atenções e sempre me ressenti do meu falecido irmão ter sido sempre o centro das atenções da família e não a mim, e que mesmo depois da morte dele, ele continuou sendo por mais um tempo, depois minha irmã e minhas sobrinhas de 7 e 10 anos passaram a ser.
Mas o que estou dizendo?Minha nova casa, apesar de eu ja estar morando nela há algum tempo,ainda não terminou a reforma, faltam colocar os vidros na cozinha, e me sinto inseguro de que possam aparecer ratos ou insetos na casa, sobretudo a noite…fico abraçado com minha esposa, como se ela fosse me proteger destes perigo, mas, pombas, eu é quem devia protegê-la, por ser homem!

Volta o velho dilema do Homem e da Caixa…
E me voltam lembranças de São Carlos, onde, no quartinho em que morava sozinho,eu vivia achando que tinha ratos e não dormia,mas nunca achei ratos lá.Aqui é a mesma coisa, não fico sozinho a noite nesta casa de jeito nenhum, com medo de aparecerem ratos, mas nunca apareceu nenhum.A gente fica imaginando ratos quando não existem ratos, e ai quer ir mais ainda para os animes e depressa, ou refugiar-se nos braços da esposa.Eis aí o ícone do Anjo Heróico de novo…

As vezes parece uma paranóia histérica, qualquer barulho estranho a noite nesta casa me paraliza de pavor, mas,ao investigar,não era nada de mais, nem sequer suspeito.

Acho que só vou me sentir seguro aqui no mês que vem, quando colocarei finalmente os vidros na janela da cozinha…
O tempo que fiquei morando na minha mãe, sem computador, foi uma verdadeira tortura de tédio para mim, e nunca estava seguro a noite,pois começava a imaginar que o fantasma do meu irmão habitava aquela casa e iria aparecer diante de mim a qualquer momento.Ironia do destino, meu irmão, que sempre me protegeu, sempre foi tão bom para mim,e sempre me quis bem,eu ter medo dele, que nunca tive medo dele em vida,ter agora,sendo que a lógica diz que se fantasmas existissem e ele aparecesse diante de mim seria para me proteger e ser meu amigo, não para me fazer qualquer mal….
Não acho, no entanto, que se eu vivesse numa casa cheia de gente eu seria menos carente ou menos inseguro,provavelmente estaria sufocado, insatisfeito.A mesma coisa se eu fosse cheio de amigos, me chamando a atenção a toda hora.Sou feliz do jeito que sou,pois ser feliz não é estar constantemente alegre,é estar satisfeito com a vida apesar de tudo e ter esperanças de poder melhorá-la e lutar para melhorá-la, continuando a ser eu mesmo.

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