Por que a atitude tão singela de recolher os próprios rejeitos, protagonizada pela torcida japonesa nos estádios de futebol, durante a Copa do Mundo, provocou tamanho espanto entre nós, brasileiros?


Por que a atitude tão singela de recolher os próprios rejeitos, protagonizada pela torcida japonesa nos estádios de futebol, durante a Copa do Mundo, provocou tamanho espanto entre nós, brasileiros? O que isso pode nos deixar de legado? Certamente o que os japoneses podem nos ensinar é o que eles já sabem desde criancinhas: temos que cuidar do lixo que produzimos.

De acordo com o sociólogo Roberto DaMatta, autor de livros como “O que faz o Brasil, Brasil”, de 1984, – que trata da formação da identidade do nosso povo desde o descobrimento e do famoso “jeitinho brasileiro” – não sabemos ser responsáveis pelo lixo que produzimos. Sempre fomos acostumados, avalia DaMatta, a ter alguém que limpe o que sujamos. “A responsabilidade é sempre do outro”, argumenta o sociólogo. Fazemos isso automaticamente, sem titubear. Ele lembra do nosso hábito de dizer “jogar fora” toda vez que nos desfazemos de algo.

A má prática do jogar fora é mesmo antiga, como relata o jornalista e escritor Laurentino Gomes em seu livro “1822”, em que informou que no Rio de Janeiro colonial “lixo e os dejetos das casas eram atirados à rua ou despejados nas praias”. Não é assim que ainda acontece nas ruas das principais cidades brasileiras? Quem nunca presenciou alguém se desfazendo de uma lata de bebida ou uma embalagem de salgadinho na calçada, sem o menor pudor? O brasileiro não se responsabiliza nem ao menos pelo cocô de seus cães.

O Brasil foi apontado recentemente pela ONU e pelo Banco Mundial como o quinto maior produtor de lixo do planeta. Acontece que reciclamos apenas 3% dessa montanha de dejetos. De acordo com a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe) de uma década para cá produzimos nada menos que 63 milhões de toneladas de lixo todos os anos.

Cerca de 30% desse montante tem grande potencial de reaproveitamento. Ou seja, são materiais que poderiam gerar riquezas para o país se devidamente reprocessados para voltar novamente à cadeia produtiva. Eles, entretanto, são simplesmente “jogados fora” e abarrotam lixões e aterros sanitários.

O diretor-presidente da Abrelpe, Carlos Silva Filho diz: “O Brasil viu seu volume de resíduos crescer 21% na última década, muito acima do índice de crescimento da população, que foi de 9,6% no período”, relata. Os índices de reciclagem, entretanto, não acompanham esse aumento da produção de lixo que é resultado do crescimento econômico e do maior poder de compra e consumo dos brasileiros.

Silva Filho Abrelpe também revela que 60% das cidades brasileiras dispõem de algum tipo de coleta seletiva. “Mas isso não significa que esses municípios tenham coleta seletiva em todo o seu território ou que contem com um programa formalizado porta a porta. Apenas indica que o município está aberto ao tema”, avisa Silva Filho.

É muito pouco para um país que está implantando sua Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). Entre outras medidas como a obrigatoriedade da reciclagem está determinado que 3 de agosto próximo é o dia em que o país iria acabar com os lixões a céu aberto. É de conhecimento que a meta não será cumprida, já que a grande maioria das cidades ainda não conseguiu eliminar esses depósitos mal-cheirosos.

Agora vejamos como funciona no Japão. Em primeiro lugar, lá a reciclagem é obrigatória faz tempo. A separação do lixo descartado em casa também. É uma verdadeira maratona para o cidadão japonês, mas ele se sai bem. Caso contrário as multas são pesadas. Em uma casa japonesa sempre há sacos de lixo de cores diferentes para cada tipo de material: incineráveis e não incineráveis (porque no Japão alguns tipos de rejeitos são queimados) metais, madeira, plásticos, vidros, restos de comida. Essa prática cotidiana é aprendida na escola desde a mais tenra idade. Há, inclusive, uma cartilha distribuída nos condomínios onde é ensinado o passo a passo do descarte de lixo. É impressa não só em língua japonesa como também em inglês e espanhol. Assim, não há desculpas para os incautos imigrantes.

Se quiser se desfazer de um móvel no Japão, antes é preciso verificar de que tamanho e de que material ele é feito. Se for pequeno e de madeira vai para a categoria incinerável. Caso contrário é preciso agendar com a prefeitura um dia para que venham recolhê-lo para a reciclagem. Não sai de graça, há taxas para esse serviço.

Parece burocrático, mas funciona como um relógio. Jogar lixo na rua é impensável para o cidadão japonês. E, assim como fizeram em nossos estádios, em certas cidades há mutirões de limpeza organizados pelos próprios moradores para fazer faxina nas ruas onde residem. Também existem campanhas educativas com slogans do tipo “Não compre objetos que acabará se desfazendo mais tarde” ou “Só use artigos que podem ser reutilizados várias vezes”.

É esta a lição deixada nas arenas por onde os japoneses passaram durante a Copa do Mundo no Brasil. Um dia vamos chegar a esse nível de consciência cidadã e nos livraremos de nosso complexo de vira-latas. De lixo.

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