Fundamentos de Economia – Livro


 

niz

PIB e PIB per capita 76

Renda Nacional Bruta e demais agregados 78

Medindo as transações com o resto do mundo:

Balanço de Pagamentos 81

Os determinantes do nível de produto e emprego

na economia: conceitos de teoria macroeconômica — Parte 2 84

Crescimento no curto prazo: flutuações do PIB 84

Emprego e desemprego 89

O que determina os preços, sua variação,

e sua relação com a moeda 91

O que é moeda, as funções da moeda, moeda e inflação 92

Inflação ou desemprego: o dilema de economias modernas 94

Como medir a inflação 95

5. Políticas Macroeconômicas 97

 

 

 

 

 

Definição e objetivos 117

Déficit primário e déficit nominal 117

Dívida bruta e dívida líquida 118

6. Noções sobre Crescimento e Desenvolvimento Econômico 121

 

Crescimento econômico versus desenvolvimento econômico 122

Crescimento econômico de longo prazo 123

Acumulação de Capital (K) 124

Crescimento da força de trabalho (L) 125

Nível de desenvolvimento tecnológico (T) 125

Desenvolvimento econômico 126

Os principais indicadores sociais: índice de Gini e

índice de desenvolvimento humano (IDH) 127

Índice de Gini 127

Explicando o índice de Gini 128

Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) 129

Desenvolvimento sustentável 130

Políticas públicas para a promoção do desenvolvimento 131

Política de incentivo à acumulação de capital 132

Política de incentivo à Educação 134

Política de garantia ao Direito de Propriedade 135

Política de incentivo ao livre comércio 136

Política de incentivo à Pesquisa e Desenvolvimento 137

 

Conceituação
Básica

1

paulo gonzaga mibielli de
carvalho

 

10 • capítulo 1

Conceituação Básica

1

A importância de se estudar Economia

É importante estudar Economia para melhor entender o mundo que
nos cerca. Conhecer a questão do desemprego é importante, por exemplo,
para se entender o que é discutido nos jornais, na televisão e nas
redes, mas também porque isso ajuda o indivíduo em questões tais
como decidir qual a melhor hora de trocar de emprego e pedir aumento
de salário…

Outras questões que a Economia estuda, presentes na mídia e que
afetam o consumidor, o trabalhador e o empresário, entre outros, são:
Por que a inflação está alta? Por que a Economia cresce pouco? A crise
econômica mundial já acabou? A importação de produtos chineses vai
acabar com a indústria nacional? Paga-se muito imposto no Brasil? É
necessária uma reforma na Previdência? A renda no Brasil é muito concentrada?
O que é desenvolvimento sustentável? O estudo da Economia
nos ajuda a responder a todas essas perguntas.

Apesar dessa relevância, é muito comum ouvir dos estudantes comentários
relacionados à dificuldade de se estudar e compreender Economia.
Sendo assim, vamos levantar os questionamentos mais comuns
e procurar respondê-los de forma prática.

REFLEXÃO

Economia é uma matéria muito complicada, pois exige muito conhecimento
de matemática…

Um economista precisa ter uma boa base em Matemática, mas não
é necessário grande conhecimento dela para se entender os princípios
básicos de Economia. Este livro pretende demonstrar isso.

Os economistas só trabalham com modelos, por isso o que eles dizem
é incompreensível.

Nem todos os economistas trabalham com modelos matemáticos, mas
seu uso muitas vezes é imprescindível. Modelos nada mais são do que uma
simplificação da realidade, o que é necessário, já que a realidade é muito
complexa. Por exemplo, um economista pode afirmar que o nível de renda
das pessoas é consequência da sua escolaridade e idade (experiência). Isso é

COMENTÁRIO

Outras questões

Neste livro não vamos abordar todas
essas questões, mas esperamos despertar
em você o interesse pela Economia,
possibilitando que continue seus
estudos da forma que lhe for mais conveniente,
em um curso formal ou não.
Uma forma simples de fazer isso é lendo
a editoria de economia de um jornal de
grande circulação, pois esses têm a preocupação
de explicar os fatos econômicos
em uma linguagem mais simples.

COMENTÁRIO

Economista

Deve-se desconfiar dos economistas
que só conseguem se expressar por
meio de fórmulas matemáticas e não
conseguem apresentar suas ideias sem
economês (aquelas palavras difíceis
que só os economistas conhecem).

 

capítulo 1 • 11

uma simplificação da realidade, pois outras variáveis têm impacto sobre o
nível de renda. Mas para que complicar demais? Se o poder explicativo dessas
duas variáveis (escolaridade e idade) for elevado, podemos ficar por aqui.

Claro que há modelos de difícil compreensão, alguns não podem ser
testados por falta de dados. Diferentes escolas de pensamento econômico
irão utilizar diferentes modelos para explicar o mesmo fenômeno,
mas o uso de modelos é inevitável.

EXEMPLO

Um bom exemplo de como a simplificação é necessária para a compreensão da
realidade são os mapas. No google maps de uma cidade, todas as ruas transversais
às grandes avenidas só surgem quando se aplica um bom zoom. Com pouco zoom,
apenas as grandes avenidas são visíveis, mas isso é exatamente o mais relevante.
Se nessa escala aparecessem também as ruas transversais, ficaria difícil visualizar o
mais importante, que são as avenidas. Detalhe demais atrapalha.

REFLEXÃO

O conhecimento de Economia de pouco adianta no dia a dia.

Conhecimento de Economia é muito útil no dia a dia. É tão útil, que
vários desses conhecimentos você já tem e não se deu conta disso. Vejamos
um exemplo:

EXEMPLO

Seu time de futebol, que tem uma grande torcida, vai ter um jogo decisivo no sábado.
Você vai deixar para comprar o ingresso no próprio sábado um pouco antes da
partida? Claro que não. Pois nesse caso você iria comprar de cambista e pagar muito
caro. O cambista vende caro, porque a essa altura não há mais ingresso disponível
nas bilheterias, mas ainda existem pessoas querendo comprar. Dito de outra forma,
há pouca oferta de ingressos – o que tem está com os cambistas – mas há procura
por ingressos. Os cambistas sabem disso e por isso vendem caro. Se você entende
a lógica de situações desse tipo, você conhece os princípios básicos da chamada
lei da oferta e da demanda. Foi a escola da vida que te ensinou, não foi um curso de
Economia. Ensinou e você aprendeu, porque é algo útil no dia a dia.

Mas a escola da vida não ensina tudo, caso contrário, ninguém estudaria
nem faria faculdade. Vejamos agora um tipo de situação em que o
conhecimento de Economia é importante.

COMENTÁRIO

Simplificação da realidade

Em uma segunda etapa, podemos sofisticar
um pouco mais e agregar outras variáveis.
Portanto, um economista iria criar
uma relação matemática entre essas
variáveis, formulando assim um modelo
econômico, para em seguida testá-lo
com os dados existentes (supondo que
não seja um modelo apenas teórico). No
capítulo 3 veremos mais sobre a construção
de modelos teóricos na microeconomia
e o uso do método lógico-dedutivo e
de hipóteses simplificadoras.

 

EXEMPLO

Suponha que você queira comprar uma televisão nova e existam duas opções: à vista ou
em 24 vezes com juros de 2% ao mês, mas com uma prestação baixa. Suponha também
que a inflação seja de 0,5% ao mês e a caderneta de poupança renda 0,6% ao mês. A
maioria das pessoas optaria por pagar a prazo, afinal a prestação é baixa e cabe bem
no salário. Essa solução é a mais cômoda, mas não é a melhor. Você estará pagando
de juros o equivalente a quatro vezes o valor da inflação, e durante 24 meses! Não é
necessário fazer cálculos para confirmar, é evidente que nesse caso o barato sai caro.
Para chegar a essa conclusão você comparou a taxa de juros com a taxa de inflação
e rendimento da caderneta de poupança e (implicitamente) confrontou o preço à vista
com o preço a prazo. Com noções de economia é mais fácil fazer esse tipo de raciocínio.

REFLEXÃO

Os economistas não se entendem, cada um diz uma coisa diferente. É tudo muito confuso.

Os economistas têm discordâncias entre si, mas divergências existem
em várias ciências e profissões e são parte da vida. Ainda mais na
Economia, que é uma ciência social e não uma ciência exata. Você concorda
com todas as ideias de seus pais, de seu filhos, irmãos ou amigos?
Com certeza não, e isso, na maioria das vezes não impede a convivência.

Mas por que os economistas divergem?

Em primeiro lugar existem diferentes escolas de pensamento dentro da
Ciência Econômica. Fazendo uma analogia com a Medicina, um médico
com formação tradicional e outro com formação em Medicina Chinesa
vão olhar o paciente de forma muito diferente e, portanto, o diagnóstico
e, principalmente a terapia, serão divergentes.

Comparando um economista neoliberal e um economista keynesiano
(mais adiante falaremos mais detidamente dessas correntes de pensamento),
veremos que o primeiro acredita que a intervenção do Estado
só atrapalha o funcionamento da economia. Já o segundo, acredita que a
economia só vai funcionar adequadamente com intervenção do Estado.

REFLEXÃO

Os economistas vinculados a essas correntes nunca vão se entender, caso se ativerem
rigidamente a seus princípios, pois partem de premissas e teorias diferentes.
A situação se complica ainda mais se esses economistas estiverem vinculados a
partidos políticos ou associações de classe divergentes.

COMENTÁRIO

Divergências

Veja o caso dos médicos que, no dia a
dia, para todos nós, são mais importantes
que os economistas. Em muitas situações,
não é incomum consultar três
médicos sobre uma operação e ter três
diagnósticos diferentes: a) não precisa
operar; b) não precisa operar agora, mas
talvez precise operar no futuro; c) tem
de operar e tem de ser agora. Se algum
deles for homeopata ou praticante da
medicina chinesa, as divergências seriam
ainda maiores.

 

Pode haver divergências também porque um dos lados usou de forma inadequada uma
teoria ou um modelo, por exemplo, deixando de lado variáveis importantes. Pode haver também
divergências de ordem empírica.

EXEMPLO

Por exemplo, se há falta de dados e informações, qualquer avaliação fica muito subjetiva e, portanto, as
divergências são grandes. Se há dados suficientes, pode haver divergência quanto à escolha da base
de dados – por exemplo, a do IBGE ou do Ministério da Agricultura para estimativas de safra – e no
tratamento/uso desses dados.

De que lado ficar em uma polêmica? Há duas alternativas. Pode-se assumir uma postura
sectária (e equivocada) e sempre considerar que estão corretas as posições defendidas
pelos economistas com os quais você simpatiza e que as demais estão erradas. Ou adotar
uma postura aberta e democrática ouvindo o que todos têm a dizer e depois se posicionar.
Essa é a postura correta.

REFLEXÃO

É só assim, com o livre debate de ideias, que o conhecimento avança, não só na Economia como em todas
as áreas do saber. É mais trabalhoso, sem dúvida, mas ser guiado por preconceitos é muito pior.

O objeto de estudo da Economia

Mas afinal, do que trata a Economia? Qual é o seu objeto de estudo? A definição mais tradicional,
formulada em 1932 por Lionel Robbins, afirma que “a economia é uma ciência
que estuda o comportamento humano, como uma relação entre meios e fins. Sendo os
meios escassos e com usos alternativos”. Dito de outra forma, a economia estuda como
se usa a racionalidade (do comportamento humano) para solucionar problemas como
orçamento apertado.

EXEMPLO

Por exemplo, temos um fim — pagar as contas, ter algum lazer e, se possível, poupar —, mas o salário é
curto (meio escasso). O dinheiro pode ser utilizado de diferentes formas, pois há várias contas a pagar –-
algumas podem ser adiadas com pouco custo e outras não –, há diferentes tipos de lazer e de aplicações
financeiras. Qual seria a escolha racional a se fazer nessa situação? Essa escolha seria a que daria maior
satisfação (maximizaria o bem-estar).

Tendo as informações necessárias, a teoria econômica indica o caminho a tomar. Situações desse tipo
não ocorrem apenas com consumidores e famílias, mas também com empresas, governos, instituições etc.

Note que essa definição pressupõe que o agente econômico (basicamente famílias e
empresas) aja com racionalidade. Mas a propaganda nos leva a agir com racionalidade?

Fatores de produção são os meios disponíveis para se gerar os produtos que a sociedade necessita.

Sua principal característica é a escassez, no sentido de que, na maioria das vezes, são limitados em quantidade. Esse é, sem dúvida, o cerne da questão econômica: a escassez dos fatores de produção.

a Economia é uma ciência que lida com escolhas, pois devemos decidir quais desejos serão atendidos com a utilização de quais recursos.

 

Sempre que escolhemos produzir determinado bem devemos abrir mão de recursos que poderiam ser empregados na produção de outros bens, significando o custo de oportunidade na produção de um bem.

No intuito de obter maiores ganhos, as famílias e empresas agem sempre
com racionalidade ou muitas vezes são otimistas em excesso e influenciadas
por boatos?

A definição de Robbins também restringe a Economia ao estudo da
Psicologia Humana, quando, na verdade, ela é muito mais do que isso.
Não há referência à história ou à sociedade, portanto, a teoria econômica
daria conta de qualquer situação de meios escassos e fins alternativos
que envolvam seres humanos. Mas uma tribo indígena e o homem moderno
têm a mesma racionalidade?

Uma definição alternativa seria: A Economia é a ciência social que estuda
a produção, distribuição e consumo de bens e serviços. As principais
diferenças frente à definição anterior são a menção da Economia como
ciência social, e não se fazer referência ao comportamento humano.

REFLEXÃO

Cabe destacar dois pontos. Em nenhuma das duas definições há valores éticos ou
morais envolvidos. Portanto, a Economia pode ser utilizada para o bem (exemplo: para
a paz) ou para o mal (exemplo: para a guerra). Os agentes econômicos, porém, no dia
a dia, têm valores éticos e morais e fazem suas escolhas também com base nisso.

Não se falou nada até agora sobre quais seriam os fins. Esses seriam,
pelo enfoque tradicional, tornar máximo (maximizar) o lucro das empresas
e a satisfação dos indivíduos. Entretanto, os agentes econômicos
(famílias, empresas) procuram fazer o que é melhor para eles individualmente,
o que não necessariamente é o melhor para a coletividade ou
para o país, como você verá no capítulo 2.

Questões econômicas fundamentais: escassez
e necessidades

As questões econômicas fundamentais, do ponto de vista do agente individual,
são:

ATENÇÃO

O que e quanto produzir — quais os produtos a serem produzidos e em
que quantidades;

Como produzir — que tecnologia utilizar;

Para quem produzir — que mercado consumidor se pretende atingir.

Essas questões só existem porque há escassez e necessidades a serem
atendidas. Estamos tratando aqui apenas dos bens econômicos,

COMENTÁRIO

Otimistas

Uma das causas da crise financeira
internacional de 2008 foi uma combinação
de endividamento elevado com
otimismo desmesurado sobre ganhos
financeiros.

 

que são aqueles relativamente escassos e que precisam ser produzidos,
e, portanto, não são abundantes e oferecidos gratuitamente pela natureza,
como é o caso dos bens livres. As necessidades vão definir o tamanho
do mercado consumidor de um produto.

Quanto produzir?

O quanto produzir vai depender do tamanho do mercado e da capacidade
da empresa em atendê-lo. Suponha que em um país com 10 milhões
de habitantes, metade deles tenha algum tipo de deficiência visual
(miopia, astigmatismo etc.) e necessitem de óculos. Suponha que todos
tenham recursos para comprar óculos. Nesse caso, o mercado consumidor
de óculos seria de 5 milhões de pessoas. Até aqui já estão definidos
para quem produzir (pessoas com deficiência visual), o que produzir
(óculos) e quanto produzir (5 milhões de óculos).

Como produzir?

No exemplo dos óculos, várias empresas vão disputar esse mercado. Venderá
mais quem utilizar uma tecnologia que possibilite produzir óculos
de boa qualidade, com um preço atrativo para o consumidor (bom e barato).
Estamos falando, portanto, do como produzir, ou seja, refere-se à
tecnologia utilizada no processo produtivo. A questão da escassez entra
na escolha da tecnologia. As matérias-primas mais escassas são as mais
caras e determinam a escolha da tecnologia. Os empresários vão fugir
da tecnologia que tem altos custos de produção, pois isso significa preço
elevado e poucos consumidores.

REFLEXÃO

Não se pode produzir sem que haja alguém ou alguma máquina trabalhando em
algum lugar. Portanto, precisamos para produzir, pelo menos, de trabalho, capital
e recursos naturais. Esses são os fatores de produção, que são os recursos indispensáveis
para viabilizar um processo produtivo. Alguns avaliam que capacidade
empresarial e capacidade tecnológica também devem ser consideradas fatores
de produção. Para simplificar, trabalharemos nesse capítulo apenas com os dois
fatores produtivos mais utilizados pelos economistas nos seus estudos, que são
capital e trabalho.

Há sempre diferentes formas de se produzir um mesmo produto,
a partir de diferentes combinações dos fatores produtivos. Por exemplo,
no passado as agências bancárias faziam seu serviço de atendimento
ao público utilizando muito fator trabalho (muitos caixas hu

 

COMENTÁRIO

Bens livres

Exemplos de bens livres são o ar, água,
luz solar etc. Como você já deve ter pensado,
alguns bens livres, devido ao mau
uso feito pelo homem, já estão se tornando
escassos, como é o caso da água.

 

manos) e pouco fator capital. Hoje é o inverso, pois predominam os
caixas eletrônicos.

Para quem produzir?

As questões econômicas fundamentais não são fáceis de serem respondidas.
O ponto de partida de tudo é o para quem produzir. Só faz sentido produzir
algo que venha a ser comprado pelos consumidores. Se for um produto
ou serviço já estabelecido no mercado, não há muito como errar, mas se
for um produto novo ou substancialmente modificado, como os consumidores
vão reagir? Basta a propaganda para solucionar esse problema? Com
propaganda se cria mercado para qualquer produto? Com certeza não.

EXEMPLO

Por exemplo, no início dos anos 1990, no Brasil, houve muito propaganda dos carros
da marca Lada, que eram importados da antiga União Soviética. Essa marca era desconhecida
aqui, mas com a propaganda muitos carros foram vendidos, até porque
o preço era convidativo. O problema é que em pouco tempo ficou claro que o carro
não era adaptado às ruas, estradas e ao clima brasileiro. As vendas despencaram e
o Lada deixou de ser importado. Moral da história: propaganda não faz milagre; se o
produto é ruim, não vende.

Vejamos o caso do telefone celular. Qualquer pesquisa junto aos
consumidores nos anos 1980 diria que eles não necessitavam desse produto.
O que todos queriam era um telefone fixo em casa, o que não era
fácil de conseguir. Com telefone no trabalho, em casa e cabines telefônicas
(orelhões) na rua, qual a necessidade de um telefone portátil? Mas
o produto foi introduzido no mercado e aos poucos foi conquistando
espaço, ainda sem os recursos que existem hoje. Atualmente, para muitos,
já é um produto de primeira necessidade. Moral da história: as necessidades
podem ser criadas. Todo produto que torna a vida mais fácil,
por ser mais prático, por exemplo, leva vantagem.

Isso nos leva a outra questão: como definir
as necessidades?

As necessidades individuais podem ser divididas em corporais, espirituais
e de consumo suntuário (de luxo). As necessidades corporais podem
ser biológicas, que são as relativas ao vestuário, alimentação, reprodução
e habitação, e sociais, que são dadas pela vida em sociedade.

COMENTÁRIO

Comprado pelos consumidores

Estamos nos referindo aqui apenas ao
que é produzido com fins de lucro, pois
o governo, por exemplo, pode oferecer
serviços gratuitos para a população.

 

EXEMPLO

Por exemplo, certas empresas exigem que seus funcionários trabalhem de terno,
pois isso é uma norma social; logo, é forçoso adquirir esse tipo de roupa.

As necessidades espirituais são as referentes ao conhecimento, criação
artística e a religião. O consumo de luxo tem servido historicamente
para diferenciar classes sociais, pois o preço de seus produtos costuma
ser muito elevado.

Vivemos em sociedade e, portanto, temos também necessidades coletivas,
que são aquelas derivadas da vida em comunidade e que só podem,
na maioria das vezes, ser atendidas, de forma coletiva. Esse é o caso dos
serviços de transporte, habitação, saúde, educação (CANO, 2007).

ATENÇÃO

O atendimento das necessidades básicas depende, em boa parte, dos indivíduos.
Tendo um bom emprego podemos pagar por uma boa alimentação, comprar roupas
etc. Já as necessidades sociais dependem, em boa medida, do governo e suas políticas
públicas, pois é ele que constrói grande parte das estradas, hospitais, escolas e
grandes espaços de lazer (estádios, por exemplo).

As necessidades das pessoas são diferentes (região, classe social,
sexo etc.) e mudam ao longo de tempo. Esse é um grande desafio, se o
objetivo for alcançar o desenvolvimento sustentável, que pode ser definido
como o desenvolvimento que visa atender às necessidades da
geração presente, sem comprometer o atendimento das necessidades
das futuras gerações.

ATENÇÃO

Esse já é um problema do presente, nosso planeta não suporta o atendimento de nossas
necessidades atuais. Um bom exemplo disso é o problema das mudanças climáticas.
A temperatura do nosso planeta tem aumentado, em boa medida, por causa do
aumento do consumo de combustíveis fósseis (exemplos: carvão e derivados do petróleo).
Em virtude disso, o clima está ficando cada vez mais instável e a altura dos mares
aumentando. Para enfrentarmos esse problema não basta trocarmos combustíveis
fósseis por fontes de energia renováveis (energia hidrelétrica, solar, eólica — ventos
etc.), precisamos mudar nosso padrão de consumo e, portanto, nossas necessidades.

Não é nada fácil, dado o consumismo da sociedade em que vivemos. Somos
consumistas quando compramos mais do que necessitamos. Todas as
necessidades atuais podem ser atendidas? Com certeza não, pois não haveria
recursos naturais suficientes, nem capacidade de absorver os dejetos
gerados pela poluição do ar, da água, de resíduos sólidos (lixo). Se todos os

COMENTÁRIO

Consumismo

Com certeza você já comprou produtos
que nunca utilizou ou utilizou muito pouco,
o que não justificaria a compra. Se
isso acontece com frequência você é um
consumista. Responda com sinceridade:
você consegue viver sem consumir produtos
supérfluos (não essenciais)? Para
você é fácil definir o que é um produto
supérfluo? O telefone celular é um produto
supérfluo? Sua resposta se refere
a todos os celulares ou só para alguns
tipos de celulares? Essas não são questões
fáceis de serem respondidas.

 

18 • capítulo 1

habitantes do planeta tivessem o mesmo padrão de vida de um norte-americano de classe média,
seria o caos. Só tendo outros planetas para importar matérias-primas e exportar poluição.

Na sociedade em que vivemos, é difícil não ser consumista de alguma forma. O consumismo
é algo sobre o qual se deve refletir e não apenas aceitar passivamente.

A curva de possibilidades de produção e custo
de oportunidade

O dilema entre recursos limitados versus fins alternativos é muito bem apresentado na curva
de possibilidade de produção (também chamada de curva de fronteira produtiva ou de
transformação da produção). Essa curva, que é uma representação simplificada de uma
economia, é sempre côncava e em cada eixo há um produto. Vejamos:

4231000,511,522,533,58910Quantidade produzida de CanhõesQuantidade produzida de Manteiga765

ATENÇÃO

A área delimitada pela curva é a de possibilidades de produção para aquela Economia em relação aos
dois produtos, que são os únicos produzidos, no caso, manteiga (em toneladas) e canhões (quantidade).
Isso significa que qualquer ponto além da curva é impossível de ser alcançado. A produção máxima é
alcançada quando a economia está em algum ponto da borda da curva. Esse é o seu limite, o limite das
possibilidades de produção.

 

A área delimitada pela curva é dada pela capacidade produtiva da Economia, que por
sua vez, depende da disponibilidade de fatores produtivos (capital e trabalho). Portanto,
quanto maior a população, o número de máquinas e fábricas no país, ou quanto maior a
produtividade dos operários ou das máquinas, maior a sua capacidade produtiva. Havendo
maior produtividade ou disponibilidade de fatores, a curva se desloca para a direita
(para fora). Havendo menor produtividade ou disponibilidade, o deslocamento é para a
esquerda — para dentro.

00,511,5Produto AProduto B22,533,500,511,522,533,5

ATENÇÃO

Por exemplo, a curva irá se deslocar para a direita se a população crescer ou se, com o progresso técnico,
as máquinas velhas forem substituídas por novas, que são mais produtivas. Se a população do país
diminuir em razão da emigração, queda da taxa de natalidade ou por guerras ou terremotos, a curva irá
se deslocar para a esquerda.

A curva expressa o dilema clássico da Economia. Não há recursos para se produzir tudo
o que se deseja e é necessário fazer escolhas. Para se produzir mais de um produto é necessário,
sempre, se produzir menos de outro, até a situação limite, em que toda a capacidade
produtiva da Economia está voltada para a produção de apenas um produto.

 

00,511,5Quantidade produzida de ManteigaQuantidade produzida de Canhões22,533,5012345CABD678910

No exemplo dado, 9 é a quantidade máxima que se pode produzir de
canhões; e 3 toneladas, o máximo de manteiga. Suponha que se esteja no
ponto A (8 canhões e 1 tonelada de manteiga) e se passe para o ponto B (5
canhões e 2 toneladas de manteiga). Nesse caso, a produção de manteiga
aumentou de 1 tonelada para 2 toneladas, mas, em compensação, a
produção de canhões caiu de 8 para 5. Para se produzir 1 tonelada a mais
de manteiga foi necessário abrir mão de 3 canhões. Esses 3 canhões que
deixaram de ser produzidos representam o custo de oportunidade.

Note que o ponto D é impossível de ser atingido. Esse não é o caso
do ponto C. Esse último ponto representa uma situação em que se está
produzindo menos do que poderia, pois estamos dentro da curva e não
na sua borda. No ponto C estamos produzindo 1 tonelada de manteiga,
mas apenas 5 canhões, quando poderíamos produzir 8. Isso ocorre porque,
por algum motivo, não estamos utilizando todos os recursos que
temos e, portanto, estamos com recursos ociosos.

Em nosso exemplo, os dois produtos selecionados foram canhões e
manteiga para destacar um dilema econômico clássico. Ao se desviar muitos
recursos para a guerra (canhões), as necessidades da população (manteiga)
ficam em segundo plano. Esse é um dos muitos custos de uma guerra.

EXEMPLO

Durante a Segunda Guerra Mundial, a venda de manteiga nos Estados Unidos foi racionada,
havendo um limite máximo de manteiga que as famílias podiam comprar por
mês. A venda de automóveis para civis chegou a ser proibida, exceto em situações
especiais — exemplo: médicos podiam comprar automóveis por ser considerado necessário
para o exercício de sua profissão. As fábricas de automóveis passaram a
fabricar tanques e diversos tipos de armamentos.

COMENTÁRIO

Custo de oportunidade

É o de que se abre mão ao se fazer uma
escolha. É o custo de uma escolha. À
medida que se avança na produção de
manteiga, o custo de oportunidade aumenta.
Para mais uma tonelada de manteiga,
abre-se mão de 5 canhões.

O conceito de custo de oportunidade se
aplica a várias situações. Em um filme
do cineasta Domingos de Oliveira, o personagem
principal — um conquistador
inveterado — afirma que o difícil não é
escolher uma mulher, o difícil é deixar de
lado todas as outras mulheres do mundo.
Nesse caso, o custo de oportunidade são
todas as outras mulheres do mundo. O
filme se chama Todas as mulheres do
mundo e foi estrelado por Paulo José e
Leila Diniz, em 1966. É considerado um
clássico do cinema brasileiro.

COMENTÁRIO

Recursos ociosos

Um exemplo seria a situação de desemprego.
Parte da mão de obra não está
trabalhando, e, por isso, a produção é
menor do que poderia ser.

 

Bens e serviços

Numa Economia são produzidos bens e serviços. Bens são produtos que
têm forma física — como ferro, automóvel e sapato, por exemplo — e
existem para satisfazer alguma necessidade. Os serviços não têm forma
física — como uma consulta médica, o serviço de um eletricista, uma
aula de professor.

A produção provém dos três setores que compõem uma Economia:
primário (agricultura e pecuária), secundário (indústria) e terciário (comércio
e serviços).

EXEMPLO

Quando um país é pobre, é o setor primário o mais importante, quase não existe indústria,
e o terciário tem pouco peso. O Brasil era assim até o século XIX. Com o desenvolvimento,
a indústria ganha peso e, em seguida, o setor terciário. A economia,
portanto, se diversifica. Em 2013, no Brasil, a agropecuária representava apenas
5,7% da produção do país, a indústria 24,9% e o terciário 69,4% (Fonte: indicadores
do IBGE – Contas Nacionais trimestrais, outubro/dezembro 2013).

Os bens podem ser de dois tipos: bens finais ou bens intermediários.
Os bens intermediários são matérias-primas (insumos) que serão
transformadas em um produto, por meio de um processo produtivo. Por
exemplo: o ferro e carvão transformados em aço; madeira se torna um
móvel; couro vira um calçado.

Os bens finais são os que não sofrem transformações e são utilizados na
forma como se apresentam. Por exemplo, você pode sair da sapataria já com
seu sapato novo no pé. O móvel, logo que chegar à sua casa, você irá utilizar.
Já o ferro, tem apenas um uso, que é ser transformado em outro produto.

Os bens de produção ou bens de capital são aqueles utilizados na
produção de outros bens, como máquinas, equipamentos ou construções.
Máquinas podem, com maior ou menor intervenção humana, produzir
sapatos, refrigerantes, automóveis etc. Também se incluem nos
bens de capital todas as construções e infraestrutura de um país, pois
contribuem para a produção de bens.

Nem sempre é fácil classificar um bem ou serviço nessas diferentes
categorias, pois isso depende do uso que se dá. Por exemplo, para a
maioria das pessoas o automóvel é um bem de consumo durável. Mas
para um taxista é um bem de capital, pois produz um serviço, o transporte
de passageiros. Da mesma forma, uma laranja é um bem de consumo
não durável quando comprada na feira com o objetivo de fazer
suco de laranja para tomar no café da manhã. Mas é um insumo, se é
uma empresa que compra a laranja com o objetivo produzir suco de
laranja para exportação.

COMENTÁRIO

Bens finais

Os bens finais podem ser de dois tipos:
bens de consumo e bens de capital. Os
bens de consumo, como o próprio nome
diz, são os utilizados no consumo das famílias.
Por exemplo, o móvel e o sapato.
São subdivididos em bens duráveis, bens
não duráveis e bens semiduráveis. Supondo
que sejam utilizados com frequência,
os bens duráveis duram muitos anos
(exemplos: geladeiras e televisores), os
semiduráveis, poucos anos (exemplos:
roupas) e os não duráveis, menos de um
ano (exemplos: alimentos e bebidas).

COMENTÁRIO

Bens de capital

Por exemplo, para produzir automóveis
não bastam máquinas, é necessário ter
uma fábrica, que é uma construção. Da
mesma forma, para produzir transporte
marítimo, não basta ter navios, é necessário
ter portos e também estradas, sem as
quais a produção não chega até o porto.

 

Os setores são interdependentes, pois compram e vendem entre si.
Por isso é muito comum quando estudamos a Economia por meio de cadeias
produtivas e se incorporamos a dimensão ambiental, chegamos
ao ciclo de vida do produto.

O conceito de cadeia produtiva, incorporando a preocupação ambiental,
evoluiu para o de ciclo de vida do produto. Nesse caso, se inclui
uma penúltima etapa, que é a do descarte (morte do produto), e a etapa
final é a reciclagem, quando o produto retorna a uma etapa anterior.

EXEMPLO

Por exemplo, sucata de automóvel pode ser utilizada na fabricação de aço. Latas
de cervejas usadas podem ser utilizadas na fabricação de novas latas de cerveja.
Outra diferença com relação ao ciclo de produto é que agora há uma preocupação
com a mensuração dos impactos ambientais e sociais em cada uma das
etapas. Por exemplo, um automóvel não gera poluição apenas quando é utilizado.
Gera também quando é produzido e quando é descartado de forma inadequada.
De forma indireta, é responsável pela poluição produzida na produção de aço
e ferro e no transporte entre essas etapas. No caso da extração do minério de
ferro, ainda há a questão de se estar diminuindo o estoque de um recurso natural
não renovável.

Recursos naturais

Recursos naturais podem ser definidos como o conjunto de riquezas naturais
em estado bruto de um país. É portanto, tudo que a natureza fornece
e dá de suporte à vida humana na terra. Inclui, portanto, recursos
tais como terra, água, ar, minerais, florestas, peixes e demais recursos
marinhos, flora, fauna e clima. Os recursos naturais são tradicionalmente
divididos em renováveis e não renováveis.

COMENTÁRIO

Recursos naturais renováveis são aqueles repostos pela natureza em um curto espaço
de tempo, tais como ar e água. Recursos naturais não renováveis são aqueles que
não são repostos pela natureza em um curto espaço de tempo, tais como petróleo e
minério de ferro. O petróleo é produzido pela natureza, mas são necessários milhões
de anos para isso.

A partir das definições anteriores, poderíamos pensar que deveríamos
nos preocupar apenas com os recursos naturais não renováveis.
Ledo engano. Devemos nos preocupar com ambos. Há recursos naturais

COMENTÁRIO

Cadeias produtivas

Cadeia produtiva é um conjunto de etapas consecutivas pelas quais passam e
vão sendo transformados e transferidos os diversos insumos (PROCHNIK,
2002). Por exemplo, o minério de ferro é extraído da natureza (primeira etapa), em
seguida se transforma em aço (segunda etapa), o qual é utilizado na fabricação do
automóvel (terceira etapa). Nesse caso,
foram três etapas consecutivas. Entre
elas houve transporte e, em cada uma
delas, pagamento de impostos.

 

não renováveis que dificilmente irão se esgotar, pois são pouco utilizados, como o urânio.
Mas o mesmo não se pode dizer do petróleo.

A água é um recurso renovável, mas, na história recente do Brasil, em vários momentos,
o abastecimento de água e o fornecimento de energia elétrica foram motivo de sérias preocupações,
devido à falta de chuvas. Situação que tende a se agravar com as mudanças climáticas.
Temos ainda o problema da qualidade da água. No Brasil, a maior parte do esgoto
residencial não é tratada, antes de ser despejada nos rios, lagos, lagoas ou mar. Por sinal,
poucos sabem que o que pagamos de conta de água é basicamente para cobrir os custos
com transporte e limpeza da água. O custo da água em si, é próximo a zero.

Ford versus General Motors e o início da sociedade de consumo(ou não se fazem bens de consumo duráveis como antigamente)
Muitos pesquisadores consideram a disputa entre a Ford e a General Motors (GM), nos anos 20
do século passado, como o marco inicial da chamada sociedade de consumo, por ter populariza-
do a prática de obsolescência planejada.
Até o início dos anos 1920, a Ford dominava amplamente o mercado de automóveis nos Estados
Unidos, devido ao sucesso do Ford Modelo T. Esse carro era barato e durável. A ideia da Ford era
que fosse um carro para a vida inteira. Mas tinha um inconveniente, era considerado feio pelos
consumidores, devido ao design e, principalmente, por ser preto. A GM, para concorrer, lançou
um carro que tinha muitas das características do Ford Modelo T, mas com duas importantes
diferenças: havia modelos em diferentes cores e, a cada ano, seria lançado um modelo novo — o
carro do ano —, com mudanças em relação ao modelo do ano anterior. Com essa política, no final
dos anos 1920, a GM já vendia mais carros que a Ford. Não houve jeito, a Ford teve que ceder
e passou a lançar novos modelos de carros.
Com essa prática, em apenas um ano, um carro fica velho, pois já é fabricado um modelo novo.
Isso induz o consumidor a trocar de carro todo ano e, portanto, a comprar vários carros ao longo
de sua vida, e não um só, como queria Ford. Isso impulsionou o mercado de carros usados e
gerou um enorme desperdício de recursos naturais e muito lixo, pois são produzidos muito mais
carros do que o necessário. Um produto com obsolescência planejada é elaborado para ter uma
vida curta, levando o consumidor a comprá-lo várias vezes.
Um produto pode ter uma vida curta por vários motivos: saiu um novo modelo com pequenas mudan-
ças; saiu um novo modelo com grandes mudanças, pois houve um salto tecnológico (por exemplo,
TVs com telas LED e LCD); saiu de moda; ou simplesmente não funciona direito e os consertos são
frequentes. Em outras palavras, os bens de consumo duráveis são cada vez menos duráveis.

ATENÇÃO

Algumas perguntas para reflexão. Qual a geladeira mais durável, a sua ou a da sua avó? Qual o critério
que você usa para definir que um conserto vai sair caro e é hora de comprar um produto novo? Há quanto
tempo você tem seu atual telefone celular e o que te levou a fazer a última compra?

 

Fatores de produção, agentes econômicos
e o fluxo circular

A contrapartida da utilização dos fatores de produção no processo produtivo
é a sua remuneração. No caso do trabalho, a contrapartida são
os salários e, no caso do capital, são os lucros (considerando apenas o
trabalho assalariado e o capital produtivo).

REFLEXÃO

Supondo-se uma economia onde existam apenas famílias e empresas (retiramos
propositadamente o governo e relações com o exterior), os proprietários dos fatores
de produção são as famílias, que emprestam esses fatores produtivos às empresas,
para que essas viabilizem a produção de bens. Os agentes econômicos são, portanto,
as famílias e as empresas, que são as entidades que viabilizam o processo produtivo.

As famílias e empresas interagem em dois mercados, o de fatores e
o de produtos. No mercado de fatores, as famílias emprestam capital e
trabalho para as empresas utilizarem a produção em troca de uma remuneração,
no caso, salários e lucros/dividendos.

O valor da remuneração é negociado entre as partes. Atenção! Trata-
se apenas de empréstimo, com regras definidas, dos fatores produtivos,
e não venda desses fatores. Se fosse venda, no caso do trabalho, estaríamos
no regime de escravidão e não de trabalho assalariado. O trabalhador
pode pedir demissão na hora que quiser, e o acionista pode vender
suas ações quando desejar.

No mercado de produtos, as empresas vendem seus produtos às famílias
que, para comprá-los, utilizam a renda obtida no mercado de fatores.
Portanto, os dois mercados estão interligados, em um fluxo circular.

Essa vinculação dos mercados mostra que pagar baixos salários, se
por um lado diminui o custo de produção das empresas, por outro lado
diminui seu mercado consumidor, pois as famílias ficam com menos
dinheiro para gastar. Essas relações estão sintetizadas no fluxo circular,
que mostra como, para cada fluxo real, há uma contrapartida monetária.
Afinal, a Economia trata de acompanhar transações que ocorrem em
valores, em moeda.

COMENTÁRIO

Lucros/dividendos

Quando se compram ações de uma empresa
que está na Bolsa de Valores (empresa
de capital aberto), se tem direito a
receber dividendos caso essa empresa
tenha lucro. Dividendos é parcela do lucro
que é distribuída aos acionistas.

 

Fluxo circular

EmpresasMercado deprodutosMercado de
fatores de produçãoFamíliasRendaFLUXO MONETÁRIO(DINHEIRO)
FLUXO REAL(BENS, SERVIÇOS E FATORES)
GastosSalários e lucrosEmpréstimo de capital e trabalhoReceitasCapital e trabalhoBens e serviços compradosBens e serviços vendidos

Ford e o salário de 5 dólaresNo início de 1914, a Ford, empresa produtora de automóveis, estava enfrentando um sério pro-
blema. Tinha acabado de introduzir uma técnica produtiva revolucionária, a linha de montagem,
mas a produção não crescia como o desejado. O ritmo mais acelerado do processo produtivo
tinha aumentado a insatisfação entre os trabalhadores. Com isso, a dedicação ao trabalho e a
produtividade eram baixas e, portanto, frequentes as demissões e contratações de substitutos
com consequentes gastos em seleção e treinamento.
Para enfrentar esse problema, a empresa tomou uma decisão inteiramente inusitada para a épo-
ca. Resolveu dobrar o salário dos operários para US$5 ao dia e diminuir a jornada de trabalho
para 8 horas por dia, cinco dias por semana. Parecia uma decisão suicida de um empresário ex-
cessivamente paternalista, e foi um choque na opinião pública e no meio empresarial. Mas fazia
todo sentido, do ponto de vista econômico.
Pagando salários acima da média do mercado, a Ford podia cobrar dedicação dos operários, e
conseguiu isso. Todos queriam trabalhar na Ford e quem estava dentro não queria sair. A rotati-
vidade diminuiu drasticamente. Com maior dedicação, aumentou a produtividade (produção por
operário). Com a jornada de 8 horas, a fábrica podia trabalhar 24 horas com três turnos de 8
horas e sempre com operários descansados. Se fossem dois turnos de 12 horas, isso não seria
possível. A produção por fábrica aumentou. Gastou mais com os operários, mas em compen-
sação, o rendimento por operário e por fábrica aumentou muito e mais do que compensou. Em
outras palavras, o custo por operário aumentou, mas o custo de produção caiu, com isso pode-se
reduzir o preço dos carros e vender mais.
Havia também outro motivo para o aumento dos salários. Ford queria que os operários ganhas-
sem o suficiente para comprar seus automóveis, e conseguiu isso. Ford não via os salários só
como custo de produção, via também como demanda para seus produtos. Portanto, percebia que
o mercado de fatores e o de produtos estavam interligados.

 

Economia, sociedade e meio ambiente

Como vimos, a Economia é uma ciência social, portanto, um pré-requisito para sua existência
é uma sociedade minimamente organizada, ou pelos menos com algumas regras
sociais estabelecidas. Talvez a relação econômica mais antiga seja a troca, e ela pressupõe
que os dois lados confiem na qualidade do produto. Mesmo nos primórdios da raça humana,
quando se praticava o escambo, valia o princípio da troca de produtos defeituosos, ou
seja, se a carne que recebi estiver estragada, tenho direito de receber a minha lança de volta.

ATENÇÃO

Os economistas não podem fazer o que querem — embora esse seja o desejo de muitos —, pois tem que
se submeter à sociedade. A economia é limitada pela sociedade, pois está contida nela. Não existiria sociedade
se não existisse vida na terra, e, para isso, certas condições ambientais foram necessárias. Também
não se pode produzir sem recursos naturais. A sociedade é limitada pelo meio ambiente, do qual faz parte.

Como vimos anteriormente, o fluxo circular deve ser entendido como uma representação
simplificada e limitada da economia, mas não da realidade. A figura a seguir é também
utilizada para representar o desenvolvimento sustentável e a economia ecológica.

A relação entre economia, sociedade e meio ambiente

ECONOMIASOCIEDADEMEIO AMBIENTE

Próximos capítulos

Este livro está estruturado para cobrir os principais conceitos introdutórios da Economia.
Neste capítulo, abordamos o objeto de estudo da Economia e as noções básicas de custo de
oportunidade e fluxo circular. Os próximos capítulos tratarão, em larga medida, de aprofundar
essas noções.

O capítulo 2 é dedicado aos principais teóricos em Economia, ou seja, procurou-se situar
aqueles cujas contribuições permitiram mudanças qualitativas importantes na maneira

 

como a análise econômica passou a ser realizada. Nesse sentido, áreas de conhecimento
dentro da Economia, como a Microeconomia e a Macroeconomia, guardam relação com a
evolução do pensamento econômico. No capítulo 2 também tratamos de apresentar brevemente
os princípios de organização de dois sistemas econômicos — a Economia de Mercado
e a Economia Planificada.

O capítulo 3 introduz os conceitos de análise em Microeconomia, cujo objetivo é mostrar,
através do equilíbrio parcial dos mercados, a tendência da Economia de atingir o estado
de bem-estar. Nesse capítulo é feita uma introdução sobre o método de análise em
Economia que supõe agentes racionais maximizadores (famílias e firmas) de suas funções
e objetivo. A partir da caracterização dos agentes econômicos são apresentadas as análises
sobre o equilíbrio nos diferentes tipos de mercado. Noções de organização industrial são
apresentadas ao final do capítulo.

O capítulo 4 apresenta outra perspectiva de análise em Economia, que é a macroeconômica.
Inicia-se o capítulo com a descrição das medidas utilizadas em análises agregadas
— os agregados macroeconômicos — para, em seguida, mostrar como a análise do comportamento
destes agregados ajuda a explicar o desenvolvimento da Economia em curto
prazo. Temas como desemprego e inflação concluem o capítulo.

O capítulo 5 apresenta os instrumentos de política econômica à disposição dos governos
para intervir na Economia. Como economias de mercado são propensas a flutuações,
os governos dispõem de mecanismos de intervenção para contrabalançar os movimentos
de subidas e descidas do produto, do emprego e dos preços, que são percebidos reduzindo
o nível de bem-estar social.

O capítulo 6 é dedicado à análise de longo prazo, contrapondo as noção de desenvolvimento
econômico e de crescimento econômico. Políticas públicas para a promoção do
desenvolvimento econômico são apresentadas, bem como medidas de desenvolvimento
social. Um tópico sobre globalização conclui o capítulo.

Por fim, o livro apresenta um apêndice sobre como elaborar gráficos e tabelas econômicas.
Entende-se que o uso de gráficos e tabelas é recurso bastante difundido, sendo útil o
treinamento do aluno na leitura destas ferramentas estatísticas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRESSER-PEREIRA, L. Os dois métodos e o núcleo duro da teoria econômica. Revista de Economia Política, 2009,
vol. 29, nº 2 (114). Disponível em: <http://www.bresserpereira.org.br/papers/2008/08.06.DoisMetodos-REP.pdf&gt;.
Acesso em: 5 abr. 2014.

CANO, W. Introdução à Economia — uma abordagem crítica. 2. ed. São Paulo: UNESP, 2007.

PROCHNIK. V. Cadeias produtivas e Complexos Industriais – seção do capítulo Firma, Indústria e Mercados, In:
Hasenclever, L. e Kupfer, D. Organização Industrial, São Paulo: Campus, 2002. Disponível em: <http://www.ie.ufrj.br/
cadeiasprodutivas/pdfs/cadeias_produtivas_e_complexos_industriais.pdf>. Acesso em: 1 mar. 2014.

Leituras Sugeridas:

MAY, PETER (Org.) Economia do Meio Ambiente – Teoria e Prática. São Paulo: Campus, 2010.

 

Contextualização
da Ciência
Econômica

2

paulo gonzaga mibielli de
carvalho

 

Contextualização da Ciência
Econômica

2

Uma introdução à História do Pensamento
Econômico

A Economia, como toda ciência, tem uma história e escolas de pensamento.
Destacaremos aqui apenas os principais economistas e escolas, com
ênfase no que é mais pertinente para o entendimento do debate atual.

Os Economistas Clássicos

A Economia como uma ciência específica nasce com os economistas denominados
clássicos. O primeiro e o mais importante dos economistas
clássicos, e por isso considerado o pai da Economia, foi Adam Smith.

Smith era adepto do pensamento iluminista, que se tornaria a base
intelectual da Revolução Francesa (1789). Portanto, acreditava que para
o conhecimento da realidade e transformação da sociedade, era fundamental
o uso da razão, e não da tradição ou da religião. Duas ideias de
Riqueza das Nações estão presentes até hoje no debate econômico, a saber:
a mão invisível e divisão de trabalho.

Mão invisível

Segundo Smith, somos todos egoístas e procuramos, no mundo econômico,
sempre o que é melhor para nós. Mas fazendo isso, mesmo que de
forma intencional, como que guiados por uma “mão invisível”, estamos
realizando o que é o melhor para a sociedade.

EXEMPLO

Se o padeiro procura produzir o melhor pão pelo melhor preço, o açougueiro, a melhor
carne pelo melhor preço, e assim por diante, a sociedade ganha, pois o que
todos nós queremos são produtos bons e baratos. O padeiro e o açougueiro agem
dessa forma devido à pressão da concorrência e porque querem ser bem sucedidos
ter lucro. Esses agentes econômicos estão se relacionando e cooperando entre si
no mercado de produtos e fatores, sem nenhum plano prévio ou orientação externa.

O que vimos no exemplo é o que Smith chamou, metaforicamente,
de mão invisível. Portanto, cada um procurando o melhor para si, chega-

AUTOR

Adam Smith

 

Adam Smith (Escócia, 1723-1790) é
considerado o fundador da Ciência Econômica,
pois, até então, a Economia era
parte da Filosofia ou da Política, e não
uma disciplina autônoma. Começou sua
carreira acadêmica como filósofo moral
e seu primeiro livro, de 1759, se intitulava
Teoria dos sentimentos morais. Seu
segundo livro é o clássico Riqueza das
Nações, de 1776.

 

se a uma situação que é a melhor para a sociedade. Segundo Smith, se
todos agissem por motivos altruístas, visando o bem comum, o resultado
seria muito pior. Isso só é possível, segundo Smith, quando há livre
concorrência, sem interferência do governo.

COMENTÁRIO

Interferência do governo

Ainda hoje, todos os economistas que defendem pouca intervenção do governo na
Economia usam como justificativa a mão invisível de Smith. Costumam dizer: deixe
o mercado em paz, não intervenha governo, pois a mão invisível vai solucionar os
problemas econômicos.

Smith, no entanto, não era a favor de que a atuação do governo na
Economia fosse a menor possível. O governo tinha um papel importante,
por exemplo, nas áreas de infraestrutura e educação. Portanto, implicitamente,
aceitava que a mão invisível não solucionava todos os problemas
da sociedade e, para o bem comum, era necessária a intervenção do
Estado em algumas áreas.

Divisão do trabalho

A segunda ideia é a divisão do trabalho, tanto dentro da sociedade —
hoje chamada de divisão social do trabalho —, como dentro da fábrica
— que hoje seria a divisão técnica do trabalho. A divisão do trabalho traz
a especialização, com ela maior produtividade (maior produção por trabalhador)
e, portanto, barateamento do produto, pois se produz mais
com o mesmo número de trabalhadores. O crescimento do mercado é o
que impulsiona a especialização.

Outro economista clássico evocado aqui é David Ricardo. A maior
contribuição de Ricardo à Teoria Econômica foi, provavelmente, a teoria
das vantagens comparativas, apresentada no livro Princípios de Economia
Política e Tributação, que, até hoje, está na ordem do dia.

No que se refere ao comércio internacional, opõe-se à teoria de vantagens
absolutas, de Adam Smith. Segundo essa última teoria, o importante
no comércio internacional é ter menores custos e, portanto,
vender mais barato. Ou seja, países com custos elevados ou muito ineficientes
estão fadados ao fracasso nas trocas internacionais.

Para Ricardo, isso não seria verdade, pois no comércio internacional
o importante são as vantagens comparativas, e não as absolutas. Um
país tem vantagem comparativa em um produto, quando o outro, com
quem compete, tem alto custo de oportunidade ao fabricar produto,
mesmo sendo mais eficiente na produção. O país deveria se especializar
no produto que tem maiores vantagens comparativas.

COMENTÁRIO

Produtividade

Como vimos no capítulo anterior, Ford
sabia disso, pois para poder aumentar
sua produção, deu um aumento de salário
aos trabalhadores. O objetivo, que foi
plenamente conseguido, era aumentar a
dedicação dos trabalhadores e, consequentemente,
sua produtividade.

AUTOR

David Ricardo

 

David Ricardo (Londres, 1772-1823),
juntamente com Adam Smith e Thomas
Malthus, é considerado um dos fundadores
da escola clássica inglesa de Economia
Política. Sua obra mais consagrada
é Princípios da economia política e
tributação (1817).

 

EXEMPLO

Com um exemplo fica mais fácil de entender a ideia de Ricardo. Vamos supor que em
uma cidade do interior de Minas Gerais existam apenas duas confeiteiras, a Eloisa e a
Mariana, que fazem apenas dois bolos, de laranja e de chocolate. Eloisa faz os dois bolos
mais baratos, pois seu pai tem uma fazenda de onde vêm a laranja, os ovos e o leite. Além
disso, foi muito bem treinada no ofício por Ethel, sua mãe. Mariana deve então desistir e
mudar de ramo? Claro que não, pois a diferença de preços é grande no bolo de laranja,
mas pequena no bolo de chocolate. O motivo é que o chocolate não é produzido em
fazenda, mas importado do Rio de Janeiro. Eloy, o pai de Eloisa, experiente empresário,
percebeu isso. Ele orientou a filha a deixar de lado o bolo de chocolate e ficar só com o
de laranja. Pois como esse bolo era bom e barato, podia atender à demanda da cidade e
também das localidades próximas. Não valia a pena perder tempo produzindo o bolo de
chocolate, que não era tão barato e, portanto, não conseguiria vender muito.

REFLEXÃO

Ou seja, o custo de oportunidade para se produzir o bolo de chocolate era grande,
pois quanto mais bolo de chocolate Eloisa fazia, menos tempo e matérias-primas
tinha disponível para produzir o de laranja. Mariana, portanto, pode continuar a produzir
seus bolos de chocolate, que eram comprados inclusive por Eloisa. Segundo
a teoria de Ricardo, Eloisa tinha vantagens comparativas na produção do bolo de
laranja e, portanto, Mariana no bolo de chocolate.

A discussão sobre vantagens comparativas está na ordem do dia no
Brasil desde o pós-guerra, quando a industrialização do país passou a
ser um projeto de vários governos, como de Getúlio Vargas e Juscelino
Kubitschek. Muitos questionaram (e ainda questionam) a opção do Brasil.
Os economistas liberais à época de Vargas, Dutra e Juscelino diziam
mais ou menos o seguinte: para que o Brasil deve perder tempo produzindo
automóveis, se nunca vamos conseguir competir com os EUA nessa
área? É melhor nos concentrarmos na produção de café, onde somos
muito melhores que os americanos.

Nesse debate, de um lado ficaram os economistas liberais e de outro
os desenvolvimentistas, ligados ao pensamento da Comissão Econômica
para a América Latina e o Caribe das Nações Unidas — Cepal, que
defendiam a industrialização.

ATENÇÃO

Se dependesse da teoria de Ricardo, o Brasil nunca iria se industrializar. Hoje não vendemos
carros para os EUA, mas vendemos para a Argentina. Para os EUA, vendemos
aviões da Embraer — inclusive para as Forças Armadas —, dentre outros produtos.

COMENTÁRIO

Economistas liberais à época

Para eles, o Brasil tinha uma vocação
agrícola, e, portanto, vantagens comparativas
nessa área, e não na indústria.
Mesmo porque a agricultura precisa de
terra e mão-de-obra não qualificada, e
tínhamos ambas em abundância, e a indústria
precisa de capital e mão-de-obra
qualificada, que tínhamos pouco (lembre-
se, falamos da realidade daquela época).

 

O problema é que a teoria de Ricardo é estática, é uma fotografia de um
determinado momento. Mas a realidade é dinâmica, pode mudar. Pensando-
se a realidade do Brasil dos anos de 1940 como algo imutável, não
faria sentido uma industrialização. Mas considerando a indústria como o
motor de um processo de desenvolvimento, e que, por conta disso, o Brasil
seria diferente, décadas à frente, fazia sentido a industrialização. Ou
seja, o pensamento tem de se descolar no presente e se lançar no futuro.

O custo BrasilO custo Brasil é uma expressão muito utilizada nas discussões econô-
micas do Brasil e que tem como base a teoria das vantagens absolutas.
Segundo essa tese, nosso país seria pouco competitivo no comércio in-
ternacional porque teríamos um custo de produção elevado. O custo de
produção é entendido aqui no sentido amplo, abarcando, além do custo do
salário, matérias-primas e juros, também custos legais (exemplo: encargos
trabalhistas), institucionais (exemplos: burocracia em excesso, deficiências
na educação), tributários (impostos elevados), de infraestrutura (estradas
precárias) e corporativos —sindicatos de trabalhadores resistindo à mo-
dernização (SANDRONI, 2005).
Um exemplo do custo Brasil foi um estudo feito pelo Banco Mundial. Essa
pesquisa ordenou os países segundo a facilidade de se fazer negócios.
Nesse ranking o Brasil ficou na posição 116ª, bem abaixo do Chile (34ª),
o melhor da América Latina nesse quesito.
Para os defensores dessa tese no Brasil, como a Confederação Nacional
da Indústria (CNI), o país para se tornar competitivo e entrar numa trajetó-
ria sustentável de crescimento, deveria promover profundas reformas nas
áreas que afetam o custo Brasil.

Continuando nosso passeio histórico, evocamos Thomas Robert
Malthus. A tese que ele apresentou, no Ensaio sobre o Princípio da
População, é que a produção de alimentos cresceria em progressão
aritmética (PA), e a população, em progressão geométrica (PG). Em
decorrência disso, se não fossem tomadas medidas cabíveis, a fome
e, no limite, o colapso da sociedade seriam inevitáveis. Malthus era o
que hoje se chama de catastrofista.

A catástrofe não aconteceu, pois tanto a produção agrícola aumentou
— devido à incorporação de mais terras e de novas tecnologias —
como a população passou a crescer menos, em razão de mais educação,
urbanização e novos métodos contraceptivos.

A preocupação de Malthus então não faz mais sentido no mundo de
hoje? Faz muito sentido para a China, o país mais populoso do planeta, e

AUTOR

Thomas Robert Malthus

 

Malthus (1766-1834), um pastor protestante,
foi o primeiro economista a dar
destaque ao tema crescimento populacional.
Sua fama vem até os dias de hoje,
onde vez por outra, no debate econômico,
é usada a expressão ideias malthusianas.
É considerado o pai da demografia.

 

também a segunda maior economia do mundo, que adota políticas (agora
um pouco menos rígidas) de controle populacional. Faz sentido para vários
países africanos — exatamente os mais pobres — onde a população cresce
exponencialmente. Talvez faça sentido para o restante do mundo também.

REFLEXÃO

A população do planeta está crescendo menos, mas, segundo alguns analistas, a produção
de alimentos não está aumentando no ritmo desejado (as mudanças climáticas contribuem
para isso), e há o risco de termos um descompasso no futuro. A FAO, por exemplo,
tem essa preocupação (agência das Nações Unidas para alimentação e agricultura).

Falaremos agora sobre Karl Marx. O nome de Marx é sempre lembrado
quando as coisas vão mal, ou melhor, quando vão muito mal, como foi
o caso da crise de 1929 e, em menor medida, da crise financeira de 2008.
Marx, de todos os economistas clássicos, foi quem estudou com mais profundidade
o funcionamento de uma economia capitalista, como atesta
sua principal obra, O Capital. Isso se deve, sobretudo, a dois motivos.

Primeiramente, Marx escreveu no século XIX, quando o capitalismo
industrial, já consolidado, caminhava para uma nova fase, com maior
concentração do capital e maior interligação entre capital produtivo e
financeiro. Smith, que viveu um século antes, ainda no início da revolução
industrial, não tinha como analisar esse capitalismo — que é mais
próximo da nossa realidade atual. Marx pôde se beneficiar do muito que foi escrito sobre o funcionamento do capitalismo, inclusive o que os demais
economistas clássicos escreveram.

O segundo motivo é a necessidade de se conhecer o adversário se
você quer vencê-lo, e esse era o objetivo de Marx. Com relação ao capitalismo,
Marx tinha, ao mesmo tempo, admiração e ódio.

Para Marx, a burguesia — e, portanto, o capitalismo — era profundamente
injusta, pois explorava a população, em especial os operários, e
por isso deveria ser derrubada. Nesse sistema os ricos ficariam cada vez
mais ricos e os pobres cada vez mais pobres.

Derrotado o capitalismo, seria implantada uma economia cujos
meios de produção seriam propriedade do governo (socialismo). Sendo
bem sucedida a implantação do socialismo, se alcançaria o comunismo,
que seria uma sociedade igualitária, sem classes e sem governo.

Para Marx, o colapso do capitalismo era inevitável por dois motivos:
pressão dos operários explorados (luta de classes) e as contradições internas
do funcionamento próprio do capitalismo. Essa é a razão pela
qual Marx é sempre lembrado em épocas de grandes crises do capitalismo,
como em 1929 e 2008.

AUTOR

Karl Marx

Karl Heinrich
Marx (1818 –
1883) foi fundador
da doutrina
comunista
moderna, e denomina-
se marxismo
o conjunto
de ideias e teorias dele, as quais você
verá de forma mais extensa durante
este capítulo.

COMENTÁRIO

Admiração

No Manifesto do Partido Comunista, chega
a afirmar que a burguesia, durante seu
domínio de classe, apenas secular, criou
forças produtivas mais numerosas e mais
colossais que todas as gerações passadas
em conjunto (Marx e Engels, 1848).

COMENTÁRIO

Socialismo

Na época de Marx, o socialismo era necessariamente
revolucionário e incompatível
com o capitalismo. Posteriormente
o movimento socialista se dividiu
entre socialistas revolucionários e não
revolucionários (reformistas), que lutavam
por um regime capitalista com mais
justiça social, incorporando algumas
ideias socialistas. Essa última corrente,
também chamada de Social Democrata,
acabou predominando na Europa.

 

REFLEXÃO

Esses eventos de crise sempre nos recordam de que as economias de mercado (capitalismo)
não funcionam bem e isso pode acarretar consequências sociais sérias, tal
como índices elevados de desemprego.

Se as economias de mercado não funcionam adequadamente, os
marxistas diriam: não seria o caso de mudar de sistema e implantar o socialismo?
As economias de mercado têm sobrevivido às suas crises com
base em reformas e intervenção do governo. Por outro lado, as economias
ditas comunistas e seguidoras das ideias de Marx, fracassaram em
maior ou menor grau. A China é um sucesso econômico, mas pode-se dizer
que a China é um país comunista? Com certeza não. Apesar de vários
países terem se intitulado comunistas — como a antiga União Soviética
—, nunca se alcançou o comunismo conforme concebido por Marx.

O maior legado de Marx é pouco associado ao seu nome. Suas previsões
fracassaram, mas seus ideais contribuíram para mudar o capitalismo
ao fortalecer os sindicatos e ao levar à criação de partidos de esquerda.
Como consequência, estas instituições levaram os governos de
diferentes matizes políticas a adotarem políticas sociais.

O chamado Estado de Bem-Estar, no qual as políticas sociais tornam-
se mais abrangentes e articuladas, surge na Inglaterra depois da
Segunda Guerra Mundial, por iniciativa do Partido Trabalhista, um
partido de esquerda moderado. Esse modelo é atualmente adotado,
em maior ou menor grau, por muitas economias, no Brasil inclusive.

Uma prova de que o capitalismo mudou é o apoio à existência de políticas
sociais, que é hoje um consenso no espectro político. Pode-se discutir
que tipo de política e qual sua extensão, mas não sua necessidade e
importância em distintas áreas.

REFLEXÃO

Por exemplo, hoje é consenso que a Educação Básica deve ser gratuita, e que o
trabalho de crianças em fábricas deve ser proibido. Essas são duas das propostas de
Marx e Engels no Manifesto Comunista. O tempo mostrou que políticas educacionais
e de proteção às crianças eram necessárias, e que não é preciso um governo revolucionário
que queira implantar o comunismo para colocá-las em prática.

A reação alemã

Friedrich List, jornalista e político, foi um dos críticos das ideias de
Adam Smith na Alemanha. Muitas vezes quando se aborda a história
do pensamento econômico, seu nome não é lembrado. No entanto, List

COMENTÁRIO

Políticas sociais

As políticas sociais são as voltadas
para a melhoria das condições de vida
da população. Otto Bismarck, primeiro-
ministro do império alemão no final do
século XIX, um político conservador e
visionário, adotou uma gama de programas
sociais — pensões, aposentadorias,
auxílio-desemprego, seguro de
acidentes de trabalho, dentre outros
— por conta do crescimento dos partidos
de esquerda, notadamente o Social
Democrata.

COMENTÁRIO

Friedrich List

Friedrich List (1789-1846) defendia a
tese de que as empresas nacionais não
conseguiriam se desenvolver se o mercado
já estivesse ocupado por empresas
de países estrangeiros economicamente
mais avançados. Nessas circunstâncias,
para ele, justificava-se um protecionismo
educador, com a finalidade de proteger,
por um período de tempo, o mercado
nacional para assegurar a consolidação
das indústrias nacionais, ou seja,
para que tivessem condições análogas
para disputar mercados num ambiente
de livre concorrência. List morou muito
tempo nos EUA, e até se naturalizou
americano, onde políticas protecionistas
eram defendidas desde o século XVII por
Alexander Hamilton (Secretário do Tesouro
de George Washington, o primeiro
presidente dos EUA), e começaram a ser
adotadas em 1789.

 

tem especial importância para nós, que vivemos na América Latina, pois
sua principal obra — O Sistema Nacional de Economia Política, de 1841
— teve grande influência no pensamento da Cepal — Comissão Econômica
para a América Latina e o Caribe. As ideias de List serviram de base
para concepção das Zollvereins — uniões aduaneiras que criaram zonas
de livre comércio entre os vários reinos independentes da Alemanha.

ATENÇÃO

Adam Smith seria inteiramente contra medidas protecionistas, pois representavam
uma intervenção indevida do governo no livre mercado, onde não devia haver favorecimento.
Que na disputa entre empresas, valha a livre concorrência, e que vença
o melhor, sem privilégios para ninguém, diria Smith (e muitos pensam assim hoje).

A questão é que se não houver algum tipo de proteção, a disputa será
sempre David e Golias, ou seja, muito desequilibrada. Isso significa que
a Inglaterra, que foi o primeiro país a passar por uma revolução industrial,
tinha uma enorme vantagem sobre seus concorrentes. Os países
deveriam abrir mão de se industrializar e aceitar que produtos manufaturados
deveriam ser comprados da Inglaterra?

Os EUA responderam negativamente a essa pergunta e adotaram políticas
protecionistas, sendo esse um dos motivos pelos quais esse país
se tornou uma grande potência. Por sinal, se David Ricardo fosse analisar
a economia dos EUA no início do século XIX, diria que o país deveria
se especializar na produção de algodão e outros produtos agrícolas, e
importar manufaturados da Inglaterra.

RESUMO

Políticas protecionistas visam proteger um setor econômico, normalmente a indústria,
no caso da América Latina, e, para esse fim, fazem uso de medidas que desestimulam
ou impedem a importação de produtos concorrentes. Isso pode ser feito,
por exemplo, por meio da criação de cotas de importação, impostos elevados sobre
importados, câmbio desfavorável para a importação.

Caso a política do governo vise não só proteger, mas também desenvolver
um setor, serão adotadas medidas de política industrial. Essas
medidas objetivam estimular a produção local, por meio, por exemplo,
de: crédito em condições favoráveis; isenção de impostos; câmbio favorável
para importação de insumos e máquinas necessárias para o desenvolvimento
do setor.

No início do século XIX, o que hoje chamamos de Alemanha não
existia e, em seu lugar, havia um conjunto de pequenos países (reinos).
Foi criada, em 1833, uma união aduaneira (Zollverein) entre esses países,
que consistia na abolição das tarifas aduaneiras no comércio entre

COMENTÁRIO

Grande potência

Segundo Ha-Joon Chang (2013), a
grande maioria dos países hoje desenvolvidos
adotaram políticas protecionistas;
e políticas de livre mercado raramente
fazem os países pobres ficarem ricos.

COMENTÁRIO

Câmbio favorável

A política cambial, que trata do valor
das moedas estrangeiras, será tratada
mais adiante neste livro. Neste momento
basta o entendimento de que câmbio
— no nosso caso, dólar — desfavorável
à importação significa dólar caro. Inversamente,
o dólar caro é favorável para
quem exporta, pois a receita do exportador
é em dólar.

COMENTÁRIO

Zollverein

O Zollverein era claramente protecionista
e inspirado nas ideias de List, e
seu sucesso levou à criação de outras
uniões aduaneiras. O Mercado Comum
Europeu, que depois se transformou em
União Europeia, teve como ponto de
partida a união aduaneira. O Mercosul
tem o objetivo de se tornar uma união
aduaneira entre seus países membros.

 

eles e criação de tarifas únicas para o comércio com os demais países.
O sucesso dessa medida contribuiu de forma decisiva para a unificação
política da Alemanha em 1871.

A Economia Neoclássica

Como o objetivo deste capítulo é apresentar apenas os principais economistas,
optamos por nos restringir a um economista da corrente
neoclássica, também chamada de marginalista — que abarca, a grosso
modo, o período 1870-1910 —, e escolhemos Alfred Marshall, um
professor de Cambridge (Inglaterra), que costuma ser chamado o pai
da Microeconomia.

ATENÇÃO

A Microeconomia é o ramo da Economia que estuda a interação, no mercado, entre
empresas e consumidores. Vários economistas pesquisaram nessa área (como Jevons,
Menger, Walras), mas Marshall não só incorporou muito do que seus antecessores
e contemporâneos escreveram, como deu importantes contribuições próprias.
No século XX o âmbito da Microeconomia se expandiu passando a abarcar também,
por exemplo, a relação entre empresas que concorrem em um mesmo mercado e do
governo com empresas e consumidores. Para maiores informações, veja o capítulo
3, que tratará da Microeconomia.

A partir de Marshall, a ciência econômica, até então conhecida
como Economia Política, se tornou Economia, que é a denominação
usada até hoje. Seu livro — Princípios de Economia — teve (e ainda
tem, mas de forma indireta) enorme influência e é considerado o primeiro
livro-texto de Economia.

RESUMO

A principal diferença entre os economistas clássicos e os neoclássicos é que os
primeiros utilizavam a teoria do valor trabalho e, os segundos, a do valor utilidade.
Para os clássicos, o preço de um produto tinha como base a quantidade de horas
de trabalho necessária para sua fabricação, e para os neoclássicos, a base do preço
é a sua utilidade. Para os neoclássicos não importa quanto trabalho se despendeu
para a fabricação de um produto, se não conseguir vendê-lo — portanto não sendo
útil para ninguém — seu preço é zero. O preço da mercadoria, portanto, não é determinado
quando a mesma é produzida (valor trabalho), e sim no mercado, quando é
vendida/consumida (valor utilidade).

AUTOR

Alfred Marshall

 

Alfred Marshall (Londres, 1842-1924)
exerceu forte influência na Economia,
em especial pelo livro Princípios de Economia
(1890), uma compilação em dois
volumes de todo o pensamento econômico
à época.

COMENTÁRIO

Princípios de Economia

Vários conceitos que são fundamentais
na Microeconomia têm como referência
o livro Princípios de Economia,
bem como sua formulação matemática
e apresentação gráfica — por exemplo,
utilidade marginal (originalmente formulado
por Jevons), oferta, demanda,
elasticidade, custos fixos e variáveis. As
duas curvas mais conhecidas da ciência
econômica — as de oferta e demanda
— foram formuladas por Marshall. Não
vamos aqui nos deter em explicar esses
conceitos, pois os mesmos serão abordados
no capítulo seguinte deste livro.

 

A Escola Austríaca

A maioria dos economistas da chamada Escola Austríaca, como Menger
e Böhm-Bawerk, poderia ser classificado como neoclássicos, mas um
deles fugiu à regra e, para muitos, é um estudioso de difícil enquadramento
em qualquer categoria, chegou até a dar origem a uma escola de
pensamento. Esse economista foi Joseph Schumpeter. Seus principais
livros foram A Teoria do Desenvolvimento Econômico e Ciclos Econômicos.

Schumpeter criou uma expressão muito presente nas discussões
econômicas dessa área, que é a destruição criativa, tendo como ponto
de partida os estudos de Marx. Para Schumpeter (e para Marx), o capitalismo
é extremamente dinâmico e, para abrir espaço para o novo, é
necessário destruir o velho. Ao se lançar um novo produto (ou meio de
produção, de transporte etc.) está se substituindo (destruindo) produtos
antigos. Para Schumpeter, os ciclos econômicos são inerentes ao funcionamento
de uma economia capitalista.

Os ciclos de longa duração, chamados ciclos Kondratieff (em homenagem
ao economista russo Nikolai Kondratieff, que foi o primeiro a
estudar o tema dos ciclos longos), estariam sempre associados a uma
onda de progresso técnico. Segundo os economistas neo-schumpeterianos,
Freeman e Soete (1997), teriam ocorrido cinco ciclos de Kondratieff.
Estamos atualmente no ciclo da microeletrônica.

Ondas sucessivas de progresso técnico
Adaptado de Freeman e Soete (1997) p.19

Período

Ondas de Krondratieff

1780-1840

Revolução industrial

1840-1890

Era da máquina a vapor e das ferrovias

1890-1940

Era da eletricidade e do aço

1940-1990

Era da produção em massa

1990 – ?

Era da microeletrônica

 

 

Schumpeter dá muito destaque ao papel dos empresários no processo
de inovação tecnológica. Por conta disso, criou mais tarde a expressão
“empresário schumpeteriano”, para designar os que são especialmente
inovadores. Hoje é consenso entre os economistas que o progresso técnico
é o principal motor do crescimento econômico no longo prazo.

Em contrapartida, o progresso técnico, ao destruir setores econômicos
e processos produtivos, também destrói seus respectivos postos
de trabalho, gerando o que depois foi chamado de desemprego
estrutural, ou seja, a perda de emprego porque a ocupação correspondente
não existe mais.

AUTOR

Joseph Schumpeter

Schumpeter (Morávia, atual República
Tcheca, 1883 -1950) notabilizou-se pelo
estudo dos ciclos econômicos e, principalmente,
do progresso técnico. Foi o
primeiro economista a dar destaque ao
tema tecnologia e, ainda hoje, é uma referência
na área. Vários economistas se
consideram seus seguidores, dando origem
à escola Neo-schumpeteriana.

CONCEITO
Ciclos econômicos

São flutuações da atividade econômica em
que a uma fase de expansão da produção
se segue uma de contração, ou uma fase
de grande expansão é seguida por uma de
baixo crescimento. Os ciclos poderiam ser
de curta, média ou longa duração.

COMENTÁRIO

Desemprego estrutural

Quem trabalhava na indústria de
máquinas de escrever perdeu seu
emprego para sempre, pois esse
produto não é mais fabricado. Foi
substituído pelo computador. Em
longo prazo, os empregos perdidos
são mais do que compensados
pelos empregos criados. Mas, no
curto e médio prazo, será difícil encontrar
ocupações para as pessoas
desempregadas, e políticas públicas
são importantes para minimizar
esse inevitável custo social.

 

Produtos que morrem e renascemÉ interessante notar que alguns produtos dados como mortos acabam por
renascer algum tempo depois. Schumpeter nunca deve ter pensado nisso.
Um caso conhecido são os discos de vinil, que sofreram um golpe mortal
com o aparecimento dos CDs e teriam sido definitivamente enterrados
com o surgimento do MP3, downloads e, por fim, da música alugada por
streaming. Mas o vinil está de volta, não como produto de massa e, sim,
para um nicho de mercado composto pelos DJs e aficionados. Virou um
produto cult. Muitos fãs de rock consideram a qualidade de som do vinil
insuperável — mas há controvérsias se isso é mesmo verdade. Com a volta
do vinil, voltou também o toca-disco.
Um produto que pode voltar é a máquina fotográfica Polaroid, cujas fotos
são reveladas, em papel, na mesma hora. Alguns empresários já percebe-
ram que há demanda por fotos em papel e não apenas digitais.
E você, o que acha? Na sua opinião, este livro vai ser substituído pelo tablet
ou pelo e-reader?

Outro economista da escola austríaca que se notabilizou foi Friedrich
Hayek, que é considerado o pai do que hoje é chamado neoliberalismo.
Para Hayek, o sistema de livre mercado é uma ordem espontânea,
tão importante para a humanidade quanto o desenvolvimento da linguagem.
Defende que a sociedade seja organizada em torno do mercado
e que a atuação do governo seja a menor possível. A regulamentação da
vida econômica, consequentemente, deveria ser mínima.

Hayek também se opunha a políticas que tivessem como objetivo a
justiça social, por ser uma interferência indevida nas liberdades individuais.
Mas aceitava algumas exceções à regra de não intervenção do
Estado, pois era favorável a que o governo ajudasse a quem fosse extremamente
pobre, por meio da garantia de uma renda mínima, apoiava
a instituição de seguro social para atender a indivíduos doentes ou acidentados,
bem como regulamentações na área ambiental.

A economia keynesiana

Se Marshall é o pai da Microeconomia, não há dúvidas de que Keynes é
o criador da Macroeconomia, que é o estudo do comportamento, principalmente
no curto prazo, do desempenho da Economia de um país
no que se refere à produção, renda, emprego, preços etc. Curiosamente,
Keynes se considerava um seguidor de Marshall, de quem foi discípulo.

AUTOR

Friedrich Hayek

Friedrich Hayek (Viena, Áustria, 1899-
1992) foi reverenciado, com medalhas,
pelos dois mais importantes políticos
neoliberais, o Presidente Reagan, dos
EUA, e a Primeira-Ministra Margaret
Thatcher, da Inglaterra. Por conta disso,
sua principal obra — O caminho da servidão
—, considerada um libelo contra
o socialismo, tem tido sucessivas edições.
Hayek ganhou o prêmio Nobel de
Economia, em 1974, em conjunto com
Gunnar Myrdal. O curioso é que ambos
têm posições diametralmente opostas.
Hayek é um crítico da intervenção do
governo na Economia e Myrdal um defensor.
Alguns interpretaram essa premiação
como uma demonstração da falta
de critérios na premiação. No entanto,
a maioria dos analistas entendeu que a
premiação expressava o reconhecimento
da diversidade de pensamento dentro
da Economia.

AUTOR

Keynes

 

John Maynard Keynes (Inglaterra, 1883-
1946) opôs-se ao pensamento econômico
neoclássico. Especialmente após a

 

Sua principal obra — Teoria geral do emprego, juro e moeda — é uma
crítica radical ao pensamento econômico dominante da época, sintetizado
na chamada Lei de Say.

Keynes pensava de forma diametralmente oposta. Para Keynes, o
capitalismo é inerentemente instável e, portanto, o pleno emprego é a
exceção e não a regra. Para alcançá-lo só com intervenção do governo, a
mão invisível não dará conta dessa tarefa. A queda de salários nunca irá
levar ao pleno emprego, pois o nível de emprego não é determinado no
mercado de trabalho, e sim pela demanda.

REFLEXÃO

Os empresários não contratam mais operários que não precisam simplesmente porque
agora os salários estão mais baixos. Eles vão contratar os operários que necessitam
para atender a sua expectativa de demanda (de venda) para seus produtos. Além disso,
seria difícil rebaixar valor dos salários, pois os sindicatos não aceitariam isso.

Se excluirmos importação e exportação, a demanda da economia é
composta pelo consumo das famílias, o investimento e os gastos do governo.
O consumo varia com a renda. O investimento depende da taxa de
juros — quanto menor, maior o estímulo para investir em máquinas, equipamentos
e novas fábricas — e da expectativa de lucro dos empresários.
Esse segundo componente, por ser subjetivo, é muito instável. Em épocas
de recessão (de queda da produção da economia), a renda cai e, com ela,
o consumo. Os empresários não investem, pois a economia vai mal. Cabe,
portanto, ao governo, gerar a demanda através de gastos públicos.

Para Keynes, a concorrência e o funcionamento dos mercados são fundamentais
em uma economia capitalista, mas na mão invisível não fariam
sentido. Ao contrário, entendia que, em muitos casos, quando as pessoas
buscam o melhor para si mesmos, esse comportamento leva a uma situação
que é a pior para todos. Isso é chamado de falácia da composição.

EXEMPLO

Por exemplo, se há um boato de que um banco está em má situação financeira e vai
quebrar — algo que ninguém deseja —, todos os correntistas irão rapidamente ao
banco para sacar seu dinheiro. Se todos fizerem isso, o banco quebra. Se todos, durante
uma crise econômica, resolverem poupar dinheiro para fazer frente a um futuro
incerto, isso vai diminuir ainda mais o consumo e agravar a crise.

Essa terapia para enfrentar a recessão, uma grande novidade na época,
já vinha sendo posta em prática, nos anos 1930, por alguns governos — na
Suécia e nos EUA, com o New Deal do presidente Roosevelt —, para enfrentar
a depressão causada pela crise de 1929, mas sem uma fundamentação
na teoria econômica. O livro de Keynes, portanto, surgiu na hora certa.

Segunda Guerra, suas ideias foram adotadas
por praticamente todos os países
ocidentais de maior poder econômico.
Sua influência sofreu declínio a partir de
1970; entretanto, por conta da crise financeira
de 2007, renovou-se o interesse
pelas ideias de Keynes e as críticas
aos defensores do livre mercado.

CONCEITO

Lei de Say

Formulada pelo economista francês Jean
-Baptiste Say, segunda a qual toda oferta,
ao produzir renda, gera sua demanda. Portanto,
desequilíbrios na economia seriam
apenas momentâneos e solucionados
pelo sistema de preços, e o pleno emprego
da mão de obra não seria uma situação
de exceção e, sim, a regra. O pleno
emprego seria alcançado, pois se a oferta
de trabalhadores for superior à demanda,
haverá queda de salários e se chegará a
uma situação de equilíbrio, com todos empregados,
porém com salários menores.

 

ATENÇÃO

As ideias de Keynes provocaram o que ficou conhecido como revolução keynesiana,
pois mudaram a forma de se pensar o funcionamento da Economia e seu pensamento
foi hegemônico entre os economistas até os anos 1970. Nessa época, a inesperada
combinação de baixo crescimento da economia com a inflação — chamada de
estagflação (estagnação da economia com inflação) — colocou em xeque o pensamento
keynesiano. Até então se achava que a inflação estaria necessariamente
associada a mais emprego e produção.

Monetarismo

Keynes foi o economista mais influente da primeira metade do século
XX, e Milton Friedman fica com esse posto na metade seguinte. Ele representou
a reação do pensamento neoclássico à revolução keynesiana.

Friedman advoga que o papel da moeda na Economia é neutro, ou
seja, não pode afetar o lado real. Isso quer dizer que governantes podem,
por motivos eleitoreiros, tentar manipular a taxa de desemprego na Economia
emitindo mais moeda e induzindo a população a gastar mais.
Mesmo que a taxa de desemprego possa diminuir no curto prazo, para
os monetaristas o efeito em longo prazo será o de gerar mais inflação
(ver capítulos 4 e 5, referência à curva de Phillips).

RESUMO

Friedman defendia ideias próximas às de Hayek, de não intervenção do governo na Economia
e de defesa do livre mercado. Os gastos públicos deveriam se ater ao mínimo.

Para Friedman, existe um limite inferior para o nível da taxa de desemprego,
chamado de taxa natural de desemprego. Se o desemprego
ficar abaixo desse nível, irá provocar inflação via elevação dos salários. A
hipótese da taxa natural de desemprego seria equivalente à taxa de pleno
emprego da Economia, que, como Keynes já havia observado, uma
vez atingida, provocaria inflação.

ATENÇÃO

A divergência entre Keynes e Friedman estaria no fato de que, para o primeiro, a tendência
da economia de mercado era funcionar abaixo do pleno emprego, com ociosidade
de fatores de produção (ver capítulo 4); e, para o segundo, economias de mercado
funcionariam próximas ao pleno emprego, ou seja, à taxa natural de desemprego.

AUTOR

Milton Friedman

 

Milton Friedman (Nova Iorque, 1912-
2006) foi ganhador do prêmio Nobel em
1976, e seu nome é associado à corrente
de pensamento chamada monetarista.
As principais obras de Friedman foram
Capitalismo e Liberdade e Uma história
Monetária dos Estados Unidos.

CONCEITO

Taxa natural de desemprego

A taxa natural de desemprego é um conceito
normativo, ou seja, serve como uma
referência para a discussão de política
econômica, pois não há como saber, de
fato, qual é a taxa natural para uma Economia
em um determinado momento.
Economistas monetaristas trabalham com
a hipótese de que existe uma taxa natural.

 

A persistência do desemprego involuntário, ou seja, a existência de
trabalhadores dispostos a trabalhar por qualquer salário e mesmo assim
não encontrando emprego, diagnosticado por Keynes como uma
possibilidade real em economias descentralizadas (não planificadas,
ver próximo tópico), desaparece na literatura monetarista.

REFLEXÃO

Economistas da corrente monetarista sofrem muitas críticas, assim como keynesianos,
nos anos 1970, por não terem previsto a estagflação, ou seja, o movimento de
alta de preços e queda do produto, verificado após o primeiro choque do petróleo, em
1973, em praticamente todas as economias.

A partir daí surge uma nova escola de pensamento, a Novo Clássica,
que tem Robert Lucas, ganhador do prêmio Nobel em 1995,
um de seus maiores nomes. A partir da revolução Novo Clássica, o
grau de sofisticação técnica em Economia aumenta bastante, com
a incorporação cada vez mais intensa de técnicas econométricas na
construção de modelos.

REFLEXÃO

A escola Novo Clássica atualmente encontra-se com menos prestígio, porém o legado
técnico foi incorporado pela corrente mais atual, a chamada escola Novo Keynesiana,
que busca uma nova síntese do pensamento macroeconômico, como a que
prevaleceu após a revolução keynesiana.

Estruturalismo

A contribuição mais expressiva da América Latina (portanto também
do Brasil) à história do pensamento econômico deu-se por meio da corrente
estruturalista da Cepal, da qual Celso Furtado foi uma das figuras
mais proeminentes.

Essa escola de pensamento surgiu na Cepal inspirada pelos trabalhos
de Raul Prebisch, seu primeiro presidente. Segundo essa escola, o
desenvolvimento econômico da América Latina dependia da industrialização.
O modelo de crescimento, até então vigente na região — baseado
na exportação de produtos primários (café, cobre, carne etc.) e chamado
de primário-exportador — estava fadado ao fracasso devido aos
preços desfavoráveis desses produtos no mercado internacional, em
relação aos preços dos produtos importados. Em pouco tempo nossas
exportações não teriam como gerar as divisas (dólares) necessárias para
cobrir nossas importações, e a Economia entraria em colapso.

AUTOR

Celso Furtado

Celso Furtado (1920-2004) escreveu
obras fundamentais, como Formação
Econômica do Brasil (1959) e Desenvolvimento
e Subdesenvolvimento
(1961), e seu nome integra a lista dos
grandes economistas mundiais que, nos
anos 1940 e 1950, criaram a nova teoria
do desenvolvimento. Esta teoria é
conhecida como a teoria estruturalista
do desenvolvimento, e tem os trabalhos
e relatórios desenvolvidos pela CEPAL
— Comissão Econômica para América
Latina e Caribe — a sua principal referência.
Ver também capítulo 6.

 

REFLEXÃO

A saída seria a industrialização e para isso seria necessária a adoção de políticas
protecionistas e industriais, o que ficou conhecido como modelo de substituição de
importações. O objetivo seria o de mudar a estrutura da Economia, alterando o eixo
dinâmico, da agricultura para a indústria.

Esse modelo predominou na América Latina até os anos 1980, quando
a crise econômica e o pensamento neoliberal levaram à mudança
para um modelo de economia aberta tanto para importações quanto
para exportações.

Economia Capitalista (de mercado) versus
Economia Planificada

Uma Economia capitalista se estrutura a partir do mercado, que é o responsável
pela alocação dos recursos e distribuição da renda, via mercado
de produtos e fatores. Em uma Economia planificada (comunista),
esse papel cabe ao governo, que é quem detém os meios de produção.
Ele é quem define o que, quanto, como e para quem vai ser produzido.

EXEMPLO

Em uma Economia capitalista, por exemplo, se há muita procura por determinado
tipo de telefone celular, seu preço vai aumentar e, com isso, vai sinalizar ao produtor
que a produção precisa aumentar. Na Economia planificada, por meio de um estudo,
o governo define quais e quantas pessoas devem ter telefone celular e produz o
necessário para atender a essa meta fixada. Em uma Economia capitalista, o consumidor
vai a uma loja para comprar um produto. Em uma Economia planificada, vai
para receber o produto a que tem direito, mostrando sua caderneta. Esta relaciona
que produtos tem direito a receber, e o que já foi retirado da loja.

Em uma Economia planificada continuam existindo preços e pagamento
de salários. Mas os preços têm valores arbitrários e servem, basicamente,
para viabilizar a contabilidade. Os salários são muito baixos, pois os produtos
não são comprados e sim distribuídos pelo governo. Os salários servem para
gastar no restrito mercado livre, muitas vezes ilegal, onde tudo é muito caro.

Do ponto de vista social, supondo que o planejamento seja feito corretamente,
o sistema de planejamento centralizado é o mais justo, pois todos
vão ter acesso aos produtos que necessitam — segundo a avaliação do governo.
Em uma Economia de mercado (capitalista), só tem acesso a mercadorias,
do feijão ao celular, quem pode pagar por elas. Portanto, quem tem
renda baixa, pode consumir muito pouco e passar necessidades.

COMENTÁRIO

Contabilidade

Sem preços seria impossível calcular o
valor da produção, pois esse pressupõe
a existência de preço e quantidade para
cada produto.

COMENTÁRIO

Acesso aos produtos

No primeiro momento, no início da implantação
do socialismo, o critério da
distribuição de produtos seria para cada
um, segundo sua contribuição à produção
da sociedade. No segundo momento,
com o socialismo já implantado, o critério
seria para cada um, segundo suas
necessidades.

 

O grande problema da economia planificada é que ela fracassou
nos diferentes países que a adotaram. Milhões de pessoas morreram
de fome na União Soviética e China, por exemplo, em razão de políticas
equivocadas que adotaram o planejamento centralizado.

Vários são os motivos para esse fracasso, destacamos alguns:
1) Sempre foi posto em prática por regimes autoritários, portanto eram ar-
bitrárias, em maior ou menor grau, as escolhas sobre o que, quanto, como
e para quem produzir;
2) É muito difícil para o governo ter todas as detalhadas informações necessá-
rias para viabilizar adequadamente o planejamento. O processo dessas informa-
ções é extremamente trabalhoso e complexo;
3) Não há concorrência entre empresas, portanto não há estímulo para se
aperfeiçoar ou baratear os produtos, bem como gerar novos produtos e
processos. O progresso técnico — principal motor do crescimento a longo
prazo — fica, portanto, comprometido;
4) A maioria da população não aceita receber apenas o que o governo
considera que é o justo e quer ter acesso a mais produtos, alguns tidos
como supérfluos.

Por conta disso, quando os países do leste europeu se democratizaram,
na mesma hora, abandonaram o regime vigente para abraçar o capitalismo.
A Rússia, que tinha um parque industrial muito diversificado
na época da antiga União Soviética, agora se concentra na produção e
exportação de petróleo e gás. Boa parte de sua indústria não suportou a
concorrência com as mercadorias importadas. As economias de mercado
podem ser socialmente injustas, mas isso pode ser minimizado por
meio de políticas sociais.

EXEMPLO

Hoje o planejamento central puro é adotado apenas pela Coréia do Norte. Cuba, Laos
e a China, em especial, combinam planejamento central com economia de mercado.

Os governos das economias capitalistas podem ter planos de desenvolvimento
e fazer planejamento. Mas é o planejamento indicativo. No
Brasil, por exemplo, tivemos o II Plano Nacional de Desenvolvimento
Econômico (II PND), durante o Governo Geisel. A Europa teve um ambicioso
plano de reconstrução depois da Segunda Guerra Mundial (Plano
Marshall). O governo dos EUA praticou planejamento durante a Segunda
Guerra Mundial, pois era necessário administrar bem os recursos do
país para dar conta das necessidades advindas de um conflito mundial,
e, ao mesmo tempo, atender ao mercado interno.

CONCEITO

Planejamento indicativo

Por meio de uma série de instrumentos
fiscais, creditícios, compras públicas
etc., bem como negociações com o empresariado,
o governo procura que suas
metas de produção sejam cumpridas
pelo setor privado.

 

Capitalismo x Comunismo – a corrida espacialDurante o período da Guerra Fria (1947-1989), quando em vários momentos pareceu iminente
uma guerra nuclear entre EUA e União Soviética (URSS), houve uma disputa que foi apenas
tecnológica — a corrida espacial (1955-1972). Era disputa (não declarada oficialmente) de
quem levaria o primeiro homem à Lua. A URSS saiu na frente com o primeiro satélite a orbitar
a Terra (Sputnik), seguido do primeiro astronauta (Yuri Gagarin) e da primeira nave espacial,
não tripulada, a pousar na Lua (Lunik 9). Mas os EUA recuperaram o atraso ao colocarem o
primeiro homem na Lua com a missão Apollo 11, e, com isso, venceram a corrida. Em 1972, os
dois países resolveram não mais concorrer e iniciaram a cooperação na área espacial. A corrida
espacial mostrou de forma inconteste a superioridade tecnológica dos EUA em relação à URSS.
Esse evento deixou um legado que vem até hoje, como o desenvolvimento da tecnologia da
comunicação por satélites, da robótica e da energia solar. O país que mais se beneficiou desse
progresso tecnológico foi os EUA.

Economia: divisões e relação com as diferentes profissões

Em linhas gerais, a Economia se divide em Microeconomia, Macroeconomia, História Econômica
e Econometria — que trata do teste de modelos econômicos por meio do instrumental
estatístico. Como vimos anteriormente, a Microeconomia trata do funcionamento
dos mercados e a Macroeconomia, da Economia como um todo. Tanto a Macroeconomia
quanto a Microeconomia podem se subdividir em várias subáreas.

RESUMO

Principais subáreas da Economia

– Economia internacional, que trata das relações econômicas com o exterior;

– Economia do setor público, que estuda o papel do Estado na Economia, a evolução e composição das
receitas e despesas do governo, bem como as principais políticas públicas;

– Economia monetária e financeira, que estuda a oferta de moeda na Economia e o funcionamento do
setor financeiro;

– Economia do trabalho, que trata do mercado de trabalho e suas instituições;

– Economia regional e urbana, que investiga como as atividades produtivas se distribuem e se relacionam
no espaço;

– Desenvolvimento econômico, que estuda os modelos de crescimento e como as economias se desenvolvem;

– Economia do meio ambiente, que estuda as relações entre Economia e o meio ambiente e o desenvolvimento
sustentável;

– Economia do bem-estar, que trata das políticas públicas voltadas para o bem-estar da população, tais
como política de saúde, educacional, previdenciária.

 

Economia e sua relação com
Administração e Contabilidade

Administração e Contabilidade são profissões muito próximas da Economia,
pois há muitas cadeiras em comum entre os cursos, em especial
com o de Administração. Não se pode analisar um balanço de uma
empresa sem levar em conta a situação econômica do mercado em que
atua, bem como do país (e do mundo). O mesmo vale para a gestão de
uma empresa, nas suas diferentes áreas. Mais ainda, a análise financeira
das empresas apresenta muitas interfaces com a Economia.

REFLEXÃO

Deve-se mencionar ainda que uma das áreas que mais tem ganhado espaço nas últimas
décadas, com o avanço da globalização econômica e financeira, é a de finanças,
que reúne economistas e administradores especializados em mercado financeiro.

Economia e sua relação com Comunicação

O jornalista necessita de conhecimentos de Economia, não só o jornalista
econômico. Pode-se entender a política, sem entender de Economia? Com
certeza não. Muitos analistas consideram que o desempenho da Economia é
uma variável decisiva nas eleições majoritárias (para presidente, governador
e senador). A Economia é importante, inclusive, para entender os esportes.

A relação com Economia é também muito estreita nas áreas de publicidade,
propaganda e marketing, e produção cultural, de modo geral,
pois envolvem estudos de mercado, preferências dos consumidores,
captação de recursos etc.

EXE MPLO

Na elaboração de um estudo de comunicação para um empreendimento imobiliário,
por exemplo, é inevitável fazer uso de variáveis econômicas, tais como referenciais
para financiamento (como índice da inflação, taxa de juros, taxa de câmbio), analisar
o valor do salário mínimo frente ao público-alvo, entre outros.

Economia e sua relação com Direito

O conhecimento de Economia é útil para os advogados porque a atividade
econômica é regida por contratos monetários com amparo em leis.

CONCEITO

Esportes

Muitas vezes um clube de futebol tem
um mau desempenho no campeonato,
porque teve que vender seus melhores
jogadores para pagar dívidas.

 

Muitas leis têm implicações econômicas, como a defesa do consumidor e da concorrência,
direito de propriedade, dentre outras.

EXEMPLO

A relação entre Direito e Economia é estreita em várias áreas tais como o Direito do Trabalho (indenizações
trabalhistas, por exemplo), Direito Tributário (valor e cobrança de impostos), Direito Comercial (fusões e
aquisições de empresas).

Economia e sua relação com Geografia

Há uma relação direta com a Geografia Econômica e com vários ramos da Economia: Planejamento
Urbano e Regional, Economia dos Transportes, Economia do Meio Ambiente etc.

EXEMPLO

A Geografia foi muito importante, por exemplo, para o desenvolvimento das cidades de Salvador e Rio
de Janeiro. Se esses locais não oferecessem boas condições naturais favoráveis para a instalação de
um porto, nunca teriam sido capitais do Brasil. Brasília foi escolhida para a nova capital em razão da sua
localização, no centro do país.

Vale mencionar aqui o nome de Paul Krugman, ganhador do prêmio Nobel em 2008, por
sua contribuição em estudos sobre padrões de comércio e a localização da atividade econômica.

Economia e sua relação com História

A História Econômica é uma das bases do curso de Economia. Não se pode entender a História
sem entender a Economia, da mesma forma que não se pode entender a Economia
sem entender a História, pois a História é o laboratório da Economia.

Não é possível entender momentos decisivos da humanidade, como a Revolução Francesa,
Revolução Russa e a Segunda Guerra Mundial, sem levar em conta as condições econômicas
vigentes na época.

EXEMPLO

O Plano Real, de 1994, não teria sido bem-sucedido se seus formuladores não tivessem estudado tanto
as experiências fracassadas dos planos de controle da inflação adotados no Brasil nos anos 1980, quanto
as experiências exitosas de combate à hiperinflação, como a da Alemanha nos anos 1920. O economista
Gustavo Franco, um dos formuladores do Plano Real, havia estudado profundamente a hiperinflação alemã
dos anos 1920, por exemplo.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CHANG, H. 23 coisas que não nos contam sobre o capitalismo. São Paulo: Cultrix, 2013.

DANA. S. Entenda o que compõe o chamado custo Brasil. Folha de S. Paulo, São Paulo, 4 nov. 2013.

FREEMAN, C. e SOETE, L. The economics of industrial innovation. Londres: Third Edition Pinter, 1997.

SANDRONI, P. Dicionário de economia do século XXI. São Paulo: Record, 2005.

Leituras Sugeridas:

HEILBRONER, R. A História do pensamento econômico. São Paulo: Nova Cultural, 1996.

HUNT, E. e SHERMAN, H. História do pensamento econômico. Petrópolis: Vozes, 1977.

HUBERMAN, L. História da riqueza do homem. São Paulo: LTC, 2011.

 

A Abordagem
Microeconômica

3

jorge nogueira de paiva britto

 

A Abordagem Microeconômica

3

O objetivo deste capítulo é apresentar os conceitos básicos de análise a nível microeconômico
. O surgimento da Microeconomia como ramo autônomo da Ciência Econômica
remonta ao último quarto do século XIX, refletindo uma mudança na definição dos problemas
econômicos fundamentais, que se desloca da determinação geral das causas do
desenvolvimento da riqueza, como em Adam Smith (ver capítulo 2), no sentido de um enfoque
utilitarista que privilegia a discussão do processo de alocação dos recursos escassos
entre usos alternativos, com o fim de maximizar determinados objetivos dos agentes envolvidos
no processo, basicamente consumidores e produtores.

Na Microeconomia as análises são elaboradas a partir do estudo das escolhas e decisões
realizadas por famílias, firmas e governos, e de como essas escolhas afetam os diferentes
mercados de produtos e serviços. Assim, a Microeconomia estrutura-se como um corpo
teórico integrado, que procura descrever quatro fenômenos fundamentais:

1) a forma como os indivíduos ou as famílias determinam sua procura de bens e serviços, que
resulta na elaboração de uma Teoria da Demanda ou Teoria da Procura;
2) a forma como as empresas decidem o que e quantos bens e serviços produzirão, e qual a
combinação de fatores de produção a ser utilizada, que resulta na elaboração de uma Teoria
da Oferta, e abrange a Teoria da Produção, que estuda o processo de produção em uma
perspectiva econômica, a Teoria dos Custos de Produção, que classifica e analisa os custos e
tomada de decisões de produzir baseada em princípios de maximização de lucro;
3) a forma como os mercados determinam o preço e quantidade de equilíbrio, a partir da
articulação entre a oferta e a procura, discutida com base na caracterização de estruturas de
mercado e da análise dos impactos da sua operação sobre os níveis de eficiência econômica
e bem-estar;
4) a forma como as articulações existentes entre diferentes mercados influenciam o processo
de alocação de recursos, que resulta na elaboração de uma Teoria do Equilíbrio Geral e do
Bem-Estar, que estuda a interação de todos os mercados, simultaneamente, e seu impacto em
todos os agentes.

A consolidação da Microeconomia como campo autônomo da Ciência Econômica reflete
a contribuição de diversos autores fundamentais. Destacamos Karl Menger, que, em
1871, formulou uma teoria do valor de troca baseada no princípio da utilidade decrescente,
simultaneamente com o inglês Stanley Jevons (1871) e o francês Léon Walras (1874).

Como vimos, a contribuição de Alfred Marshall avança no sentido da explicação de
como os preços de bens e fatores são determinados em mercados considerados isoladamente,
possibilitando a utilização do referencial no esclarecimento de problemas práticos,
através de uma análise elaborada de forma simples, por meio da redução do número de

 

variáveis e da criação de um método dedutivo de análise do comportamento
dos agentes, baseado em motivações objetivas e mensuráveis.

Por outro lado, a contribuição de Leon Walras vai a uma direção distinta,
desenvolvendo uma análise do equilíbrio geral para o problema de
determinação dos preços, elaborando um sistema matemático sofisticado
que indica a interdependência das unidades de produção e consumo
no interior do sistema econômico.

ATENÇÃO

A Microeconomia desenvolve uma visão microscópica dos fenômenos econômicos,
direcionando-se ao estudo do comportamento das unidades individuais responsáveis
por decisões no plano do consumo e produção, distinguindo-se da Macroeconomia
na medida em que esta se interessa pelo estudo de agregados, como a produção, o
consumo e a renda da população como um todo. A Microeconomia preocupa-se em
explicar como se determina o preço dos diferentes bens e serviços, bem como dos
fatores de produção.

O problema básico analisado pela Microeconomia refere-se ao fenômeno
da escassez, associado à dotação de recursos disponíveis em
cada sociedade, e que acaba por gerar um problema de disponibilidade
limitada de bens, que se tornam bens econômicos justamente em função
dessa característica.

Método de análise

O desenvolvimento da Microeconomia implicou no desenvolvimento
de um método particular para tratar do problema da alocação de recursos
em um contexto de escassez. Esse método é desenvolvido a partir de
uma concepção utilitarista da ciência econômica, que deveria fornecer
um instrumental prático para a alocação daqueles recursos da forma
mais eficiente possível.

De modo a atingir esse objetivo, a Microeconomia desenvolve suas
análises a partir de um método lógico-dedutivo, no qual procura tratar a
complexidade e entrelaçamento de influências subjacentes às situações
reais que são objeto de seu estudo.

A forma de desenvolvimento de análises a partir de uma perspectiva
lógico-dedutiva no campo da Microeconomia se dá através da construção
de modelos, concebidos como construções compostas por uma série
de hipóteses, a partir das quais as conclusões são extrapoladas.

Nesses modelos, são selecionadas variáveis mais significativas para
a compreensão de fenômenos associados ao mundo real, permitindo
que a complexidade desse mundo real seja manipulada. A ênfase na
construção de modelos matemáticos é particularmente comum na Mi

 

COMENTÁRIO
Escassez

Por causa da escassez, os indivíduos e
a sociedade devem fazer escolhas difíceis,
que implicam privilegiar uma necessidade
e a alocação de recursos a
ela vinculada, em detrimento de outras.
Como visto no capítulo 1, o conceito
de custo de oportunidade é designado
para representar a melhor alternativa na
escolha da alocação ótima de recursos.

CONCEITO

Método lógico-dedutivo

O caráter dedutivo é realçado pelo fato
de que muitas das variáveis consideradas
pela Microeconomia não podem ser
observadas ou mensuradas, como, por
exemplo, o grau de utilidade que os consumidores
auferem ao dispor de certos
bens ou serviços. Nessa perspectiva
metodológica, a partir de uma situação
do mundo real, são selecionadas as variáveis
mais relevantes para compreender
o fenômeno analisado, o que permite
reduzir e manusear as complexidades
do mundo real. Desenvolve-se, assim,
um modelo lógico, a partir do qual são
inferidas conclusões de natureza abstrata,
as quais, convenientemente interpretadas,
tornam possível o retorno ao
mundo real.

 

croeconomia, resultando na identificação de funções que estabelecem
relações entre variáveis dependentes e independentes, e que recorrem,
de forma sistemática, a representações algébricas e gráficas.

ATENÇÃO

Na construção de modelos de análise, a Microeconomia se vale de forma recorrente
à hipótese de que tudo o mais permanece constante (em latim, coeteris paribus).
O foco de estudo é dirigido apenas à determinada variável cujo efeito se pretende
investigar, supondo-se que outras variáveis interfiram muito pouco no fenômeno, ou
que não interfiram de maneira absoluta no período considerado.

Adotando-se essa hipótese, torna-se possível o estudo de um determinado
fenômeno, selecionando-se apenas as variáveis que influenciam
mais diretamente o comportamento do mercado, o que envolve,
em algum grau, uma hierarquização da importância das variáveis utilizadas
no modelo. Como exemplo, é possível mencionar situações nas
quais a procura de uma mercadoria é normalmente mais afetada por
seu preço e pela renda dos consumidores.

Outro princípio metodológico geral importante no campo da Microeconomia
refere-se a pressupostos comportamentais baseados em
uma racionalidade estritamente maximizadora por parte dos agentes.
Esse homem econômico maximizador não é real, mas necessário para a
construção lógica de um modelo de análise. A concepção do homem
econômico como agente racional maximizador é elaborada de modo a
oferecer uma solução para o problema de alocação de recursos em uma
perspectiva essencialmente estática.

Por outro lado, esse tipo de procedimento também envolve uma simplificação
da racionalidade e dos padrões de conduta dos agentes. No
caso das firmas, por exemplo, assume-se que a firma sempre busca a
maximização do lucro total, otimizando a utilização dos recursos de que
dispõe. Em contraste, é possível considerar correntes alternativas, elaboradas
como crítica à Microeconomia tradicional, que assumem que
a racionalidade dos agentes pode ser essencialmente complexa, envolvendo
múltiplos objetivos e restrições de diversos tipos.

Outra característica importante da Microeconomia é sua natureza estático-
comparativa, através da qual ela tende a confrontar duas ou mais situações
de equilíbrio, sem se preocupar com o período intermediário entre as
situações inicial e final. Desse modo, não são considerados os ajustamentos
entre ambas situações nem a extensão do período de tempo em si.

EXEMPLO

Como exemplo, é possível considerar o impacto do lançamento de um tributo,
comparando-se a situação de equilíbrio presente antes da decisão governamen

 

COMENTÁRIO

Pressupostos comportamentais

Define-se, assim, um homem econômico
essencialmente utilitarista, dotado
de desejos e vontades, cujo comportamento
poderia ser explicado por autointeresses
sujeitos às leis empíricas.
O indivíduo maximizador é caracterizado
como unidade básica do sistema
econômico, de tal forma que os pressupostos
relativos aos comportamentos
individuais seriam capazes de explicar
os fenômenos econômicos e sociais
gerais, evidenciando uma perspectiva
assentada na noção de individualismo
metodológico.

 

tal de lançar o tributo e aquela situação de equilíbrio após o tributo haver surtido
todos os seus efeitos.

Do ponto de vista da representação gráfica dos modelos, essa ênfase
em análises de natureza estático-comparativa reflete-se, por exemplo,
na comparação entre duas situações de equilíbrio definidas em função
do posicionamento das curvas que representam as forças que influenciam
o fenômeno investigado (oferta e demanda, por exemplo).

Por fim, uma característica importante das formulações no campo
da Microeconomia refere-se à ênfase em análises de equilíbrio parcial.
Apesar do caráter simplificador desse tipo de procedimento, ele apresenta
uma série de vantagens, pois exige uma menor disponibilidade
de informações do que uma análise de equilíbrio geral, possibilitando
o desenvolvimento de uma análise que, apesar de menos complexa, é
mais didática e mais fácil de ser compreendida.

Além disso, esse tipo de abordagem é operacionalmente mais exequível
do que a análise de equilíbrio geral, cujo desenvolvimento quase
sempre requer a utilização de um instrumental matemático complexo,
dada a quase total impossibilidade de conduzi-la graficamente.

A Teoria do consumidor e da demanda

Os agentes da demanda — os consumidores — são aqueles que se dirigem
ao mercado com o intuito de adquirir um conjunto de bens e serviços.
Ao explicar o comportamento do consumidor, a Microeconomia
baseia-se na premissa fundamental de que as pessoas escolhem bens e
serviços e lhes atribuem mais valor em função da utilidade proporcionada
pelos bens.

REFLEXÃO

A noção de utilidade articula-se ao conhecimento dos consumidores acerca da satisfação
subjetiva proporcionada pelo consumo, que lhes permite hierarquizar bens
e conjuntos de bens (cestas de consumo). Apesar dessa utilidade não necessariamente
poder ser medida de forma absoluta, ao comparar e hierarquizar alternativas
de consumo, visando maximizar a sua utilidade, o consumidor estaria escolhendo o
conjunto de bens de consumo que mais lhe agrada.

Definindo-se aprioristicamente um intervalo qualquer para o período
de consumo, é possível perceber que, ao aumentar-se progressivamente
o consumo do bem naquele intervalo, o aumento da satisfação
proporcionada pelo consumo tende a ser progressivamente menor. Isso
significa que a utilidade total derivada do consumo do bem cresce na
medida em que se eleva a quantidade consumida, mas que o valor acres

 

COMENTÁRIO

Análises de equilíbrio parcial

Uma análise de equilíbrio parcial, contrariamente
a uma de equilíbrio geral,
pressupõe a abordagem de fenômenos
econômicos de forma isolada ou
individual; considerando que os ajustamentos
que ocorrem no interior de um
mercado específico podem ser compreendidos
isolando esse mercado em
relação aos demais.

 

cido à utilidade total pela última unidade de bem consumida é tão menor
quanto maior for o total consumido de bens.

A utilidade que a última unidade consumida acrescenta à utilidade
total é denominada de utilidade marginal. Estabelece-se assim, a Lei da
utilidade marginal decrescente. Na Teoria do Consumidor, o preço máximo
que um consumidor está disposto a pagar por uma unidade adicional
de um bem corresponde ao preço marginal de reserva.

Como o preço marginal de reserva é maior quanto maior for a utilidade
acrescentada por uma unidade adicional do bem, ou seja, quanto maior for
a utilidade marginal, conclui-se que o preço marginal de reserva corresponde
a uma medida da utilidade marginal. O fato de o preço marginal de reserva
ser decrescente decorre da lei da utilidade marginal decrescente.

Uma abordagem complementar à descrita envolve a tentativa de representar
as características da utilidade do consumidor através de um
modelo passível de representação matemática ou gráfica.

Do ponto de vista matemático, esse esforço de modelização implica
na definição de uma função utilidade que relaciona uma medida qualquer
de utilidade com a quantidade consumida dos diferentes bens. As
propriedades dessa função refletem as características do comportamento
do consumidor anteriormente descritas, com a utilidade marginal de
cada bem estando associada à variação da utilidade total gerada por variações
nas quantidades consumidas do bem respectivo.

Do ponto de vista das escolhas do consumidor, estas se baseiam em
um esforço para maximizar a função utilidade sujeita a restrições definidas
pela renda disponível e pelos preços dos bens a serem adquiridos.

EXEMPLO

Um exemplo simples é o de uma família decidindo sobre seus gastos em um período
de tempo. Definem-se, assim, escolhas de equilíbrio, referentes à composição da
cesta de consumo com os diversos bens, baseadas na hipótese de que esse equilíbrio
requer que o acréscimo de utilidade por unidade monetária direcionada à aquisição
de cada bem seja equivalente para todos os bens.

No processo de escolha, o consumidor confronta e compatibiliza a
taxa pela qual deseja substituir bens, de forma a obter maior satisfação
do consumo, com a taxa pela qual ele efetivamente pode substituir esses
bens no processo de aquisição dos bens, dados os respectivos preços e
a sua limitação de renda. Os fatores descritos permitem identificar os
elementos que interferem na construção da demanda individual.

Desse modo, a função demanda corresponde a uma relação entre quantidades
desejadas e diferentes níveis de preço de um determinado bem,
considerando outros elementos que poderiam afetar aquelas decisões.

COMENTÁRIO

Utilidade marginal

Do ponto de vista formal, a utilidade marginal
do consumo de um bem corresponde
ao crescimento da utilidade total
decorrente do consumo de uma unidade
adicional desse bem. De uma forma
geral, a utilidade marginal de um bem diminui
na medida em que aumenta o seu
consumo. Estabelece-se assim, a lei da
utilidade marginal decrescente.

COMENTÁRIO

Demanda individual

Basicamente, corresponde a um conjunto
de escolhas do consumidor no
intuito de maximizar a sua utilidade, ou
satisfação, quando ocorrem variações
autônomas do preço de um bem particular.
Assim, a demanda individual corresponde
a um desejo, ou a um plano,
representando o máximo a que o consumidor
pode aspirar em termos da aquisição
de um bem, quando confrontado
com um nível particular do preço daquele
bem, dada sua renda e os preços dos
demais bens.

 

REFLEXÃO

Em particular, a demanda pode ser associada a um conjunto mais amplo de fatores
ou variáveis que influenciam a decisão de consumo de um bem particular, tais como:
o nível de riqueza do consumidor (relativamente independente de sua renda nominal),
a sua renda nominal, o preço dos outros bens, fatores climáticos e sazonais, a
intensidade da propaganda e disponibilidade de informações sobre o bem, os hábitos,
gostos, preferências dos consumidores, expectativas sobre o futuro que afetam
as decisões de consumo e facilidades de crédito.

A análise da demanda individual baseia-se na hipótese de que ocorrem
variações no preço do bem em questão e que os demais fatores
permanecem constantes. A função (ou curva) de demanda individual
é construída a partir da identificação das escolhas realizadas pelo consumidor
para cada nível de preços do bem, considerando a hipótese de
que esse consumidor busca maximizar a satisfação ou utilidade proporcionada
pelo consumo.

Desse modo, os impactos de variações do preço do bem são captados
por deslocamentos ao longo da curva de demanda. Por outro lado,
os impactos de variações dos outros fatores considerados constantes na
análise (preços dos demais bens, renda do consumidor e gostos e preferências)
são captados através de deslocamentos da curva de demanda.

ATENÇÃO

Cada consumidor tem uma curva de demanda ao longo da qual a quantidade demandada
pode ser relacionada com o preço, que apresenta uma inclinação para baixo e
para a direita. A curva da demanda de um bem para a totalidade do mercado, por sua
vez, é obtida pela soma das quantidades demandadas por todos os consumidores.

Para obter uma medida quantitativa dos efeitos de variações de preços
e rendimento sobre as decisões de consumo, é usual avaliar-se a
elasticidade da demanda de um bem.

A elasticidade-preço da demanda mede a variação proporcional da
quantidade demandada de um bem quando o seu preço varia. Uma definição
precisa dessa elasticidade é dada pela variação percentual da
quantidade demandada dividida pela variação percentual do preço. As
elasticidades-preço dos bens, que refletem a sua sensibilidade em relação
às variações do preço, são muito diversificadas.

ATENÇÃO

Quando a elasticidade-preço de um bem é elevada, dizemos que o bem tem uma
procura elástica, o que significa que a quantidade da sua procura responde fortemente
às variações do preço. Quando a elasticidade de um bem é fraca, diz-se

CONCEITO

Elasticidade

O estudo da elasticidade é amplamente
utilizado na Microeconomia, procurando
quantificar as relações entre
duas variáveis. Especificamente, esse
estudo envolve a relação entre as variações
proporcionais (ou percentuais)
das variáveis investigadas. Dentre essas
aplicações destaca-se a noção de
elasticidade-preço da demanda, que
tem um papel importante na análise da
demanda do consumidor e das decisões
empresariais.

 

que a demanda é inelástica, pois a quantidade demandada responde fracamente
às variações do preço.

Na análise do comportamento do consumidor é importante considerar
os fatores que influenciam a elasticidade-preço da procura. Um primeiro
fator refere-se à essencialidade do consumo do bem. Neste sentido, observa-
se que a procura de bens de primeira necessidade como alimentos
básicos, energia e medicamentos, tende a ser rígida, e, portanto, inelástica,
pois não se pode facilmente prescindir deles quando os seus preços
aumentam. Por outro lado, outros bens podem substituir artigos de luxo
não essenciais, quando estes sobem de preço, o que torna a sua demanda
mais elástica. Além disso, os bens que têm substitutos imediatos tendem
a ter demandas mais elásticas do que os que não têm substitutos.

EXEMPLO

Por exemplo, a gasolina é um bem com demanda inelástica, pois é difícil ser substituída,
principalmente no curto prazo.

A Teoria da Produção

O desenvolvimento da Teoria da Produção requer, de início, a especificação
de alguns conceitos fundamentais que lhe dão sustentação. Um
primeiro conceito básico refere-se à concepção de empresa ou firma.

Na Teoria da Produção, as formas como os insumos são combinados
constituem os métodos ou técnicas de produção, que podem ser intensivos
em mão de obra (utilizam mais mão de obra em relação a outros
insumos), intensivos em capital ou intensivo em recursos naturais, dependendo
do fator de produção utilizado em maior quantidade, relativamente
aos demais.

ATENÇÃO

No âmbito da teoria da produção, é possível distinguir também os conceitos de tecnologia
e de método de produção. A tecnologia corresponde a um inventário dos métodos de
produção conhecidos, representando o estado das artes em termos de conhecimentos
na esfera da produção. Em geral, supõe-se tecnologia dada e possível de ser acessada
pelos diversos produtores. Já os Métodos ou Técnicas de Produção envolvem diferentes
combinações dos fatores de produção, a um dado nível de tecnologia.

A escolha do método ou processo de produção depende de sua eficiência,
que pode ser analisada tanto do ponto de vista técnico ou tecnológico,
como do ponto de vista econômico. Um método é tecnicamente

CONCEITO

Empresa ou firma

Basicamente, a concepção de firma da
Microeconomia tradicional é elaborada
a partir de uma perspectiva funcional do
processo de alocação de recursos. A firma
é vista como uma instância intermediária
que compra insumos (inputs, fatores
de produção), combina-os segundo
um processo de produção escolhido, e
vende produtos (outputs) no mercado,
procurando maximizar seus resultados
em termos de produção e lucro.

 

eficiente quando, comparado com outros métodos, utiliza menor quantidade
de insumos para produzir uma quantidade equivalente do produto.

REFLEXÃO

Na análise microeconômica padrão, assume-se que é sempre possível, ao produtor,
utilizar a maneira mais eficiente de combinar os fatores e, consequentemente, obter
a maior quantidade produzida do produto.

Na órbita da produção, o produtor tem como objetivo a minimização do
custo da contratação de fatores, dada a restrição técnica da função de produção,
ou a maximização da produção, dada a restrição dos preços dos fatores.
Ao contratar fatores, o produtor deve confrontar as alternativas técnicas
de produção com os preços efetivamente praticados nessa contratação.

Uma vez definidas as quantidades contratadas de fatores, definem-se os
custos de produção que irão orientar as decisões empresariais. A relevância
da análise dos custos decorre da influência que os mesmos exercem nas decisões
empresariais relativas a preços, níveis de produção e lucro.

REFLEXÃO

Nesse sentido, é importante considerar que os economistas e contadores têm formas
diferentes de considerar os custos. No plano contábil, os custos referem-se às
despesas correntes somadas às despesas ocasionadas pela depreciação dos equipamentos
de capital. Já os custos econômicos têm como referência o contexto de
escassez, que faz com que, ao alocar recursos de uma determinada maneira, se esteja
abrindo mão de alocações alternativas que poderiam, eventualmente, apresentar
um rendimento superior. Desse modo, os custos econômicos devem levar em conta
os custos de oportunidade que estão associados às oportunidades que são deixadas
de lado, caso a empresa não empregue seus recursos da maneira mais rentável.

A empresa retratada pela Microeconomia é uma organização que
combina e organiza os recursos com a finalidade de produção de bens ou
serviços. A teoria da firma baseia-se na suposição de que as decisões produtivas
da firma estão baseadas em princípios de maximização de lucro.

Os ganhos do produtor se originam porque o valor mínimo que eles
exigiriam para ofertar esse produto pode ser menor do que o valor efetivamente
obtido no mercado (isto é, o preço do produto). Define-se, assim, a
noção de excedente do produtor, dado pela diferença entre o preço mínimo
que o produtor requer para produzir uma determinada quantidade de
produto e o que ele efetivamente recebe pelo venda do mesmo.

O excedente verifica-se quando o produtor recebe mais do que gasta
com fatores variáveis, representando o comprometimento direto de recursos
com a produção.

CONCEITO

Excedente do produtor

Do ponto de vista formal, o excedente
do produtor equivale à diferença entre
a receita total obtida com a produção e
os custos variáveis totais em que a firma
incorre para viabilizar a produção.

 

Equilíbrio de mercado e bem-estar

As interações entre demanda e oferta de mercado definem o equilíbrio de mercado para um bem
ou serviço particular, demonstrando que a quantidade que os consumidores desejam comprar
é exatamente igual à quantidade que os produtores desejam vender. Desse modo, a noção de
equilíbrio de mercado corresponde à coincidência de desejos entre consumidores e produtores,
evidenciando uma situação onde não há excesso ou escassez de oferta ou de demanda.

Esse equilíbrio pode ser caracterizado como estável, pois, supondo uma economia de
mercado, o mecanismo de preços leva automaticamente ao equilíbrio. No entanto, quando
ocorre excesso de oferta, os vendedores com estoques não planejados terão que diminuir
seus preços, concorrendo pelos escassos consumidores. Já quando ocorre um excesso de
demanda, os consumidores estarão dispostos a pagar mais pelos produtos escassos. Essas
ações resultam em ajustes de preços.

ATENÇÃO

A igualação entre demanda e oferta de mercado, de modo a definir o equilíbrio de mercado para um
bem ou serviço particular, representa um retrato estático do mercado em um determinado intervalo, supostamente
abstrato, de tempo. Na realidade, os mercados são dinâmicos e sofrem tanto a influência de
mudanças de parâmetros e fatores supostamente constantes, que afetam as funções (curvas) demanda e
oferta, como uma série de influências do ambiente externo, decorrentes de ações do governo, mudanças
em outros mercados, e, também, de eventos fortuitos e imprevisíveis, como uma geada, uma guerra etc.

Algumas possíveis perturbações podem ser consideradas para entender esses impactos
no equilíbrio. Uma elevação da renda real (aumento do poder aquisitivo) dos consumidores,
por exemplo. Em função do aumento de preços, gera-se um excesso de demanda
que vai progressivamente se reduzir em função do aumento de preços, até acabar, no
novo equilíbrio.

Também serve de exemplo a diminuição dos preços das matérias-primas usadas na produção
do bem. De forma análoga à situação anterior, é gerado um excesso de oferta ao preço
anterior e uma tendência à redução do preço, até que se atinja um novo ponto de equilíbrio
a preço inferior e em uma quantidade maior.

Análise de estruturas de mercado

A análise microeconômica padrão do equilíbrio de mercado é elaborada em um contexto
de forte atomização do número de produtores e consumidores, que caracteriza a denominada
situação de concorrência perfeita ou de mercados competitivos.

A estrutura de mercado caracterizada por concorrência perfeita é uma concepção ideal
(ou abstração), pois os mercados altamente concorrenciais existentes, na realidade, são
apenas aproximações desse modelo.

 

ATENÇÃO

Hipóteses básicas de um mercado que opere em regime de concorrência
perfeita:

1) existência de um grande número de compradores e vendedores, refletindo uma
situação de mercado atomizado;

2) produtos homogêneos, ou seja, substitutos perfeitos entre si, fazendo com que
não possa haver preços diferentes no mercado;

3) completa informação e conhecimento sobre o preço do produto, refletindo uma
situação de transparência do mercado;

4) livre entrada e saída de firmas no mercado, refletindo uma situação de ausência
de barreiras possibilitando uma livre mobilidade, que permite às firmas menos
eficientes saírem do mercado, e que as firmas mais eficientes se desloquem para
o mesmo;

5) racionalidade forte (ou substantiva) por parte dos agentes, que faz com que as
empresas sempre maximizem o seu lucro e os consumidores maximizem a satisfação
ou utilidade derivada do consumo de um bem.

Em condições de concorrência perfeita, os agentes operam, fundamentalmente,
como tomadores de preço (price-takers). Em outros termos,
o preço de mercado é um dado fixado para empresas e consumidores.
Uma empresa perfeitamente concorrencial vende um produto homogêneo,
e é tão pequena em relação ao seu mercado, que não pode influenciar
o preço de mercado; apenas pode aceitar este preço como um dado.

ATENÇÃO

Essas hipóteses ideais refletem um mercado sem barreiras, sem interferências e
sem poder de mercado, sendo, de certo modo, pouco realistas. Quando algumas
dessas condições não são verificadas, observamos outras estruturas de mercado
(monopólio, oligopólio, entre outras), e as decisões de empresas e consumidores
tornam-se mais complexas.

Outro aspecto importante refere-se aos níveis de eficiência e bem-estar
proporcionados por um setor que opere em condições de concorrência
perfeita. Nesse sentido, uma das principais conclusões de análise
microeconômica tradicional é que a alocação de recursos em mercados
perfeitamente concorrenciais é eficiente.

REFLEXÃO

Assume-se que qualquer sociedade ou organização alcançará uma melhor alocação (ou
o máximo de eficiência) de seus recursos, na medida em que o preço se iguale ao custo
marginal, operando, nesse caso, na fronteira das possibilidades de produção.

COMENTÁRIO

Concepção ideal

Do ponto de vista metodológico é
mais útil construir inicialmente modelos
simples, e depois incorporar novos
detalhes, do que construir diretamente
modelos com todos os detalhes da realidade,
que é muito complexa, que pode
encobrir algumas relações básicas.

 

A análise de outros tipos de estruturas de mercado, na Microeconomia
tradicional, é realizada, inicialmente, contrapondo-se à situação de
concorrência perfeita ao seu oposto, a situação de monopólio.

Uma hipótese implícita no comportamento do monopolista é que
ele não acredita que os lucros elevados que obtém no curto prazo
possam atrair concorrentes, ou que os preços elevados possam afugentar
os consumidores (na medida em que oferta um produto sem
substitutos próximos).

Contudo, isto não significa que o monopolista possa cobrar o preço
que desejar pelo seu produto, pois esse preço encontra-se limitado
pela sua demanda (que corresponde à própria demanda do mercado)
ou, mais especificamente, pela elasticidade-preço dessa demanda. Assim,
se o monopolista resolver oferecer mais, o preço cairá, e se produzir
menos, o preço subirá.

Alguns fatores podem ser destacados como razões para o surgimento
e a manutenção de monopólios. Essencialmente, trabalharemos no
quadro a seguir com três deles, e na continuação com o quarto fator:

Causa

Descrição

PATENTE

Pode conferir a uma determinada firma uma
posição monopolista, dependendo do tempo de
duração da patente no mercado em que opera.

ACESSO EXCLUSIVO
À MATÉRIA-PRIMA

O acesso exclusivo a determinada matéria-prima
essencial confere à firma uma posição de monopólio
no processo de fabricação.

EXPERIÊNCIA DA
EMPRESA

Pode levar à consolidação de posições de monopólio,
devido à dificuldade que novos produtores
teriam para convencer os consumidores a adquirir
os seus produtos

 

 

Por fim, a causa mais comum de monopólio refere-se às situações caracterizadas
como monopólio natural. Ele surge onde as economias de escala
são importantes, como, por exemplo, no caso das empresas de transmissão
de energia elétrica e, principalmente, quando essas economias se
combinam com um mercado de dimensões limitadas.

Os resultados do monopólio são preços maiores e menores quantidades
para os consumidores, o que significa que o monopólio é uma estrutura
de mercado ineficiente para a sociedade. Neste sentido, a teoria
microeconômica tradicional argumenta que a presença de uma estrutura

CONCEITO

Monopólio

O monopólio, por si só, corresponde à
situação na qual uma empresa detém
100% das vendas de um determinado
mercado. Na condição de único produtor,
o monopolista encontra-se em posição
privilegiada, pois não concorre com outras
firmas e absorve todo o mercado. O
monopólio puro também é uma situação
de mercado dificilmente encontrada no
mundo real, particularmente no caso de
mercados rentáveis operados pela iniciativa
privada. Situações de monopólio
puro tendem a ser mais comuns no setor
público, principalmente em setores de
serviços básicos de infraestrutura.

CONCEITO

Monopólio natural

Corresponde à situação na qual uma
única empresa pode produzir e ofertar
para todo o mercado, com um custo
médio inferior ao que existiria em uma
situação em que houvesse duas ou mais
empresas. Nessas condições, é mais
eficiente e melhor para a sociedade deixar
que a empresa atenda ao mercado
sozinha do que deixar outras empresas
entrarem no mercado para competir.

 

monopolista impõe custos sociais. Desse modo, supondo que um setor
operando em regime de concorrência perfeita fosse monopolizado, o efeito
direto seria a elevação do preço e a redução da produção.

REFLEXÃO

A eficiência econômica sob monopólio não é máxima, porque o monopolista não
utiliza necessariamente uma planta de produção ótima ou não produz a quantidade
ótima, dada a escala de planta existente. Por outro lado, em termos do nível de bem
-estar, é possível demonstrar que o efeito líquido do aumento do preço e da redução
da quantidade produzida, na passagem de uma situação competitiva para uma situação
de monopólio, é a redução do nível geral de excedente econômico, repartido
entre excedente do consumidor e excedente do produtor.

As duas situações distintas de estruturas de mercado discutidas até
o momento — concorrência perfeita e monopólio — apresentam-se excessivamente
estilizadas, constituindo um quadro de referência geral
que pode ser utilizado para auxiliar o estudo de estruturas de mercado
mais próximas da realidade.

O oligopólio é uma estrutura de mercado intermediária entre a concorrência
pura e o monopólio puro, caracterizado pela existência de um
reduzido número de produtores e vendedores, produzindo produtos
que são substitutos próximos entre si.

Os setores oligopolistas são bastante comuns na Economia, abrangendo
desde bens de consumo duráveis, como os eletrodomésticos em
geral e os automóveis, até bens de consumo não duráveis, estando particularmente
vinculados à marca do produto.

A interdependência estratégica entre as decisões das firmas atuantes
em oligopólio faz com que a ação de uma empresa possa produzir
efeitos diretos, e muitas vezes deletérios, sobre as empresas concorrentes,
resultando em uma possibilidade de concorrência, em algum
grau, predatória entre elas. Por outro lado, há momentos nos quais duas
empresas podem optar por não competir e, sim, cooperar, visando, por
exemplo, evitar uma guerra de preços entre elas.

Em particular, quando operam poucas empresas em um mercado,
as mesmas tendem a reconhecer a interdependência estratégica e a
buscar algum tipo de coordenação das suas decisões, visando minimizar
a competição.

ATENÇÃO

A noção de conluio em oligopólio corresponde a uma situação em que duas ou mais
empresas estabelecem em conjunto os seus preços ou as quantidades produzidas,
repartindo entre si o mercado ou tomando em conjunto outras decisões produtivas.
Quando as empresas estabelecem algum tipo de conluio, em geral, elas tendem a fixar

CONCEITO

Oligopólio

O termo oligopólio significa poucos produtores,
mas esse número pode ser variável.
O reduzido número de produtores
faz com que as ações de uma empresa
afetem diretamente as demais, caracterizando
uma situação de interdependência
estratégica entre os produtores.
Como todos os produtores são importantes,
ou possuem uma parcela de
mercado (market share) significativa, as
decisões sobre o preço e a produção de
equilíbrio são interdependentes.

COMENTÁRIO

Interdependência estratégica

A interação estratégica característica
do oligopólio inspirou o desenvolvimento
da teoria dos jogos, uma forma de
representação das decisões das firmas
na qual a estratégia de cada empresa,
e o retorno proporcionado, depende do
comportamento dos concorrentes.

 

preços idênticos elevados, aumentando os lucros e diminuindo o risco da atividade.
Em geral, as empresas de um oligopólio tendem a estabelecer conluios no intuito de
estabelecer um preço que maximize o conjunto dos seus lucros. Na literatura microeconômica
costuma-se atribuir a denominação de cartel a esse tipo de conluio.

Outros tipos de estruturas de mercado estão mais diretamente associados
à organização dos mercados de fatores. No caso do monopsônio,
a estrutura de mercado é caracterizada pela existência de muitos vendedores
e um único comprador. No caso da organização do mercado de
trabalho, por exemplo, ou os trabalhadores empregam-se no monopsônio,
ou precisam trabalhar em outra atividade.

É possível também caracterizar uma situação de oligopsônio, na
qual se observa um pequeno número de firmas compradoras de um determinado
produto, como, por exemplo, no caso da compra de autopeças
pelo setor automobilístico.

Já a situação de monopólio bilateral corresponde àquela na qual se
defrontam no mercado um único produtor (monopolista) e um único
comprador (monopsonista). Nessas condições, o monopolista deseja
vender uma dada quantidade de produto por um preço relativamente
alto, e o monopsonista pretende comprar a mesma quantidade por um
preço o mais baixo possível. Como ambas as posições são conflitantes,
somente a negociação recíproca permite a definição do preço. Desse
modo, o preço final dependerá do poder de barganha e negociação de
cada um dos oponentes.

Se uma empresa pode influenciar o preço de mercado dos bens que
produz, então a empresa é classificada como um concorrente imperfeito.
Uma característica básica da concorrência imperfeita é a presença de algum
poder de mercado por parte dos produtores, relacionado ao grau de
controle que uma única empresa ou um pequeno número de empresas
têm sobre um preço e as decisões de produção de um ramo de atividade.

No entanto, deve-se considerar, também, que o poder de mercado
pode representar um estímulo para que as grandes empresas venham a
explorar economias de escala e a intensificar a introdução de inovações
no mercado, podendo gerar ganhos de produtividade que impulsionam
o crescimento econômico no longo prazo.

REFLEXÃO

Nesse sentido, uma das principais justificativas para se aceitar algum grau de concorrência
imperfeita refere-se à constatação de que as grandes empresas são
responsáveis por grande parte dos esforços em pesquisa, desenvolvimento e inovação
em uma Economia moderna. Por outro lado, a concorrência imperfeita, em geral,
conduz a preços que estão acima dos custos marginais.

CONCEITO

Poder de mercado

Pode ser definido como o poder de uma
empresa de fixar preços, significativa e
persistentemente, acima do nível competitivo,
com efeito lucrativo. Os consumidores
compram menos produtos do
que fariam em concorrência, pelo que a
satisfação do consumidor é diminuída.

 

Além disso, às vezes, sem o incentivo da concorrência, a qualidade do
produto e serviço tende a se deteriorar e, tanto o preço elevado como a fraca
qualidade, são resultados indesejados. Cabe destacar, também, que o
exercício do poder de mercado não se limita à elevação de preços, podendo
envolver, do ponto de vista jurídico, o abuso da posição dominante da
firma no mercado (contra consumidores, empresas menores etc.), através
de condutas consideradas anticompetitivas de diversos tipos.

ATENÇÃO

Essas características estimulam o monitoramento dessas estruturas pela política governamental,
de modo a evitar possíveis efeitos danosos sobre os níveis de eficiência
e bem-estar, através da denominada política de defesa da concorrência.

Falhas de mercado

As análises da Microeconomia tradicional são elaboradas, inicialmente,
em um contexto onde não há imperfeição nos mercados, caracterizados
de forma bastante estilizada. No entanto, essas análises também avançam
no sentido da identificação de algumas falhas de mercado que requerem
qualificações daquelas análises.

Além da concorrência imperfeita, caracterizada ela própria como
falha de mercado, é possível destacar três tipos tradicionais de falhas:
externalidades, bens públicos e assimetrias de informações.

As externalidades (ou economias externas) representam influências de
fatores externos nos custos das firmas e na satisfação dos consumidores.

EXEMPLO

Por exemplo, uma empresa industrial pode emitir poluentes, causando prejuízo em
moradias da vizinhança e prejudicando a saúde das pessoas. Se a empresa não
paga por esses impactos prejudiciais, a poluição será ineficientemente elevada e o
bem-estar dos consumidores prejudicado.

Observa-se também que nem todas as externalidades são prejudiciais.
Algumas são benéficas, como as que derivam de programas educacionais,
da atividade de desenvolvimento científico ou de programas
de saúde pública. A educação se destaca como caso de geração de externalidades
positivas, pois não traz benefícios somente para aqueles indivíduos
que a recebem diretamente, mas para toda a coletividade, pois
indivíduos mais educados cuidam melhor da saúde, dirigem com mais
cuidado, são mais produtivos etc.

CONCEITO

Falhas de mercado

Essas falhas ocorrem quando o mercado,
por si mesmo, fracassa em alocar
recursos de forma eficiente e os preços
podem não estar refletindo os reais interesses
da sociedade. Quando o mercado
falha, o governo pode intervir a fim de
promover eficiência e o bem-estar geral.

 

ATENÇÃO

De uma forma geral, na presença de externalidades negativas, o governo deverá agir
de modo a provocar desestímulos às atividades causadoras de perda de bem-estar.
Já no caso de externalidades positivas, o governo deverá agir no sentido de estimular
a atividade produtora de melhorias de bem-estar.

Um segundo tipo de falha de mercado refere-se à provisão de bens
públicos. Essa provisão é considerada uma falha de mercado por envolver
uma classe de bens que não pode ser garantida pelo mercado, em
função de determinadas características, tornando sua oferta possível
somente pelo Estado. Nesse sentido, duas características dos bens públicos
podem ser destacadas:

1) o seu caráter não exclusivoIdentificado quando seu consumo não pode ser impedido, mesmo para
aqueles indivíduos que eventualmente não pagaram por ele, como no
caso da segurança, justiça e iluminação pública.
2) o seu caráter não disputável (ou não rival)
Identificado quando o seu consumo não repercute na indisponibilidade
do mesmo bem para outras pessoas, possibilitando que o mesmo seja
consumido por vários indivíduos simultaneamente, como também ocorre
nos casos da iluminação pública e da segurança.

Nessas condições, torna-se impraticável qualquer tentativa de impedir
que determinadas pessoas não usufruam o bem ou serviço em questão,
pois o custo de exclusão do não pagante seria extremamente elevado.
Por outro lado, a principal dificuldade encontrada pelo mercado na
provisão de bens públicos refere-se ao problema do free rider (carona),
identificado como um indivíduo que usufrui um bem de forma descontrolada,
mesmo não tendo pago por ele, cuja exclusão do mercado se
mostra extremamente difícil e onerosa, o que desestimula o provimento
desses bens pelo setor privado e justifica seu fornecimento pelo Estado.

Um terceiro tipo de falha de mercado refere-se a um contexto de informação
imperfeita, que se contrapõe à visão tradicional de que os compradores
e vendedores têm informação completa acerca dos bens e serviços
que compram e vendem. Em particular, a assimetria de informações constitui
em uma violação da hipótese de que todos os agentes econômicos
possuem pleno conhecimento do mercado (ou informações simétricas).

Nesses casos, uma das funções do governo é identificar aquelas áreas em
que as deficiências de informação são economicamente significativas – como
no caso de medicamentos e seguro-saúde – e encontrar soluções apropriadas.

CONCEITO

Assimetria de informações

A assimetria de informações reflete os
diferentes graus de conhecimento entre
compradores e vendedores, que pode
resultar em um maior benefício para
uma das partes envolvidas em uma transação
ou um contrato, em detrimento da
outra. Quando isso ocorre, identifica-se
a possibilidade de perdas de eficiência.

 

Da Microeconomia tradicional para a organização
industrial

A Organização Industrial estrutura-se como desdobramento da Microeconomia tradicional,
tendo como foco a análise das estruturas de mercados a partir de um forte embasamento
empírico e da tentativa de captar de forma mais fidedigna a complexidade das decisões
empresariais e as condições concretas da concorrência que vigoram em cada contexto.
Nesse sentido, ela pode ser definida como a aplicação da Microeconomia à análise das firmas,
mercados e indústrias.

ATENÇÃO

Envolve, portanto, o estudo dos fatores determinantes da formação de diferentes estruturas industriais e
de suas transformações ao longo do tempo, bem como o estudo das decisões e estratégias empresariais,
em um ambiente caracterizado por incerteza e informação imperfeita (limitada).

Um aspecto central desse tipo de abordagem refere-se à base empírica da teoria, discutindo-
se como o comportamento e a performance das firmas e mercados podem ser explicados
e previstos com base em dados observados. Em particular, as análises nesse campo
buscam aplicar a teoria microeconômica e o instrumental econométrico para analisar firmas
e mercados, assumindo que as formulações teóricas e o trabalho empírico são igualmente
importantes para gerar resultados relevantes. Observa-se também uma preocupação
particular com a forma como a intervenção governamental influencia o comportamento da
firma e a performance do mercado.

REFLEXÃO

Em termos do objeto e escopo da Organização Industrial, verifica-se uma ampliação do foco em
relação à Microeconomia tradicional, abandonando-se a ênfase em mercados de competição pura
e voltando-se para o estudo de situações onde os mercados apresentam falhas relativamente generalizadas,
em um contexto no qual os mercados oligopolizados constituem a regra e não a exceção.
Além disso, como os oligopólios variam substancialmente, seria importante considerar e descrever as
características estruturais dessas indústrias.

Nessas análises, as firmas apresentam-se heterogêneas entre si, não apenas em termos
de tamanho e rentabilidade, como também em termos de diversas outras dimensões, como
tipos de produtos, processos produtivos, formas organizacionais, marcas, localização, redes
de distribuição etc. Além disso, observa-se que determinadas firmas são capazes de sustentar
lucros acima da média da indústria, apresentando uma vantagem competitiva em relação aos
concorrentes, cuja fonte é tipicamente algum recurso ou competência difícil de imitar (tecnologias
particulares, segredos de mercados, marcas etc.).

A elaboração de análises que utilizam como referência geral o denominado modelo Estrutura-
Conduta-Desempenho é bastante comum no campo da Organização Industrial.

A estrutura de mercado depende, incialmente, das condições essenciais da demanda

 

e da oferta. No caso das condições da demanda, destacam-se a elasticidade-
preço, as elasticidades cruzadas e a tendência de crescimento
do mercado, entre outros. No caso da oferta, é possível destacar a localização
e posse de fontes de matérias-primas, as características da
tecnologia, a ação dos sindicatos, e aspectos legais, políticos e éticos
vinculados à produção.

ATENÇÃO

Na análise estrutural de um mercado, particular ênfase é atribuída ao grau de
concentração da oferta, ao grau de diferenciação do produto e à natureza das
barreiras à entrada.

No tocante à conduta dos agentes, procura-se discutir como os preços são
fixados, a estratégia de desenvolvimento do produto e marketing, o comportamento
legal das empresas e suas estratégias de crescimento, inclusive no
que se refere à expansão para novos mercados, via diversificação.

Em termos do desempenho, a preocupação recai na análise da eficiência,
equidade, criação de empregos e qualidade do produto.

Em especial, as análises desenvolvidas no campo da Organização Industrial
atribuem particular importância ao impacto da presença de barreiras
à entrada sobre as condições efetivas da concorrência em cada mercado.

ATENÇÃO

As principais fontes de barreiras à entrada, de natureza estrutural, mencionadas pela
literatura são as seguintes:

1) economias de escala de natureza técnica ou pecuniária;

2) vantagens absolutas de custos;

3) vantagens de diferenciação de produtos;

4) requisitos mínimos de capital;

5) economias de escopo.

Por outro lado, além das barreiras estruturais, relacionadas às condições
objetivas da produção em determinada indústria, comparativamente
às firmas entrantes, é possível mencionar também barreiras à entrada
de natureza estratégica, baseadas principalmente em sinalizações das
firmas estabelecidas no tocante ao seu padrão de resposta, ou reação, à
possibilidade de entrada de novas firmas no mercado em que operam.

No âmbito da Organização Industrial, a análise do processo de tomada
de decisões da firma, em mercados oligopolistas, recai, necessariamente,
na discussão do ambiente em que ela se insere, pois a sua
interpretação desse ambiente, e de seus concorrentes, condiciona o seu
processo de tomada de decisões.

COMENTÁRIO

Barreiras à entrada

Essas barreiras são relacionadas a fatores
que dificultam a entrada de novas
empresas em uma determinada indústria.
Quando essas barreiras são elevadas,
uma indústria tende a ter um número
pequeno de empresas e uma pressão
reduzida para competirem. A presença
de barreiras à entrada de concorrentes
potenciais em um mercado oligopolista
permite às empresas mais bem situadas
praticarem preços acima do nível competitivo,
embora, em geral, abaixo do nível
de maximização de monopólio.

 

ATENÇÃO

Dependendo do modelo de análise, o ambiente econômico em que ocorre o processo de tomada de
decisões pode ser considerado como uma variável endógena, na medida em que uma decisão da firma
poderá resultar em mudanças nesse ambiente em que atua.

Aspectos políticos, institucionais, legais e sociais se somam às características específicas
do mercado de forma a delimitar o ambiente concorrencial no qual a firma opera. Desse
modo, o ambiente concorrencial é constituído historicamente a partir das interações entre
agentes e da mediação de instituições, validando as decisões tomadas no presente e proporcionando
uma base para a formação de expectativa quanto ao futuro.

Nesse contexto, as decisões das empresas, ao contrário do proposto pela Microeconomia
tradicional, não são uniformes, baseando-se em uma racionalidade essencialmente
complexa, que lhes permita identificar, hierarquizar e interpretar o ambiente competitivo
em que operam, com base nas suas expectativas e considerando as incertezas inerentes ao
processo concorrencial.

REFLEXÃO

A empresa traduz esse processo na sua estratégia, procurando, a partir da mesma, se posicionar no ambiente
em que opera, visando explorar oportunidades que surgem em função de mutações econômicas. Desse
modo, a estratégia competitiva da firma pode ser definida como a sua capacidade de estabelecer formas de
ações planejadas e deliberadas a partir da compreensão do seu objetivo e de suas características, aliada à
flexibilidade para compreender o ambiente e a sua estrutura de mercado.

Nessa perspectiva, a estratégia competitiva não é um conceito estanque, alterando-se e
adaptando-se ao ambiente e variando de empresa para empresa, em função de suas capacitações
e competências. A capacitação da firma é entendida como um conceito absoluto,
estando associada às habilidades para produzir um produto. Já a noção de competência
considera as habilidades como algo relativo, sendo determinada a partir de um padrão particular
de produção de mercado.

 

A Abordagem
Macroeconômica

4

carmem aparecida feijó

 

Abordagem macroeconômica

4

Por que precisamos de uma teoria macroeconômica? A ideia intuitiva é
simples: resultados agregados, ou seja, para toda a Economia, nem sempre
correspondem àquilo que agentes econômicos individuais planejaram.

Justamente porque desapontamentos em relação ao que seria esperado
ocorrem, a teoria econômica identifica a Macroeconomia como
um campo de estudo próprio, cujo objeto é explicar como os desdobramentos
de decisões individuais no agregado resultam em flutuações do
nível de produto, preços e emprego no curto prazo.

ATENÇÃO

Entende-se que flutuações reduzem o bem-estar da população; portanto, devem ser
evitadas ou, no mínimo, suavizadas.

Neste capítulo, vamos apresentar os principais conceitos e relações
para entender o funcionamento de uma Economia de mercado no curto
prazo. Como o mecanismo de funcionamento dessas economias apresenta
imperfeições, há espaço para governos atuarem no sentido de promover
o crescimento com estabilidade de preços e com geração de emprego e
renda. No capítulo 5 serão discutidas políticas macroeconômicas.

Este capítulo está organizado em duas partes. Iniciamos com a apresentação
das principais estatísticas das contas nacionais, ou seja, os
agregados macroeconômicos, incluindo os registros da Economia nacional
com o resto do mundo. Na segunda parte tratamos teoricamente
dos principais temas da teoria macroeconômica: o que determina o nível
de produto, emprego e inflação.

O sistema de contas nacionais e os
agregados macroeconômicos — Parte 1

Para o estudo da Macroeconomia é necessário construir estatísticas
que agreguem informações sobre variáveis de interesse. Essas estatísticas
são obtidas, em grande parte, através do sistema de contabilidade
nacional (SCN).

Como uma fotografia, o SCN permite que se analise o objeto retratado
sob vários ângulos e em vários graus de detalhamento. Um ângulo de
análise bastante usual é a comparação de desempenho de grandes setores
de atividade, como agropecuária, indústria e serviços, por exemplo.

CONCEITO

Sistema de contabilidade
nacional

O SCN é, como o próprio nome sugere,
um sistema contábil que apresenta uma
espécie de fotografia bem detalhada da
Economia em um determinado período
de tempo. Esse sistema é elaborado, em
geral, pelo órgão central de estatística
dos países, no caso do Brasil, o IBGE.

 

ATENÇÃO

Em termos de detalhe, neste ângulo é possível comparar, dentro de cada setor de
atividade, ramos produtivos específicos, como a produção de algodão, o refino de
petróleo etc.

Outro ângulo de análise importante é a comparação do desempenho
de grupos de agentes econômicos denominados setores institucionais (em
contraposição a setores de atividade), para identificar qual é o que mais
contribui para o crescimento em determinado período de tempo. Em termos
de detalhe, nesse caso, é possível saber quanto as famílias recebem de
salário, quanto transferem na forma de impostos para o governo etc.

Fluxo e estoque

Os registros contábeis das contas nacionais acompanham variáveis (por
exemplo: salários pagos, receitas auferidas, riqueza, dentre inúmeras
outras) que podem ser de fluxo ou de estoque.

Para entender a distinção entre ambas basta considerar que variáveis
de estoque são aquelas referenciadas a um ponto no tempo, por
exemplo, em 31 de dezembro. Alterações em variáveis de estoque entre
um período e outro ocorrem por variáveis de fluxo.

EXEMPLO

Por exemplo, a renda que uma pessoa (economistas referem-se a agentes econômicos)
recebe, como a remuneração por seu trabalho, corresponde a um fluxo. Se
o fluxo de renda ao longo do período é maior do que os seus gastos, então é de se
esperar que o seu estoque de riqueza (patrimônio) em uma data ao final do período,
quando comparado com a data de final do período anterior, aumente.

Outro exemplo é a variação no fluxo de investimento produtivo em
um período, por uma empresa, pela compra de novas máquinas e equipamentos.
O fluxo de investimento produtivo ao longo do tempo deve implicar,
ao final de um período, uma variação no seu estoque de capital.

ATENÇÃO

A importância da distinção entre variável de fluxo e de estoque ficará clara quando
entendermos que o Produto Interno Bruto, o principal agregado macroeconômico, é
uma medida de fluxo.

COMENTÁRIO

Setores institucionais

Por exemplo, famílias, governo, empresas
e setor externo.

 

Produto Interno Bruto (PIB)

A principal medida estatística derivada do SCN é o Produto Interno Bruto
(PIB). Esta definição, mesmo resultando na forma mais completa e abrangente
de se medir o porte de uma Economia, exclui do cálculo do produto
agregado, pelo menos, os seguintes aspectos da atividade econômica:

ATENÇÃO

Aspectos da atividade econômica excluídos do cálculo

a) produção de bens e serviços para consumo próprio, pois não se atribui valor de
mercado a ela (por exemplo, se um agente faz suas refeições em casa, não entra no
cálculo do PIB; porém, se faz em um restaurante, entra);

b) transações de compra e venda envolvendo a transferência de bens produzidos em
períodos anteriores, como, por exemplo, a venda de bens de segunda mão, pois não
agregam valor no período;

c) esgotamento de recursos naturais não renováveis, que são utilizados na produção
de bens, ou seja, não se considera a produção de recursos naturais dentro da fronteira
de produção (ver Capítulo 1).

As contas nacionais também apresentam informações sobre estatísticas
econômicas a preços constantes. Isso é necessário porque, de um período
a outro, não só as quantidades produzidas variam, mas também os preços.

REFLEXÃO

Quando se faz comparação entre períodos de tempo, por exemplo, o aumento do
PIB em 2013 em relação a 2012, o interesse maior é pelo aumento em termos de
quantidades (na expressão das contas nacionais, em volume). Ou seja, o efeito da
variação dos preços deve ser descontado.

Dada a definição de PIB, devemos comparar esta medida com o conceito
de riqueza. Será que um aumento no PIB (desconsiderando a inflação) sempre
representa um avanço da Economia no sentido de torná-la mais rica?

Observe que, pela forma como o PIB é medido, nem sempre um aumento
nessa medida implica que a Economia tenha de fato progredido
no período. Para que um aumento no PIB, uma variável de fluxo, represente
um aumento de riqueza do país, sendo a riqueza uma variável de
estoque, é necessário que o estoque também aumente em relação ao período
anterior. Nem sempre isso ocorre.

EXEMPLO

Suponha que ocorra uma catástrofe natural na Economia, como um terremoto de
grandes proporções. O PIB no período deverá aumentar pelo aumento das obras de

CONCEITO

Produto Interno Bruto

O PIB de um país ou região representa
a produção de todas as unidades produtoras
da economia (empresas públicas
e privadas produtoras de bens e
prestadoras de serviços, trabalhadores
autônomos, governo etc.), em um dado
período (ano ou trimestre, em geral), a
preços de mercado.

 

reconstrução, dos serviços gerados pelo apoio e reconstrução etc. Esses registros correspondem a um
aumento no fluxo de produção de bens e serviços para atender a uma demanda atípica, gerada em consequência
do terremoto. No entanto, no caso do terremoto, o estoque de riqueza terá diminuído em relação
ao período anterior, pela destruição causada em construções já existentes, por exemplo.

Outro exemplo pode ser dado em relação ao estoque das riquezas naturais. Neste caso,
como o PIB não considera a exaustão de recursos não renováveis (por exemplo, exaustão
das minas de um recurso mineral ou a extração não manejada de madeira em florestas nativas),
a Economia de um país pode crescer porque aumenta a exploração desses recursos.
Porém, como o estoque dessa riqueza está diminuindo, o crescimento futuro da Economia
está ameaçado (ver Capítulo 6 para o conceito de desenvolvimento sustentável).

RESUMO

Em resumo, as transações econômicas, objeto de acompanhamento sistemático para a construção da contabilidade
de um país ou região (as contas nacionais), são as que têm origem na atividade de produção de
bens e serviços em um período de observação aos quais se possa atribuir um valor monetário (um preço).

Fluxo, Estoque, Produto Interno Bruto e Produto Interno Líquido

Na mensuração do Produto Interno Bruto não se considera o desgaste do estoque de
riqueza da Economia. Quando definimos a medida do PIB, incluímos todos os bens e
serviços produzidos em um período. No entanto, há bens, como as máquinas, os equipamentos,
em resumo, os chamados bens de capital, que têm uma durabilidade maior
do que o período de observação.

RESUMO

Ou seja, são utilizados no processo de produção hoje, mas foram produzidos em períodos anteriores e
continuarão sendo usados em períodos futuros.

Nesses casos, apenas uma parte desses bens é passada ao produto final, que representa
o seu desgaste pelo uso. Esse desgaste reduz o valor do bem de capital e, portanto, o estoque
de riqueza do seu proprietário.

Assim, o melhor conceito para se avaliar o desempenho da Economia em um período
é o produto agregado líquido, que leva em conta o desgaste físico do estoque de capital e,
também, a obsolescência das máquinas e equipamentos.

ATENÇÃO

Assim, os estoques de bens acumulados ao final de um determinado período só podem ser considerados
como adição de riqueza à Economia como um todo, quando tratados em termos de variações
líquidas em relação ao período anterior. Se ocorre uma variação negativa nos estoques, ou seja, o

 

que houve de desgaste foi superior à adição de novos bens de capital, é porque houve uma perda de
riqueza, diminuindo a renda da Economia no período.

As diferentes óticas de mensuração do produto da Economia

Pela enorme dificuldade em se calcular o desgaste do estoque de capital da Economia, a
medida padrão para se acompanhar a evolução da Economia (e para comparações internacionais)
é o PIB. O PIB, por ser derivado de um sistema contábil, pode ser medido por três
óticas diferentes: ótica do produto, ótica da renda e ótica da despesa.

Ótica do produto

O PIB, pela ótica do produto, mede o valor agregado, ou valor adicionado, em cada etapa do
processo de produção de bens e serviços. Pela natureza da medida, as informações extraídas
para a construção desse agregado vêm das unidades produtoras (firmas). Entretanto,
o valor adicionado não é uma medida observada diretamente da contabilidade das firmas.
Para entender a medida do valor agregado, ou adicionado, vamos dar um exemplo.

CenárioConsidere a produção de massas alimentícias por uma firma industrial. A quantidade de massa
produzida em um ano, multiplicada pelo preço de venda de mercado, fornece a medida do valor da
produção da firma no ano.
SituaçãoSuponha que a firma produziu 500 quilos de massas no ano, ao preço médio de R$2,00 o quilo.
Logo, o valor da produção da firma no ano será de (500*R$2,00) R$1.000,00.
ProblemaComo medir a contribuição da firma para o PIB do país? Se considerarmos a medida de valor da
produção (R$1.000,00), ao somarmos os resultados do valor de produção de todas as firmas,
estaremos incorrendo em dupla contagem. A razão é simples: na produção de bens são utilizados
insumos, ou seja, bens que são produzidos por outras firmas para serem processados na fabrica-
ção de outros bens.
Explicação do problemaPor exemplo, para produzir massas alimentícias, utiliza-se farinha de trigo, dentre outros insumos
que devem ser adquiridos de outra firma. Assim, se simplesmente somarmos o valor de produção de
todas as firmas na economia (no exemplo, produtora de massas e produtora de farinha de trigo) para
se estimar o quanto foi produzido em um período, a produção total do país estará superestimada.

Para chegarmos à real contribuição de cada firma no PIB da Economia, devemos descontar
do valor da produção de cada firma o que foi adquirido de outras firmas, ou seja, o
consumo intermediário. Dessa forma, estaremos considerando aquilo que cada firma agrega
de valor durante o seu processo de produção.

 

EXEMPLO

Prosseguindo no exemplo, suponha que a firma compre o equivalente a R$300,00 de farinha de trigo
para produzir os 500 quilos de massa. Logo, o valor adicionado (ou agregado) da firma produtora de
massas alimentícias no ano terá sido de R$700,00 (R$1000,00 menos R$300,00). Essa é a sua
contribuição ao PIB, e não R$1.000,00.

Chegamos então a uma conclusão importante: a medida relevante para avaliar o esforço
produtivo de um país em um período é a soma do valor adicionado ou valor agregado das
firmas, ou seja, a soma do que cada firma agrega de valor no seu processo de produção. Assim,
para a Economia como um todo, a soma dos valores adicionados de cada firma totaliza
o agregado PIB pela ótica do produto.

RESUMO

ÓTICA DO PRODUTOVALOR DA PRODUÇÃOVALOR DOS CONSUMOSINTERMEDIÁRIOS

Ótica da renda

Como toda produção emprega recursos produtivos (simplificadamente, podemos citar capital
e trabalho), esses recursos devem ser remunerados. Se somarmos todos os pagamentos
efetuados a título de remuneração dos fatores de produção na Economia, chegamos também
a uma medida do esforço de produção da Economia em um período pela ótica da renda.

RESUMO

Ou seja, a medida do PIB, pela ótica da renda, consiste em somar todos os pagamentos efetuados, como
lucro (remuneração ao capital de risco), juros (remuneração ao capital de empréstimo), aluguéis (remuneração
pela propriedade) e salários (remuneração pelo trabalho).

Dito de outra forma, por esta ótica é possível ver como se dá a repartição do produto em
um período, entre os participantes do processo de produção. Por exemplo, qual a parcela
apropriada pelos trabalhadores com salários, pelos empresários com lucros etc.

RESUMO

ÓTICA DA RENDASOMA DAS REMUNERAÇÕES DOS FATORES DE PRODUÇÃO

Ótica da despesa

Por fim, a mensuração do PIB pela ótica da despesa considera que, em contas nacionais,

 

toda produção de bens e serviços é destinada para gasto corrente (consumo)
ou gasto em formação de capital (investimento).

A medida de PIB pode ser obtida, então, pela soma total dos gastos dos
agentes econômicos em consumo de bens e serviços e em investimento
para ampliação de capacidade produtiva ou manutenção do equipamento.

RESUMO

ÓTICA DA DESPESA SOMA DOS GASTOS COM BENS DECONSUMO FINAL E BENS DE INVESTIMENTO EM CAPITAL

Com base nesta primeira apresentação, podemos concluir que, em
contas nacionais:

RESUMO

PRODUTORENDADESPESA

A rigor, para que isso seja observado na prática, é necessário que a mensuração
pelas 3 óticas seja feita aos mesmos preços. Considere a ótica da
renda, que é a soma das remunerações. Sobre estas incidem impostos diferentes
dos que incidem sobre os bens e serviços transacionados no mercado.
Assim, é necessário que ajustes em termos dos impostos sejam considerados
para se obter o mesmo valor do PIB por cada uma das 3 óticas.

PIB e PIB per capita

Uma das formas de se inferir sobre o padrão de vida da população de
um país é por meio do PIB per capita, obtido quando dividido o PIB
do ano pela população residente no mesmo período (considera-se a
população em 1 de julho).

Apesar de bastante divulgada, essa medida pode não ser considerada
uma representação satisfatória
do nível de qualidade
de vida, pois o conceito
de PIB, sendo uma medida
de valor agregado que resulta
da atividade produtiva,
desconsidera, por exemplo,
o tempo gasto com o lazer. Assim, se as horas de lazer se reduzem, o
PIB pode aumentar, mas a qualidade de vida não.

CONCEITO

PIB per capita

É uma medida de renda média da população,
bastante utilizada em comparações
entre países e regiões para se
classificar as economias segundo o
grau de desenvolvimento. Também é
muito utilizada para avaliar o progresso
dos países ao longo do tempo.

Será que um aumento no
PIB (desconsiderando a
inflação) implica que os
habitantes da Economia
estão mais ricos?

 

EXEMPLO

Outra razão está ligada à medida estatística que o PIB per capita representa. O PIB per capita mede a renda
média da população. Por exemplo, suponha a população de um país composta por uma pessoa ganhando
R$2000,00 por ano, e nove ganhando R$100,00 por ano, que corresponde ao salário mínimo do país.
Observe que a renda média neste caso é de R$290,00 (R$2000,00+9*R$900,00)/10) e está bem acima
do salário mínimo, portanto, pode ser considerada elevada. Porém, claramente, a renda média está longe
de revelar alguma coisa sobre as condições de vida da maioria da população dessa Economia hipotética.

A Economia brasileira apresenta uma distribuição de renda muito concentrada, e, portanto,
o PIB per capita está longe de representar um padrão de vida típico do brasileiro. Isto
quer dizer, por exemplo, que países com rendas per capita piores do que a do Brasil podem
oferecer um padrão de vida melhor para sua população, se a sua distribuição de renda for
menos desigual. Esse tema será retomado no capítulo 6, com a apresentação do índice de
Gini e o índice de desenvolvimento humano (IDH).

REFLEXÃO

Mesmo com as limitações conceituais apontadas anteriormente, a taxa de crescimento do PIB per capita
é uma medida importante para qualificar o crescimento do PIB ao longo do tempo.

Observe na Tabela a seguir que a taxa de crescimento do PIB pode ser positiva, mas a
taxa de crescimento do PIB per capita, negativa, se o crescimento do produto da Economia
for inferior ao crescimento da população no ano.

Brasil: Taxa de crescimento real do PIB, população residente e PIB per capita %

PIB

Pop. Residente

PIB per capita

2001

1,3

1,5

-0,2

2002

2,7

1,5

1,2

2003

1,1

1,5

-0,3

2004

5,7

1,5

4,2

2005

2,9

1,4

1,5

2006

4,0

1,2

2,7

2007

6,1

1,1

4,9

2008

5,2

1,1

4,1

2009

(-)0,3

1,0

-1,3

 

 

Fonte: IBGE, Contas Nacionais, 2011.

Essa situação indica, possivelmente, que a taxa de desemprego aumentou ao longo
do período. Assim, sucessivos períodos de baixo crescimento do PIB podem significar
um empobrecimento da população de um país ou região. Observe também que o PIB de
um país pode cair e o PIB per capita aumentar, se a população estiver decrescendo mais
rápido do que a queda no PIB.

 

Renda Nacional Bruta e demais agregados

O PIB, como vimos, mede o esforço de produção em um país em determinado
período de tempo. No entanto, a remuneração aos fatores de
produção correspondente ao esforço de produção (medida do PIB pela
ótica da renda) pode não ficar no país, se a propriedade dos recursos
produtivos for de não residentes.

Além do PIB e do PIB per capita, outro agregado de grande interesse é
a Renda Nacional Bruta (RNB). Assim, o PIB de um país considera toda
a produção em um território, independente da origem do recurso, e a
RNB considera a remuneração à produção apenas aos residentes. Dessa
forma, para distinguir o conceito de PIB do de RNB, é necessário introduzir
a noção de residência.

EXEMPLO

Por exemplo, suponha uma firma de engenharia brasileira que realize uma obra em
país estrangeiro. Os pagamentos de rendas a brasileiros (salários, lucros) dessa firma
no exterior são contabilizados na conta da RNB do Brasil, porém não no PIB do Brasil.

A regra para do PIB se chegar à RNB de um país é, primeiro, calcular
a diferença, ou seja, o saldo entre os pagamentos de rendas recebidas do
exterior e o pagamento das rendas enviadas ao exterior. Em seguida, proceder
ao ajuste da seguinte forma: se o saldo for positivo, ou seja, se o
país recebe mais recursos como renda do que paga, então se soma ao
PIB para se obter a RNB; se o saldo for negativo, ou seja, o país envia ao
exterior mais recursos como renda do que recebe, então subtrai-se do
PIB, e, neste caso, a RNB será menor do que o PIB.

REFLEXÃO

Esse é o caso do Brasil em quase toda sua história, assim como da larga maioria dos
países em desenvolvimento. Economias desenvolvidas, como a americana, ao contrário,
apresentam RNB maior do que o PIB, pois o saldo das rendas líquidas (rendas
recebidas menos rendas enviadas) é positivo.

O agregado da renda nacional deve sofrer mais um ajuste para se deduzir
a Renda Disponível Bruta (RDB). Assim, depois de feito o ajuste
no PIB para se obter a RNB, é necessário ainda considerar recebimentos
e pagamentos realizados a título de transferências unilaterais correntes,
entre residentes e não residentes, para se chegar à RDB.

São consideradas transferências correntes toda movimentação de
recursos entre pessoas (agentes econômicos) e países, sem contrapartida
com o processo de produção (por exemplo, remessa e recebimento de
recursos entre governos e residentes, remessa de imigrantes para suas

CONCEITO

Residência

Em linhas muito gerais, são considerados
residentes aqueles que têm seu
foco de interesse econômico em um
país ou região. Na prática, isto implica
que a produção de estrangeiros no
Brasil conta no PIB, mas não na RNB.
A produção de brasileiros no exterior
conta como PIB do país estrangeiro e
na Renda Nacional do Brasil.

CONCEITO

Renda Disponível Bruta

É a RDB que informa quanto os residentes
do país ou região, de fato, dispõem
para gastar em consumo final (conceito
importante para o modelo teórico macroeconômico,
a ser visto mais adiante),
no final de um período.

 

famílias no país, doações, heranças etc.). Países ou regiões muito pobres
recebem muitas transferências, sendo, muitas vezes, esse fluxo monetário
que movimenta a Economia local.

EXEMPLO

Para dar um exemplo em relação ao efeito de transferências de renda em uma
região, considere um município brasileiro muito pobre cuja maioria da população
receba transferência de renda do governo pelo programa Bolsa Família. Muito provavelmente,
os gastos de consumo das famílias nesse município, ou seja, o que movimenta
a atividade de comércio, serão realizados em maior escala com os recursos
do Bolsa Família, e não com recursos gerados pela atividade produtiva da região.

Para dar outro exemplo, considere uma Economia ou região muito pobre,
onde os jovens se achem sem perspectivas e decidam buscar melhores
oportunidades em outro lugar, ou seja, que emigrem. Suponha ainda
que, uma vez estabelecidos em regiões mais ricas, comecem a ajudar suas
famílias que ficaram na região de origem (transferências entre pessoas). Da
mesma forma que no exemplo anterior, as ajudas financeiras enviadas correspondem
a transferências de renda, que irão influir no nível de consumo
das famílias recebedoras e nas despesas de consumo efetuadas na região.

Conhecidos os principais agregados de produto e renda, o SCN permite
calcular a Poupança Bruta da Economia no período. A Poupança
Bruta é obtida pela diferença entre a RDB e o Consumo Final. O resultado
dessa sequência de agregados, considerando a Economia de um país,
é chegar na medida da poupança como um resíduo, que é o que sobra
da renda disponível depois de descontados os gastos com o consumo.

RESUMO

Para fixar os conceitos vistos até agora, podemos escrever considerando a Economia
de um país:

PIBValor da produçãoValor dos consumosintermediáriosRNBSoma das remunerações dos
fatores de produção pagas a residentesRDB menos Consumo (Famílias e Administrações Públicas)
RDBRNBTransferênciascorrentes
Recursos disponíveis
para consumo final
(Famílias e
Administrações Públicas)
POUPANÇABRUTA

CONCEITO

Poupança Bruta

O conceito de Poupança Bruta revela
o quanto da renda gerada pelo esforço
produtivo da economia em um dado
período não foi consumido imediatamente,
ou seja, não foi destinado a
gastos correntes.

 

A Poupança Bruta deve, por fim, ser comparada com o que foi gasto
para ampliar a capacidade de produção no futuro próximo, ou seja, com
a Formação Bruta de Capital (FBC).

Caso a Poupança Bruta seja maior do que a FBC, diz-se que a Economia
é credora líquida em relação ao resto do mundo, pois gerou um
excedente que pode emprestar a outras economias. Nesse caso, a Economia
apresenta uma Capacidade Líquida de Financiamento. Caso contrário,
Poupança Bruta menor que a FBC, a Economia deve absorver
poupança do resto do mundo, isto é, poupança externa, e diz-se que tem
uma Necessidade Líquida de Financiamento, estando, portanto, em uma
posição de devedora líquida em relação ao resto do mundo.

RESUMO

Assim, podemos escrever:

FBCCAPACIDADE DEFINANCIAMENTO LÍQUIDO
FBCNECESSIDADE DEFINANCIAMENTO LÍQUIDO
POUPANÇABRUTAPOUPANÇABRUTA

A igualdade contábil entre poupança (interna + externa) e investimento
(FBC), considerando a origem da poupança, é especialmente importante
para a análise macroeconômica, pois revela a posição da Economia
em relação às demais do resto do mundo.

Economias que sistematicamente apresentam necessidade de absorver
poupança externa (Necessidade de Financiamento Líquido), em
algum momento terão de empreender esforços adicionais no sentido
de gerar recursos na moeda do credor internacional para saldar seus
compromissos. Em momentos de estabilidade no cenário financeiro internacional,
Economias com bom potencial de crescimento não devem
enfrentar dificuldades para honrar seus compromissos externos.

Em geral, durante crises ou turbulências, o país deve recorrer a organismos
financeiros internacionais. O mais importante deles é o Fundo Monetário
Internacional (FMI), que estabelece um programa de provimento de
recursos financeiros para a restauração do equilíbrio da Economia, mas
mediante a submissão do país a ajustes macroeconômicos rigorosos.

REFLEXÃO

Vale lembrar que países da América Latina, o Brasil inclusive, viveram, na década de
1980, experiências de elevado constrangimento externo que limitaram o seu crescimento,
e geraram profundos desequilíbrios manifestados em descontrole inflacionário.

COMENTÁRIO

Formação Bruta de Capital (FBC)

A FBC é uma medida que expressa o
montante de investimento em capital
físico na economia. O montante da poupança
pode se situar acima ou abaixo
do montante da FBC.

COMENTÁRIO

Momentos de estabilidade

No entanto, em momentos de turbulência
nos mercados financeiros internacionais
(como na crise financeira internacional
de 2008), ou em momentos
de instabilidade interna, a obtenção de
financiamento externo pode vir condicionada
a exigências que implicam desaceleração
no crescimento e aumento
do desemprego.

 

Medindo as transações com o resto do mundo: Balanço de Pagamentos

Da mesma forma que as contas nacionais descrevem a Economia em determinado período,
os registros do Balanço de Pagamentos (BP) também permitem que se analise a dinâmica
da Economia. Isto porque, como já dissemos, a forma como a Economia se relaciona com
as demais Economias revela como se insere na Economia mundial.

Economias muito dependentes de poucos produtos de exportação e de produtos primários,
por exemplo, são sujeitas a apresentar maior variação no crescimento do seu PIB,
pois o desempenho de sua Economia irá depender da demanda externa por seus produtos,
variável que foge ao seu controle.

Economias mais diversificadas e especializadas na exportação de bens de alto valor
agregado, exportadoras de tecnologia, são Economias que apresentam grau de desenvolvimento
mais elevado, com uma população com melhor grau de escolaridade e, provavelmente,
tendem a apresentar trajetória de crescimento mais estável, pois os ganhos gerados
pelo setor exportador tendem a ser maiores e menos instáveis.

RESUMO

Em poucas palavras, Economias ditas em desenvolvimento apresentam tendência a absorver poupança
externa, ou seja, uma contribuição do resto do mundo ao seu crescimento.

As contas do Balanço de Pagamentos são divididas em duas partes principais: Balanço
de Transações Correntes e Conta Capital e Financeira, que são subdivididas em várias
contas. Cada parte do Balanço de Pagamentos, assim como cada conta, pode apresentar
resultado positivo ou negativo. O importante é que, a cada período, no cômputo
geral dos registros do Balanço de Pagamentos, o país tenha gerado recursos suficientes
em moeda estrangeira para pagar seus próprios compromissos, e se gerou recursos
além do necessário para suas necessidades, pode emprestar a devedores internacionais
e/ou aumentar suas reservas internacionais.

ATENÇÃO

A primeira parte do BP é o Balanço em Transações Correntes, que apresenta todos os registros (fluxos)
que afetam diretamente a geração do produto (PIB) e da renda nacional (RNB) no período. Associado
como um fenômeno macroeconômico, o Balanço em Transações Correntes guarda uma relação estreita
com os grandes agregados das contas nacionais.

No Balanço de Transações Correntes destacamos três contas principais. As primeiras
duas são: Balanço Comercial – o registro de exportações (vendas externas) e importações
(compras externas) de bens e serviços; o Balanço de Rendas – corresponde ao
fluxo de pagamento de rendas de propriedade entre residentes (entradas de recursos,
ou seja, as rendas recebidas do exterior) e não residentes (saída de recursos, ou seja, as
rendas enviadas ao exterior).

 

EXEMPLO

Lembrando o exemplo citado previamente, se uma firma de engenharia brasileira
presta serviço em outro país, o lucro auferido no empreendimento ao ser repatriado
é lançado como uma entrada no Balanço de Rendas. Da mesma forma,
se uma empresa estrangeira envia para sua matriz o lucro auferido em território
nacional, é registrado como uma saída de recursos. Tradicionalmente, esta conta
é negativa no BP do Brasil.

Por fim, há a conta de Transferências Unilaterais Correntes, onde são
registradas todas as entradas e saídas de recursos sem contrapartida em
termos de produção no país.

EXEMPLO

Exemplo: remessa de imigrantes para suas famílias no país, ajudas governamentais
ou privadas na forma de doações a países que enfrentam uma catástrofe natural,
doações de instituições privadas e governos para causas humanitárias etc.

A Conta Capital e Financeira é subdividida em duas partes: a Conta
Capital, onde são registradas Transferências Unilaterais de Capital
(observe que se separam transferências correntes, registradas no Balanço
de Transações Correntes, de transferências de capital, ou seja,
de ativos de capital) e a Conta Financeira, que registra todo o fluxo
financeiro entre os países.

Na Conta Financeira estão os registros de Investimento Direto
(capital de risco), como a abertura de filiais de empresas estrangeiras,
por exemplo, ou aquisição de firmas já existentes, tanto por residentes
(saída de recursos) como por não residentes (entrada de recursos).
Destacam-se nesta rubrica os investimentos em carteira, que
são investimentos em ações e outros títulos de renda fixa ou variável,
por exemplo.

Do conjunto de recursos financeiros registrados em um período
no BP, devem-se distinguir aqueles que são caracterizados como capitais
autônomos, ou voluntários, isto é, entram no país, pois acham
o investimento atrativo financeiramente; os capitais compensatórios,
ou de regularização, sendo estes últimos constituídos pelas transações
conduzidas pelos governos nacionais, com a finalidade de fazer
o acerto final do BP.

Na Tabela a seguir estão casos hipotéticos e simplificados para fixar
os conceitos. O objetivo é retratar situações diferentes das contas externas
que devem levar a medidas de política econômica diferentes.

COMENTÁRIO

Investimento direto

Essa modalidade de investimento implica
uma demonstração de interesse
por parte do investidor em permanecer
no país por um período considerado
longo. As demais rubricas de investimento
registram o movimento financeiro
de capitais de curto prazo, ou seja,
que não caracterizam um interesse de
longo prazo entre o investidor e o tipo
de investimento realizado (ativo).

COMENTÁRIO

Capitais autônomos

Os capitais autônomos são também
identificados com investimento de portfólio,
ou seja, o investimento em títulos
e ações negociados no país. O fluxo
desses capitais no curto prazo, quando
muito acentuado, pode fazer variar a
taxa de câmbio dos países (ver capítulo
5 sobre a taxa de câmbio).

 

Principais contas do Balanço de Pagamentos (em US$ bilhões, em um período)

Caso I

Caso II

Caso III

Balanço Comercial (BC= X-M)

30

5

-10

• Exportações de Bens e Serviços (X)

150

60

50

• Importações de Bens e Serviços (M)

(-)120

(-)55

(-)60

Transferências Unilaterais Correntes (TUR)

(-)10

1

2

A. Balanço de Transações Correntes (BC + TUR)

20

6

-8

B. Conta Capital e Conta Financeira (TUC+ID+IC)

10

50

6

• Transferências Unilaterais de Capitais (TUC)

0

1

0

• Investimento Direto (ID)

(-)25

25

2

• Investimentos em carteira e demais (IC)

35

24

4

Saldo do Balanço de Pagamentos (A+B)

30

56

(-)2

 

 

O caso hipotético I apresenta uma Economia na qual o Balanço de Transações Correntes é
positivo em U$$20 bilhões. Esse resultado é obtido pelo saldo positivo do Balanço Comercial
(US$30 bilhões) e o saldo das Transferências Unilaterais Correntes negativo (US$10 bilhões).

Nesse caso, o país transfere mais recursos para o exterior (realizou muitas doações no
período, por exemplo) do que recebeu. A segunda parte do BP mostra que o país atrai capital
de curto prazo (US$35 bilhões) e é um investidor líquido no exterior (saldo negativo de
US$25 bilhões). O resultado do BP, última linha, é positivo em US$30 bilhões, sinalizando
que o país acumulou reservas internacionais neste montante no período.

REFLEXÃO

Os registros do caso I apontam para uma Economia com uma posição folgada em termos das contas
externas, pois é capaz de gerar um saldo comercial expressivo e ainda atrair capital internacional. O saldo
positivo em transações correntes implica que esta Economia hipotética é uma credora internacional, ou
seja, é emprestadora de recursos a outras Economias.

O caso hipotético II apresenta uma Economia com saldo, em transações correntes, relativamente
baixo, comparado ao caso I (US$6 bilhões), porém a conta Capital e Financeira apresenta
expressivo saldo positivo (US$50 bilhões), pois a Economia atrai tanto capital de risco (Investimento
Direto no montante de US$25 bilhões) como capital de curto prazo (US$24 bilhões).

REFLEXÃO

Essa Economia exibe um resultado positivo de US$56 bilhões, aumentando o volume de reservas internacionais.
Esta Economia é um caso intermediário em relação ao primeiro, pois acumula reservas internacionais,
mas às custas do capital de portfólio, isto é, de curto prazo, que pode deixar o país rapidamente,
podendo reverter a posição relativamente confortável do país.

 

O caso hipotético III é o de uma Economia que no período registra saldo comercial negativo
(- US$10 bilhões) e, mesmo com o maior saldo em termos de Transferências Unilaterais
Correntes em relação aos outros dois casos, tem um saldo negativo em transações
correntes (- US$8 bilhões).

REFLEXÃO

Nesse caso, a Economia deve financiar esse saldo com os movimentos financeiros da Conta Capital e Financeira.
Em comparação com o caso II, esta Economia atrai menos capital, relativamente, e assim, o saldo
do BP é negativo. Nesta situação, em que a saída de recursos externos no período foi superior à entrada,
a Economia deve desacumular reservas internacionais.

Tendo visto os dois principais sistemas contábeis de registro de estatísticas econômicas,
nosso próximo passo é introduzir conceitos teóricos de Macroeconomia que permitam
interpretar as informações estatísticas disponíveis.

Os determinantes do nível de produto e emprego
na Economia: conceitos de teoria macroeconômica
— Parte 2

A contabilidade nacional, assim como as demais estatísticas econômicas, oferece o insumo
principal para os especialistas analisarem uma Economia. Porém as estatísticas agregadas
não explicam como a Economia se move no curto prazo, apenas informam sobre o desempenho
dos agregados. É necessário recorrer à teoria macroeconômica para entendermos
como variam os agregados macroeconômicos.

A primeira pergunta que fazemos é: o que determina o nível de produto (PIB) e sua variação
no curto prazo (a taxa de crescimento do PIB, ou seja, flutuações de curto prazo)? Ou seja,
por que a Economia apresenta períodos em que cresce mais e outros em que cresce menos?
O que o crescimento do produto tem a ver com o crescimento do emprego? E da inflação?

Crescimento no curto prazo: flutuações do PIB

A Macroeconomia surge, nos anos 1930, como um ramo da Economia após a obra seminal
do economista inglês John Maynard Keynes, Teoria Geral do Emprego do Juro e da Moeda,
como visto no capítulo 2. Nessa obra, Keynes apresenta o argumento de que Economias de
mercado não operam necessariamente no seu nível máximo todo o tempo, ou seja, podem
funcionar durante largos períodos de tempo em uma posição na qual recursos produtivos
são deixados ociosos, dentre eles, a mão de obra.

 

REFLEXÃO

A partir desta constatação, Keynes observou que o comportamento da Economia, para ser bem entendido,
necessitava de um instrumental analítico distinto da teoria microeconômica, o que ele se propôs a desenvolver.

Quando Keynes escreveu sua obra maior, o desemprego nas Economias desenvolvidas
era elevado e persistente, o que colocava um problema social grave, pois recursos produtivos
ociosos sinalizam perda de bem-estar para a população. Por que um trabalhador, disposto
a trabalhar por qualquer remuneração, não encontra ocupação?

REFLEXÃO

A explicação oferecida por Keynes para a persistência do desemprego, e que responde a pergunta inicial, é
que o produto gerado em uma Economia de mercado em um período de tempo é determinado pelos gastos
que os agentes econômicos estão dispostos a fazer.

Quando empresas contratam, compram insumos, contraem empréstimos junto ao banco
para capital giro, em suma, iniciam o processo de produção, o fazem com uma expectativa
de atender a uma demanda e de auferir um lucro monetário. Em geral, as empresas acertam
em suas expectativas, mas podem também se desapontar, pois o resultado esperado depende
de muitas variáveis, que fogem ao controle de uma empresa ou agente individual.

ATENÇÃO

São os desencontros entre o que é esperado por agentes individuais e o que é realizado no agregado que
levam a flutuações no curto prazo na Economia.

Assim, Keynes colocou o foco da explicação da determinação do montante do PIB e de
sua variação no curto prazo na demanda agregada. A demanda agregada da Economia corresponde
ao PIB medido pela ótica da despesa. Como vimos, pela ótica de despesa em contas
nacionais, podemos escrever:

PIBGASTOS CORRENTES (DAS FAMÍLIAS E DAS ADMINISTRAÇÕES PÚBLICAS COM CUSTEIO)
INVESTIMENTO (FORMAÇÃO BRUTA DE CAPITAL PELAS EMPRESAS PÚBLICAS E PRIVADAS E ADMINISTRAÇÕES PÚBLICAS)
VENDAS PARA O EXTERIOR DE BENS E SERVIÇOS (EXPORTAÇÃO) MENOS AS COMPRAS DO EXTERIOR DE BENS E SERVIÇOS (IMPORTAÇÃO).

Aceitando-se essa explicação sobre a determinação do PIB de uma Economia, a próxima
questão de interesse é conhecer como se comportam os componentes da demanda agregada.

 

REFLEXÃO

Lembre que este é o objeto de estudo da Macroeconomia — explicar flutuações de
curto prazo — e, ao se observar que nem sempre a Economia é capaz de ocupar seus
recursos produtivos permanentemente, cabe aos gestores de política econômica intervir
para promover ajustes que levem a um crescimento forte e sustentável, com
vistas a aumentar o bem-estar da população.

Vamos observar o quadro a seguir, que apresenta a distribuição em
percentual dos dados da demanda agregada, segundo as contas nacionais
do Brasil para três anos. As informações exibem o quanto cada
componente da demanda agregada contribuiu para o PIB.

Brasil: Participação percentual dos componentes da demanda agregada no PIB
(2010-2012)

Anos

2010

2011

2013

Consumo das Famílias

59.6

60.3

62.6

Consumo das Administrações
Públicas

21.1

20.7

21.3

Formação Bruta de Capital

20.2

19.7

17.5

Exportações Líquidas (Exportações
menos Importações

-1.0

-0.7

-1.4

PIB

100.0

100.0

100.0

 

 

Fonte: IBGE, Contas Trimestrais.

O Consumo das Famílias é sempre a parcela de maior peso da demanda
agregada dos países. No caso do Brasil, no período observado,
esteve em torno de 60%. As exportações líquidas no período (penúltima
linha) tiveram uma contribuição negativa na formação da demanda
agregada, pois as importações foram maiores do que as exportações.

O peso desta parcela no PIB brasileiro não é muito alto (importações).
O Brasil, com sua extensão continental, tem no mercado interno,
em contraposição ao mercado externo, sua principal fonte de demanda
agregada. Isto não quer dizer que a demanda externa não seja importante,
pois como vimos na seção sobre Balanço de Pagamentos, é do setor
externo que o país obtém recursos em moeda estrangeira para honrar
compromissos em moeda externa. Porém, no caso do Brasil, não é a demanda
externa que puxa o crescimento na maior parte do tempo.

O percentual das Administrações Públicas permaneceu relativamente
estável, em torno de 20% no período. Por fim, a Formação Bruta de
Capital, que representa o investimento em acumulação de capital na
Economia, na média, ficou abaixo de 20%.

Mesmo o Consumo das Famílias sendo o componente de maior
peso, não é ele quem mais explica as flutuações do PIB no curto prazo.

COMENTÁRIO

Consumo das Famílias

Em teoria, o consumo das famílias depende,
dentre outros fatores, da renda
disponível. Lembre-se que já vimos que,
pelas contas nacionais, a Poupança Bruta
é obtida subtraindo-se do agregado
RDB os gastos com consumo corrente
(Famílias e Administrações Públicas).

COMENTÁRIO

Administrações Públicas

O Consumo das Administrações Públicas
corresponde à produção de bens e
serviços que são disponibilizados para
a população pelo governo, como serviços
de educação, saúde, segurança
pública, defesa, justiça etc. Para dar
conta destas despesas, o governo arrecada
impostos. Os impostos reduzem
a renda disponível das famílias e empresas
para gasto.

 

A variável chave neste caso é a Formação Bruta de Capital, associada ao investimento em
estoque de capital.

ATENÇÃO

Esse componente da demanda agregada corresponde a um tipo de gasto que é mais sensível às expectativas
dos agentes (firmas, bancos e instituições financeiras em geral, e o público), pois pode ser adiado ou
antecipado, de acordo com as perspectivas percebidas sobre o futuro desempenho da Economia. Esta característica
o difere dos gastos de consumo, por exemplo, que podem flutuar, mas tendem a ser mais rígidos.

O gráfico a seguir mostra como as variações do PIB de um ano para outro acompanham
de perto as variações na Formação Bruta de Capital. Mais do que isso, observe que
quando a evolução da Formação Bruta de Capital é positiva (acima da linha do zero), a
variação do PIB é sempre positiva. O inverso nem sempre é verdadeiro, pois os outros
componentes podem segurar a variação positiva do PIB, quando a Formação Bruta de
Capital fica abaixo da linha do zero.

Brasil: Taxa de variação do PIB e da Formação Bruta de Capital (FBC) – 1971-2012PIBFBC

Fonte: IBGE, Contas Nacionais, Apud, Ipeadata.

REFLEXÃO

Na década de 1970, o PIB brasileiro cresceu muito, impulsionado pelo investimento. Compare com os
anos 2000, quando a variação da Formação Bruta de Capital apresenta resultados negativos (abaixo
de zero) em muitos anos, e a variação do PIB registra percentuais de crescimento mais baixos, comparativamente
aos anos 1970.

Assim, as informações anteriores oferecem uma pista para entender o comportamento
dos componentes da demanda agregada: os gastos em consumo, apesar de serem os de
maior peso, não são os que tendem a apresentar maior variação. O investimento, medido
pela Formação Bruta de Capital, por sua vez, confere dinamismo ao PIB no curto prazo.

RESUMO

Conclusão: como o investimento é sensível em relação às expectativas sobre oportunidades de lucro dos
investidores, se as perspectivas de crescimento da Economia são percebidas como boas, então as empresas
investem mais, os bancos disponibilizam mais crédito, o país atrai mais capital externo para investimento,
e mais emprego é criado, gerando o pagamento de mais salários, o que impacta, consequentemente

 

em mais gastos de consumo. Enquanto a Economia mantiver o clima de otimismo, a
expansão do PIB se sucede a cada período. É o investimento que dá o impulso para
o crescimento, e o consumo propaga o impulso inicial pela Economia como um todo.

É possível que, em determinado momento, uma Economia com um
baixo crescimento e ociosidade de recursos produtivos venha a ter um impulso
inicial para crescer, provocado pelo aumento do consumo (por exemplo,
uma política de crédito ao consumo a taxas de juros mais baixas, e/ou
um aumento do salário mínimo mais generoso) acima do investimento.

Contudo, para a dinâmica do crescimento ser sustentável ao longo
do tempo, em algum momento no futuro próximo, a formação de capital
tem de se expandir mais para atender à demanda maior por consumo.

EXEMPLO

Veja o exemplo da Economia brasileira depois da crise financeira internacional de
2008, quando em 2009, o PIB registrou queda de (-) 0,3% e em 2010, por força de
fortes incentivos do governo para a população gastar e o próprio governo expandir
seus gastos, a Economia cresceu 7,5%. No entanto, nos anos seguintes, como o
investimento não respondeu positivamente, as taxas de crescimento do PIB foram
pífias (2,7% em 2011; 0,9% em 2012%; 2,3% em 2013).

Observe que as exportações também têm a função de indutora do
crescimento. Isso porque a demanda do resto do mundo por bens e
serviços produzidos por um país também cria oportunidades novas
de expansão dos negócios, o que abre a perspectiva de criação de
novos empregos, geração de mais renda, e consequentemente mais
consumo, e assim por diante.

Resta comentar sobre os gastos de consumo das administrações
públicas. Os bens e serviços ofertados pelo governo, por definição, não
são produzidos com o objetivo de auferir lucro. Assim, bens e serviços
públicos não são vendidos no mercado. Para cobrir as despesas com a
produção dos bens e serviços públicos, o governo arrecada impostos da
população. Dentro da lógica da demanda agregada, a atuação do governo
implica dois movimentos em sentidos contrários.

REFLEXÃO

Quanto mais o governo gastar, ou seja, empregar trabalhadores, comprar insumos,
contratar serviços de terceiros, mais recursos estará injetando na Economia, e, assim,
produzindo um impulso para o PIB crescer. Quanto mais o governo arrecadar
de impostos, mais estará retirando do setor privado, e, se não destinar os recursos
arrecadados para gastos na mesma proporção, sua atuação estará sendo no sentido
de reduzir a demanda agregada.

COMENTÁRIO

Exportações

As exportações têm também a importante
função de gerar divisas externas,
necessárias para cobrir os gastos com
importações e para saldar compromissos
em moeda externa, como já mencionado.

 

A recomendação da Macroeconomia keynesiana é de que o governo
administre seus gastos acompanhando o que acontece no setor privado
da Economia. Se a Economia está muito aquecida, crescendo muito rápido,
a recomendação é que o governo seja mais comedido em suas despesas
para não superaquecer a Economia, que, como veremos no último
item deste capítulo, tem consequências sérias sobre o nível de preços.

O volume de arrecadação de impostos deve aumentar em uma conjuntura
de crescimento rápido. Se a Economia está com excesso de recursos
ociosos, com baixo crescimento, o governo deve aumentar seus
gastos e reduzir os impostos para dar um impulso ao crescimento.

RESUMO

Em suma, a atuação do governo deve ser para contrabalançar, compensar tendências
de mercado no curto prazo. Acredita-se que suavizando as flutuações econômicas, o
governo estará contribuindo para aumentar o bem-estar da população (ver capítulo 5).

Ao introduzirmos a atuação do governo, devemos chamar a atenção
para o fato de que a gestão das contas públicas, assim como da moeda e da
inflação, mexem com as expectativas dos investidores, e, portanto, é uma
área sensível da administração da política econômica. Como já dissemos, o
investimento, parcela mais importante a explicar a flutuação do PIB, é muito
sensível às expectativas sobre o futuro desempenho da Economia.

Emprego e desemprego

A análise da Macroeconomia pela ótica da demanda agregada, como
explanado acima, estabelece uma relação clara entre a geração de produto
e renda e a criação de emprego. O produto para crescer, em algum
momento, irá aumentar a demanda por mão de obra. Ressaltamos o em
algum momento, pois o ajuste do emprego passa também pelo ajuste das
horas trabalhadas.

Contudo, é claro perceber que há um limite superior para o aumento
das horas trabalhadas.

RESUMO

Assim, dado esse ajuste, o aumento do produto deve se manifestar em aumento de
emprego. Por sua vez, a queda no produto, dado um ajuste das horas trabalhadas,
deve se refletir em queda no emprego.

Feita esta ressalva, identificamos que o problema do desemprego na
Economia pode ser entendido como um problema macroeconômico, ou
seja, um problema de insuficiência de demanda agregada.

COMENTÁRIO

Desemprego

Há uma vasta literatura que estuda o desemprego
do ponto de vista microeconômico,
ou seja, no âmbito do mercado de
trabalho. Em Keynes, o mercado de trabalho
não se equilibra como o mercado
de produto. Para uma discussão sobre o
equilíbrio em mercado de concorrência,
ver capítulo 3.

 

Como se mede o desemprego? Para se chegar a uma medida de desemprego
é necessário calcular primeiro a população em idade de trabalhar,
ou seja, do total da população exclui-se quem não está em idade
de formação escolar básica (abaixo de 14 anos, pela nova pesquisa do
IBGE), os idosos, incapacitados ao trabalho etc. Desse conjunto retira-se
a força de trabalho (FT).

A medida da taxa de desemprego, ou taxa de desocupação, é a proporção
das pessoas que não estavam ocupadas (mas que procuraram
emprego nos últimos 30 dias em relação à data da entrevista) sobre o
total da FT. A grosso modo, podemos afirmar que a população ocupada
dá uma medida da demanda por trabalho e a FT, uma medida da
oferta de trabalho.

RESUMO

TAXA DE DESOCUPAÇÃO (%)
(PESSOAS DESOCUPADAS/PESSOAS
NA FORÇA DE TRABALHO)*100

As pesquisas empíricas sobre o comportamento do mercado de trabalho
classificam vários tipos de desemprego, sendo a taxa de desocupação
a de maior interesse, pois revela quantos estavam procurando
emprego em um determinado período e não encontraram colocação,
mesmo aceitando uma remuneração menor.

Observe que, ao falarmos em taxa de desemprego ou de desocupação,
nada dissemos sobre a qualidade do emprego, ou seja, se com ou sem carteira
assinada, por exemplo, ou quanto ao número de horas trabalhadas.

REFLEXÃO

Assim, um trabalhador que não seja formalizado, mas se declare trabalhando,
mesmo que poucas horas por semana, não é considerado desempregado, apesar
de estar em uma posição precária de trabalho e, possivelmente, com uma remuneração
mais baixa do que um trabalhador formal (com carteira assinada), com
os direitos trabalhistas assegurados.

A análise da evolução da taxa de ocupação e desocupação deve levar
em conta também a evolução da remuneração média da população empregada.
Considere que a taxa de desocupação esteja caindo e a evolução
do rendimento médio da população empregada não esteja subindo
muito. É possível que o tipo de emprego que esteja aumentando seja o
de pior qualidade em termos de proteção social. Outra situação pode ser
a de que o aumento no emprego esteja ocorrendo mais entre jovens, que
por terem menor experiência, entram no mercado de trabalho recebendo
uma remuneração mais baixa.

CONCEITO

Força de trabalho

Define-se como força de trabalho de
uma economia o contingente de pessoas
em idade de trabalhar e disponível
para o trabalho. Da FT, então, calcula-se
quantos estão efetivamente trabalhando
em uma data (pessoas com ocupação —
PO) e quantos desejam trabalhar, mas
não encontram ocupação (pessoas desocupadas
— PD). Até a reformulação
recente das pesquisas de emprego identificava-
se força de trabalho como população
economicamente ativa (PEA).

 

Na visão da Macroeconomia, os movimentos no mercado de trabalho
afetam os agregados macroeconômicos de várias maneiras. Por um
lado, o nível de emprego está associado a um nível de renda, que é importante
para explicar o comportamento do consumo das famílias, um
dos componentes da demanda agregada. Logo, podemos dizer que emprego
gera renda, que gera demanda agregada. Por outro lado, o nível
de emprego também explica o quanto da força de trabalho está sendo
ocupada, e quanto mais perto da ocupação plena, maior deve ser a pressão
por aumento de salários.

Uma consequência do nível de ocupação estar perto do limite do pleno
emprego é que gera pressão de custo de produção. Desta forma, o
esgotamento da oferta de trabalho, se por um lado aquece a demanda
agregada, também coloca uma pressão sobre o crescimento da Economia,
que é a escassez de recursos no curto prazo. Em geral esta pressão se
transforma em aumento no nível de preços, ou seja, inflação, nosso último
tópico neste capítulo.

O que determina os preços, sua variação, e sua relação
com a moeda

A inflação é definida como sendo um aumento contínuo, generalizado
e desigual do nível geral de preços, ou seja, uma perda progressiva do
poder de compra da moeda (é este o sentido de imposto inflacionário).
Em uma Economia com inflação é necessário cada vez mais moeda para
se comprar a mesma quantidade de bens e serviços.

Como dito no início da seção, na inflação o processo de subida de
preços não se verifica em todos os bens e serviços ao mesmo tempo
nem na mesma proporção. Em determinado momento, alguns preços
podem ter subido, mas outros ainda não. Com isso, a relação entre os
preços, que é a fonte de informação mais relevante para o cálculo econômico
em uma Economia de mercado, fica completamente distorcida.

Como saber que uma cadeira deve custar menos que uma mesa
feita do mesmo material, no mesmo período, se o preço da cadeira tiver
subido antes do preço da mesa? Essa distorção atrapalha o cálculo
econômico dos agentes, interferindo em suas decisões sobre o quanto
produzir, o quanto cobrar por um produto, o quanto exigir de remuneração,
o quanto gastar etc.

ATENÇÃO

Mais problemáticas ainda são as decisões de investimento, que por envolver maior
planejamento, com um horizonte de tempo mais longo, podem ter o cálculo de viabilidade
econômica muito prejudicado.

COMENTÁRIO

Crescimento da Economia

Há muitas outras fontes de restrições
de crescimento no curto prazo. Uma
bastante importante, que não será tratada
aqui, refere-se à restrição de Balanço
de Pagamentos.

COMENTÁRIO

Inflação

Ela se torna um problema não só prático,
sentido por toda a população, que
vê, no dia a dia seu poder de compra
diminuir, mas também um problema teórico,
na medida em que a teoria econômica
entende que preços traduzem o
valor de troca entre os bens e serviços,
ou seja, os valores relativos das mercadorias
e serviços.

 

Enfim, a inflação persistente é um problema grave em Economias
de mercado, e na medida em que corrói o poder de compra das pessoas,
impõe custos sociais elevados, principalmente à população mais carente.
Não raro, quando a inflação atinge patamares muito elevados e não
retrocede, um período de convulsão social pode eclodir. A história econômica
registra vários casos.

O que é moeda, as funções da moeda, moeda e inflação

Como a inflação é um fenômeno monetário, é importante esclarecer o
que é a moeda e quais as suas funções. Define-se moeda como qualquer
coisa aceita generalizadamente para intermediar as trocas.

A moeda cumpre, basicamente, três funções: unidade de medida
(ou de conta), meio de troca (ou de pagamento) e reserva de valor.
Como unidade de medida, a moeda, sendo um referencial comum
para o estabelecimento do valor dos bens e serviços, permite a avaliação
do valor relativo de uns em relação aos outros (preços relativos).
Como meio ou intermediário de trocas, a moeda é um facilitador para
as trocas. Por fim, como reserva de valor, a moeda, ao separar a operação
de venda da operação de compra, dá ao seu detentor um direito
sobre a posse futura de bens e serviços.

REFLEXÃO

Em processos inflacionários crônicos, os agentes procuram se livrar rapidamente da
posse da moeda, exatamente porque ela deixa de cumprir, inicialmente, as funções
de reserva de valor e de unidade de conta; em casos mais graves, de meio de troca.

Em hiperinflação, quando há fuga da moeda, o registro histórico é o
de que os agentes econômicos passam a usar outra moeda, seja para denominar
o valor dos bens e serviços ou para fazer transações; ou trocam,
imediatamente, moeda por mercadoria ou por outra moeda (estrangeira
ou indexada), como forma de reter valor.

A teoria mais antiga sobre a causa da inflação atribui a alta contínua
de preços a um excesso de moeda em circulação na Economia.
Esta teoria é conhecida como teoria quantitativa da moeda — TQM
(ver também capítulo 5), e tem sua origem mais formalizada desenvolvida
no século XVIII.

O que a teoria estabelece é que, para a expansão da moeda de pagamentos
ser a causa da inflação, supõe-se que a Economia está produzindo
no seu limite máximo, ou seja, a geração do PIB impõe o uso de todos
os recursos produtivos disponíveis (ou algo próximo a isso). Se isso
é verdade, então um aumento de moeda em circulação, que é atribuição
do governo, deve ser destinado à compra de bens e serviços (aumento da

COMENTÁRIO

Moeda

Define-se moeda como qualquer coisa
aceita generalizadamente para intermediar
as trocas. A moeda é uma convenção
social, ou seja, aceita-se moeda em
troca do que se produz porque se acredita
que os demais membros da sociedade
a aceitarão também em troca dos
seus bens e serviços.

CONCEITO

Teoria quantitativa da moeda

A TQM estabelece uma relação entre o
lado monetário da Economia (poder de
compra) e o lado real da Economia (disponibilidade
de bens e serviços). Trata-
se de uma equivalência entre o fluxo de
bens e serviços produzidos em um determinado
período de tempo (PIB a preços
de mercado) e o montante de recursos
monetários disponível (quantidade
de moeda em circulação na Economia).

 

demanda agregada), que, na impossibilidade de ser expandida no curto
prazo, provoca alta nos preços.

Uma decorrência lógica do raciocínio anterior é que a expansão
monetária não tem nenhuma influência sobre o nível de produto em
volume da Economia (PIB a preços constantes). Se o aumento na oferta
de moeda levasse a um aumento proporcional do PIB em volume, não
haveria inflação, supondo que os preços podem se ajustar livremente.
Só haverá inflação se o aumento da demanda agregada, oriundo de um
aumento na quantidade de moeda em circulação, prevalecer sobre o
aumento do produto.

O controle da quantidade de moeda em circulação é responsabilidade
do governo, através de suas instituições, sendo a mais importante o Banco
Central. O Banco Central dispõe de diversos instrumentos de política monetária
para injetar e retirar moeda de circulação (ver capítulo 5).

REFLEXÃO

Aqui vale uma menção ao que já foi dito no item de equilíbrio fiscal: como o governo
pode se endividar junto ao público e é também emissor de moeda, é importante
que seu endividamento não provoque pressão inflacionária (emitir moeda para cobrir
despesas públicas). Neste sentido, o endividamento deve ser financiado através da
emissão de títulos da dívida pública.

Se a única consequência do aumento da oferta de moeda for a elevação
dos preços, não havendo nenhum efeito sobre o lado real da Economia
(produção de bens e serviços), diz-se que a moeda é neutra.

Entretanto, se supusermos que a Economia pode funcionar com
recursos ociosos, como é a hipótese de Keynes, os efeitos de uma expansão
da moeda na Economia podem ter impacto no lado produtivo,
pois pode dinamizar a demanda agregada, que, como vimos, promove
a contratação de mão de obra e, consequentemente, aumenta a
oferta de bens e serviços.

Indo mais além, Keynes viu também que os agentes econômicos,
para se defenderem em relação ao futuro desconhecido, podem reter
moeda (e não gastá-la), o que reduz a demanda agregada da Economia.
Esta possibilidade amplia muito os efeitos da moeda sobre a Economia,
e neste caso ela é considerada não neutra.

RESUMO

Em resumo, deve ficar claro que a inflação é um fenômeno monetário. Aumentos
na oferta de moeda acabam por elevar os preços. Porém, a oferta de moeda é
causa ou consequência da inflação? Não há consenso sobre este ponto entre os
economistas. Entretanto, em relação aos efeitos da inflação, o entendimento hoje
entre analistas econômicos é que há também sobre o lado real da Economia, ou

COMENTÁRIO

Moeda é neutra

Nesse caso, a moeda teria apenas a função
de facilitar as trocas e de servir para
se fixarem os preços em uma unidade
comum de valor. Esta hipótese é associada
à escola de pensamento macroeconômico
conhecida como monetarista,
e tem em Milton Friedman seu maior expoente,
como visto no capítulo 2.

 

seja, o aumento da oferta de moeda pode estimular a atividade econômica, podendo provocar ao mesmo
tempo, crescimento e inflação.

Inflação ou desemprego: o dilema de Economias modernas

As relações entre a taxa de crescimento dos preços e a taxa de ocupação de mão de obra
(que se relaciona com o nível de atividade da Economia, ou seja, com o nível de produto,
conforme mencionado no início do item sobre emprego e desemprego) sempre foram objeto
de muita discussão, isso porque nem sempre são conciliáveis os objetivos de controle
inflacionário e manutenção de elevado nível de emprego.

Na década de 1950, em um trabalho empírico desenvolvido para verificar as relações
historicamente observáveis entre taxa de desemprego e taxa de inflação, na Inglaterra, observou-
se o que ficou posteriormente denominado de Curva de Phillips, ou seja, uma relação
inversa entre taxa de inflação e taxa de desemprego.

Isso significa que taxas mais altas de inflação estavam associadas a taxas menores de
desemprego, e taxas mais baixas de inflação, a maior volume de desemprego. Muitas interpretações
foram apresentadas para explicar esse fenômeno.

Uma interpretação, ligada aos monetaristas, coloca ênfase na pressão de demanda que
aumentos salariais impõem no curto prazo. Na inflação de demanda, os preços sobem
quando o poder de compra (demanda) é maior do que a disponibilidade de bens e serviços.

REFLEXÃO

Fatores que podem fazer aumentar a demanda agregada incluem excesso de moeda em circulação, redução
de impostos, aumento de gastos públicos e aumento de empréstimos aos consumidores. A probabilidade
de inflação de demanda aumenta quanto mais próxima do pleno emprego a Economia estiver,
porque não se pode aumentar substancialmente a oferta de bens e serviços a curto prazo.

Uma interpretação mais ligada à escola keynesiana coloca ênfase nas pressões dos diversos
tipos de custos de produção, dentre eles, o custo do salário. Assim, no caso da inflação
de custo, os preços sobem pelos seguintes motivos: aumentos salariais acima da produtividade,
resultantes de escassez de mão de obra ou pressão de sindicatos fortes, aumento
de custo das matérias-primas (encarecimento das importações em razão da desvalorização
da moeda ou um aumento nos preços das commodities) etc.

REFLEXÃO

A inflação de custos tem como causas as condições de oferta de bens e serviços na Economia, ou seja,
o nível de demanda permanece o mesmo, mas os custos de certos insumos importantes aumentam e eles
são repassados aos preços dos produtos.

Vemos assim que o processo inflacionário, independente de sua origem, resulta em
um conflito distributivo, ou seja, resulta de pressões dos vários grupos de agentes eco

 

nômicos atuando na Economia para garantir seu poder de compra. Aqueles grupos que,
por sua inserção na estrutura produtiva, têm maior poder de barganha, conseguem garantir
um poder de compra em termos de bens e serviços maior do que aqueles com
menor poder de barganha.

EXEMPLO

Veja, por exemplo, o caso de uma empresa que seja a única fornecedora de um produto essencial. O seu
poder de mercado lhe permite reajustar o preço de seu produto acima dos seus custos de produção, por
exemplo, e com isso ela consegue auferir uma margem de lucro maior. O mesmo ocorre com categorias de
trabalhadores mais bem organizadas do que outras, só para citar poucos exemplos.

Na prática se reconhece que múltiplas causas atuam ao mesmo tempo para gerar o processo
inflacionário da Economia a cada momento.

Como medir a inflação

Como mencionado na parte um deste capítulo, se existe inflação, precisa-se fazer uma
distinção fundamental entre valores nominais (ou a preços correntes) e valores reais
(ou a preços constantes). Isso porque, para se acompanhar estatísticas econômicas ao
longo do tempo, é importante distinguir os efeitos da inflação e as mudanças no nível
real da atividade econômica.

Valores a preços de mercado, ou preços correntes, ou ainda na denominação preços
nominais, incluem o efeito da inflação. Estatísticas em volume, preços constantes ou ainda
na denominação de preços reais, excluem as influências inflacionárias. Como isso é feito?

ATENÇÃO

A prática de deflacionamento, ou seja, excluir a variação de preços, implica se dispor de um índice de
preços que permita se descontar a variação dos preços da estatística em valores correntes. Os índices de
preço mais utilizados pelos países são os índices de preço ao consumidor. No Brasil, a inflação oficial é
medida pelo IPCA — Índice de Preço ao Consumidor Ampliado, divulgado mensalmente pelo IBGE.

Muito sucintamente, pode-se descrever um índice de preço ao consumidor como sendo
um índice que revela a evolução média de preços de um conjunto de bens típicos de consumo
de uma família representativa de uma localidade. Para se chegar à construção desse
índice, muitas etapas devem ser percorridas.

Inicialmente, é necessário um levantamento periódico junto às famílias para se coletar
informação sobre sua cesta de consumo; em seguida, investigam-se os locais de compra e,
por fim, procede-se ao levantamento mensal dos preços dos bens da cesta de consumo nos
locais de consumo selecionados.

Para finalizar este capítulo, selecionamos uma leitura e uma provocação ao final, para
você aplicar alguns dos conhecimentos obtidos aqui.

 

ATIVIDADE

Como calcular a sua inflação

Cada pessoa pode calcular sua própria inflação comparando o quanto os preços de sua cesta de consumo
variam, em média, ao longo do tempo. O primeiro passo é listar os gastos com todos os bens e serviços
consumidos (especificando as quantidades) em um período de tempo de referência. Some o que foi gasto
neste período e calcule a participação percentual de cada item no total de gastos. Assim, obtém-se o peso
de cada item de consumo que representa a sua importância relativa em relação aos demais. A cada mês,
acompanhe como tem variado o gasto (supondo a mesma quantidade consumida) de cada item. Por exemplo,
suponha que seus gastos se dividam em aluguel (50% das despesas), alimentação (30%) e despesas
diversas (20%). Suponha agora que o aluguel aumente 10% e os itens de alimentação também aumentem
10%. O que pesa mais no seu bolso? Claro que é o item de aluguel, pois é o de maior peso. De quanto
aumentou sua inflação, supondo que o item de despesas diversas não sofreu aumento? Basta multiplicar a
variação de preço de cada item pelo peso correspondente e somar: 0.5*0.1+0.1*0.1+0.1*0=0.06, ou 6%.

Compare esse resultado com o aumento da sua renda e avalie se você está tendo ganho ou perda
de poder de compra em relação ao período de referência.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FEIJO; RAMOS (org). Contabilidade social: a nova referência das contas nacionais do Brasil, 4ª ed. São Paulo:
Campus-Elsevier, s/d.

 

Políticas
Macroeconômicas

5

fernando carlos lima

 

Políticas Macroeconômicas

5

Política macroeconômica: definição e
objetivos

Políticas macroeconômicas são medidas adotadas pelo governo com
o objetivo de atingir determinadas metas conjunturais, relacionadas a
agregados macroeconômicos como a renda nacional, taxa de inflação,
nível de desemprego, balanço de pagamentos, entre outros.

Os meios utilizados para atingir tais objetivos são, principalmente,
alterações em variáveis macroeconômicas, como taxa de juros (política
monetária), taxa de câmbio (política cambial) e gastos públicos (política
fiscal). Através dessas alterações, as autoridades esperam reduzir as flutuações
cíclicas que são típicas das economias capitalistas.

REFLEXÃO

Nesse sentido, as políticas macroeconômicas analisadas neste capítulo são distintas
das políticas econômicas de caráter setorial (política industrial, política agrícola, política
salarial etc.) e daquelas de caráter regional, cujos horizontes temporais são de
prazo mais longo, como você verá no Capítulo 6.

Os economistas acreditam que, quando a Economia está crescendo
a taxas consideradas excessivamente elevadas, crescem as pressões inflacionárias,
entre outras razões, porque aumenta o nível de emprego,
como explica a curva de Philips (Cap.4); nesses momentos, o governo
adota políticas macroeconômicas contracionistas.

Por outro lado, quando a Economia encontra-se em recessão, ou
mesmo com ritmo de crescimento abaixo daquele considerado adequado
— e, portanto, quando o nível de emprego cai —, o governo adota
políticas macroeconômicas expansionistas.

Destacaremos três tipos de política macroeconômica adotados em
economias como a brasileira: política monetária, política cambial e política
fiscal. Em cada uma delas dois aspectos serão realçados:

ATENÇÃO

Aspecto 1 – A impossibilidade de atingir todos os objetivos finais ao
mesmo tempo

De fato, os objetivos podem ser contraditórios. Talvez o exemplo mais discutido no
Brasil seja o da determinação da taxa de juros: a autoridade monetária eleva a taxa

COMENTÁRIO

Objetivo

Os objetivos finais das políticas macroeconômicas
incluem a obtenção de
taxas de crescimento econômico elevadas,
baixas taxas de inflação, baixo
nível de desemprego, balanço de pagamento
equilibrado, contas públicas
equilibradas etc.

 

de juros quando entende que deve conter pressões inflacionárias; por outro lado, quando reduz a taxa de
juros, alguns analistas econômicos apontam para o impacto positivo da medida em termos de crescimento
da Economia e melhoria do nível de emprego, enquanto outros economistas mostram preocupação com o
futuro comportamento da inflação.

Portanto, em linhas gerais, os economistas concordam com a ideia de que uma elevação
da taxa de juros ajuda no combate à inflação, mas representa um entrave ao crescimento
econômico e vice-versa. Como veremos neste capítulo, o mesmo tipo de discussão se aplica
a mudanças na taxa de câmbio e nos gastos do governo.

ATENÇÃO

Aspecto 2 – Interdependência entre as políticas macroeconômicas em razão dos efeitos
de um tipo de política sobre mais de uma variável

Um caso clássico é o da escolha de regime cambial e a política monetária adotada pelo Banco Central
(BC). Por exemplo, a opção por um regime de taxa de câmbio fixo semelhante ao adotado no Brasil, durante
a primeira fase do Plano Real (1994-1998), significa atrelar a política monetária — isto é, as decisões
quanto à determinação da taxa de juros básica — ao comportamento do mercado de câmbio, como será
explicado mais adiante neste capítulo.

Política monetária: definição e objetivos

Política monetária é o conjunto de medidas que podem ser adotadas pelas autoridades
monetárias (geralmente, o Banco Central) com objetivo imediato de controlar a oferta
de moeda, de alterar a taxa de juros praticada no mercado financeiro e de restringir ou
expandir o crédito bancário.

ATENÇÃO

O aumento da oferta de moeda, a redução da taxa de juros e a expansão do crédito, que geralmente
ocorrem concomitantemente, representam um aumento da liquidez, ou seja, uma política monetária expansionista.
Por outro lado, o aperto de liquidez ocorre quando o Banco Central atua no sentido de reduzir a
oferta de moeda, elevar a taxa de juros e restringir o acesso ao crédito bancário, significando uma política
monetária contracionista.

Essas medidas visam atingir em particular dois objetivos últimos: crescimento econômico
mais acelerado e taxa de inflação mais baixa. Entretanto, como mencionado anteriormente,
considera-se que tais objetivos sejam conflitantes, ou seja, que a política monetária
deva ser orientada no sentido de obter maior crescimento ou menor taxa de inflação, de
acordo com as oscilações da conjuntura econômica.

 

Metas intermediárias

Diferentes correntes de economistas têm discutido a maneira como o
comportamento da oferta de moeda, da taxa de juros e da oferta de crédito
bancário, ou seja, os chamados mecanismos
de transmissão da política
monetária, afeta a atividade econômica.

Caso considere que o mecanismo de transmissão seja a oferta de
moeda, o Banco Central deve estabelecer metas de controle da quantidade
de moeda ofertada. Caso considere que seja o crédito bancário, o
Banco Central pode tentar influenciar a atividade dos bancos através da
administração do preço da moeda, isto é, da taxa de juros.

Meta intermediária (I): moeda

A importância do conceito de oferta de moeda está associada à capacidade
de consumo que representa: quanto mais dinheiro possuímos,
maior é nossa capacidade de adquirir bens e serviços.

Vimos no capítulo anterior que a Teoria Quantitativa da Moeda
(TQM) prevê que um aumento da oferta de moeda acarreta um aumento
do nível geral de preços, ou seja, da inflação. A formulação mais tradicional
da TQM é:

FÓRMULA

MV = PQ

M é quantidade de moeda

V é a velocidade de circulação da moeda (o número de vezes que a moeda
troca de mãos)

P é o nível geral de preços

Q a quantidade de bens e serviços transacionados

 

 

Segundo a TQM, adotada pelos economistas monetaristas, se o saldo
de meios de pagamento aumenta e a quantidade de bens e serviços
disponíveis na Economia permanece constante, os preços dos bens e
serviços tendem a aumentar, gerando, portanto, inflação. Ainda, quanto
maior o crescimento da oferta da moeda, maior a inflação, já que, segundo
os monetaristas, a oferta de bens e serviços não pode crescer no curto
prazo. Segue-se que a única forma de debelar a inflação seria restringir
o aumento da oferta de moeda, sendo este o papel mais importante que
deve desempenhar o Banco Central.

REFLEXÃO

Outra maneira de interpretar o mecanismo pelo qual um aumento da oferta de moeda
é transmitido aos preços é a seguinte: mais moeda em circulação implica maior

COMENTÁRIO

Mecanismos de transmissão

Os dois mecanismos de transmissão
tradicionalmente mais mencionados
na literatura são o da moeda e o do
crédito bancário.

COMENTÁRIO

Teoria Quantitativa da Moeda

A TQM considera que V e Q sejam
estáveis e que as variações em M determinam
as variações, na mesma proporção,
de P.

 

liquidez, ou seja, a moeda é mais facilmente negociada. Com isso, o preço da moeda,
que é a taxa de juros, se reduz. A menor taxa de juros induz os empresários
a aumentarem os investimentos produtivos e a contratarem mais mão de obra; os
consumidores aumentarão suas compras, porque haverá menor incentivo a manter o
dinheiro em aplicações financeiras etc.

Tudo isso fará aumentar a demanda agregada e, supondo que a oferta
de bens e serviços não aumente de imediato, os preços tenderão a subir.
O esquema a seguir mostra o efeito de uma política monetária expansiva.

Assim, se considera que o
mecanismo de transmissão é
a moeda, a autoridade monetária
tem como meta intermediária
o controle da oferta de
moeda. Em outras palavras,
se a inflação é causada pelo
aumento da oferta de moeda,
a política monetária deve ser
exercida através do controle da
oferta de moeda.

Um dos problemas apontados pelos economistas críticos da visão
monetarista é como se deve mensurar oferta de moeda, que é a variável
a ser controlada. Entretanto, oferta de moeda é um conceito controverso.
Como é possível mensurar moeda?

ATENÇÃO

Tradicionalmente, a oferta de moeda está associada ao conceito mais restrito de
meios de pagamento (M1), que é composto pelo saldo de papel-moeda em poder do
público, emitido pelo Banco Central, mais o saldo dos depósitos à vista (ou depósitos
em conta-corrente) emitidos pelos bancos comerciais. Estes seriam os dois ativos
financeiros que possuem maior liquidez e são aceitos, legalmente, em pagamentos.

Para entender como o Banco Central exerce controle sobre a oferta
de moeda — definida como M1 — é preciso distinguir, inicialmente, outra
forma de moeda. A moeda emitida diretamente pelo Banco Central
é chamada de base monetária (M0), que é constituída pelo somatório
do papel-moeda emitido — que faz parte do conceito de M1 — e das reservas
bancárias, que são uma espécie de conta-corrente que os bancos
mantêm, até mesmo por obrigação legal, no Banco Central.

FÓRMULA

M0 = papel-moeda em poder do público + reservas bancárias

M1 = papel-moeda emitido + depósitos à vista

 

 

COMENTÁRIO

Controle de oferta da moeda

Milton Friedman propunha que um
determinado percentual de aumento
anual da oferta de moeda deveria ser
matéria constitucional.

COMENTÁRIO

Papel-moeda emitido

A diferença, portanto, entre M1 e base
monetária é que M1 inclui o saldo dos
depósitos à vista, enquanto a base
monetária inclui o saldo das reservas
bancárias. O Banco Central só é capaz
de controlar diretamente as reservas
bancárias, já que é ele quem as emite;
mas só controla indiretamente os depósitos
à vista. Como veremos a seguir,
este controle de M1 é feito através das
variações nas reservas bancárias.

AUMENTO DA OFERTA DE MOEDA
REDUÇÃO DA TAXA DE JUROS
AUMENTO DO INVESTIMENTO E DO CONSUMO
MAIOR DEMANDA AGREGADAAUMENTO DO NÍVEL GERAL DE PREÇOS

Antes, porém, vale realçar o fato de que o papel-moeda (as notas de
real e as moedinhas que usamos no dia a dia) é emitido apenas para
atender nossas necessidades de pagamentos, geralmente, de pequeno
valor, e essa emissão não tem qualquer importância para a política monetária,
já que depende inteiramente da demanda por papel-moeda:
não se concebe que as pessoas tenham este direito negado no caixa dos
bancos, pois se tal fato ocorresse haveria uma crise financeira.

A tabela a seguir mostra que o saldo do papel-moeda emitido tem se
expandido todos os anos, o que se justifica pela crescente demanda do
público por papel-moeda em termos absolutos.

Brasil: Base Monetária. Saldos em final do período (R$ bilhões)

Período

Papel-moeda
emitido

Reservas
bancárias

Total

2009

131,9

34,2

166,1

2010

151,1

55,7

206,8

2011

162,8

51,5

214,3

2012

187,4

45,9

233,4

 

 

Fonte: Banco Central do Brasil

A forma como o Banco Central tenta controlar a oferta de moeda é
através do controle das reservas bancárias, cujo saldo varia ano a ano
(como você observa na tabela). O Banco Central aumenta a oferta de reservas
bancárias creditando na conta dos bancos o valor correspondente
do ativo que adquiriu dos bancos.

EXEMPLO

Por exemplo, quando compra dólares que estejam em poder de um banco, o Banco
Central deposita o equivalente em reais na conta reserva bancária deste banco. Nesse
sentido, é um mecanismo semelhante ao utilizado pelos bancos ao concederem
empréstimos a seus clientes: o banco deposita o dinheiro emprestado na conta-corrente
do cliente. Por outro lado, quando quer reduzir o montante de reservas bancárias
disponível para os bancos, o BC vende um ativo (dólares, títulos do governo etc.)
para os bancos, que pagam ao BC sacando sobre sua conta de reservas bancárias.

Ao provocar um aumento ou uma redução das reservas bancárias, o
Banco Central espera aumentar ou reduzir o montante de depósitos à
vista nos bancos. Isto porque os bancos podem multiplicar, na forma
de depósitos à vista, a moeda criada pelo Banco Central — ou seja, as
reservas bancárias.

Suponhamos que o Banco Central aumente a oferta de reservas bancárias
dos bancos, por exemplo, ao comprar títulos públicos que estejam
em poder desses bancos. Os bancos podem emprestar parte dessas

COMENTÁRIO

Necessidades de pagamentos

A tendência é que, com o uso crescente
de cartões de crédito e de débito
em operações de pequeno valor, o
uso de papel-moeda seja gradualmente
reduzido.

COMENTÁRIO

Multiplicar

Esse mecanismo é chamado de multiplicador
de moeda bancária, que parte do
princípio de que apenas parte dos depósitos
à vista é sacada na forma de papel-
moeda pelos correntistas dos bancos.

 

reservas a seus clientes. Ao fazê-lo, os bancos criam depósitos à vista.
Qual a proporção das reservas bancárias que os bancos irão emprestar?

EXEMPLO

Vamos novamente supor que os bancos, por conta própria ou por decisão do Banco
Central, decidam manter 20% do saldo em conta-corrente de seus clientes (ou
seja, dos depósitos à vista) em seu caixa (ou seja, como reserva bancária). Se agora
eles têm mais 100 unidades monetárias nas suas reservas (o que pode ocorrer,
por exemplo, quando o Banco Central compra dólares que estejam em poder dos
bancos), eles podem emprestar um total de 500 unidades monetárias a mais, o que
fazem depositando esta quantia na conta-corrente dos tomadores de empréstimo.

RESUMO

Dessa forma, os bancos estarão emitindo 500 em depósitos à vista, mas mantendo
100 em reservas (20% dos depósitos à vista são mantidos em suas reservas), ou
seja, os bancos terão multiplicado as reservas bancárias por 5 ao criarem 500 unidades
monetárias na forma de depósito à vista.

Esse mecanismo do multiplicador bancário ajuda a entender um
dos instrumentos de política monetária à disposição do Banco Central,
que é o depósito compulsório.

Um dos principais problemas de usar o controle da oferta de moeda
como meta intermediária de política monetária é que, nas últimas
décadas, os bancos criaram diversas formas de captação de recursos
alternativas ao depósito à vista, como os fundos de investimento de
curto prazo, depósitos de poupança, depósitos a prazo etc., depósitos
estes que possuíam liquidez semelhante à dos depósitos em conta-corrente.
Com isso, em todos os países que possuem um sistema financeiro
desenvolvido, como é o caso do Brasil, a participação de M1 no total
dos meios de pagamento diminuiu.

REFLEXÃO

Essa talvez seja uma das principais razões que expliquem o fato de os bancos centrais
não mais estabelecerem metas de expansão monetária como faziam nas décadas
de 1970 e 1980. Desde então, estudos elaborados por diversos bancos centrais
e economistas acadêmicos mostravam que não havia relação entre o aumento da
oferta de moeda (M1) e o comportamento da inflação.

De fato, no Brasil, a caderneta de poupança é um exemplo de ativo
financeiro com grau de liquidez quase igual à dos depósitos em conta-
corrente. O mesmo se pode dizer dos recursos aplicados em fundos de

COMENTÁRIO

Depósito compulsório

Ainda no mesmo exemplo, se o Banco
Central determina, por exemplo, que
os bancos devam manter em reserva
bancária o equivalente a 50% dos depósitos
à vista de seus clientes, eles
só poderão emprestar 200 unidades
monetárias e, portanto, só poderão
emitir 200 unidades monetárias adicionais
de depósitos à vista para seus
clientes a partir da um aumento de
100 unidades monetárias de suas reservas
bancárias. Neste caso o multiplicador
bancário é igual a 2.

 

investimento: a qualquer momento, esses recursos podem ser sacados e
transferidos para os depósitos à vista.

Assim, se o Banco Central desejasse controlar a oferta de moeda, ele
teria de ser capaz de controlar também os depósitos de poupança, o saldo
das aplicações em fundos de investimento etc. E isso nenhum banco
central é capaz de fazer, direta ou indiretamente, assim como não há
evidências de que o comportamento desses outros componentes dos
meios de pagamento tenha relação com as variações de M1.

A tabela a seguir registra diferentes maneiras como o Banco Central
do Brasil contabiliza o saldo dos meios de pagamento, ou seja, a oferta
de moeda. A tabela revela que o saldo de M1, sobre o qual o Banco Central
tem algum controle, é menos de um décimo do total de meios de
pagamento em um sentido mais amplo (M4), e que as outras formas de
moeda têm aumentado mais rapidamente que o tradicional M1.

Brasil: Haveres Financeiros. Saldos em final do período (R$ bilhões)

Período

M1

M2

M3

M4

2009

248,1

1164,9

2203,8

2602,3

2010

280,1

1347,3

2535,9

3055,3

2011

285,4

1617,5

3030,3

3550,2

2012

324,5

1763,9

3518,2

4103,2

M2 = M1 + Depósitos de poupança e depósitos a prazo

M3 = M2 + Quotas de fundos de investimento

M4 = M3 + Títulos públicos

 

 

Fonte: Banco Central do Brasil

Em resumo, a oferta de moeda é uma variável extremamente difícil
de controlar (quando não impossível). Portanto, desde a década
de 1990, os bancos centrais abandonaram o controle da quantidade
de moeda em circulação e passaram a controlar o preço da moeda, ou
seja, a taxa de juros. Ainda nesse caso, como veremos a seguir, a taxa
de juros sobre a qual o Banco Central tem influência direta é apenas
a taxa de juros do mercado da moeda que ele, Banco Central, emite,
que são as reservas bancárias.

Meta intermediária (II): taxa de juros

Desde meados dos anos 1980, os bancos centrais deixaram de estabelecer
metas de oferta de moeda, e passaram a usar as variações da taxa de
juros de curto prazo como principal meio de exercer influência sobre o
ritmo da atividade econômica e, consequentemente, sobre o comportamento
da taxa de inflação.

COMENTÁRIO

Taxa de juros de curto prazo

A taxa de juros que pode ser administrada
diretamente pelo Banco Central
é a taxa de juros praticada no mercado
de reservas bancárias — a taxa de juros
básica. Como vimos anteriormente, as
reservas bancárias são depósitos que
os bancos mantêm no Banco Central.

 

RESUMO

As reservas bancárias são, na prática, a moeda utilizada pelos bancos quando fazem
negócios entre eles. Suponhamos dois bancos, Banco A e Banco B. Quando o cliente
do Banco A deposita no seu banco o cheque de um cliente do Banco B, o Banco
B transfere ao Banco A o equivalente em reservas bancárias. Reservas bancárias
são também a moeda usada pelos bancos comerciais nas suas transações com o
Banco Central. Por exemplo, quando compra dólares que estão em poder de um banco
comercial, o Banco Central faz o pagamento depositando os reais equivalentes
na conta reservas bancárias do banco comercial. Se o Banco Central quer diminuir
o saldo de reservas bancárias dos bancos, ele geralmente o faz vendendo títulos do
Tesouro Nacional para os bancos, que pagam ao Banco Central com reservas bancárias,
ou seja, reduzindo seu saldo naquela conta.

Portanto, os bancos estão a todo o momento demandando ou ofertando
reservas bancárias. Nesse mercado, conhecido como interbancário, as
reservas bancárias têm um preço, que é a taxa de juros — no Brasil é a taxa
Selic. A cada 45 dias, o Comitê de Política Monetária (COPOM) se reúne
para decidir qual será a meta desejada.

O Banco Central utiliza seus instrumentos de política monetária para
fazer com que a taxa de juros efetivamente praticada no mercado interbancário
seja a mais próxima possível da meta por ele estabelecida. A
determinação, pelo Banco Central, de uma meta para a taxa Selic é, portanto,
o ponto central da política monetária. Veja o quadro a seguir no
qual há um comparativo de variação da taxa:

Taxa Selic (1996 – 2013)
026/06/9626/06/9726/06/9826/06/9926/06/0026/06/0126/06/0226/06/0326/06/0426/06/0526/06/0626/06/0726/06/0826/06/0926/06/1026/06/1126/06/1226/06/13510% a.a.
1520253035404550

Fonte: Banco Central do Brasil

A taxa Selic é a taxa mínima de captação dos bancos. Quando aumenta
a meta para a taxa Selic, o Banco Central está executando uma política
monetária contracionista, pois as taxas de outros títulos financeiros (por
exemplo, Certificados de Depósito Bancário, que são depósitos a prazo)
também devem subir, ou seja, o dinheiro fica mais caro para os bancos.

COMENTÁRIO

Taxa Selic

Selic é sigla de Sistema Especial de
Liquidação e Custódia, um sistema
administrado pelo Banco Central, que
registra as negociações com títulos do
Tesouro Nacional.

 

ATENÇÃO

A expectativa da autoridade monetária é de que os bancos, para poderem manter
seus ganhos com a intermediação financeira, elevem os juros cobrados nos empréstimos
a seus clientes.

Esse aumento da taxa de juros reduz a demanda por empréstimos,
tanto para investimentos produtivos como para o consumo, levando a
uma retração da atividade econômica (ou do ritmo de crescimento da
demanda agregada). O objetivo último de tal medida é reduzir pressões
inflacionárias que sejam entendidas como provenientes de um excesso
de demanda agregada.

O esquema a seguir retrata, resumidamente, um exemplo de política
monetária expansionista. O objetivo último é estimular o crescimento
econômico.

REDUÇÃO DA TAXA DE JUROS DO MERCADO INTERBANCÁRIOAUMENTO DOS EMPRÉSTIMOS BANCÁRIOSAUMENTO DA DEMANDA AGREGADAAUMENTO DA ATIVIDADE ECONÔMICA

Meta de inflação

No Brasil, a partir de 1999, foi adotado o regime de metas de inflação,
que substituiu a meta cambial estabelecida durante a primeira fase do
Plano Real. Em 2013, o centro da meta de inflação era de 4,5%, com intervalo
de tolerância de 2,0 (ver tabela a seguir).

Histórico de Metas para a Inflação no Brasil

Ano

Meta(%)

Banda (p.p.)

Limites Inferior
e Superior (%)

Inflação Efetiva
(IPCA % a.a.)

1999

8

2

6-10

8,94

2000

6

2

4-8

5,97

2001

4

2

2-6

7,67

2002

3,5

2

1,5-5,5

12,52

2003

4

2,5

1,5-6,5

9,30

2004

5,5

2,5

3-8

9,60

2005

4,5

2,5

2-7

5,69

 

 

COMENTÁRIO

Demanda agregada

Como veremos mais adiante, a elevação
da taxa de juros também é uma
forma de influenciar o comportamento
da taxa de câmbio, porque pode atrair
dólares do exterior para serem aplicados
no mercado financeiro brasileiro.

COMENTÁRIO

Metas de inflação

A meta de inflação é definida pelo
Conselho Monetário Nacional, composto
pelos ministros da Fazenda e do
Planejamento, além do presidente do
Banco Central.

 

Ano

Meta(%)

Banda (p.p.)

Limites Inferior
e Superior (%)

Inflação Efetiva
(IPCA % a.a.)

2006

4,5

3,5

2-7

3,14

2007

4,5

2

2,5-6,5

4,46

2008

4,5

2

2,5-6,5

5,90

2009

4,5

2

2,5-6,5

4,31

2010

4,5

2

2,5-6,5

5,91

2011

4,5

2

2,5-6,5

6,50

2012

4,5

2

2,5-6,5

5,84

2013

4,5

2

2,5-6,5

5,91

 

 

Fonte: Banco Central do Brasil

RESUMO

Ao predeterminar limites toleráveis para a inflação, o governo procura mostrar para
a sociedade que prioriza o combate à inflação, e sinaliza como o Banco Central deve
executar a política monetária. Se a taxa de inflação se aproxima do limite superior, o
Banco Central deve executar uma política monetária contracionista, elevando a taxa
de juros. Caso a taxa de inflação esteja próxima ao limite inferior, isto significaria
maior espaço para executar uma política monetária expansionista.

Instrumentos de política monetária: introdução

Os instrumentos de política monetária podem ser acionados tanto para
estimular a concessão de crédito (política monetária expansionista),
como para reduzir o ritmo da atividade bancária (política monetária
contracionista). Os instrumentos clássicos de política são o depósito
compulsório, a taxa de redesconto e as operações de mercado aberto.

Depósito compulsório

Como vimos, todos os bancos mantêm uma conta de reservas bancárias
no Banco Central, através da qual o sistema bancário (inclusive o Banco
Central) faz suas movimentações financeiras. Todos os bancos comerciais
(que são aqueles autorizados a emitir depósito à vista) são obrigados
a manter um saldo mínimo nesta conta, que é uma proporção do
saldo de depósitos à vista dos seus clientes.

Esta proporção mínima é chamada de depósito compulsório, tendo
duas funções. A primeira é garantir que os bancos tenham recursos
para satisfazer às demandas de seus clientes que queiram sacar papel-
moeda nos caixas ou transferir recursos de sua conta para outro banco.

COMENTÁRIO

Bancos comerciais

Bancos autorizados a emitir depósito
à vista.

 

A segunda função é regular a capacidade dos bancos de conceder empréstimos: quanto
maior a proporção de reservas bancárias em relação aos depósitos à vista, ou seja, quanto
maior o depósito compulsório, menor a capacidade dos bancos de emprestar para seus
clientes através do multiplicador bancário.

RESUMO

Portanto, quando eleva o percentual de depósito compulsório, o Banco Central está adotando uma política
monetária contracionista; e vice-versa, se reduz a obrigatoriedade de manter reservas dos bancos, está
praticando uma política monetária expansionista.

AUMENTO DA ALÍQUOTA DO DEPÓSITO COMPULSÓRIODIMINUIÇÃO DO MULTIPLICADOR BANCÁRIOREDUÇÃO DO CRESCIMENTO DOS EMPRÉSTIMOS E DOS DEPÓSITOS À VISTA
MENOR LIQUIDEZ
AUMENTO DA TAXA DE JUROS

Taxa de redesconto

Uma das funções mais importantes de qualquer banco central é a de ser um emprestador
de última instância para os bancos. Ao longo da história, esse tem sido um papel
fundamental desempenhado pelos bancos centrais, que tradicionalmente emprestam
recursos para bancos com problemas de liquidez, e fazem isso creditando na conta reservas
bancárias (mencionada anteriormente). Esse tipo de empréstimo é o redesconto ou
assistência financeira de liquidez.

ATENÇÃO

O Banco Central cobra juros nesses empréstimos. Alterar a taxa de juros das operações de redesconto é
uma forma de influenciar a atuação dos bancos, ou seja, é um instrumento de política monetária.

Se o Banco Central aumenta a taxa de redesconto,
os bancos devem atuar mais comedidamente
na concessão de crédito, porque pagarão
mais caro para obter reservas bancárias, caso necessitem.
Por outro lado, quando reduz a taxa de
redesconto, o Banco Central está sinalizando que
os bancos podem aumentar os empréstimos concedidos
a seus clientes.

REDUÇÃO DA TAXA DE REDESCONTOEXPANSÃO DO CRÉDITO BANCÁRIO
REDUÇÃO DA TAXA DE JUROS
AUMENTO DA LIQUIDEZ

Operações de mercado aberto (ou open market)

O instrumento de política monetária mais utilizado são as operações
de mercado aberto, através das quais o Banco Central compra ou vende
títulos da dívida pública para os bancos com o objetivo de, respectivamente,
aumentar ou reduzir a liquidez do mercado interbancário.

RESUMO

O interbancário, como mencionado antes, é o mercado onde os bancos negociam
reservas bancárias entre eles, e em que o Banco Central atua comprando (vendendo)
títulos do TN para aumentar (diminuir) o saldo de reservas bancárias e, com isso,
influindo na taxa de juros desse mercado (basicamente, a taxa Selic).

Quando a demanda por reservas bancárias é maior que a oferta, a taxa
Selic tende a se elevar acima da meta. Nesse momento, o Banco Central
pode comprar títulos que estejam em poder dos bancos, o que provoca
uma imediata elevação do saldo de reservas bancárias e, portanto, uma
tendência à queda da taxa Selic em direção à meta. Por outro lado, se é
identificado um excesso de liquidez no mercado de reservas bancárias —
o que pode fazer com que a taxa Selic praticada fique abaixo da meta —, o
Banco Central vende títulos da dívida pública para os bancos, reduzindo,
dessa maneira, as reservas bancárias disponíveis para os bancos.

BANCO CENTRAL COMPRA TÍTULOS DO TN EM PODER DOS BANCOS
AUMENTAM AS RESERVAS BANCÁRIAS
AUMENTO DA LIQUIDEZ
DIMINUI A TAXA DE JUROS DO MERCADO DE RESERVAS BANCÁRIAS (TAXA SELIC)

Instrumentos diretos de política monetária

A eficácia da política monetária tem se mostrado reduzida desde a eclosão
da crise financeira em 2008. Nos EUA, por exemplo, a taxa de juros do mercado
de reservas bancárias — a chamada FED funds — foi reduzida para
0,25% ao ano, mas não se verificou uma elevação dos empréstimos bancários.
O banco central americano passou então a utilizar um novo instrumento,
não tradicional, chamado afrouxamento monetário (quantitative
easing). O Banco da Inglaterra e, em menor medida, o Banco Europeu, têm
adotado mecanismo semelhante. Em todos esses países, nem mesmo esses
instrumentos de intervenção direta surtiram os efeitos desejados.

Também no Brasil o governo adotou políticas monetárias não
convencionais como forma de enfrentar a crise. Em particular, foram

CONCEITO

Afrouxamento monetário

É um programa de compras de ativos
que, entre setembro de 2008 e fevereiro
de 2013, elevou o saldo de reservas
bancárias (cerca de US$40 bilhões),
que vinha sendo mantido nesse nível
durante muitos anos, para mais de
US$2 trilhões. O Banco da Inglaterra
e, em menor medida, o Banco Europeu,
têm adotado mecanismo semelhante.
Em todos esses países, nem mesmo esses
instrumentos de intervenção direta
surtiram os efeitos desejados.

 

usados os bancos públicos — Banco do Brasil, Caixa Econômica e Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social — para incrementar os empréstimos bancários, o que
forçou os bancos privados a seguirem o exemplo, para não perderem mercado. Consequentemente,
contrastando com a experiência de outros países, foi registrado forte crescimento
do crédito — entre 2008 e 2012, o saldo dos empréstimos bancários como proporção do PIB
elevou-se de 40,5% para 53,8%.

Política monetária e preço de ativosDesde a crise financeira de 2007-2008, tem aumentado a preocupação dos economistas com as
oscilações dos preços dos ativos em geral. Quando o Banco Central mantém por muito tempo uma
política monetária expansionista, por exemplo, para incentivar o crescimento econômico, a taxa de ju-
ros dos ativos financeiros de renda fixa torna-os pouco atraentes para os investidores, que passam a
preferir assumir riscos adquirindo ativos de renda variável (tipicamente ações de empresas) e também
imóveis residenciais e comerciais. Tem lugar, portanto, uma inflação de ativos, isto é, uma elevação do
valor das ações (mercado de capitais) e dos imóveis (mercado imobiliário). O aumento excessivo dos
valores praticados nesses dois mercados pode configurar a formação de uma bolha especulativa, que
pode ser definida como uma elevação anormal (ou, como preferem alguns economistas, irracional) do
preço de um ativo. A capacidade do Banco Central de atuar nessa situação tem sido muito discutida:
se o Banco Central não intervém furando a bolha (isto é, aumentando a taxa de juros), pode levar a
uma contaminação da inflação de ativos para o resto da Economia; por outro lado, se fura a bolha, pode
ocasionar uma súbita reversão dos preços e, portanto, precipitar uma crise financeira.

Política cambial

Política cambial pode ser definida como o conjunto de medidas governamentais visando
influenciar o comportamento da taxa de câmbio, isto é, o preço da moeda nacional
em relação às moedas estrangeiras mais utilizadas no comércio internacional — no
caso do Brasil, o dólar americano.

ATENÇÃO

A política cambial inclui a escolha, pelo governo, da forma como é determinada a taxa de câmbio oficial
— se a taxa de câmbio é fixada pelo governo ou livremente pelo mercado, ou uma solução intermediária.

A taxa de câmbio nominal é o valor da moeda nacional medido em outra moeda. No
Brasil, a taxa de câmbio nominal divulgada diariamente pelo Banco Central é a relação do
real com o dólar americano.

EXEMPLO

Por exemplo, em 17 de março de 2014, a cotação do dólar no mercado doméstico de câmbio no fechamento
do dia era de R$2,3513 (compra) e de R$2,3528 (venda). Quando a moeda nacional se desvaloriza,
ou seja, quando se verifica uma subida no câmbio, o valor da moeda de referência medido em moeda na

 

cional aumenta. Assim, se o valor do dólar passa de R$2,00 para R$2,20, diz-se que
o real se desvalorizou (neste caso, em 10%). Por outro lado, se a cotação do dólar
diminui, diz-se que há uma valorização do real.

Em países que não emitem moeda de ampla aceitação internacional, a
taxa de câmbio é uma variável fundamental. Esses países têm uma restrição
externa: para adquirir bens e serviços no exterior, necessitam de moeda
forte (dólares, euros, ienes etc.). Um país como o Brasil não pode gastar
mais moeda estrangeira do que recebe com suas exportações, ou seja, não
pode manter um balanço comercial deficitário por períodos prolongados.

Regimes cambiais: vantagens e desvantagens

Por regime (ou padrão) cambial entende-se a forma como é determinada
a taxa de câmbio: taxas de câmbio flutuantes, taxa de câmbio fixa ou taxa
de câmbio administrada. Cada um desses regimes tem suas vantagens
e desvantagens, e os economistas se dividem quanto à melhor opção.

Taxa de câmbio fixa

Em um extremo, temos o sistema de taxa de câmbio fixa, em que o governo
se compromete a comprar e vender dólar a um valor por ele pré
-estabelecido, o qual deve permanecer constante por longos períodos.
Ao longo da história, foi o regime cambial mais utilizado.

O Sistema de Bretton-Woods (taxa fixa) foi dissolvido em 1971,
quando os EUA abandonaram a conversibilidade do ouro com dólar.
Desde então, os países centrais adotam, oficialmente, o regime de
taxas de câmbio flutuantes.

REFLEXÃO

Nos anos 1980 e 1990, muitos países emergentes seguiram um regime de taxas de
câmbio fixas, ou quase fixas. A Argentina foi um exemplo clássico, tendo adotado,
entre 1989 e 2002, a conversibilidade do peso em relação ao dólar, mantendo fixa a
paridade de um dólar igual a um peso. O Brasil, na primeira fase do Plano Real, estabeleceu
um regime cambial que mantinha o dólar dentro de uma variação estreita (a
chamada banda cambial) e, nesse sentido, seu regime cambial possuía as vantagens
e desvantagens atribuídas a um regime de taxa de câmbio fixa.

Para países com histórico de taxas de inflação elevadas, a fixação da
taxa de câmbio contribui para o combate à inflação e, por essa razão,
é considerada uma âncora cambial. De fato, a estabilidade da taxa de
câmbio pode realmente ajudar a debelar a inflação.

COMENTÁRIO

Balanço comercial

No capítulo anterior, através do caso
hipotético III sobre o Balanço de Pagamentos,
vimos que, se déficits comerciais
não forem financiados pela
Conta de Capital e Financeira, haverá
perda de reservas internacionais.

COMENTÁRIO

Ao longo da história

Até o início da década de 1930, quando
se iniciou a Grande Depressão, a
maioria dos países (inclusive o Brasil)
adotava o padrão-ouro: a emissão de
moeda estava lastreada em ouro e
a taxa de câmbio era fixa. Os países
desenvolvidos voltaram a adotar um
regime de taxa de câmbio fixa a partir
do fim da Segunda Guerra Mundial (o
chamado Sistema de Bretton-Woods),
que admitia que a taxa de câmbio, em
determinadas situações, pudesse ser
alterada pontualmente.

 

EXEMPLO

Suponhamos que o governo fixe o valor do dólar em R$2,00 (desconsiderando impostos e tarifas). Se um
produto custa US$1,00, ele poderá ser importado por R$2,00. Como a inflação nos EUA é muito baixa,
daqui a um ano esse produto poderá estar custando o mesmo em dólar. Se a taxa de câmbio permanecer
US$1,00 = R$2,00, o produto continuará sendo importado pelos mesmos R$2,00, e ninguém conseguirá
vender tal produto acima desse valor no país. Note-se que, para que esse raciocínio faça sentido, é preciso
que haja plena liberdade de importação (abertura comercial).

Entretanto, a escolha do regime cambial influencia as decisões sobre política monetária.
A adoção de um regime de taxa de câmbio fixa tende a restringir a capacidade do governo
de gerir a taxa de juros e seus gastos com o objetivo de estimular a atividade econômica.

Suponhamos que o valor da moeda americana seja fixado em R$2,00. Neste caso, o
Banco Central assume o compromisso de comprar qualquer quantidade de dólar por esse
valor. Se ocorre uma crise financeira internacional, as condições do mercado cambial se
deterioram, porque nesses momentos os investidores estrangeiros procuram retirar seus
recursos do país; para isso, compram dólares no mercado de câmbio, levando a uma tendência
à valorização da moeda americana.

REFLEXÃO

Para impedir que o valor do dólar suba, o Banco Central seria então forçado a vender dólares, sempre a
R$2,00. A capacidade do banco central brasileiro de vender dólares está limitada à quantidade de divisas
acumuladas (ou seja, das reservas internacionais).

Na medida em que vende dólares, as reservas internacionais diminuem, o que provavelmente
levará os investidores a demandarem ainda mais dólares. Nessa situação, o Banco
Central se vê obrigado a praticar uma política monetária contracionista, elevando a taxa
de juros, com o objetivo de atrair dólares do exterior e de tentar convencer os investidores
estrangeiros a manterem seus dólares no país.

Nesse exemplo, a elevação da taxa de juros não estaria explicada por uma percepção de
que haveria algum tipo de pressão inflacionária, mas sim com o objetivo de manter a paridade
cambial pré-estabelecida. Pelo mesmo raciocínio, o BC não poderia reduzir a taxa de
juros para estimular a atividade econômica, se entendesse que essa redução levaria a uma
pressão sobre a taxa de câmbio.

RESUMO

A elevação da taxa de juros visando manter o equilíbrio do mercado cambial acaba refletindo também
na política fiscal. O aumento dos juros, como vimos, provoca uma elevação do déficit nominal. Para
mostrar aos investidores sua capacidade de honrar o pagamento dos juros da dívida pública, o governo
se veria forçado a praticar uma política fiscal contracionista, independentemente da situação em que
se encontrasse a Economia.

 

Portanto, uma grande desvantagem do regime de taxa de câmbio
fixa é quando ocorre uma crise internacional, como as que ocorreram
no México (1994-1995), na Ásia (1997) e na Rússia (1998), quando se verificou
uma fuga de capitais, ou seja, os investidores estrangeiros retiram
seus dólares de países como o Brasil.

A fixação da taxa de câmbio pode também ser considerada prejudicial
por outro motivo. No exemplo citado anteriormente, um determinado
produto não pode custar mais de R$2,00 no Brasil. Mas e se nenhum
produtor nacional puder produzir tal produto por esse valor? Nesse
caso, o concorrente externo poderá eliminar o produtor brasileiro, o que
geraria desemprego entre nós.

Taxas de câmbio flutuantes

Muitos economistas acreditam que, em um regime de taxa de câmbio
flutuante, a taxa de câmbio praticada pelo mercado será aquela que promoverá
o equilíbrio das contas externas. Se houver déficit nas transações
correntes, a moeda nacional irá se desvalorizar (o valor do dólar vai
aumentar) porque haverá menos dólares disponíveis no mercado cambial
(ver capítulo 4). Consequentemente, as exportações aumentarão e
as importações cairão, restabelecendo-se assim o equilíbrio. A grande
desvantagem é que a desvalorização poderá ter efeitos inflacionários,
porque encarecerá os preços dos produtos importados.

EXEMPLO

A desvalorização da moeda aumenta a competitividade dos produtores nacionais.
Suponhamos que uma empresa brasileira possa produzir um determinado produto
por R$10,00, e que o preço internacional deste produto seja US$5,00. Se a taxa de
câmbio for US$1,00 = R$2,00, este produtor não terá lucro ao exportar. Entretanto,
se o real se desvalorizar para US$1,00 = R$4,00, o produtor receberá R$20,00 pelo
produto exportado. Alternativamente, poderá se tornar mais competitivo ao oferecer
o produto por US$4,00, e ainda assim obter lucro.

No caso contrário, ou seja, de que um superávit das contas externas
promova uma valorização cambial (o preço do dólar cai), a vantagem será
uma redução na pressão sobre a inflação; entretanto, a valorização significará
uma redução das exportações, menor nível da atividade econômica.

Uma vantagem adicional do regime de taxa de câmbio flutuante é que
ele oferece ao Banco Central a oportunidade de executar políticas monetárias
visando, exclusivamente, reduzir as flutuações econômicas, sem se importar
com nenhuma meta cambial; assim, quando ocorre uma crise financeira
internacional que provoca saída de divisas e, portanto, desvalorização
da moeda nacional, o Banco Central não é obrigado a elevar a taxa de juros.

COMENTÁRIO

Países como o Brasil

Por ocasião das crises acima mencionadas,
a taxa de juros do mercado de
reservas bancárias no Brasil chegou a
alcançar 50% ao ano, em uma época
em que a inflação era muito baixa, o
que contribuiu para reduzir o ritmo da
atividade econômica.

 

EXEMPLO

Por exemplo, por ocasião da crise financeira de 2008, diferentemente do que ocorreu nas crises verificadas
na década de 1990, o Banco Central pôde atuar de maneira a reduzir os impactos negativos da crise
internacional sobre o nível da atividade econômica no Brasil, o que não teria sido possível caso tivesse
como missão a manutenção de uma taxa de câmbio predeterminada.

Nos períodos de crise internacional a desvalorização não necessariamente representa
uma ameaça às metas de inflação, porque a atividade econômica tende a se contrair.

Taxa de câmbio administrada

Em nenhum país as autoridades monetárias deixam de atuar para evitar flutuações consideradas
excessivas na taxa de câmbio. Nesse sentido, embora o regime cambial seja, em tese, o de
taxa de câmbio flutuante, na prática, o regime cambial é de taxa de câmbio administrada (também
chamado de flutuação suja). Quando considera necessário, o Banco Central adota medidas
visando influenciar o comportamento do mercado de câmbio, que é onde são realizadas as
operações de compra e venda de moeda estrangeira (dólares, euros, ienes, libras esterlinas etc.).

REFLEXÃO

Se as autoridades consideram que o câmbio está desvalorizado, ou seja, que o valor do dólar está acima do
que seria ideal — o que poderia estar dificultando o combate à inflação —, o Banco Central pode atuar no
sentido de induzir uma redução da cotação do dólar no mercado de câmbio.

O Banco Central pode intervir diretamente, vendendo dólares de suas reservas internacionais,
aumentando assim a oferta de dólares no mercado, o que tende a resultar em queda
do valor do dólar. O impacto sobre as reservas bancárias da venda de dólares pelo Banco
Central será idêntico ao da venda de títulos públicos em uma operação de mercado aberto,
isto é, reduzirá o saldo de reservas bancárias.

A política monetária também influencia o comportamento do mercado de câmbio. Por
exemplo, quando o Banco Central pratica uma política monetária contracionista, elevando a
taxa de juros, aumenta o número de investidores estrangeiros interessados em aplicar dinheiro
em títulos públicos no Brasil, e diminui o interesse dos investidores brasileiros em aplicar seus
recursos no exterior. Por outro lado, aumenta o interesse de bancos e empresas sediados no
Brasil em tomar dinheiro emprestado no exterior e aplicá-los no Brasil (é o chamado ganho de
arbitragem). Com isso, aumenta a entrada de moeda estrangeira no Brasil e, portanto, a liquidez
no mercado de câmbio, provocando pressão pela valorização da moeda nacional.

ATENÇÃO

Se o Banco Central não intervém no mercado de câmbio comprando o excesso de dólares, o preço da
moeda americana, de fato, se reduz. Como vimos, essa redução (que significa a valorização do real) contribui
para reduzir o preço dos produtos importados e, portanto, a taxa de inflação. Mas, por outro lado,

 

incentiva o aumento das importações e diminui a capacidade de exportação das
empresas brasileiras, o que tende a levar a uma deterioração da balança comercial.

Portanto, outra forma de tentar evitar desvalorizações cambiais é
elevar a taxa de juros, atraindo recursos (dólares) para serem investidos
no país em títulos da dívida pública. Por ocasião das crises do México
(1995) e da Ásia (1997), o Banco Central elevou a taxa Selic para cerca de
45% ao ano, para evitar a desvalorização do real (veja novamente o gráfico
contido na seção “taxa Selic”).

POLÍTICA MONETÁRIARESTRITIVAAUMENTO DA TAXA DE JUROSQUEDA DO VALOR DO DÓLARVALORIZAÇÃO DO REALQUEDA NO PREÇO
DOS PRODUTOS IMPORTADOSMENOR PRESSÃOINFLACIONÁRIAVALORIZAÇÃO DO REALAUMENTO DAS IMPORTAÇÕESE DIMINUIÇÃO DAS EXPORTAÇÕESDETERIORAÇÃO DA
BALANÇA COMERCIAL

Acumulação de reservas internacionais:
vantagens e desvantagens

Desde que abandonou o regime de âncora cambial, no início de 1999, o
Banco Central deixou de ter a obrigação de acumular reservas internacionais,
já que, com a adoção do regime de livre flutuação cambial, não
teria mais razão, em tese, para intervir no mercado de câmbio.

REFLEXÃO

Nos últimos anos, o Brasil, assim como diversos países emergentes, acumulou reservas
internacionais em ritmo acelerado. Parte desse acúmulo foi proposital: manter
um elevado saldo de moeda estrangeira representa uma proteção na eventualidade
de uma crise financeira internacional.

Brasil: Reservas Internacionais e Dívida Externa

Saldos em fim de período (em US$ bilhões)

Ano

Reservas Internacionais

Dívida Externa Bruta

2002

37,8

227,7

2004

52,9

220,2

2006

85,8

199,4

2008

193,8

262,9

2010

288,6

351,9

 

 

Fonte: Banco Central do Brasil

COMENTÁRIO

Atraindo recursos

Exemplificando, um investidor pode
tomar um empréstimo no exterior pagando
5% de juros e aplicá-los no país
recebendo 10% — são os chamados
ganhos de arbitragem. Se não houver
desvalorização superior a 5%, o investidor
obterá lucro.

 

A crise de 2008-2009, embora considerada a mais grave desde a de
1929, não afetou tão profundamente os países emergentes por essa razão,
em contraste com o que ocorrera por ocasião das crises de menor
intensidade dos anos 1990 (México, Ásia e Rússia).

Entretanto, parte do acúmulo de reservas se deve à política cambial
dos governos (por exemplo, do Brasil e da China), que adquiriram reservas
para impedir uma valorização excessiva de suas moedas.

ATENÇÃO

A manutenção de elevados níveis de reservas internacionais representa um custo financeiro
para o governo. Ao adquirir dólares, o BC emite reservas bancárias, aumentando
a liquidez do mercado monetário. Para impedir que esse aumento de liquidez
acarrete uma diminuição da taxa Selic, o BC vende títulos do TN, aumentando assim
a dívida pública. O governo paga juros da dívida em volume superior ao que recebe,
aplicando os dólares que compra. O custo de manutenção das reservas internacionais
é, portanto, maior quanto mais elevada for a taxa de juros dos títulos da dívida pública.

Política de comércio exterior

Como vimos, as alterações na taxa de câmbio, embora visem primordialmente
equilibrar as contas externas, tendem a trazer repercussões sobre
outras variáveis. Assim, para obter resultados desejados em relação à
balança comercial, os governos tradicionalmente adotam políticas para
incentivar as exportações e reduzir as importações, independentemente
das variações que venham a ocorrer na taxa de câmbio.

No Brasil, tais medidas incluem a concessão de financiamentos
subsidiados através dos bancos oficiais e de incentivos fiscais. Tais
medidas devem ser entendidas como parte da política industrial, isto
é, no contexto da discussão mais geral sobre desenvolvimento econômico,
como destacado no capítulo 6.

Política Fiscal

No capítulo 4, vimos como os gastos do governo e a arrecadação de
impostos influenciam a demanda agregada e a renda. Esta seção
apresenta uma breve discussão sobre política fiscal e sua relação com
as políticas monetária e cambial.

COMENTÁRIO

Importações

Do lado das importações, o governo
pode impor barreiras protecionistas
através da elevação das alíquotas e do
estabelecimento de quotas para limitar
a importação de determinados produtos.

 

Definição e objetivos

A política fiscal é realizada pelo governo ao administrar seus gastos e ao
decidir como vai financiar tais gastos. Idealmente, nos períodos em que
a Economia está se expandindo de maneira sustentável, o governo deve
cobrir seus gastos através da cobrança de impostos e tarifas.

ATENÇÃO

Quando o total de gastos é igual ao da receita com impostos, temos um orçamento
equilibrado. Entretanto, quando a receita supera os gastos, temos superávit orçamentário.
Quando as despesas do governo superam suas receitas (quando há déficit público
ou orçamentário), a diferença pode ser financiada através do lançamento de títulos
de dívida. Pode ainda financiar seus gastos emitindo títulos de dívida. Por fim, pode simplesmente
emitir dinheiro, prática muito comum ao longo da história. Desde a Constituição
de 1988, o Banco Central do Brasil está proibido de financiar diretamente o governo.

O aumento dos gastos do governo contribui para elevar a demanda
agregada da Economia e, portanto, representa um estímulo à atividade
econômica. O corte (a contenção) dos gastos, por sua vez, acarreta efeito
oposto, reduzindo a demanda agregada.

O uso da política fiscal como instrumento de administração do
nível da atividade econômica é aconselhado principalmente por economistas
keynesianos, que advogam a ideia de que, em momentos de
crise econômica e aumento do desemprego, o governo deve lançar
mão dos gastos públicos como maneira de compensar a redução dos
investimentos privados.

Déficit primário e déficit nominal

Como mencionado no capítulo anterior, a expressão déficit público compreende
dois conceitos. O primeiro é o de déficit primário, que se verifica
quando a arrecadação do governo através da cobrança de impostos
e contribuições não é suficiente para cobrir seus gastos correntes (no
pagamento dos salários dos seus funcionários, nos gastos com obras
públicas, manutenção de escolas e hospitais etc.).

ATENÇÃO

Como o governo não deve mais emitir dinheiro, ele só pode gastar mais do que arrecada,
se endividando.

Para isso, o governo emite títulos de dívida, que são comprados por investidores
institucionais, bancos etc., e que gera a dívida pública. O governo

COMENTÁRIO

Investidores

No Brasil, a aquisição de títulos públicos
está disponível também para pessoas
físicas, através do Tesouro Direto.

 

paga juros por essa dívida (os famosos juros da dívida pública), sendo que o
total pago de juros é fortemente influenciado pela taxa de juros dos títulos da
dívida pública. Esta, por sua vez, está em grande parte vinculada à taxa Selic.

O somatório do déficit primário com o total pago dos juros da dívida
pública é o déficit nominal. Nas estatísticas do governo, este déficit é
chamado de necessidade de financiamento do setor público (NFSP). Parte
do crescimento da dívida mobiliária da União tem sido causada pela necessidade
de rolagem da dívida pública, ou seja, o governo precisa de
recursos para pagar os juros da dívida.

Exemplificando, a tabela a seguir mostra que, em 2011 e 2012, o governo
obteve superávits primários equivalentes a 3,1% e 2,4% do PIB, respectivamente.
Entretanto, o custo de rolagem da dívida — os juros da dívida
— foram superiores a esses superávits, levando a um déficit nominal.

Brasil: Necessidades de Financiamento do Setor Público

Discriminação

2011

2012

R$ bilhões

% PIB

R$ bilhões

% PIB

Primário

-128,7

-3,1

-105,0

-2,4

Juros

236,7

5,7

213,9

4,8

Nominal

108,0

2,6

108,9

2,4

 

 

Fonte: Banco Central do Brasil

Dívida bruta e dívida líquida

O financiamento do déficit nominal se dá, portanto, através da colocação
de mais títulos públicos no mercado, elevando, dessa maneira, a dívida
pública. A dívida pública pode ser mensurada de diversas maneiras.

A tabela a seguir apresenta três tipos de dados: a dívida pública bruta,
que inclui a dívida interna e externa; a dívida pública líquida, que é igual
à dívida bruta menos os créditos do governo, o que inclui as reservas internacionais
do Banco Central; e o saldo total dos títulos do governo em
poder do mercado, que é a dívida mobiliária.

Brasil: Dívida pública (em % do PIB)

2010

2011

2012

Dívida líquida do Setor Público

-128,7

-3,1

-105,0

Dívida pública mobiliária do
Governo Federal

236,7

5,7

213,9

Dívida bruta do Governo Geral

108,0

2,6

108,9

 

 

Fonte: Banco Central do Brasil, Relatório Anual

COMENTÁRIO

Superávits primários

O montante de recursos obtidos com o
superávit primário reduz a necessidade
de financiamento do governo; por isso,
aparece com sinal negativo na tabela.

 

É importante notar que o comportamento da taxa de câmbio pode afetar a situação das
contas públicas. Uma desvalorização do câmbio, por exemplo, impacta negativamente nas
contas do governo ao elevar o valor dos títulos da dívida pública indexados ao dólar, ou à
outra moeda estrangeira. Todavia, a desvalorização aumenta o valor das reservas internacionais
medido em reais, reduzindo, assim, o saldo da dívida líquida do setor público.

O fato de o Brasil ter registrado expressivo crescimento de suas reservas internacionais
nos últimos anos e, desde 2011, a moeda nacional ter se desvalorizado, tem contribuído
para a redução da dívida líquida, embora a dívida mobiliária, isto é, o saldo total de títulos
do governo em poder do público, tenha se elevado.

Determinação da taxa de juros, déficits e dívida públicaHaveria uma relação entre a dívida pública e a taxa de juros dos títulos do governo? Este é um
tema que tem sido muito debatido no Brasil desde os anos 1980, e mais recentemente a partir da
chamada crise do Euro. Alguns economistas afirmam que quando a dívida pública é considerada
elevada, os agentes econômicos desconfiam da capacidade do governo de honrar seus compro-
missos financeiros, e por isso exigem um prêmio de risco, ou seja, juros mais altos para compen-
sá-los pelo risco de calote do governo. A solução seria o governo cortar seus gastos para produzir
um superávit nominal, para, aos poucos, ir reduzindo o saldo da dívida pública.
Outros economistas argumentam não haver uma relação direta entre a dívida e os juros. No caso do
Brasil, por exemplo, nossa situação fiscal não seria pior que a de outros países onde a taxa de juros
é consideravelmente mais baixa. No Brasil, a política adequada seria reduzir a taxa de juros, o que
naturalmente reduziria a NFSP e permitiria maior crescimento econômico. O aumento da atividade
econômica eleva a capacidade de arrecadação de impostos e reduz a relação dívida/PIB. Nos países
da periferia europeia mais afetados pela crise, como Grécia, Espanha e Portugal, a solução incluiria
um aumento dos gastos públicos para permitir o crescimento econômico no curto prazo.

ATIVIDADE

Quer explorar o assunto visto neste capítulo? Recomendamos uma visita ao site do Banco Central do
Brasil, em especial nas seções:

• Glossário

• O que é o COPOM

• Perguntas frequentes

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FEIJÓ, Carmem (et al.). Para entender a conjuntura econômica. Capítulos 7 e 8. Barueri, São Paulo: Manole, 2008.

 

Noções sobre
Crescimento e
Desenvolvimento
Econômico

6

marcos tostes lamonica

 

Noções sobre Crescimento e
Desenvolvimento Econômico

6

Como vimos no capítulo 4, sobre Macroeconomia, o estudo do crescimento
e do desenvolvimento econômico é feito em termos agregados.
Enquanto os capítulos 4 e 5 são dedicados à interpretação macroeconômica
de curto prazo, este capítulo se ocupa do longo prazo.

Neste capítulo aprenderemos noções sobre o crescimento e o desenvolvimento,
que envolvem estratégias de longo prazo para que o
desempenho de ambos seja consistente e duradouro. Ao possuir tais
noções, seremos capazes de intuir sobre as causas das diferenças de
renda e de nível de desenvolvimento entre as nações e sobre a existência
de disparidades na distribuição de renda e riqueza.

Na Economia, crescimento e desenvolvimento não têm o mesmo significado,
embora um possa estar sempre associado ao outro.

ATENÇÃO

Crescimento econômico é o aumento contínuo da renda ou PIB, em termos absolutos,
descontada a inflação, e per capita, ao longo do tempo. Já o conceito de
desenvolvimento econômico, é mais amplo: é o aumento contínuo do bem-estar.

O desenvolvimento leva em conta as alterações da composição do
produto e da alocação dos recursos pelos diferentes setores da economia,
de forma a melhorar o bem-estar econômico e social. Ou seja,
além dos indicadores econômicos de curto prazo, ele inclui também
indicadores sociais, tais como os níveis de pobreza, desigualdade e
indicadores de qualidade de vida, como acesso a serviços de saúde e
educação, moradia decente etc.

Agora vamos nos aprofundar um pouco mais sobre essa distinção
entre crescimento, desenvolvimento e as variáveis que contribuem
para o aumento da riqueza e da melhoria da qualidade de vida dos
habitantes de uma nação.

Crescimento econômico versus desenvolvimento
econômico

No campo da Economia, o crescimento e o desenvolvimento econômico
podem aparecer frequentemente associados, mas ambos têm
significados e implicações diferentes. Por exemplo, pode haver crescimento
econômico sem, necessariamente, ocorrer o desenvolvimento.

COMENTÁRIO

Disparidades

Uma pequena parcela da população vivendo
realmente muito bem, e a maioria
com níveis de renda bem abaixo do
nível de renda média.

 

Nesse caso, o crescimento estaria ocorrendo, mas sem promover mudanças nos processos
de produção e na distribuição da renda que levassem a uma maior inclusão social e
redução das desigualdades de renda e riqueza.

REFLEXÃO

O inverso é menos comum, mas também pode ocorrer, ou seja, uma Economia que promova melhoria no
bem-estar da população sem, contudo, apresentar evolução positiva nos indicadores de crescimento. Neste
caso, a riqueza acumulada estaria sendo mais bem distribuída, sem que a riqueza futura esteja aumentando.

É claro que o ideal seria que os dois movimentos ocorressem na mesma direção: crescimento
de curto prazo associado à melhoria na alocação de recursos, que leve a uma melhoria
na distribuição de renda e riqueza, e, mais ainda, que este processo seja cumulativo, ou
seja, mais crescimento gerando mais desenvolvimento.

Assim, podemos entender que o crescimento econômico ocorre através do aumento
contínuo do Produto Interno Bruto (PIB) em termos absolutos, descontada a inflação, ou
por habitante (per capita), ao longo do tempo. Já o desenvolvimento econômico refere-se a
um estágio econômico, social e político da sociedade, representado, dentre outros indicadores,
pelo nível de produtividade (produto por trabalhador), pela evolução da distribuição
de renda, pelo nível de escolaridade etc. Vejamos a seguir como os economistas interpretam
distintamente o crescimento e o desenvolvimento econômico.

Crescimento econômico de longo prazo

Diferentemente dos dois capítulos anteriores, a interpretação do desempenho econômico
ao longo de muitos anos, por exemplo, 10, 20, 50 anos, nos mostra que as flutuações da produção
e do emprego que ocorrem no curto prazo perdem sua importância relativa.

ATENÇÃO

É o crescimento econômico que se sobressai, isto é, o aumento contínuo da produção real nacional, em
termos absolutos e per capita, ao longo do tempo.

Agora, podemos nos perguntar: o que explica o crescimento da produção no longo prazo?
A teoria econômica inicia essa explicação apresentando uma função de produção agregada,
que pode ser representada da seguinte forma:

FÓRMULA

Y = f(K, L, T)

K – estoque de capital

L – quantidade de mão de obra

T – conhecimento tecnológico disponível

 

 

 

O estoque de capital representa a capacidade produtiva de uma
Economia, isto é, a quantidade de bens e serviços que ela pode produzir
a cada período de tempo. A variação do estoque de capital é
determinada pelo fluxo de investimento, ou seja, para se acumular
capital (para o estoque de capital de uma Economia aumentar) é preciso
investir.

Paralelamente, a força de trabalho é determinada pelo crescimento
da população. Quanto maior a população, maior a força de trabalho. O
nível de conhecimento tecnológico disponível depende de todo progresso
técnico disponível até os dias de hoje. No entanto, quanto mais nos
dedicarmos à pesquisa científica, mais rápido surgirão novas tecnologias
que, empregadas na produção, irão aumentar a quantidade de produto
final por fator adicionado.

ATENÇÃO

Assim, quanto maior for o volume de capital e trabalho que uma Economia possuir, e
quanto mais rápido se der o desenvolvimento do progresso tecnológico que a mesma
possa empregar na produção ao longo do tempo, tanto maior será o crescimento
da produção e, consequentemente, da renda e da renda per capita.

Contudo, é fundamental que tanto as firmas quanto o governo saibam
planejar os acréscimos de capital e trabalho na Economia, bem
como estimular o progresso técnico, para que o crescimento seja contínuo.
O planejamento do crescimento em longo prazo evita desequilíbrios
no emprego dos fatores de produção, bem como a redução do
crescimento (ou decrescimento, ou estagnação).

REFLEXÃO

Já sabemos que o crescimento econômico a longo prazo ocorre devido ao aumento
contínuo dos fatores de produção: capital, trabalho e tecnologia. Agora, vamos entender
um pouco mais sobre esses fatores de produção.

Acumulação de Capital (K)

A acumulação de capital físico, assim como a mão de obra, é essencial
para o crescimento. A acumulação de capital representa adições de capital
físico ao estoque de capital, fazendo com que este aumente. Assim,
a acumulação de plantas industriais, de obras de infraestrutura (tais
como em estradas e energia elétrica), do investimento em recursos humanos,
e a melhor preparação de mão de obra, entre outros, irão contribuir
para um crescimento econômico consistente e duradouro.

COMENTÁRIO

Fluxo de investimento

Como visto no capítulo 4, o investimento
a cada período é um dos componentes
da demanda agregada da Economia.
Como componente da demanda,
explica em grande parte a flutuação
na produção no curto prazo. Mas, em
longo prazo, ou seja, quando o fluxo
de investimento novo é incorporado ao
estoque de capital já existente, o investimento
torna-se acréscimo de capacidade
de produção. Ou seja, em longo
prazo, o investimento vai influenciar a
produção pelo lado da oferta.

COMENTÁRIO

Novas tecnologias

Repare que o principal atributo da nova
tecnologia é o aumento da produtividade
agregada (produto por trabalhador
mais produto por capital).

COMENTÁRIO

Estoque de capital

O estoque de capital físico é formado
pela existência de máquinas, equipamentos,
instrumentos e edificações.

 

A qualificação da mão de obra pode ser atribuída à acumulação de
capital humano, que conjuntamente com a acumulação de capital físico,
é indispensável ao crescimento econômico.

Crescimento da força de trabalho (L)

O crescimento da força de trabalho é dado pelo crescimento populacional.
Se, por um lado, a força de trabalho cresce à medida que a população
aumenta, por outro, o consumo agregado também, implicando uma
maior demanda por bens e serviços.

REFLEXÃO

Uma medida para saber o quanto a população contribui para a geração de riqueza é
o produto por habitante (per capita), que é a relação entre o Produto Interno Bruto
(PIB) e o total de habitantes a cada período de tempo.

Se, em um determinado período, a taxa de crescimento do PIB
for maior que a taxa de crescimento da população, o PIB per capita
crescerá. Isso significa que neste período a população ou, mais especificamente,
seus trabalhadores conseguiram produzir de forma
eficiente mais bens e serviços.

Portanto, nesses termos, para que a renda per capita suba, é preciso
que ocorra uma melhoria na qualidade da mão de obra (obtida através
da melhoria nos níveis educacionais, de treinamento e especialização),
melhoria tecnológica (através do aumento da eficiência na utilização do
estoque de capital) e eficiência organizacional (maximização na utilização
dos recursos disponíveis). (PASSOS e NOGAMI, 2003, p. 544).

Nível de desenvolvimento tecnológico (T)

O nível de desenvolvimento tecnológico é um conceito interpretado
pelos economistas como um estágio de progresso tecnológico, o qual
se expressa na modernidade do estoque de capital e na qualificação
da mão de obra.

O progresso tecnológico poderá ser considerado como neutro quando
não altera a relação entre trabalhadores e máquinas. Poderá ser poupador
de capital, quando o conhecimento técnico for empregado de forma a utilizar
mais trabalho que capital na produção, caso o capital seja o fator escasso.
E será poupador de trabalho quando o capital for o fator abundante.

Os países desenvolvidos têm uma taxa de crescimento da população
relativamente mais baixa, seus trabalhadores são mais instruídos
e os salários são mais altos. Isso faz com que os países desenvolvidos

COMENTÁRIO

Capital humano

O capital humano é o conjunto de conhecimentos
e habilidades que os trabalhadores
adquirem por meio da educação,
treinamento e experiência.

COMENTÁRIO

Taxa de crescimento do PIB

Inversamente, se a taxa de crescimento
do PIB for menor que a taxa de
crescimento da população, o produto
per capita reduzirá, representando uma
perda de eficiência na produção, ou
seja, mais habitantes produziram menos
bens e serviços.

COMENTÁRIO

Progresso tecnológico

É a tecnologia disponível, incorporada
aos fatores de produção, que permite
significativas mudanças de processos
e técnicas que resultam em uma produção
mais eficiente.

COMENTÁRIO

Poupador de capital

Segundo Gremaud (et al. 2006), os
países em desenvolvimento, como têm
o fator trabalho em abundância, devem
enfatizar um processo produtivo poupador
de capital, que é o fator escasso.
O contrário acontece nos países desenvolvidos
(op.cit., pág. 484).

 

se preocupem em investir mais recursos no desenvolvimento de máquinas e equipamentos,
do que em poupar mão de obra.

Crescimento de curto prazo e o equilíbrio macroeconômicoAs escolhas que governantes enfrentam ao estabelecer estratégias de crescimento e desenvolvi-
mento para suas economias, obviamente, não são simples. Se o crescimento econômico alcançado
por determinada Economia é compatível com sua capacidade produtiva, ou seja, se o padrão de
consumo de sua população pode ser adequadamente satisfeito pela sua estrutura produtiva, o país
em questão pode crescer sem incorrer em desequilíbrios, tanto externos quanto internos, como por
exemplo, excesso de endividamento público. No entanto, se um país apresenta baixa taxa de investi-
mento e decide acelerar seu crescimento, apoiado no crescimento do consumo privado ou no gasto
público, por exemplo, incorrerá, no médio prazo, em desequilíbrios orçamentários e, possivelmente, no
setor externo (como visto no capítulo 4), os quais acabarão interrompendo tal modo de crescimento.
Logo, o crescimento é macroeconomicamente sustentável quando não se incorre em desequilíbrios
progressivos (inflação, déficit público ou déficit externo).

Desenvolvimento econômico

O principal objetivo do desenvolvimento econômico é atender a uma demanda fundamental
das sociedades modernas, isto é, o bem-estar. Para tal, o sistema econômico e o governo
devem perseguir basicamente quatro objetivos para satisfazer a demanda por bem-estar de
uma sociedade, a saber: segurança, justiça social, liberdade e preservação do meio ambiente.

O desenvolvimento econômico vai além de um aumento na quantidade de bens e serviços
produzidos, em temos absolutos ou per capita, em um determinado período. Portanto,
na análise do desenvolvimento econômico, incluem-se as mudanças de caráter
quantitativo e qualitativo.

ATENÇÃO

De acordo com Gremaud (op.cit., 2006), para ocorrer o desenvolvimento econômico devemos observar se
o crescimento econômico que acontece ao longo do tempo está provendo:

a) crescimento do produto por habitante;

b) redução dos níveis de pobreza, desemprego e desigualdade social;

c) melhoria nas condições de vida, tais como: saúde, nutrição, educação, moradia e transporte.

Por essa razão, ressaltam Passos e Nogami (2003), o desenvolvimento econômico não
deve ser analisado ao tomar-se por base só os indicadores de crescimento econômico,
como a taxa de crescimento do PIB e do PIB per capita, mas por outros indicadores que
reflitam mudanças na qualidade de vida da população de uma Economia (op. cit., p. 545).

Em meados do século XX, muitos governos, inclusive latino-americanos, viam no desenvolvimento
econômico um processo de transformação da estrutura produtiva, como
um meio de superar o atraso histórico em que se encontravam os países subdesenvolvidos
e alcançar rapidamente o nível de bem-estar dos países considerados desenvolvidos.

 

Nesse processo, muitos países adotaram políticas que incentivavam o
avanço da industrialização como política de aumento de emprego e
renda, trazendo a reboque a melhoria da qualidade de vida.

O processo de desenvolvimento das nações não é recente, e, mesmo
assim, nem todos os países possuem nos dias de hoje um padrão de vida
comparado ao do europeu, norte-americano ou japonês. Assim, o estudo
sobre desenvolvimento econômico, no âmbito econômico e social, é
importante, haja vista as diferenças existentes entre as economias desenvolvidas
e as em desenvolvimento.

Os principais indicadores sociais: índice
de Gini e índice de desenvolvimento
humano (IDH)

Os índices de Gini e IDH são comumente utilizados para medir e avaliar
a evolução da qualidade de vida da população em função do crescimento
econômico. Avalia então, se o crescimento da produção, da riqueza
e da população está sendo acompanhado pelo desenvolvimento
econômico — isto é, da melhoria na qualidade de vida, melhor distribuição
de renda, entre outros, que são os indicadores mais utilizados
como instrumentos para essa avaliação.

RESUMO

O aumento da renda per capita não é, como já mencionado no capítulo 4, a melhor
tradução da melhoria do bem-estar da população. O índice de Gini mede o nível de
concentração de renda, e o IDH mede o nível de desenvolvimento.

Índice de Gini

O índice de Gini é o instrumento comumente utilizado para medir o
grau de concentração de renda de um país. Por meio dele, podemos
comparar os diferentes graus de concentração de renda entre países já
reconhecidamente ricos (Estados Unidos, Japão, Alemanha etc.), em
desenvolvimento (Brasil, Rússia, China etc.) e os reconhecidamente pobres
(Etiópia, Nigéria, El Salvador etc.).

O índice de Gini mostra a diferença entre a renda dos mais pobres
e dos mais ricos de um mesmo país e varia em uma escala de zero a
um. O valor zero representa a situação de igualdade, ou seja, todos
têm a mesma renda. O valor um está no extremo oposto, isto é, uma
só pessoa detém toda riqueza.

COMENTÁRIO

Avanço da industrialização

No pós-guerra, os vários países que
promoveram um processo de industrialização
acelerada como forma de
superar o atraso econômico e social
perseguiram estratégias diferentes.
Por exemplo, no Brasil, a industrialização
teve como foco maior atender o
mercado interno. Em países asiáticos,
como a Coreia do Sul, o processo de
industrialização teve como foco atender
à demanda externa.

COMENTÁRIO

Em desenvolvimento

São atualmente classificadas como
economias de renda baixa (que continuam
muito atrasadas em relação
às desenvolvidas) e as de renda média
(chamadas também de economias
emergentes, pois estão em vias de
convergir com as desenvolvidas).

COMENTÁRIO

Índice de Gini

Leva o nome de seu criador, o estatístico
italiano Corrado Gini (1884-1965),
e foi desenvolvido com o objetivo de
medir a desigualdade de renda em uma
sociedade. Gini também realizou importantes
trabalhos no campo da Demografia
e da Sociologia.

 

Dessa forma, quanto mais próximo de zero menor será a concentração de renda e desigualdade.
E quanto mais próximo da unidade, maior será a concentração de renda, mostrando
que tal país tem uma desigualdade de renda muito elevada. Quando um país se encontra
nesta última situação, a maior parte da população recebe a menor parte da renda.

REFLEXÃO

Países com uma alta concentração de renda têm uma classe média reduzida e salários médios muito baixos.
É amplamente reconhecido que países com uma desigualdade de renda muito alta são considerados
países pobres, menos desenvolvidos.

O índice de Gini é uma medida utilizada para orientar a elaboração de políticas públicas,
mostrando em quais extratos de renda está a fração da população que precisa receber subsídios,
políticas de redistribuição de renda e uma maior oferta de serviços públicos, com o intuito
de aumentar a participação dessa parte da população na apropriação da renda nacional.

Explicando o índice de Gini

O índice de Gini se baseia na curva de Lorenz (veremos um exemplo a seguir), que mostra
a proporção de renda nacional recebida por uma dada porcentagem da população.
Essas proporções são cumulativas, das famílias mais pobres para as mais ricas. A área
resultante da diferença entre as duas curvas, dividida por toda a área à direita da linha
diagonal, é o índice de Gini.

A linha diagonal (com ângulo de 45º) denota a linha de igualdade perfeita. Quando
a curva de Lorenz, que retrata a distribuição de renda real, é igual à linha diagonal, não
há concentração de renda. Por outro lado, quanto mais a curva de Lorenz estiver afastada
(para direita) da linha diagonal, mais desigual e concentrada é a distribuição de renda do
país. Vejamos um exemplo:

PERFEITA
DISTRIBUIÇÃODE RENDACURVA DELORENZPRIMEIRO 25%
TEM 5% DA RENDA
NACIONALRENDAPOPULAÇÃO100%
0%100%
SEGUNDO 25%
TEM 10% DA RENDA
NACIONALTERCEIRO 25%
TEM 15% DA RENDA
NACIONALQUARTO 25%
TEM 70% DA RENDA
NACIONAL

 

EXEMPLO

A figura apresenta um cenário de elevada concentração de renda. Os 25% mais
pobres ficam com apenas 5% da renda, enquanto os 25% mais ricos apropriam-se
de 70% da renda. A partir desse panorama, um governo preocupado em diminuir
a desigualdade, pode elaborar políticas públicas apropriadas para essa faixa da
população. Por exemplo, pode implantar um programa de transferência de renda à
população mais carente, para elevar seu padrão de vida, oferecendo maiores oportunidades
para o desenvolvimento humano (como o Bolsa Família, por exemplo);
pode aumentar a oferta e o acesso à educação e serviços de saúde de qualidade;
pode reduzir a carga de impostos de produtos de primeira necessidade (de maior
consumo das populações mais carentes); pode subsidiar moradia etc.

Índice de Desenvolvimento Humano (IDH)

Diferentemente da perspectiva do crescimento puramente econômico,
a abordagem do desenvolvimento humano procura olhar diretamente
para o potencial de desenvolvimento das pessoas, aumentando
o acesso aos recursos necessários para se obter um padrão de
vida melhor, considerando uma vida longa e saudável, com acesso
a educação de qualidade e com a preocupação de preservação das
gerações futuras.

O IDH é um indicador socioeconômico com o objetivo de medir o
grau de desenvolvimento econômico e a qualidade de vida oferecida à
população de quase todos os países do mundo. Assim é diretamente
empregado para comparar o nível de desenvolvimento entre os países.

Esse programa partiu do pressuposto de que, para conhecer e aferir
o avanço na qualidade de vida de uma população, seria necessário um
indicador que avaliasse progressos sociais, ou seja, um indicador que
avaliasse o desenvolvimento das capacidades humanas de progresso.
Assim o IDH considera, além da renda per capita, outras características
que influenciam a qualidade de vida.

REFLEXÃO

Segundo o PNUD, a renda é uma variável importante, mas como um meio para
alcançar o desenvolvimento, e não o seu fim. Ao introduzir a ideia de desenvolvimento
humano na perspectiva do desenvolvimento econômico, o foco é transferido
da renda para o ser humano.

O conceito de desenvolvimento humano difundido pelo PNUD pressupõe
um processo de ampliação das escolhas das pessoas, para que tenham
capacidade e oportunidade para ser o que desejarem.

COMENTÁRIO

Crescimento puramente
econômico

Avalia a evolução do bem-estar de uma
população somente através dos recursos
que ela possui, pela renda ou riqueza que
ela pode gerar.

COMENTÁRIO

IDH

Elaborado pelo Programa das Nações
Unidas para o Desenvolvimento (PNUD),
em 1990. Seu desenvolvimento do IDH
está associado ao nome do economista
Amartya Sen, ganhador do prêmio Nobel
de Economia em 1998.

COMENTÁRIO

Desenvolvimento humano

De acordo com Passos e Nogami
(2003), o desenvolvimento humano procura
aumentar as opções das pessoas,
não apenas aumentando a capacidade
de consumir bens e serviços, mas as opções
criadas para aumentar a capacidade
ou condição humana.

 

O IDH é calculado pelo PNUD, que avalia 3 dimensões do desenvolvimento humano:
renda, longevidade e educação. Assim, é obtido com base em dados econômicos e sociais,
a saber: PIB per capita, expectativa de vida, anos de estudo e anos esperados de estudo.

O IDH varia em uma escala de zero (nenhum desenvolvimento humano) a um (desenvolvimento
humano total). Assim, inversamente ao índice de Gini, o país é mais desenvolvido
quando seu IDH é mais próximo de 1 (a metodologia deste índice também é utilizada
para aferir o desenvolvimento de cidades, estados e regiões). Vejamos uma tabela:

IDH 2012 (países selecionados)

Ranking

País

IDH

Ranking

País

IDH

Noruega

0,955

20º

França

0,893

Austrália

0,938

26º

Reino Unido

0,875

Estados Unidos

0,937

40º

Chile

0,819

Holanda

0,921

45º

Argentina

0,811

Alemanha

0,920

51º

Uruguai

0,792

Nova Zelândia

0,919

61º

México

0,775

Irlanda

0,916

85º

Brasil

0,730

Suécia

0,916

91º

Colômbia

0,719

Suíça

0,913

173º

Etiópia

0,388

10º

Japão

0,912

185º

Moçambique

0,327

 

 

Fonte: PNUD

Apesar dos avanços recentes, podemos ver na tabela que o Brasil se encontra em
uma posição intermediária em relação aos países do globo. Segundo o PNUD (2013),
o Brasil saltou de um IDH de 0,522 em 1982, para 0,730 em 2012. No índice de Gini,
passou de 0,6356, em 1989, para 0,5299 em 2012. Isto pode ser interpretado como um
processo de convergência, ainda que lento, aos níveis de renda e qualidade de vida dos
países desenvolvidos.

REFLEXÃO

Contudo, vale ressaltar que outros países latino-americanos, como Chile, Argentina, Uruguai e México,
embora tenham uma geração de riqueza absoluta inferior à brasileira, possuem, segundo o PNUD de 2012,
um desenvolvimento humano melhor que o do Brasil.

Desenvolvimento sustentável

A questão da sustentabilidade do desenvolvimento econômico foi o tema de debate na famosa
Conferência das Nações Unidas de 1972, em Estocolmo. O conceito de desenvolvimento
sustentável passou a ser disseminado após o relatório da Brundtland Commission, de 1987.

 

ATENÇÃO

Esse conceito define como sustentável o desenvolvimento econômico que atenda
às necessidades da geração corrente sem comprometer a capacidade das gerações
seguintes atenderem suas próprias necessidades. Dessa forma, o crescimento
e o desenvolvimento econômico deveriam ser perseguidos levando-se em
conta o equilíbrio entre o que é socialmente desejável, economicamente viável e
sem danos irreversíveis ou não ao meio ambiente.

Dessa forma, para o desenvolvimento ser sustentável é necessário
que o crescimento econômico e a melhoria da qualidade de vida ocorram
respeitando a conservação do meio ambiente.

A acumulação de lixo não orgânico, poluição dos recursos hídricos e do
ar, bem como a utilização eficiente de recursos naturais finitos, expõem o
desafio, para as gerações atuais e seguintes, quanto à manutenção do atual
ritmo de crescimento da produção e consumo, à medida que a melhoria de
vida em muitas sociedades permite um aumento no padrão de consumo.

O desenvolvimento sustentável, do ponto de vista ambiental, requer
o equilíbrio entre proteção do meio ambiente e seus recursos, e o uso
destes recursos de forma a garantir uma qualidade de vida aceitável (desenvolvimento
humano) para os habitantes não só de algumas nações,
mas para todo planeta. Portanto, o crescimento e o desenvolvimento
econômico devem ocorrer dentro dos limites do que é ecologicamente
possível, e promover o acesso a recursos e oportunidades para o aumento
da prosperidade a todos.

Políticas públicas para a promoção do
desenvolvimento

Vimos que o padrão de vida da sociedade depende de sua capacidade
de produzir bens e serviços, e que sua produtividade depende do capital
físico, do capital humano, dos recursos naturais e do conhecimento
tecnológico. Mas o que os formuladores de política podem fazer para
estimular o aumento do produto por trabalho, que traz efeitos positivos
sobre a renda e a contínua melhoria do padrão de vida da sociedade?

REFLEXÃO

Nesta seção destacaremos algumas políticas públicas que os governos têm implementado
para promover o desenvolvimento econômico nos países. Primeiramente, trataremos do
incentivo à Acumulação de Capital; em seguida, da Educação e do Direito de Propriedade;
depois do Livre Comércio, e, finalmente, dos estímulos à Pesquisa e Desenvolvimento.

COMENTÁRIO

Conservação do meio ambiente

Recursos naturais e ambientais são
empregados ao longo do processo de
crescimento econômico, mas devem ser
usados com consciência para evitar a
exaustão acelerada de recursos não renováveis,
a degradação do meio ambiente
e a poluição. Caso contrário, o crescimento
e o próprio desenvolvimento não
serão sustentáveis.

COMENTÁRIO

Ecologicamente possível

Novas tecnologias devem ser perseguidas
para que o uso dos recursos ambientais
pelo progresso econômico não degradem
o meio ambiente, prejudicando
o desenvolvimento e a qualidade de vida
das gerações futuras.

 

Política de incentivo à acumulação de capital

O incentivo à acumulação de capital produtivo consiste em estimular o investimento
na formação de capital fixo. Isso pode ser feito por meio de estímulos
à expansão de uma indústria de bens de capital, a qual venha produzir
bens de capital mais avançados, contribuindo para o aumento do
produto da economia e da renda por trabalhador. Investir mais recursos
na produção de bens de capital proporcionará um aumento no estoque
de capital do país, permitindo ao mesmo produzir mais bens e serviços.

EXEMPLO

Suponha que o Congresso Nacional aprove uma mudança tributária que tenha por
objetivo tornar o investimento mais atraente, através da criação de uma espécie de
crédito tributário para o investimento. Essa política concederia uma vantagem tributária
— uma dedução do imposto devido — a qualquer empresa que construa uma
nova fábrica ou compre um novo equipamento, com impacto positivo na geração de
novos postos de trabalho. Isso, na prática, representaria uma recompensa às empresas
que tomam empréstimos e investem em novo capital, alterando o investimento
para qualquer nível da taxa de juros.

A relação entre crescimento e investimento é forte, embora não seja
perfeita. Os países que dedicam sistematicamente uma grande parcela
do seu PIB ao investimento, tendem a ter altas taxas de crescimento do
PIB no longo prazo. Os que dedicam parcelas pequenas do PIB ao investimento,
ou apresentam um comportamento do investimento evoluindo
de forma muito volátil (ora o investimento se expande muito rápido,
ora muito devagar), tendem a ter baixas taxas de crescimento no longo
prazo, quando comparado ao primeiro caso.

No entanto, à medida que a renda agregada aumenta, o investimento
também aumenta, conotando uma forte correlação entre estas duas variáveis.
Como vimos no capítulo 4, o investimento expande a demanda,
que por sua vez, expande a produção, o emprego e a renda.

O financiamento do investimento em capital fixo e a poupançaPara a expansão da acumulação de capital, é essencial o desenvolvimento
de um sistema de financiamento (concessão de empréstimos bancários em
prazos e condições razoáveis ou o desenvolvimento de um mercado de títu-
los) que viabilize projetos de imobilização de capital, envolvendo longo perío-
do de tempo para gerar fluxos de renda que permitam saldar dívidas contra-
ídas. Na ausência de um sistema financeiro que atenda a esta necessidade,
o governo pode adotar, por exemplo, políticas que aumentem a taxa de pou-
pança da nação, reduzindo o consumo privado. Esta política, no entanto,

COMENTÁRIO

Forte correlação

Como o consumo das famílias e a arrecadação
tributária aumentam, podendo
induzir a um aumento nos gastos do
governo, as firmas, em um clima de expectativas
otimistas, podem elevar seus
investimentos para ampliar a capacidade
produtiva e, com isso, satisfazer a demanda
crescente devida ao crescimento
da renda nacional.

 

só será bem sucedida se a poupança aumentada significar que haverá mais recursos disponíveis
para produzir bens de capital. Caso a poupança aumentada seja dirigida à especulação financeira,
diz-se que ocorre um vazamento de recursos que não ampliam a demanda agregada.
O governo também poderá estimular o investimento em capital produtivo através das operações
dos bancos públicos de desenvolvimento, que visam financiar o investimento de longo prazo. Os
bancos públicos têm um papel distinto dos bancos privados. O papel dos bancos públicos é basi-
camente atender à demanda de crédito não suprida pelo setor financeiro privado. Eles concedem
crédito para grandes, médios e pequenos produtores e empreendedores, projetos de infraestrutura
e investimentos que têm por objetivo o desenvolvimento regional, por exemplo, que é relevante no
desenvolvimento econômico.
Devido à natureza do investimento que envolve sempre um horizonte de longo prazo — no qual o
risco, a incerteza, o volume de recursos solicitados e os prazos de financiamento são maiores —,
em muitos casos, o banco privado pode não ter interesse em financiá-lo. Além disso, em países
em desenvolvimento, o mercado de títulos é geralmente insuficiente para atender ao volume de
demanda de recursos das empresas para financiamento de longo prazo. Portanto, a escassez de
financiamento desse investimento produtivo pode ser abreviada pela atuação dos bancos públicos
de desenvolvimento.
No caso do Brasil, entre os bancos públicos, destacamos o Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social (BNDES), o qual financia investimentos que contribuem para o crescimento
econômico do país, concedendo empréstimo de longo prazo com taxa de juros abaixo das taxas de
mercado. Entre os projetos que requerem um grande volume de recursos, o BNDES tem financiado
investimentos nas áreas de petróleo e gás, energia elétrica, logística, agronegócio etc. Entre os princi-
pais objetivos do BNDES, está a promoção das potencialidades produtiva e inovadora, com impactos
na exportação de bens e serviços, na geração de emprego e renda, e qualidade de vida (através dos
financiamentos a investimentos em infraestrutura, transporte, saúde, educação, cultura e lazer).

O aumento da capacidade produtiva pode ocorrer pelo investimento dos residentes e
dos não residentes, ou seja, o investimento estrangeiro. O investimento estrangeiro pode
assumir várias formas. Por exemplo, a montadora Hyundai poderia construir uma fábrica
de carros no Brasil. Como esse investimento seria diretamente na produção, ele é chamado
de investimento estrangeiro direto.

Alternativamente, se um não residente adquirir ações de uma empresa brasileira (comprar
uma participação na propriedade da empresa), ele poderia usar os recursos obtidos
com a venda de ações para construir uma nova fábrica. No entanto, o investimento estrangeiro
indireto só ocorre com a primeira venda da ação.

ATENÇÃO

Um investimento financiado com dinheiro de não residentes, mas operado por residentes, é chamado de
investimento estrangeiro indireto. Dessa forma, o resto do mundo poderá proporcionar os recursos necessários
(poupança) para aumentar o estoque de capital da Economia nacional.

Os economistas acreditam que o investimento estrangeiro pode trazer uma grande contribuição
para o crescimento e o desenvolvimento econômico dos países. Mesmo que parte

 

dos benefícios desse investimento retorne ao proprietário estrangeiro,
o investimento aumenta o estoque de capital da Economia, gerando
maior produtividade e maiores salários. Além disso, o investimento
estrangeiro é uma maneira pela qual os países pobres podem absorver
parte das tecnologias avançadas usadas pelos países ricos.

Banco de desenvolvimento internacional e
o desenvolvimento econômicoO Banco Mundial é uma organização que procura incentivar o fluxo de capital
para os países pobres ou em desenvolvimento, como Brasil, Chile, Panamá, Áfri-
ca do Sul etc. Essa organização internacional capta recursos dos países avan-
çados, como os Estados Unidos, Alemanha e Suíça, e os utiliza para conceder
empréstimos a países menos desenvolvidos, de forma que eles possam investir
em estradas, saneamento básico, escolas e outros tipos de capital que possam
promover o desenvolvimento econômico e a melhoria do padrão de vida, princi-
palmente das camadas mais carentes da população. O Banco Mundial também
oferece a esses países assessoria para auxiliar os países que estão em vias de
desenvolvimento a empregar melhor os recursos disponíveis na nação.

Política de incentivo à Educação

Outro meio fundamental para o desenvolvimento de um país são as políticas
públicas que elevam o nível de educação da população. O gasto
público em educação representa investimento em capital humano. Para
um país crescer e se desenvolver ao longo do tempo não basta acumular
capital físico, mas também capital humano.

Assim, a política de governo pode aumentar o padrão de vida de sua
população oferecendo boas escolas e incentivando a sua plena utilização.
O governo pode oferecer bolsas de estudos a alunos (ou à sua família),
para mantê-lo na escola, e assim evitar a evasão escolar, que ainda é
alta nos países menos desenvolvidos.

O investimento em capital humano implica deixar de trabalhar (para
auferir uma renda) e se dedicar a um estudo: profissionalizante, especialização
ou de pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias ou
conhecimento. Portanto, assim como o investimento em capital físico,
o investimento em capital humano tem um custo de oportunidade.

Investimento em capital humanoPara os economistas estudiosos do crescimento de longo prazo, o investi-
mento em capital humano é particularmente importante, pois propaga exter-
nalidades positivas. Uma externalidade é o efeito das ações de uma pessoa

COMENTÁRIO

Capital humano

Em países em vias de desenvolvimento,
especialmente onde o capital humano é
mais escasso, a diferença entre os salários
dos trabalhadores instruídos e não
instruídos é muito elevada. O baixo nível
de instrução e qualificação é uma das
fontes da concentração de renda.

COMENTÁRIO

Investimento em capital humano

Quando os estudantes estão na escola,
abrem mão dos salários que podem ganhar.
Em países menos desenvolvidos,
as crianças frequentemente abandonam
as escolas muito jovens, ainda que
o benefício da educação seja muito alto,
simplesmente porque seu trabalho é necessário
para ajudar a manter a sua família.
É nessa situação que as bolsas de
estudos governamentais têm um papel
essencial e fundamental no desenvolvimento
socioeconômico da nação.

 

sobre o bem-estar de outra pessoa. A externalidade pode também ser cau-
sada pelas empresas e pode afetar quem está perto ou longe dela. Uma pes-
soa instruída, por exemplo, poderia gerar novas ideias sobre a melhor forma
de produzir bens e serviços. Se estas ideias entrarem para o conjunto de
conhecimento de uma sociedade, de modo que todos possam usá-las, então
essas ideias serão uma externalidade da educação. Nesse caso, o retorno
da instrução para a sociedade é maior do que o retorno para o individuo.
Esse argumento justificaria grandes subsídios ao investimento em capital
humano que observamos sob a forma de educação pública.
Mankiw (2005) chama a atenção para a fuga de cérebros. Muitos países en-
frentam a emigração de muitos trabalhadores mais instruídos para países ricos
e desenvolvidos, onde eles podem desfrutar de um padrão de vida mais eleva-
do. Como o capital humano gera externalidade positiva, essa fuga de cérebros
deixaria as pessoas que permanecem, no país, ainda mais pobres do que antes.
Esse problema cria um dilema para os formuladores de política. Os países ricos
têm os melhores sistemas de educação superior, sendo natural que os países
pobres enviassem seus melhores alunos para o exterior a fim de melhorar sua
instrução. No entanto, esses alunos que passaram algum tempo fora podem
decidir não voltar para seus países de origem, e essa fuga de cérebros reduziria
ainda mais o estoque de capital humano. (MANKIW, 2005, p. 374).

Política de garantia ao Direito de Propriedade

Um produto de consumo das famílias, assim como muitos insumos empregados
no processo de produção, passa por várias etapas de produção
até que fiquem prontos para serem consumidos. Essa divisão de produção
entre muitas empresas permite que fatores de produção da Economia
sejam usados da maneira mais eficaz possível.

RESUMO

Como vimos no capítulo 3, as economias de mercado se auto ajustam por meio dos
preços de mercado, o que equilibra a oferta e a demanda.

Mas para o sistema de preços funcionar, é necessário um respeito
amplo na Economia pelo direito de propriedade. Uma empresa do ramo
do agronegócio não irá investir na produção de grãos se o direito a sua
propriedade não for garantido, ou seja, não irá investir se ela acreditar
que sua propriedade pode ser confiscada pelo próprio governo ou apropriada
indevidamente por outros indivíduos.

Ela só irá operar se tiver certeza de que se beneficiará da venda subsequente
de sua produção. Por isso, os tribunais de justiça desempenham
um papel importante nas economias de mercado.

CONCEITO

Direito de propriedade

O direito de propriedade refere-se à
capacidade das pessoas de exercerem
autoridade sobre os recursos que
possuem.

COMENTÁRIO

Tribunais de justiça

O Estado deve garantir o direito de propriedade.
Os tribunais fazem com que os
direitos de propriedade sejam cumpridos.
Por meio da justiça penal, os tribunais
desencorajam o roubo. Além disso,
por meio da justiça civil, os tribunais garantem
que compradores e vendedores
respeitem os contratos.

 

A política de governo deve promover a eliminação dos obstáculos ao
bom funcionamento do mercado, como garantir os direitos de propriedade
de todos os residentes e não residentes no país. A ineficiência do
sistema de justiça, por exemplo, poderia desestimular a geração de investimento
doméstico e estrangeiro.

REFLEXÃO

Sem os direitos de propriedade, o país não cresce nem se desenvolve, principalmente,
porque isso desestimularia o investimento privado.

Política de incentivo ao livre comércio

As políticas econômicas que permitem o livre comércio da Economia
com as demais nações são vistas como um meio de desenvolvimento
econômico. Segundo seus defensores, permitem que o país empregue
seus recursos disponíveis na produção daquilo em que é mais eficiente,
e troque-os, por meio das exportações, pelos bens sobre os quais não
temos conhecimento ou tecnologia para fazê-los.

Entre o final dos anos 1940 e início dos anos 1980, muitos países em
desenvolvimento, inclusive o Brasil, adotaram uma política que inibia o
livre comércio como medida de estímulo à industrialização nacional.

REFLEXÃO

Como os países pobres tinham poucas indústrias, o livre comércio naquele momento
poderia impedir que muitos setores industriais nascessem e progredissem. Nesse cenário,
os países ricos e industrializados exportariam bens mais sofisticados para os países
mais pobres e estes exportariam produtos básicos e primários para os primeiros.

Essa política de industrialização acelerada com base em proteção tarifária
e não tarifária, que propiciou um rápido crescimento em muitas
economias menos desenvolvidas no pós-guerra, até os anos 1980, é conhecida
como política voltada para dentro.

Essa abordagem obtém o apoio de algumas empresas locais que reivindicam
proteção contra concorrentes estrangeiros para competir e
crescer. O Brasil foi um país que perseguiu a política de industrialização
acelerada como forma de reduzir sua distância em relação às economias
desenvolvidas. Muitos economistas de renome contribuíram para esta
estratégia, devendo-se mencionar o nome de Celso Furtado.

A partir dos anos 1990, a corrente que propõe o livre comércio
como meio de desenvolvimento passou a predominar. Essa política incentivou
as empresas instaladas em território nacional a serem mais

COMENTÁRIO

Políticas econômicas de livre
comércio

Os governos podem retirar obstáculos
ao livre comércio, tais como tarifas sobre
os produtos importados ou exigência
de cotas de importação.

COMENTÁRIO

Política voltada para dentro

Tem por objetivo aumentar a produtividade
e os padrões de vida dentro do país,
evitando que os bens produzidos internamente
entrem em competição com
os estrangeiros no mercado doméstico.
Opõe-se à política voltada para fora.

AUTOR

Celso Furtado

Celso Furtado (1920-2004) é uma referência
no pensamento econômico
brasileiro, além de ter sido um renomado
intelectual, imortalizado pela Academia
Brasileira de Letras em 1997.

 

eficientes e competitivas em relação àquelas instaladas no resto do
mundo; isso porque as empresas domésticas — sejam elas de residentes
ou não residentes — concorrem com as estrangeiras tanto no mercado
interno quanto externo.

REFLEXÃO

Para o livre comércio cooperar com o desenvolvimento econômico de um país ou região
em desenvolvimento, é preciso que a tecnologia (ou know-how) disponível seja
igualmente acessível a todos os países. Caso contrário, os países mais avançados
tecnologicamente sempre estarão em vantagem sobre os países menos avançados
no comércio internacional.

Desse modo, o livre comércio estaria contribuindo para a melhoria
da qualidade e aumentando a quantidade de produto nacional, gerando
mais emprego e renda para seus habitantes, bem como o comércio internacional
pode melhorar o bem-estar dos cidadãos de um país.

Política de incentivo à Pesquisa e Desenvolvimento

Outra política pública é o apoio à Pesquisa e Desenvolvimento (P&D). O
avanço do conhecimento técnico ao longo do tempo pode ser considerado
a principal razão para a evolução da qualidade de vida em relação aos
padrões de 20, 50 ou 100 anos atrás.

EXEMPLO

O telefone, a penicilina, o motor elétrico, os computadores e o laser estão entre as
inovações que no último século contribuíram para melhorar a capacidade de produzir
bens e serviços, e também o padrão de vida.

Assim, o governo poderá adotar políticas que estimulem o desenvolvimento
tecnológico, não só criando incentivos para que a iniciativa
privada (empresas e universidades privadas) incremente as pesquisas,
como também estimulando o desenvolvimento tecnológico
por meio das instituições públicas (como os institutos de pesquisa e
as universidades públicas).

Toda pesquisa tem o objetivo de desenvolver conhecimento aplicado
ou científico. E, de modo geral, o conhecimento é um bem público,
isto é, toda vez que alguém tem ou desenvolve uma ideia, ela entra para
o conjunto de conhecimento da sociedade e, assim, outras pessoas podem
fazer livre uso dela.

Um grande estímulo à pesquisa e ao desenvolvimento de novas tecnologias
é o sistema de patentes propiciado pelo governo. Por exemplo,

COMENTÁRIO

Bem público

A disseminação desse conhecimento
livre é que vai tornar possível a criação
de novas tecnologias que serão aplicadas
tanto no crescimento da produção
quanto na melhoria da qualidade de vida.
A evolução da internet é um exemplo.

 

quando um inventor ou empresa desenvolve um novo produto, como um circuito eletrônico
(chip), por exemplo, seu inventor solicita uma patente. Se o produto for considerado
realmente original, o governo concede a patente, dando ao inventor direito exclusivo de
fabricação do produto por um determinado período de anos, que pode chegar ao máximo
de 20 ou 25 anos, dependendo da especificidade do produto.

RESUMO

Na prática, a patente dá ao seu inventor o direito de propriedade sobre sua invenção. A patente concede
um direito de monopólio sobre o qual, durante o seu período de vigência, o proprietário poderá explorá-lo lucrativamente,
inclusive como meio de ressarcimento dos custos envolvidos na pesquisa que gerou o invento.

Ao permitir que os investidores lucrem com seus inventos, mesmo que seja por um punhado
de anos, o sistema de patentes aumenta o incentivo para que indivíduos e empresas
se dediquem à pesquisa. Assim, a pesquisa e o desenvolvimento de novos conhecimentos e
tecnologias vão aumentando a capacidade das firmas e das famílias de elevarem sua riqueza
e qualidade de vida, utilizando mais eficientemente os recursos escassos e degradando
cada vez menos o meio ambiente.

Gastos do governo em Pesquisa e DesenvolvimentoO governo dos Estados Unidos, há algum tempo, desempenha um papel importante na criação e
disseminação do conhecimento tecnológico. Há mais de um século, o governo americano vem pa-
trocinando pesquisas de métodos de produção agrícola, bem como aconselhando os agricultores
sobre como usar a terra de forma mais produtiva. Mais recentemente, por meio do seu departa-
mento de defesa e da NASA (Administração Nacional de Aeronáutica e do Espaço), tem financia-
do a pesquisa aeroespacial; como resultado, os Estados Unidos tornaram-se líderes na produção
de foguetes e aviões. O governo continua a incentivar o avanço do conhecimento com bolsas de
pesquisa através da Fundação Nacional de Ciência e do Instituto Nacional da Saúde, além das de-
duções de impostos para as empresas que se dedicam à pesquisa e ao desenvolvimento científico
(cf. MANKIW, 2005, p. 376).
As guerras também influenciam a Pesquisa e Desenvolvimento. O departamento de defesa nacio-
nal americano, assim como aqueles de outros países, estimula o desenvolvimento tecnológico e
científico com objetivos de defesa. Mas essa tecnologia acaba transbordando para a sociedade na
forma de bens e serviços de uso civil, em tempo de paz. A difusão do transporte aéreo comercial
intercontinental, o desenvolvimento de radares sofisticados e das telecomunicações, são alguns
exemplos de subprodutos das políticas voltadas para o desenvolvimento tecnológico e científico
em prol da defesa nacional.

Globalização

Do ponto de vista econômico, a globalização pode ser entendida como uma integração global
das relações econômicas e financeiras. Isto é, as economias tornam seus mercados de
bens, serviços e financeiros integrados às demais economias, criando um único mercado

 

global. Nesse processo, as empresas perdem sua característica nacional
ou multinacional para assumir uma postura global. Por exemplo, um
mesmo produto pode ser produzido em escala mundial.

REFLEXÃO

Segundo a teoria econômica, ao longo da globalização, o sistema capitalista de produção
desenvolveu-se em escala mundial, isto é, o mercado, as forças produtivas, a
nova divisão internacional do trabalho e a reprodução ampliada do capital expandiram
suas fronteiras globalmente.

Origem

Muitos economistas, ao explicar as origens do processo de globalização
(que teve início no fim dos anos 1980), reportam que esse processo é decorrente
de um fenômeno econômico do século XV, devido à expansão
marítima europeia.

A acumulação de riqueza com as trocas ultramarinas criou condições
para outro fenômeno econômico: a Revolução Industrial, em
meados do século XVIII, que trouxe desenvolvimento econômico e
principalmente tecnológico.

REFLEXÃO

A produção aumentou e, com isso, as exportações. Agora, os países poderiam
comprar produtos que não fabricavam de outros países e se especializar na produção
daqueles em que são mais eficientes, ou seja, aqueles que fabricam a um
custo mais baixo.

No século XX, o mundo sofreu outra mudança com a criação das
corporações multinacionais (uma empresa com sedes e fábricas espalhadas
pelo mundo), criando uma nova fase do capitalismo e promovendo
uma expansão da produção em escala mundial ainda não vista.
Nesse mesmo século, o progresso tecnológico cria e desenvolve os
meios de comunicação.

Através da ascensão das ideias neoliberais dos anos 1980, houve
uma onda de desregulamentação das atividades financeiras, que já se
observava nos países desenvolvidos desde 1970. Assim, o capital financeiro
poderia livremente fluir para outros mercados em busca de uma
rentabilidade maior. Isso corroborado pelo progresso tecnológico associado
à evolução da informática e das telecomunicações. O resultado
foi a extraordinária redução dos custos operacionais e dos custos de
transação em escala global.

COMENTÁRIO

Expansão marítima europeia

O início das grandes navegações e a
descoberta da América, em 1492, propiciou
um intercâmbio cultural e mercantil
entre os mercados então conhecidos:
Europa, Ásia e América. Com a
organização mercantilista dessa época,
surgiram novas rotas comerciais que
expandiram as trocas entre os países,
gerando um maior crescimento e desenvolvimento
de suas economias.

COMENTÁRIO

Meios de comunicação

Sua rápida expansão, a partir dos anos
de 1950, com a popularização do telefone,
do rádio e do telégrafo, foi o alicerce
para a nova fase da globalização que se
inicia ainda nos anos 1980.

 

REFLEXÃO

Assim, as operações financeiras tornaram-se significativamente mais baratas, ao mesmo tempo em
que se reduziram os custos de coleta de informações e de monitoramento dos mercados financeiros
espalhados pelo mundo.

Uma consequência disso foi o aumento do fluxo de capital, tanto produtivo quanto
financeiro, para países em desenvolvimento (principalmente o financeiro). Os países
da América Latina e da Ásia foram os que mais receberam esses fluxos de capital,
embora não tenham ainda atingido o nível de renda per capita e bem-estar social dos
países desenvolvidos.

Se a liberalização econômica trouxe benefícios pela expansão do comércio, também
tornou as economias mais sujeitas a crises. Nos anos 1990, as economias asiáticas e
latino-americanas sofreram grande volatilidade nas contas externas, levando o regime
de câmbio fixo ao abandono em quase todo o mundo. A crise nos países desenvolvidos,
entre 2005 e 2010, é largamente atribuída à desregulamentação dos mercados financeiros
promovida pela liberalização econômica.

Liberalismo e globalizaçãoSegundo Gonçalves (2002), a ascensão das ideias neoliberais foi um determinante da globa-
lização. A liberalização representou a redução das barreiras comerciais de acesso aos mer-
cados nacionais. A desregulamentação envolveu a eliminação ou afrouxamento das normas
reguladoras da atividade econômica. Em outras palavras, o Estado, através do seu governo,
passou a ser orientado pela política neoliberal, a qual objetiva diminuir a intervenção e a influ-
ência do Estado na Economia. Assim, a intervenção estatal nos mercados, como planejador e
regulador, dá lugar às decisões da iniciativa privada, pois as decisões de mercado seriam as
melhores para alocar os recursos na Economia; no lugar das barreiras comerciais para pro-
teger a produção nacional está a liberalização da importação de bens e serviços, mesmo que
isso signifique perda de postos de trabalho e diminuição da renda como contrapartida de pre-
ços mais baratos; e o controle do fluxo de capital externo dando lugar à abertura do mercado
doméstico, visto como meio de atingir um crescimento econômico maior do que poderíamos
ter, caso não pudéssemos contar com o investimento financeiro externo. A crise financeira
internacional de 2007 tem colocado em cheque estas ideias.

Características da globalização

O processo de globalização econômica atual representa uma mudança nas estratégias
dos investidores institucionais (bancos, fundos de investimentos, fundos de pensão
etc.) e das empresas transnacionais que operam em escala global. Dessa forma, uma
das características da globalização é uma maior dispersão geográfica dos recursos financeiros
e produtivos, ao mesmo tempo em que os mercados, onde se operam esses
recursos, tornaram-se mais integrados.

 

RESUMO

Seguindo essa lógica, a globalização econômica aconteceu porque ocorreu simultaneamente:
um crescimento extraordinário dos fluxos internacionais de produtos
e capital entre países; um aumento da concorrência internacional; um avanço na
internacionalização da produção e maior integração entre as estruturas produtivas.
Essas são as principais características da globalização.

Para um melhor entendimento, separamos a globalização em produtiva
(que aborda os aspectos envolvendo a produção e o fluxo de bens
e serviços) e financeira (que envolve o fluxo de moeda e obrigações financeiras
entre os países).

Globalização produtiva

A internacionalização da produção ocorre sempre que residentes de um
país podem adquirir bens e serviços (incluindo operações financeiras)
com origem estrangeira: isso significa a existência de fluxos internacionais
de bens, serviços e capital financeiro. Há três formas básicas de internacionalização
da produção: comércio, investimento externo direto
e relações contratuais.

Os serviços, de modo geral, são produtos intangíveis e não armazenáveis
e, portanto, o comércio internacional de serviços exige o deslocamento
do consumidor (turismo, por exemplo) ou do produtor com a
presença de pessoa física (consultoria, por exemplo).

No entanto, a principal forma de internacionalização da produção
de serviços é a presença comercial estrangeira no país (na forma de pessoas
jurídicas). Nesse caso, ocorre o estabelecimento de subsidiárias e
filiais por meio do investimento externo direto (IED). Este último é o investimento
que as empresas estrangeiras fazem somente no setor produtivo
da economia doméstica.

A internacionalização da produção também pode ocorrer por meio
de relações contratuais, pelas quais os residentes de um país (A) transferem,
para residentes de um país (B), um conjunto de ativos específicos
de sua propriedade (tecnologia, capacidade gerencial, organizacional e
mercadológica), que viabilizam a produção de bens ou serviços no país
(B), por uma empresa de origem do país (A).

RESUMO

Trata-se, então, da transferência de know-how (tecnologias de processo, tecnologias
de produto, assistência técnica etc.) ou de direitos de propriedade (marcas,
patentes, copyrights, franquias etc.), por meio de relações contratuais.

CONCEITO

Investimento externo direto

O IED é todo fluxo de capital com o intuito
de controlar a empresa receptora do
investimento. O principal agente de realização
do IED é a empresa transnacional
empresa de grande porte que controla
ativos em pelo menos dois países. Essas
empresas têm, geralmente, a sua matriz
localizada nos países desenvolvidos e,
por meio do investimento externo direto,
elas controlam subsidiárias e filiais em
outros países.

 

A rede de fast food McDonald’s é, entre muitos, considerada uma
marca símbolo da globalização. Sua produção de sanduíches em série,
por meio de processos rigidamente padronizados, está instalada nos
quatro cantos do planeta, rompendo barreiras culturais. O processo de
multiplicação da rede McDonald’s nos países se dá basicamente pela
compra de franquias pelo residente.

Nesse processo de globalização, o mercado local passou a fazer parte
de um mercado global, contribuindo para um aumento da concorrência
entre empresas no mercado mundial. Nesse novo cenário, um aumento
das exportações dependeria da estratégia de vendas no exterior, além de
uma taxa de câmbio favorável e de uma renda mundial crescente.

Outro fato é que os governos nacionais conferem estímulos e incentivos
fiscais às empresas domésticas para que estas aumentem cada vez
mais as suas exportações.

REFLEXÃO

Do ponto de vista da nação, a política de estímulo e incentivo pode contribuir, inicialmente,
para o aumento do emprego, da produção e da renda; posteriormente, para a melhoria
do bem-estar social, se este crescimento, derivado do aumento do comércio exterior, for
acompanhado do desenvolvimento econômico, conforme discutido anteriormente.

Vale notar ainda que o desenvolvimento do e-commerce e da logística
global tem tornado possível a importação de bens de consumo pelo próprio
consumidor, através de sites internacionais como Ebay e Amazon,
para mencionar alguns.

Globalização financeira

A dimensão financeira abrange os fluxos internacionais de capital de
empréstimo, financiamento e investimento externo indireto, também
conhecido como investimento de carteira. Com essa transação, o agente
pode comprar ativos financeiros, tais como ações, quotas de empresas
ou de fundos de investimento, títulos de dívida do governo, títulos
de dívida privados, entre as principais formas, que dispensam o controle
sobre o agente econômico que está recebendo esse investimento.

Agora podemos imaginar o quanto uma entrada abundante de capital
em uma Economia em desenvolvimento pode se traduzir em crescimento
e, principalmente, desenvolvimento econômico. É por meio do aumento
do investimento, do emprego e do PIB que sentimos os efeitos iniciais.

Mas a entrada de capitais financeiros externos, incluindo o investimento
externo diretamente na produção, representa um passivo para o país na
forma de pagamento de juros, lucros e amortizações aos investidores internacionais.
Se as condições no mercado financeiro internacional forem favo

 

IMAGEM

McDonald’s

 

Loja McDonalds em Setagaya-ku,
Tokyo, Japão.

COMENTÁRIO

Desenvolvimento

O governo, com uma maior arrecadação
devido ao aumento da renda, poderá
aumentar o investimento público
(escolas, hospitais, segurança, justiça,
defesa etc.) e a quantidade e qualidade
dos serviços públicos, trazendo
efeito positivo sobre a qualidade de
vida da população.

 

ráveis, o país poderá continuar tomando empréstimos e recebendo capital financeiro, através
do investimento externo direto e indireto, para financiar seu crescimento e desenvolvimento.

REFLEXÃO

Mas se as condições deteriorarem, como ocorreu na crise financeira internacional de 2008, o país sofrerá
uma saída de recursos financeiros em massa de forma muito rápida. Os agentes financeiros, em um mercado
globalizado, começam a vender rapidamente seus ativos mais arriscados, por exemplo, os títulos de
dívida e ações nominados em moedas de países em desenvolvimento, para adquirirem os mesmos ativos
em moedas fortes como o Euro e o Dólar.

Caso as reservas internacionais domésticas não sejam suficientes para fazer frente a
essa elevada demanda por moeda externa, o governo deverá promover ajustes macroeconômicos
para reduzir o gasto agregado e aumentar a poupança, gerando recursos para pagar
os compromissos internacionais. Isso trará redução do ritmo de geração de emprego e uma
redução no ritmo com que a qualidade de vida melhorava.

Portanto, se a entrada de capital financeiro permite uma maior disponibilidade de
recurso, o que equivale a uma poupança maior (que permite um investimento agregado
maior), gera aquilo que os economistas chamam de vulnerabilidade externa, que representa
a baixa capacidade da Economia de resistir a mudanças nas condições de financiamento
devido à crise ou fatores desestabilizadores provenientes tanto da Economia
doméstica quanto externa.

EXEMPLO

No setor produtivo, podemos dar o exemplo da cidade de Macaé, no estado do Rio de Janeiro. Essa cidade
é uma espécie de base das operações de petróleo da Bacia de Campos. Além da Petrobras e de algumas
empresas nacionais, a extração de petróleo atraiu também empresas estrangeiras, que investiram seu capital
na cidade. Isso permitiu que o investimento no setor fosse maior, trazendo, tanto para a cidade quanto
para o estado, mais emprego, geração de renda e tributação. Mas os lucros das empresas estrangeiras,
não investidos, poderão ser enviados para suas matrizes no exterior, já que seus proprietários são não residentes
(vide capítulo 4). Em algum momento, as mesmas empresas poderão remeter o capital investido,
produzindo uma saída desse capital.

Portanto, a despeito dos benefícios da entrada de capital financeiro, seja para investir
no mercado financeiro ou no setor produtivo, gerando crescimento e até mesmo desenvolvimento
econômico, é necessário o conhecimento das políticas macroeconômicas para
administrar as entradas e as saídas de capital. Essa política teria como objetivo evitar desequilíbrios
macroeconômicos que viessem a reduzir, ou mesmo interromper, o processo de
crescimento e desenvolvimento pelo qual o país estivesse passando (vide capítulo 5).

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAUMANN, R. CANUTO, O. GONÇALVES, R. Economia Internacional: teoria e experiência brasileira. São Paulo:
Elsevier, 2004.

GREMAUD, A.P. et all. Manual de Economia. Org: Pinho, D.B., Vanconcelos, M.A.S. 5ª ed. São Paulo: Saraiva, 2006.

GONÇALVES, R. Globalização Econômica, In: O Nó Econômico, primeiro capítulo. São Paulo: Record, 2002.

MANKIW, N.G. Introdução à Economia: edição compacta. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2005.

PASSOS, C.R.M. e NOGAMI, O. Princípios de Economia, 4ª ed. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2003.

Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, Relatório de Desenvolvimento Humano. 2013. Disponível em:
<www.pnud.org.br>. Data de acesso: 03/06/2014

IMAGENS DO CAPÍTULO

p. 74 McDonald’s
Paul Vlaar · Wikimedia . gnu

 

Apêndice

Como fazer e interpretar
gráficos e tabelas

 

 

146

Como fazer e interpretar
gráficos e tabelas

Como fazer

1) Gráficos

Os gráficos são representações visuais de relações entre variáveis. Uma
variável é uma medida de algo que assume diferentes valores ou categorias.
Portanto, as variáveis podem ser numéricas ou categóricas. Por
exemplo, renda é uma variável numérica e sexo é categórica, pois só existe
sexo masculino e feminino.

Podem-se fazer gráficos com vários propósitos; trataremos aqui apenas
dos que visam apresentar resultados. Os gráficos mais utilizados são
de linhas, colunas e pizzas.

Os gráficos de linha são usados principalmente para mostrar a evolução
de uma variável ao longo do tempo. Os gráficos de barra também
são usados para mostrar a evolução de uma variável ao longo do tempo,
mas, nesse caso, o período tem que ser curto. Por exemplo, para
representar a evolução do emprego ao longo de um ano, deve-se usar o
gráfico de linha. Para representar a evolução do emprego ao longo de
seis meses, deve-se usar o gráfico de barras.

Os gráficos de barras são muito usados também para comparar categorias.
Por exemplo, o nível salarial dos homens versus o das mulheres ou votos
recebidos pelos candidatos em uma eleição presidencial. Não devem ser
usadas muitas categorias, caso contrário, a visualização fica prejudicada.

Os gráficos de barras podem ser justapostos ou não justapostos.
No último caso, o mais comum, haveria, por exemplo, uma coluna
para homens e outra para mulheres. No justaposto haveria uma coluna
só, dividida em duas partes, uma para representar o número de
homens e outra o número de mulheres.

Os gráficos de pizza são partições de uma variável. Por exemplo,
como o seu orçamento doméstico se divide em diferentes tipos de gastos:
alimentação, transporte, habitação etc.

Cuidados com o gráfico

1) Todo gráfico tem que ter um título. O título vai dizer do que trata
o gráfico, deixando clara a variável, como a mesma é mensurada, o
período de tempo, as categorias e o recorte geográfico — exemplo:
evolução da renda (R$) de homens e mulheres, de 1990 a 2012, na
Região Metropolitana do Rio de Janeiro;

CURIOSIDADE

Gráficos de pizza

Na língua inglesa o gráfico de pizza é
chamado de gráfico de torta (pie chart).

 

147

2) Todo gráfico tem que ter uma fonte, que é de onde foram obtidos os dados — exemplo:
Fonte: IBGE — Pesquisa Mensal de Emprego;

3) Se o gráfico trabalha com categorias, deve haver uma legenda para cada uma delas,
identificando qual a curva ou coluna que, por exemplo, é a relativa a homens e qual é a
relativa a mulheres;

4) Se o gráfico tratar da evolução de variáveis ao longo do tempo, a escala temporal (anos,
meses, trimestres etc.) deve estar no eixo vertical;

5) Gráficos com muitas curvas devem ser evitados. Quanto maior o número de curvas,
maior a chance de o gráfico ficar incompreensível. É muito comum isso acontecer quando
se trabalha com mais de três curvas;

6) Gráficos em três dimensões devem ser evitados. Podem ser muito bonitos, mas são pouco
práticos, pois dificultam a compreensão;

7) Se a série for de dados com intervalo temporal de menos de um ano — série mensal,
trimestral etc. —, é importante ficar atento para a questão da sazonalidade. Esse ponto será
detalhado mais adiante;

8) Regra básica: um bom gráfico é como uma boa piada; entende-se na mesma hora. Gráfico
que exige muitas explicações perde em comunicação.

2) Tabelas

A tabela é uma forma de apresentar dados em linhas e colunas. A interseção de uma linha
com uma coluna é chamada de célula. Por exemplo, uma tabela com 2 linhas e 2 colunas
terá 4 células.

Cuidados com uma boa tabela

1) Toda tabela tem que ter um título. O título vai dizer do que trata a tabela, deixando clara(s)
a(s) variável(eis) apresentada(s), como é(são) mensurada(s), o período de tempo, as categorias
e o recorte geográfico — exemplo: evolução da renda e do nível de emprego (R$) de homens
e mulheres, de 1990 a 2012, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro;

2) Toda tabela deve ter uma fonte, que é de onde foram obtidos os dados — exemplo: Fonte:
IBGE — Pesquisa Mensal de Emprego;

3) As colunas e linhas da tabela devem estar identificadas;

4) Quanto maior o número de linhas e colunas, mais difícil será o entendimento do
conteúdo da tabela;

 

5) Se os dados forem numéricos:

a. não use mais de uma casa decimal;

b. utilize ponto (.) para separar os milhares — exemplo: 1.230,5;

c. mude a escala se o número tiver mais de 5 dígitos — exemplo: 1.230.523 se torna
1.230,5 mil;

d. a escala deve estar indicada no título da tabela e, se for o caso, também no título
da linha ou coluna;

6) Se houver totais, os mesmos devem estar em negrito para destacar;

7) Os títulos das colunas e linhas devem estar, de preferência, em negrito para destacar;

8) Não confundir tabelas com quadros. Nesse último, o conteúdo das células é constituído
apenas de texto, sem números. Por exemplo, nomes de alunos de acordo com as turmas.

Como interpretar

Todo gráfico e tabela permite duas leituras. A primeira é a do todo e a segunda é a das partes¹.
Portanto, a correta análise exige atenção. Vejamos o exemplo a seguir.

Gráfico 1 – Produção Industrial – Índice de base fixa com ajuste sazonal (base: média de 2002=100) – Brasil 1994-20148090100110120130140jan/94jan/95jan/96jan/97jan/98jan/99jan/00jan/01jan/02jan/03jan/04jan/05jan/06jan/07jan/08jan/09jan/10jan/11jan/12jan/13

Fonte: IBGE – Pesquisa Industrial Mensal de Produção Física (PIM-PF)

O que primeiro chama a atenção no gráfico 1 é a trajetória ascendente da produção industrial
no período. Se olharmos com mais atenção veremos que podemos dividir essa trajetória
em quatro fases:

1) De 1994 a 1999, o crescimento da indústria foi pequeno;

2) De 1999 a meados de 2008 o aumento da produção industrial foi grande, quase exponencial;

3) De meados de 2008 a 2009 há uma brusca queda da produção e uma recuperação. Se
olharmos com atenção, veremos que a queda foi mais rápida que a recuperação;

4) De 2009 a 2013, a produção industrial está em uma trajetória de queda. O último período
é muito irregular. Há de início estagnação, depois decréscimo da produção, segue-se
uma recuperação parcial e, por fim, nova contração.

Com as fases delimitadas fica mais fácil encontrar uma explicação para o que houve.

¹ Essa é uma
regra que vale
também para
analisar obras de
arte.

 

149

Não é necessário pesquisar muito para descobrir que, em linhas gerais, a fase 1 corresponde
ao período do Plano Real, a fase 2 ao governo Lula, e a fase 3 é o período de auge da crise
financeira internacional, que teve impacto no Brasil e em todos os países do mundo, ainda
durante o governo Lula. A última fase corresponde ao governo Dilma.

O passo seguinte será analisar o contexto econômico nacional e internacional, bem
como a política econômica de cada governo, para entender as diferenças. Isso, no entanto,
extrapola os propósitos desse apêndice, mesmo porque esse tipo de análise requer um conhecimento
maior de Economia. O importante aqui é destacar como uma análise atenta de
um gráfico nos traz muita informação sobre a Economia.

Valor de referênciaToda vez que se qualifica uma comparação — exemplo: cresceu muito, percentual elevado —, é
importante ter um valor de referência. Por exemplo, ao se afirmar que o crescimento da Economia
foi elevado, pois foi acima da média dos últimos cinco anos, o uso da qualificação elevado está
correto, pois há uma justificativa: foi acima da média dos últimos cinco anos, que é o valor de refe-
rência, nesse caso, dado pelas taxas de crescimento alcançadas no passado.
Muitas vezes a valor de referência é dado pela literatura internacional sobre o tema ou por uma
meta de política pública. No caso da taxa de mortalidade infantil (a cada 1.000 nascimentos, quan-
tas crianças morrem antes de completar um ano de idade), a Organização Mundial de Saúde (OMS)
tem parâmetros que são amplamente utilizados. Segundo a OMS, a mortalidade infantil é considera
alta se morrem 50 crianças ou mais por cada 1.000 nascidas vivas; média, se for de 20 a 49 por
mil; e baixa se for menor que 20 por mil. Com base nesses parâmetros, pode-se afirmar que, em
2010, a mortalidade infantil em nosso país era baixa, pois nosso índice era de 15,6 por mil.
Digamos que o governo fixe como meta reduzir a mortalidade infantil ao nível da do Canadá (5
por mil) ². Com base nesse novo parâmetro, nossa mortalidade infantil está elevada, pois estamos
muito acima da meta fixada pelo governo.
No caso da inflação, no Brasil, utiliza-se como parâmetro a meta de inflação fixada pelo governo.
Se o governo estabelece que a inflação não possa ultrapassar a 6,0%, e o índice alcançado foi de
7,0%, pode-se afirmar que inflação está elevada.

Vejamos agora um exemplo de gráficos de barra. Esse caso é uma situação hipotética,
trata-se do número de downloads de músicas de quatro duplas sertanejas.

Gráfico 2 – Número de downloads de músicas, segundo dupla sertaneja – Janeiro-Junho – 2013JanFevMarAbrMaiJunMário e MarianoAlberto e RobertoPedro e PauloJúlio e Juliano05001000150020002500

Fonte: Associação de cantores de duplas sertanejas com nomes parecidos

² Os parâmetros
da OMS e as
estatísticas sobre
mortalidade
infantil foram
obtidas da
publicação
do IBGE
Indicadores de
Desenvolvimento
Sustentável
2012.

 

150

O que nos diz esse gráfico? Várias coisas:

1) Mario e Mariano e Alberto e Roberto estão presentes em todos os meses. As demais duplas
só a partir de fevereiro;

2) Mario e Mariano é a dupla que mais vende. Supera as demais duplas em todos os meses,
exceto em maio, quanto empata com Pedro e Paulo;

3) Júlio e Juliano e Pedro e Paulo estão em trajetória ascendente. A cada mês que passa,
vendem mais;

4) A dupla Alberto e Roberto está quase na situação inversa. Crescem os downloads de janeiro
para fevereiro, mas depois é só ladeira abaixo. Em junho já estão em último lugar;

5) A disputa pelo primeiro lugar parece ser entre Mário e Mariano e Pedro e Paulo, com
vantagem para os últimos, pois estão em ascensão, enquanto Mario e Mariano estão parados
na faixa de 1700 a 2100 downloads.

No gráfico 2, diferentemente dos seguintes, optou-se por não se inserir rótulos com os
valores das variáveis, pois os números iriam ficar muito próximos, o que dificultaria a leitura.

O gráfico de barras nesse caso, dado o curto período de tempo e o número restrito de
categorias, foi o mais indicado. Para analisar a evolução de downloads por dupla sertaneja,
o gráfico 2 é o ideal; para se visualizar a mudança da composição do mercado, o gráfico 3,
de colunas empilhadas, é o mais adequado, como vemos abaixo.

Gráfico 3 – Distribuição de downloads de músicas, segundo dupla sertaneja – Janeiro-junho – 2013Mário e MarianoAlberto e RobertoPedro e PauloJúlio e Juliano55,348,239,235,034,337,644,743,530,424,320,212,85,925,531,134,333,02,44,99,711,116,50%20%40%60%80%100%
JanFevMarAbrMaiJun

 

Fonte: Associação de cantores de duplas sertanejas com nomes parecidos

Vejamos a apresentação dos mesmos dados na forma de uma tabela (tabela 1). A vantagem
é que agora sabemos, com precisão, o número de downloads, e a desvantagem, que é
considerável, é que perdemos em termos do rápido entendimento. É muito mais fácil perceber
o que está acontecendo no mercado de downloads de música sertaneja por meio de um
gráfico (adequado) do que por meio de uma tabela. Pois um bom gráfico vale por mil palavras.

 

Tabela 1 – Número de downloads de músicas, segundo dupla sertaneja – Janeiro-Junho – 2013

Meses

Mário e Mariano

Alberto e Roberto

Pedro e Paulo

Júlio e Juliano

jan

2100

1700

Fev

2050

1850

250

100

Mar

2000

1550

1300

250

Abr

1800

1250

1600

500

Mai

1700

1000

1700

550

Jun

2050

700

1800

900

 

 

Fonte: Associação de cantores de duplas sertanejas com nomes parecidos

O uso de gráficos de barras sobrepostas é indicado para comparar grandezas que
têm o mesmo total, como é o caso de percentuais, cuja soma é sempre 100%. Por exemplo,
no gráfico 4 comparamos como se distribui a população brasileira entre áreas urbanas
e rurais em 2010.

Como toda comparação deve ter um parâmetro, utilizaremos, para isso, a média
brasileira. Comparando os estados de Piauí e do Rio de Janeiro em relação à média
nacional, fica evidente que o Piauí tem uma baixa proporção da população vivendo em
áreas urbanas, próximo de 65%, contra 85% da média brasileira. Já no estado do Rio de
Janeiro, ao contrário, é quase totalmente urbanizado. Tem uma elevada proporção da
população vivendo em áreas urbanas.

Gráfico 4 – Percentual de população que vive em áreas urbanas e rurais – Piauí, Rio de Janeiro e Brasil – 2010
84,465,896,715,634,23,3BrasilPiauíRio de Janeiro0%
10%
20%
30%
40%
50%
60%
70%
80%
90%
100%
população urbanapopulação rural

Fonte: IBGE – Sinopse do Censo Demográfico de 2010

 

O gráfico 5 mostra a coluna Brasil apresentada como gráfico de pizza. Em termos visuais,
a apresentação fica melhor, mas a comparação é mais direta com as colunas sobrepostas.

84,415,6população urbanapopulação ruralpopulação urbanapopulação ruralpopulação urbanapopulação rural65,834,296,73,3Gráfico 5 – Percentual de população que vive em áreas urbanas e rurais – Piauí, Rio de Janeiro e Brasil – 2010PiauíRio de JaneiroBrasil

Fonte: IBGE – Sinopse do Censo Demográfico de 2010

 

ANOTAÇÕES

 

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