SOLIDÃO, FELICIDADE E PAZ


O que faz a vida boa? O que nos mantém saudáveis e felizes enquanto passamos pela vida? Estas questões motivaram quatro gerações de pesquisadores estadunidenses, que durante 75 anos realizaram a mais longa investigação científica do mundo sobre comportamento humano. Depois de acompanhar a vida de 724 homens, os investigadores tiraram uma grande lição sobre a vida, qual seja, que “bons relacionamentos nos mantêm mais felizes e saudáveis, ponto final”, dessa grande lição desdobram-se outras sobre os relacionamentos, são elas:

  1. Conexões sociais são melhores para nós, e que a solidão mata, isto é, a experiência de solidão é tóxica;
  2. Não é apenas o número de amigos que temos, e nem se estamos ou não num relacionamento sério, mas a qualidade dos nossos relacionamentos mais próximos é que importa para a saúde e felicidade;
  3. Relações saudáveis protegem não apenas nossos corpos, mas também nossos cérebros.

Essa apresentação dos resultados da pesquisa você pode assistir num vídeo disponível na rede mundial de computadores acessando a partir deste link:

https://www.ted.com/talks/robert_waldinger_what_makes_a_good_life_lessons_from_the_longest_study_on_happiness?language=pt-br

Porém, ao contrário dessa grande pesquisa sobre a felicidade, o filósofo Arthur SCHOPENHAUER não acreditava que a solidão era nociva a vida. Para ele a solidão é condição sine quo non (indispensável) para felicidade humana, por isso recomendava e sentenciava que “um dos estudos principais da mocidade deveria ser o de APRENDER A SUPORTAR A SOLIDÃO, que é uma fonte de Felicidade e de Paz espiritual” (1953, p.143). Em sua obra “Aforismos para a sabedoria na vida“, no capítulo V Parênteses e Máximas, o filósofo alemão escreveu páginas de rara beleza em defesa de sua tese sobre a importância da solidão para a felicidade. O pensador iniciou sua defesa com as seguintes palavras: “Bastar-se a si mesmo, ser tudo em tudo para si próprio e poder dizer OMNIA MEA MECUN PORTO (tudo o que é meu trago comigo) é, por certo, para a nossa felicidade, o mais favorável predicado” (1953, p.140). Então o primeiro passo é reconhecer que nos bastamos a nós mesmos, isso significa a autoafirmação da vida, pois aquela ideia que é impossível ser feliz sozinho não tem espaço na filosofia schopenhaueriana, nela temos um pensamento oposto. De acordo com SCHOPENHAUER, “não há nenhum caminho mais errado para felicidade que a vida no alto mundo, em festa e folganças (high life); o seu fim é transformar a nossa mísera existência em uma enfiada de alegrias, de prazeres, de divertimentos, com o que não poderá faltar a desilusão, tampouco quanto falta na obrigatória companheira, isto é, nas mentiras recíprocas” (1953, p.141). Então, para o pensador alemão, as relações em sociedade são eivadas de ilusões e mentiras, pois ninguém pode revelar sua própria natureza, isto é, não pode ser ele mesmo. A vida em sociedade exige máscara, falsidade e dissimulação. Assim, para reforçar sua tese, este filósofo alemão afirmou, “o indivíduo só pode ser ele próprio, inteiramente, quando está só; logo, quem não ama a solidão, não ama a liberdade, pois só quando se está só é que se está livre. O constrangimento é o inseparável comparsa de qualquer sociedade” (SCHOPENHAUER, 1953, p.141). Mas, para SCHOPENHAUER existem duas posturas sociais frente aos constrangimentos sociais, proporcionais a afirmação da própria identidade, o que também define a relação do indivíduo com a solidão: alguns vão lastimar, evitar, suportar de todas as formas a solidão e outros vão amá-la com toda intensidade. Essas duas posturas estão ligadas ao fato de que na solidão as pessoas são obrigadas a experimentarem com intensidade o seu próprio estado, assim, afirma SCHOPENHAUER, os que lastimam a solidão os fazem por sentirem a plena extensão do seu próprio estado lastimoso e, da mesma forma, os que amam a solidão vão sentir a sua própria grandeza (1953, p.141). No mesmo sentido, Comte-Sponville afirma que os lastimadores têm medo da solidão porque “a solidão as deixam face a face com o seu nada” (2006, p.33). Na verdade, no território da solidão, cada um sentirá aquilo que é. Para SCHOPENHAUER, apresentando traços de um tipo de naturalismo, na natureza quanto mais alta a criatura na escala hierárquica tanto mais solitário será, essencial e inevitavelmente. A solidão se apresenta como algo inevitável e essencial na filosofia de vida schopenhaueriana, pois os indivíduos afirmadores da própria grandeza sentirão perturbados e furtados de seu ser e do seu tempo com o frequente contato com criaturas conformadas com as máscaras sociais. Para os amantes da solidão, ela é fundamental na e para a vida e isso só é possível com certa distância social. Por suportarem o frio da solidão e não sentirem necessidade do calor da sociedade, são rotulados de antissociais.  Schopenhauer afirma que o que “torna sociáveis os homens é a incapacidade de suportar a solidão e, dentro dela, a eles mesmos” (1953, p.144). Contudo os negadores da solidão querem o calor da convivência e buscam nas relações sociais a harmonia, o que conseguiriam facilmente na autoaceitação e autoafirmação da vida como ela é. Sonham que as relações sociais podem eliminar o inevitável: a solidão humana. Nascemos e vamos morrer sozinhos, porém dizer que nascemos, vivemos e morremos só, não significa que a gente nasce, vive e morre no isolamento – nos diz Comte-Sponville -, isso apenas sinaliza que ninguém consegue escapar do peso de ser o que si é. E, é preciso também aceitar que, “a pessoa só pode estar em harmonia absoluta consigo mesma e não com o amigo, ou com a amada: pois as diferenças de individualidades e de disposição sempre produzem dissonância, mesmo leve. Assim, a verdadeira, a profunda paz do coração e a calma completa do espírito – esse bem que é o maior do mundo, depois da saúde – só se encontram na solidão, e, como estado duradouro, só no retiro integral” (SCHOPENHAUER, 1953, p.143).

E naquele sonho de harmonia dos blasfemadores da solidão temos, muitas vezes, um processo de assujeitamento atroz, no qual presenciamos a negação da singularidade, da individualidade nas múltiplas formas de se viver a vida. Para os negadores da solidão humana as relações felizes são aquelas que narcisicamente eles se identificam, como se se completassem nelas. E essa postura é mais intensa nas relações conjugais, na louca tentativa de eliminar a solidão muitos casais tornam-se siameses, levando a sentença bíblica ao pé da letra quando diz que “os dois serão uma só carne. De modo que já não são dois, mas uma só carne” (MARCOS, 10,7-8). Porém, duas pessoas nunca vão se fundir em uma única. A impossibilidade é natural, pois os biorritmos são diferentes, além das diferenças corporais, ninguém consegue pensar e agir igual a ninguém. É necessário reconhecer que casais felizes se aceitam como pessoas diferentes, únicas, imperfeitas e não são as metades que se completam. Ninguém completa ninguém. Ninguém conseguirá eliminar o fantasma da solidão que ronda a cabeça de quem vive tentando negar esta condição humana. Cada pessoa precisa aprender a lidar com a sua solidão, os casais e os amigos apenas se encontram nos caminhos da vida, se admiram, se apoiam e sentem a alegria da boa convivência, porém cada um seguirá seu caminho existencial como deseja. Descobrindo de forma tateante o que considera a vida boa. Se para os pesquisadores estadunidenses as relações são melhores e mais importantes para a felicidade enquanto que a solidão uma experiência tóxica, SCHOPENHAUER ao contrário destaca duas vantagens da solidão para a vida:

  1. Ficar consigo mesmo;
  2. Não estar com os outros.

Essa segunda vantagem traz consigo os benefícios de evitarmos os muitos constrangimentos, os perigos e as opressões da vida social. Ele constata que “quase todos os nossos males provêm da sociedade; e a paz espiritual que, depois da saúde, é o elemento fundamental da felicidade, é posta em perigo por ela, não podendo, pois, subsistir sem uma dose considerável de solidão” (SCHOPENHAUER, 1953, p. 147). Mas, isso não significa isolamento ou rejeição do outro, como afirmou Comte-Sponville, “a solidão não é a rejeição do outro, ao contrário: aceitar o outro é aceita-lo como outro (e não como apêndice, um instrumento ou um objeto de si), e é nisso que o amor, em sua verdade, é solidão” (2006, p.30).

Então, enquanto a pesquisa advoga as relações como fonte da felicidade, o pensador alemão nos ensina que “quanto menos alguém tiver de se por em contato com os homens, em virtude de condições objetivas ou subjetivas melhor será” (SCHOPENHAUER, 1953, p. 143). Mas, veja bem, não é isolamento total, é um afastamento necessário também para se confrontar consigo, buscando redesenhar a própria relação consigo mesmo e isso só é possível na solidão. Porém, quem tem medo de ficar sozinho não é capaz de estabelecer relações verdadeiras com os outros, pois é uma farsa para si mesmo. Vive escondido nas sombras. Como uma pessoa que não se sente confortável na própria presença poderá se sentir confortável na presença dos outros? Como ser sincero se não se é sincero consigo mesmo? Se a pessoa se esconde de si como vai ser verdadeira com o outro? O filósofo alemão faz uma constatação dura, “posto que os homens sejam ligados entre si pela amizade, pelo amor, pelo casamento, no fundo a criatura é inteiramente sincera apenas consigo mesma, ou, quando muito, para com o filho” (SCHOPENHAUER, 1953, p. 143).

A dose certa de solidão produz felicidade e paz de espírito (tranquilidade interior), mas parece que a maioria das pessoas não suportam a própria presença, por isso precisam fugir de si mesmas escondendo-se no tumulto da vida social, e, com isso, não se permitem experienciar o sabor da solidão. Não sabem que quando abraçamos a solidão, “não ficamos mais expostos (…) aos enganos comuns, percebemos logo, em cada qual, aquilo que é, sem termos o desejo de entrar com ele em maiores relações. Por fim, e principalmente se reconhecermos, na solidão, uma amiga da mocidade, sobreveio-nos também o hábito da segregação e do convívio conosco mesmo, hábito esse que se tornou uma segunda natureza” (SCHOPENHAUER, 1953, p.152-3). Com amor a solidão e depois de vencermos a dependência quase instintiva da sociabilidade, nos sentiremos nela como o peixe na água, pois a solidão é o quinhão de todos nós, ela não é isolamento. “Ser isolado é não ter contatos, relações, amigos, amores – o que, evidentemente, é uma desgraça. Ser só é ser si mesmo, sem recurso, e é a verdade da existência humana” (COMTE-SPONVILLE, 2006, p.29). No final do texto de SCHOPENHAUER sobre a solidão, temos um tom conciliador, fechando sua tese com as seguintes palavras: “pode-se comparar a sociedade a um fogo, ao qual o prudente se aquece à distância e não como o tolo, que vai até ele e, depois de se ter tostado, foge para o frio da solidão, queixando-se de que o fogo queima” (SCHOPENHAUER, 1953, p.154). Assim, para a economia de nossa felicidade e paz interior (tranquilidade e serenidade da alma) precisamos aprender a lidar com a solidão, o que não significa se isolar do mundo. Temos que buscar a justa medida entre a solidão e as relações sociais, o equilíbrio entre solidão e multidão. Nem tanto ao fogo da vida social, nem tanto ao frio da solidão.

REFERÊNCIAS:

COMTE-SPONVILLE, André. O amor a solidão. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

SCHOPENHAUER. Arthur. Aforismos para a sabedoria na vida. São Paulo: Melhoramentos, 1953.

A BIBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulinas, 1993.

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