Autista severo escreve livro: “O que me faz pular”


Naoki Higashida sofre de autismo severo e possui grande dificuldade de se expressar verbalmente. Todavia, sua dificuldade em falar não o impediu de se comunicar, sendo que Naoki começou a se expressar de uma forma tão funcional quanto incomum: apontava letras em uma cartela de papelão. Aos treze anos de idade, o jovem foi além, escrevendo um belíssimo livro em que explica sobre seu comportamento, como se sente diante dos estímulos do meio em que vive e de suas percepções sobre o tempo.

A obra é incrível. Chorei lendo o tempo inteiro. Lia e chorava, lia e chorava. Não porque era triste, mas porque começava a compreender as coisas de um ângulo diferente. Era como se eu tivesse tendo uma longa conversa com minha filha. A Gabi é verbal, mas ainda não fala tal qual uma criança de sua idade. Isso não me dá a oportunidade de ter um “papo” de verdade sobre como ela se sente. Ler esse livro foi conversar com minha filha pela primeira vez! Foi incrível e emocionante.

Pensamos muito em como agir diante de comportamentos atípicos de crianças e adultos autistas, no tratamento, mas às vezes paramos de pensar sobre o que se passa dentro da cabeça deles.

Algumas frases que grifei do livro de Naoki nos fazem entender um pouco melhor nossos filhos autistas:

“Dentro de minha cabeça não existe grande diferença entre o que me disseram agora mesmo e o que ouvi há muito tempo atrás”. (pág. 31)

“Quando uso uma voz estranha, não é algo que faço de propósito. Com certeza existem momentos em que acho o som da minha voz reconfortante, quando digo palavras familiares ou frases fáceis de falar. Mas a voz que não consigo controlar é diferente. Ela escapa de mim sem querer: é como se fosse um reflexo”. (pág. 29)

“Compreendemos bem o que ouvimos, apenas não conseguimos responder até localizar a lembrança e a imagem certa em nossas cabeças” (pág. 33)

“Eu sou constantemente repreendido por fazer as mesmas coisas sempre. Pode parecer que fazemos por maldade ou por pirraça, mas, juro, não é o caso. Quando somos advertidos, nos sentimos mal por mais uma vez termos feito algo que já nos haviam avisado que era errado. Só que, quando aparece a oportunidade, já nos esquecemos do que aconteceu na última vez e somos levados a fazer tudo de novo.”.

“Vocês, pessoas normais, falam numa velocidade inacreditável. Entre pensar alguma coisa na sua cabeça e dizer, leva apenas uma fração de segundo. Para nós é como se fosse mágica. (pág. 43).

E, caro leitor, essas frases não chegam nem perto do número de fases que ressaltei com grifos e asteriscos. Essas são apenas algumas frases da parte inicial do livro, só para dar um gostinho para vocês do que será essa leitura.

Por fim, gostaria de agradecer muito, muito, muito ao amigo que me deu esse livro. Fomos colegas de faculdade e, depois de muito tempo, saímos para tomar um café. Em seguida, ele deixou essa joia em meu escritório. Foi, sem dúvida, um dos maiores presentes que recebi em minha vida! As mensagens que esse livro me trouxe têm um valor inestimável, além de uma utilidade prática incalculável.

Naoki mora em Kimitsu, no Japão. Chega a ser engraçado pensar que encontrei respostas que vieram literalmente do outro lado do mundo. Eu já disse algumas vezes: “Se precisar, eu vou ao Japão, a pé e nadando, buscar respostas!”. O que eu não imaginava é que realmente havia respostas que estavam lá no Japão! Bom… Ainda bem que esse livro está disponível nas livrarias do Brasil, porque meu preparo físico não é dos melhores.

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