O esgotamento profissional: o “burn-out“ segundo Dostoiewisk


Por Arthur Lobato*
Fiedor Dostoiewisk é considerado o pai do romance psicológico, pois seus personagens agem, pensam, refletem, confrontado o ato com  a consciência moral que atormenta os personagens evidenciando seu mundo mental. Isso fica nítido em uma de suas maiores obras — Crime e Castigo. Mas, quero falar de um conto praticamente desconhecido deste autor que considero o primeiro caso de burn-out (esgotamento profissional) relatado em texto, e isto   em 1875.
No conto “Um Coração Fraco”, uma primeira localização do sintoma patológico: o coração é o centro da paixão, da loucura, mas hoje em dia com os transplantes cardíacos, a medicina provou que troca-se o coração mas não as emoções. A neurociência localiza no cérebro a fonte das emoções atuando com medicamentos que alteram a bioquímica das conexões sinápticas. Assim, o cérebro e  não mais o coração é o alvo tanto dos medicamentos quanto do sofrimento mental. Quando se transplantou o coração e não veio junto a paixão do doador, ficou cientificamente impossível continuar com a ideia romântica do cérebro como razão e o coração enquanto emoção.
O personagem Vássia trabalha no serviço público do império russo, cargo de grande  honra e vitalício. Para  ser servidor público no império russo, tem de ter boa letra, conhecimento de gramática e ser rápido nas cópias que devem ser perfeitas, sem borrão no papel, já que na época se escrevia com tinta e pena de animais, daí  a importância da forma sobre o conteúdo. São os copistas, os amanuenses, e já que o serviço público remonta a Roma, esse serviço burocrático continua sendo a base  do controle do estado sobre cidadãos, consolidando um ordenamento jurídico, comercial e administrativo, que vale para todo o império russo, daí a importância do documento (processo físico). Por isso a cópia tem de ser perfeita, sem erros e o trabalho tem de ser célere. Parece bem atual: celeridade no trabalho e sem erros.
Hoje com o computador tudo parece mais fácil, mas os desafios do serviço público são os mesmos: registrar, documentar, carimbar ou usar o certificado digital, tanto faz, o importante é que o conteúdo do documento oficial, seja impresso ou virtual,  é o que valida as ações jurídicas e administrativas. Se antes era a pena e o tinteiro o instrumento de trabalho, depois vieram as máquinas de datilografar e posteriormente, o computador. Muda a tecnologia mas o trabalho do servidor público é o mesmo, e se antes copiava-se documentos, hoje eles são impressos ou escaneados, e, mesmo o processo virtual continua a  existir  enquanto  processo físico a partir do momento que ele é impresso, carimbado e registrado, portanto, ainda sobrevive no papel, o documento oficial.
As transformações do mundo do trabalho afetam o judiciário brasileiro, pois com a evolução da informática há uma mudança de paradigma: transformar o processo físico em um elemento da nuvem digital, de forma que seu acesso seja  compartilhado por advogados,  reclamantes e acusados  através de uma nova plataforma tecnológica onde os processos existirão de forma virtual, extinguindo os processo físicos, afinal, esta é a meta. Embora os processos físicos sofram o desgaste do tempo, da umidade, das traças, continuam existindo. E o processo virtual?  É acreditar na infalibilidade dos provedores e da nuvem da internet, onde tudo existe, mas ao mesmo tempo nada existe, pois é virtual.
Claro que se pode imprimir, mas o papel deixou de ser o suporte, agora o que vale é o documento eletrônico. Esta é a revolução que vivemos no serviço público.  A  tecnologia da máquina de escrever e depois da máquina elétrica, agilizaram o serviço, pois a caligrafia deixou de ser requisito para o trabalho, e o que é exigido agora é a  agilidade da digitação, sem erros,  isso  é o que conta. Depois vieram as máquinas eletrônicas e por fim o computador acelerando ainda mais o ritmo do trabalho e junto com as novas tecnologias, novas doenças como as “Lesões por Esforços Repetitivos (LER) e “Distúrbios Osteo musculares” (DORT).
Há alguns anos a meta era digitalizar os processos antigos, mas a evolução da informática e da internet praticamente eliminaram a digitalização, meio termo entre o processo físico e o eletrônico, agora o que vale é o processo eletrônico, os quais têm acesso de qualquer lugar, por qualquer plataforma (computador, smartphone, notebook, tablet etc.). Basta estar “conectado”. O suporte tecnológico é virtual e com ele exige-se mais agilidade e celeridade como se em vez de pensar, o recortar e colar fosse a forma de agilizar o serviço. Em vez de pensar, recortar e colar.  Mas a partir de qual jurisprudência? Será que cada caso pode ser classificado como igual a outro?
Aceleramos o processo de trabalho, em busca de uma aparente produtividade, mas perdemos a análise do caso a caso. Em vez do papel existe a tela do computador e com ela as novas doenças no mundo do trabalho. As LER/DORT foram as primeiras consequências da aceleração do ritmo dos digitadores sobre o corpo dos trabalhadores  já que em busca de produtividade não há tempo para pausas, o olho fica vermelho, irritado, pois em frente a tela do computador nossa visão vai sofrendo os impactos de estar em frente a um monitor  várias horas, cansando a vista, embaralhando as letras, e, depois de muitas horas em frente ao computador a capacidade de raciocínio já não é a mesma. Assim, além dos impactos do trabalho sobre o corpo, afetando o  sistema oste omuscular temos o cansaço do nervo ótico.
Edith Seligmann Silva, psiquiatra, professora do Departamento de Medicina Preventiva da Universidade de São Paulo desenvolve sistematicamente pesquisas e estudos sobre a questão da saúde mental no trabalho. Ela conclui que: “nos atuais processos de precarização, com respeito aos impactos na saúde mental, podemos destacar os seguintes aspectos e mecanismos: intensificação do trabalho, associado muitas vezes ao prolongamento de jornadas, aumento das cargas de trabalho, especialmente das cargas de  trabalho mental (inteligência + esfera  dos afetos), com advento de níveis crescentes de fadiga geral e mental,  os quais podem culminar em esgotamento profissional (burn-out) ou outros agravos.
A maior exigência mental/cerebral no trabalho,  faz com que o estresse e os erros sejam maiores, afinal, não somos maquinas ou suporte eletrônico, somos humanos. Mas isso não importa, quem não se adaptar à tecnologia esta fora do mundo do trabalho, seja um porteiro, uma secretária, um servidor ou um magistrado. Para isso, a revolução tecnológica colaborou quando a internet deixou a comunidade militar e científica, para ser de domínio  público. A aceleração da banda alarga, a nano tecnologia e a comunicação via satélite  possibilitaram maior rapidez na comunicação e principalmente o acesso a todas as camadas da população ao PC e ao smartphone, objetos de uso e de consumo que hoje são tão comuns no lar e no trabalho como a Tv e a geladeira foram na década de 60.
Estamos falando de mudanças de paradigma. Os trabalhadores mais velhos (analógicos) são ultrapassados pelos mais novos, que já nascem na era digital, portanto, dominam o mundo virtual. O aprendizado de uma criança já tem o componente virtual em sua formação como ser humano. Câmeras vigiam bebês à distancia e vigiam o adulto no trabalho. Crianças usam o smartphone para ouvir músicas, ver vídeos e acessar conteúdo de estudo. Tudo é muito  rápido, é muita informação. O lazer e o trabalho se misturam com as novas mídias, pois o tempo do homem e  da mulher é perpassado pelo trabalho, seja através de e-mails, whatsapp, mensagem de texto, ordens urgentes de serviço que deve ser feito imediatamente, seja noite, folga, ou feriado. E assim, a vida privada é invadida pelo mundo do trabalho, como diria a propaganda de um banco: “Incansáveis”, assim temos de ser no trabalho, ou o lema de uma Tv “sempre ligado, 24 horas com você”. Mas a consequência deste mundo do trabalho é o adoecer do trabalhador.
O trabalho torna-se a essência da vida, e, conseguir e manter o emprego é nossa necessidade básica pois o desemprego esta cada vez maior, mantendo o exercito de reserva de mão de obra. O desemprego nos ameaça diariamente, daí a procura pelo serviço público e seu grande diferencial: a estabilidade no emprego. Assim, quem está desempregado aceita valores salariais inferiores ao que ganhava, e quem trabalha tem de ser cada vez mais produtivo. O serviço público incorporou estas modalidades de produtividade e metas da iniciativa privada e quer que os servidores e magistrados tenham que produzir cada vez mais, dentro de uma  lógica toyotista, onde os problemas da empresa ou instituição são “meus” problemas enquanto trabalhador, e portanto, cabe a mim resolve-los.
Outra grande mudança de paradigma com a informática enquanto suporte ao trabalho produtivo é o Home office ou trabalho à distância. Agora não é preciso uma firma, escritório, computador, mesa, cadeira para exercer meu trabalho, dentro de uma jornada de trabalho controlada pelo ponto eletrônico, que registra  a entrada e a saída do ambiente de trabalho. Agora a oportunidade e novidade para os trabalhadores é trabalhar em casa (home office), sem jornada, mas o trabalho é medido pela produtividade, com o escritório (mesa, cadeiras, computador, internet) montado pelo trabalhador. Começou com  a terceirização do tele atendimento, agora é uma realidade em muitas profissões.
Este é o mundo do trabalho em  que vivenciamos, uma grande mudança de paradigma – trabalho por jornada, para trabalho medido pela produtividade—, com as “flexibilizações” que significam a perda dos direitos trabalhistas conquistados com muita luta. Trabalhar em casa parece novo, mas na realidade é um canto de sereia, conforme análises críticas ao teletrabalho, já publicadas no site do Sitraemg,  pois, a invasão do espaço privado pelo trabalho, gera transtornos e conflitos, o ato de trabalhar deixa de ser um momento da vida, para nossa vida ser o trabalho em tempo integral, como no conto de Dostoiewisk, “Um coração fraco.”
É interessante notar que há mais de 100 anos o russo Fiódor Mikailovitch Dostoiéviski (1821/1881) já denunciava os aspectos negativos  de se trabalhar em casa, pois indo à uma repartição, mesmo que você não queira, tem que trabalhar, tem que fazer o serviço, pois há chefias, controle vigilância e punição, além de exigência de produtividade, cumprimento de metas, etc., mas esta pressão termina com o final da jornada, quando saimos do trabalho enquanto espaço físico. Entretanto  em casa você vira seu chefe, internalizando o chefe externo, já agora você é chefe de si mesmo, fortalecendo o super ego, e a psicanálise revelou como o superego é severo com o ego, um dos motivos da cisão neurótica do sujeito.
No conto “Um coração fraco”, Dostoiewisky narra o drama de  de um escriturário, um servidor público russo no império do TZAR, que em caso de desídia, pode ser até fuzilado, pois o serviço público, registrando e mantendo guardando processos e documentos é a base da burocracia e do controle do estado sobre os cidadãos. Fazer parte do serviço público do império russo é uma honra, e as promoções vão depender da produtividade, da caligrafia perfeita, que não pode ser demorada, mas precisa, afinal não existia xerox, somente cópias manuais de documentos — o trabalho do caligrafo, do amanuense.
No livro o personagem principal inicia o conto muito feliz confraternizando com um amigo, pois ficou noivo e queria comemorar. Mas toda a alegria do personagem logo cai por terra, quando ele confessa ao amigo, depois de dias de festa e alegria, já que é véspera de natal e ano novo, que trouxe trabalho da repartição, recomendado pela chefia para ser concluído no período de festas natalinas, quando repartição esta fechada. O personagem recém promovido, quer mostrar serviço e assume o compromisso. Entretanto a vida, o amor interfere no seu trabalho mecânico de copista, pois ele conhece uma mulher, se apaixona, fica noivo comemora com o amigo e quando percebe vários dias se passaram. Agora, em casa a alegria da lugar à ansiedade, medo e a preocupação, afinal o serviço esta atrasado, e mesmo sendo natal e ano novo a tarefa deve ser cumprida, pois é seu compromisso com a chefia, com seu cargo,  e consigo mesmo.
Entretanto, o personagem sentado na mesa de trabalho em sua casa não consegue se concentrar, tantas são a emoções vividas nestes últimos dias. Mas para casar deve manter o emprego e para manter o emprego deve cumprir a tarefa, e ela esta muito atrasada. Como se concentrar em um serviço monótono, meticuloso, se sua mente e seu coração só pensa no amor e na amada Lisanka.
Surge o primeiro bloqueio: falta de concentração em casa para executar a tarefa. Os pensamentos estão focados na emoção do amor, e ele fica horas na mesa sem conseguir começar o trabalho. O medo da punição gera angústia e ansiedade, e ele em um esforço sobre humano tenta realizar a tarefa, lutando contra suas emoções e pensamentos amorosos. Começa a copiar os documentos sem parar, sem errar, sem dormir ou se alimentar.
Seu amigo, Arkaddi, o visita e fica preocupado com seu estado, pois há dias ele não dorme, não se alimenta, e mesmo assim o trabalho não rende. Ele fica preocupado, mas não consegue demover o amigo de fazer uma pausa, este continua de forma frenética a escrever, copiando páginas e mais páginas, de forma automática, “a pena desliza”, diz o autor, mas o trabalho não acaba. Dias e noites se passam, a noiva se preocupa, o amigo também, mas nada faz Vássia sair do ritmo de trabalho que ele se impôs para conseguir executar a tarefa, mesmo sendo natal e ano novo, que passam sem que o personagem saia de casa.
Esta exigência consigo mesmo traz conseqüências. É visível seu transtorno, mas ele continua copiando e trabalhando sem cessar. Então, quando o amigo resolve intervir dizendo que o trabalho esta quase terminado, ele se desespera e mostra uma pilha de documentos que ainda tem de copiar. Estafado sem dormir e comer ele se angustia e pensa nas conseqüências de não executar a tarefa, pois até ser fuzilado por motivo de desídia está contido como sentença, no estatuto do serviço público russo. E o medo, a preocupação e a responsabilidade são mais fortes que os apelos do amigo ou necessidade de descanso, afinal, a prioridade é o trabalho.
É  um caso que hoje chamaríamos de burn-out –  “(…) um estado de esgotamento físico e mental cuja causa está intimamente ligada à vida profissional” —, mas há um contexto psicológico ligado ao trabalho: o medo da punição é maior  que a angústia de não dar conta. E, de tanto trabalhar enlouquece, se dirige ao chefe em sua casa no início do ano novo para ser punido, pois esta esgotado, e não deu conta da tarefa. Este servidor que era um funcionário modelo, tranquilo, se apresenta  ao chefe em tal estado de agitação e desespero, imundo, com uma barba mal cuidada, com uma fala desconexa, e tão angustiado chora e pede perdão por sua “incapacidade”  de dar conta do serviço.  Um médico é chamado e constata que ele enlouqueceu. Nesta época não havia o estudo mais aprofundado do estresse laboral tampouco do “burn-out” ou licença por transtornos mentais, somente a divisão SANIDADE E LOUCURA.
Para Vássia, funcionário público do Império russo na época do tzarismo, a loucura pelo excesso do trabalho e o conflito entre suas emoções e a obrigação laboral, o levam à exaustão e à loucura, era o fim de uma vida dedicada ao trabalho, e mesmo assim ele se culpa de não ter dado conta de realizar a tarefa. O hospício é seu destino, a saída da loucura do trabalho é enlouquecer de verdade. No final do conto a frase cruel e dúbia do chefe:” afinal nem era tão urgente….”.
Fica a dúvida: não era mesmo urgente ou foi imposto à Vássia como urgente, ou foi  ele quem introjetou a urgência por conta própria?
* Arthur Lobato é psicólogo, responsável técnico pelo Departamento de Saúde do Trabalhador e Combate ao Assédio Moral (DSTCAM) do SITRAEMG e coordenador da Comissão de Combate ao Assédio Moral do Sinjus e do Serjusmig.
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