Trechos Selecionados de – A Insustentável Leveza do Ser – (por Milán Kundera)


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“Não há muito tempo, eu mesmo fui dominado por este fato: parecia-me incrível mas, folheando um livro sobre Hitler, fiquei emocionado diante de algumas de suas fotos; elas me lembravam do tempo de minha infância; eu a vivi durante a Guerra; diversos membros de minha família foram mortos nos campos de concentração nazistas; mas o que era a morte deles diante daquela fotografia que me lembrava de um tempo de minha vida, um tempo que não voltaria mais??
Essa reconciliação com Hitler trai a perversão moral inerente a um mundo fundado essencialmente sobre a inexistência do retorno, pois tudo nesse mundo é perdoado por antecipação e tudo é unicamente perdido.”

“Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da Terra está nossa vida, e mais ela é real e verdadeira.”

“A contradição pesado-leve é a mais misteriosa e mais ambígua de todas as contradições.”

“Não existe meio de verificar qual é a boa decisão, pois não há termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez, sem preparação. É como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas, o que pode valer a vida, se o ensaio da vida já é a própria vida?”

“…Deitar com uma mulher e dormir com ela: eis duas paixões não somente diferentes, mas quase contraditórias. O Amor não se manifesta pelo desejo de fazer amor (esse desejo pode aplicar-se a uma série inumerável de mulheres!!), mas pelo desejo do sono compartilhado (ou seja, diz respeito a uma só mulher…).”

“Não existe nada mais pesado que a compaixão. Mesmo nossa própria dor não é tão pesada como a dor co-sentida , com o outro, pelo outro, no lugar do outro, multiplicada pela imaginação, prolongada em centenas de ecos.”

“(…) o peso, a necessidade e o valor são três noções íntimas profundamente ligadas: só é grave aquilo que é necessário, só tem valor aquilo que pesa.”

“Acreditamos todos que é impensável que o amor de nossa vida seja algo leve, imponderável; achamos que nosso amor é o que devia ser, que sem ele nossa vida não seria nossa vida.”

“Enquanto as pessoas são ainda mais ou menos jovens, e a partituras de suas vidas ainda está nos primeiros compassos, elas podem juntas fazer a composição e trocar os temas, (…), mas quando se encontram numa idade mais madura, suas partituras musicais estão mais ou menos terminadas, e cada palavra, cada objeto, significa algo de diferente na partitura do outro.”

“Tinha mais ou menos doze anos quando, um dia, ela (a mãe) se via só, tendo sido subitamente abandonada pelo pai de Franz. Franz suspeitava que algo de grave havia acontecido, mas sua mãe simulava o drama com palavras neutra e medidas para não traumatizá-lo. Foi nesse dia, que saíam juntos do apartamento para darem um passeio pela cidade, que Franz notou que sua mãe estava com os sapatos descasados. Ficou confuso, quis avisá-la, temendo ao mesmo tempo magoá-la. Ficou com ela durante duas horas pelas ruas sem poder despregar os olhos de seus pés. Foi então que teve uma vaga idéia do que significava sofrer.”

“(…) a Fidelidade é a primeira de todas as virtudes; a fidelidade dá unidade à nossa vida que, sem ela, se despedaçaria em mil impressões fugidias.”

“Num passado remoto, o homem deve ter ouvido com assombro o som de batidas que vinham do fundo de seu peito, sem conseguir saber o que era aquilo. Não podia identificar-se com um corpo, essa coisa tão estranha e desconhecida. O corpo era uma gaiola, e dentro dela, dissimulada, estava uma coisa qualquer que olhava, escutava, tinha medo, pensava e espantava-se; essa coisa qualquer, essa sobra que subsistia, deduzido o corpo, era a alma.

Hoje, é claro, o corpo deixou de ser um mistério; sabemos que o que bate no peito é o coração, que o nariz nada mais é do que a extremidade de um cano que avança para levar oxigênio aos pulmões. O rosto nada mais é que o painel onde terminam todos os mecanismos físicos: a digestão, a visão, a respiração, a audição e a reflexão.

Depois que o homem aprendeu a dar nome a todas as partes de seu corpo, este o inquieta menos (…). A dualidade da alma e do corpo estava dissimulada por termos científicos, isso é, hoje, um preconceito fora de moda, que só nos faz rir. Não basta amar loucamente e ouvir o ruído dos intestinos para que a unidade da alma e do corpo, ilusão lírica da era científica, imediatamente se desfaça.”

“A sensualidade é a mobilização máxima dos sentidos: um indivíduo observa seu parceiro intensamente, procurando captar seus mínimos ruídos.”

“Essa escuridão não tem fim nem fronteiras; essa escuridão é o infinito que cada um de nós traz dentro de si (sim, se alguém busca o infinito, basta fechar os olhos para encontrá-lo!!).”

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