WALDEMAR DE ALBUQUERQUE ASSIS -UM HOMEM, SEU TEMPO E SUA CIRCUNSTÂNCIA


 

Por Regina Lucia Pereira de Assis Luz e Eduardo Jose Pereira de Assis
Resumo

Waldemar de Albuquerque Assis nasceu no dia 13 de maio de 1920 em Capela Nova, Minas
Gerais. Cursou o Primário em Capela Nova e o Ginasial em Barbacena. Em 1940 foi para Ouro
Preto onde ingressou na Escola de Minas de Ouro Preto. Graduou-se em Engenharia de Minas
e Civil em 1947 e no mesmo ano entrou no Conselho Nacional de Petróleo, hoje Petrobrás, e
foi trabalhar em São Luís do Maranhão. Em 1954 foi designado pela Petrobrás para fazer um
curso de especialização em Geologia e Geofísica Aplicada na Universidade da Califórnia em Los
Angeles (UCLA). Retornou para o Brasil , e permaneceu na sede da Petrobrás no Rio de Janeiro
até 1956, quando foi transferido para trabalhar no Departamento de Exploração -DIREX em
Salvador, Bahia. Além das funções desempenhadas na Petrobrás, de 1958 até 1963, foi
professor de geofísica na Escola de Geologia da Universidade Federal da Bahia. Em 1968,
assumiu a Superintendência da Região de Produção da Bahia (RPBa). Em 1968 ingressou na
Sociedade Brasileira de Geologia. Em 1974, foi designado como Diretor Geral do Escritório de
Representação da Petrobras em Nova York nos Estados Unidos onde ficou até 1977. Retornou
ao Brasil e assumiu a Diretoria Adjunta da Petrobrás Mineração S.A – Petromisa, no Rio de
Janeiro. Aposentou-se da Petrobrás em 1984 e reside até hoje no Rio de Janeiro.

UM HOMEM, SEU TEMPO E SUA CIRCUNSTÂNCIA

1920

Waldemar de Albuquerque Assis nasceu no Estado de Minas Gerais, na cidade de Capela
Nova em 13 de maio de 1920.

A década de 20 foi caracterizada como o período do pós primeira guerra mundial no qual a
necessidade de recuperação da Europa em ruínas favoreceu a ascensão econômica dos
Estados Unidos num breve interregno até a crise de 29. Esta crise teve rebatimento no Brasil já
em 1930 tendo em vista que os Estados Unidos eram o maior comprador do café brasileiro.
Com a crise, a importação de café diminuiu e os preços do café brasileiro caíram forçando o
governo a atuar para sustentar o preço do principal produto brasileiro. Por outro lado, este
fato trouxe algo positivo para a economia brasileira. Com a crise do café, muitos cafeicultores
começaram a investir no setor industrial, alavancando a indústria brasileira.
O Brasil era um país essencialmente rural, vulnerável economicamente, com pouquíssimos
produtos fabricados no país. Dominavam as oligarquias paulista e mineira ligadas ao meio
rural. As classes médias urbanas expressavam insatisfação através de movimentos que
clamavam pelo desenvolvimento e pela modernização.
Capela Nova era distrito do município de Carandaí, situado nos contrafortes da Serra da
Mantiqueira, a 750 metros acima do nível do mar. Capela Nova tomou esse nome a partir de
1790 quando foi construída a ermida de Nossa Senhora das Dores logo atrás da Pedra Menina.

Nesta pequenina cidade, com casas assobradadas em torno da praça da matriz, poucas ruas
no prolongamento, e com fazendas e sítios que se esparramavam nos contrafortes azulados
das serras mineiras, em 1920, nasceu o filho mais velho do Sr. José (Juca) Lopes de Assis e de

D. Cândida (Nina) de Albuquerque Assis, o primeiro de uma prole de sete, que se chamou de
Waldemar de Albuquerque Assis. O Sr. Juca Lopes de Assis era correspondente do Banco do
Brasil em Capela Nova e geria uma pequena propriedade rural -o Abreu.
Na década de 20, Capela Nova contava com cinco escolas publicas numa das quais,
Waldemar Assis fez o curso primário. Já na infância demonstrava ser menos afeito as lidas do
campo, embora sempre ajudasse seu pai no sitio do Abreu, do que ás letras e aos números,
principalmente aos números.
1930

Terminado o curso primário vai para Carandaí, em 1933, concluir o curso ginasial fazendo-o
em 1938, com destaque e brilho, o que garante a continuidade de uma nova etapa de
estudos, desta vez em Ouro Preto.

No Brasil, a década de 30 acirra a contradição entre a vocação agrária e a necessidade de
modernização através da industrialização. Ocorre a revolução de 30, trazendo ao poder o
político gaúcho Getulio Vargas. Em 32, inicia-se a revolução constitucionalista organizada pelo
Estado de São Paulo. Em 1934, é promulgada uma nova constituição. Chega ao fim a
alternância entre Minas Gerais e São Paulo na política café com leite e tem inicio o Estado
Novo em 1937. No mundo, o rádio, o cinema e a música popular começavam a integrar a
cultural mundial. Começava-se a viver, então, a chamada era da cultura de massas.
O Brasil iniciou um processo acentuado de industrialização, combinado com a migração no
sentido campo-cidades. Em 1933, o Brasil de Vargas abandonou o padrão-ouro,
acompanhando os EUA de Roosevelt e do New Deal, significando na prática a possibilidade de
exercer intensamente a política monetária e a política cambial abrindo o caminho para a
industrialização no Brasil.
Entre 1933 e 1939, Estados Unidos da America e Brasil cresceram bastante. No Brasil, o
crescimento do PIB foi de 60% em 10 anos. O país começou a crescer de forma desigual a
partir de 1933 e prosseguiu por mais cinco décadas até 1980.
É da década de 30 a tendência à nacionalização dos recursos do subsolo brasileiro. Em 1938,
toda a atividade petrolífera passou, por lei, a ser obrigatoriamente realizada por brasileiros.
Neste ano foi criado o Conselho Nacional do Petróleo (CNP), para avaliar os pedidos de
pesquisa e lavra de jazidas de petróleo. O decreto de criação do CNP também declarou de
utilidade pública o abastecimento nacional de petróleo e regulou as atividades de importação,
exportação, transporte, distribuição e comércio de petróleo e derivados e o funcionamento da
indústria do refino. Além disso, as jazidas de petróleo, embora ainda não localizadas, passaram
a ser consideradas patrimônio da União.
Em 1939 foi descoberto petróleo em Lobato, na Bahia, em exploração realizada pelos
pioneiros Oscar Cordeiro e Manoel Inácio Bastos. Ainda que subcomercial, a descoberta
incentivou novas pesquisas do CNP na região do Recôncavo baiano. Em 1941, um dos poços
perfurados deu origem ao campo de Candeias, o primeiro a produzir petróleo no Brasil. As
descobertas prosseguiram na Bahia, enquanto o CNP estendia seus trabalhos a outros estados.
No final da década de 30 eclode a segunda guerra mundial.

1940

Na década de 40, Waldemar de Albuquerque Assis chega a Ouro Preto, num mundo atônito
com a segunda guerra mundial, e ao mesmo tempo pleno de expectativas de um futuro num
país que começava de fato a modernizar-se através da industrialização. A Escola de Minas de
Ouro Preto representava o sonho de contribuir e fazer parte da historia.
A Escola de Minas de Ouro Preto (EMOP), inaugurada em 1876, foi um dos mais importantes
espaços de formação da elite brasileira entre o final do século XIX e início do século XX,
sendo a segunda escola de engenharia civil brasileira. Fundada sob os auspícios de D. Pedro
II e organizada pelo professor francês Claude Henri Gorceix, a EMOP teve, desde o início de
suas atividades, uma preocupação primordial: desenvolver pesquisa cujo resultado fosse
aplicável, gerando riqueza e desenvolvimento para o Estado.
A entrada na conceituada escola era precedida de um curso complementar ao curso ginasial,
hoje correspondente ao segundo grau. Em 1941, juntamente com os estudantes Francisco
de Paula de Negreiros Sayão Lobato, Paulo Barbosa Arantes, Bento Romeiro Viana,
Waldemar de Albuquerque Assis funda a Republica Sparta, no bairro do Rosário, que ainda
existe hoje tendo sido transferida, contudo, para o atual sobrado no bairro das Lages.
Neste período faz o curso preparatório de oficiais da reserva-CPOR.
Através das próprias palavras de Waldemar Assis proferidas em discurso de 1998 pode-se
vislumbrar toda esta expectativa e todas as dificuldades a serem vencidas para alcançar a
formatura:
Egressos do ginásio, chegamos a Ouro Preto otimistas e empolgados com aesperança de ingressar numa das escolas de engenharia mais conceituadas dopaís. A primeira aula do referido curso complementar serviu de alerta preciosopara a expectativa do que nos reservava o futuro. O professor Gastão Gomes, aquem aprendemos a admirar e respeitar por sua proficiência e excelente
didática, deu-nos, com um simples teste-surpresa de aritmética, a sacudida
reveladora: os resultados do teste foram decepcionantes, uma vez que a
maioria esmagadora dos alunos, nela incluído o orador que vos fala, nãoconseguiu alcançar nem 10% do valor máximo atribuído ao teste. Com
surpresa e espanto, tivemos o prenúncio de um mundo diferente, de umambiente educacional inovador e com métodos mais práticos e objetivos doque aqueles aos quais estávamos acostumados nos cursos ginasiais.

Dois anos mais tarde, o exame de admissão à Escola de Minas mostrou-nos a
preocupação maior com a seleção dos alunos. Era uma tentativa de selecionaraqueles que melhor pudessem atender a métodos de ensino, cujo objetivoprincipal era o desenvolvimento da criatividade individual. O exame da
admissão era difícil, porque seletivo e não classificatório, e assim poucos
alunos eram aprovados.

O nosso curso, incluindo os dois anos do curso complementar, abrangeu operíodo de 1940 a 1947.

Foi um período difícil na história da Escola de Minas. A eclosão da 2ª Guerra
Mundial afetou negativamente todos os cursos num momento em que a escolajá enfrentava dificuldades com as dúvidas que se levantavam sobre aqualidade do ensino nela praticado.

Citando especificamente o nosso curso, pudemos sentir, no desenvolvimentodo mesmo, acentuada queda no nível de ensino, principalmente pela falta de
professores mais experientes em cadeiras importantes e fundamentais como
Física, Resistência dos Materiais, Metalurgia e Geologia; a cadeira básica deGeologia Geral e Geologia de Campo foi inteiramente sacrificada por falta de
professor. ( Assis, 1998)

Em 1947 Waldemar de Assis concluiu o Curso de Engenharia de Minas e civil da Escola de
Engenharia de Ouro Preto.
As perspectivas para emprego dos egressos da Escola de Minas eram preferencialmente na
área de mineração e na área siderúrgica. Um número importante de ex-alunos migrou,
também, para o serviço privado, fundando siderúrgicas ou atuando em outras cujos
proprietários não possuíam formação técnica. Seja no poder público ou na iniciativa privada,
dificilmente estavam afastados dos negócios ligados à mineralogia e à siderurgia mineiras.
A categoria profissional do engenheiro será, no caso mineiro de um modo muito específico, a
portadora de um discurso “modernizante” que propunha dinamizar a economia regional,
desenvolvendo-a a ponto de romper com uma trajetória de atraso econômico, persistente
entre as elites regionais desde o século XIX. Uma vez concluído o curso de engenharia
Waldemar de Albuquerque Assis ingressou no Conselho Nacional do Petróleo-CNP, ainda
em 1947, no Rio de Janeiro a partir da indicação de um colega de classe.
Vem a trabalho para a Bahia e Sergipe atuando na área da pesquisa geológica de bacias
sedimentares.
No inicio da década de 30 o Brasil importava quase 65% do ferro necessário, com produção de
10 kg/ano per capita (3 kg a menos que a média dos países mais atrasados no oriente no
mesmo período). Getúlio Vargas decidira fazer da criação de uma grande indústria siderúrgica
no país símbolo maior da nacionalidade brasileira. Fará, assim, uma série de ousadas
negociações desde 1939, conseguindo estabelecer, em 1946, a Companhia Siderúrgica
Nacional (CSN).
Por sua vez, no setor petrolífero brasileiro, em 1932, o Brasil consumia pouco mais de 12 mil
barris/dia e em 1938, o consumo exigia a importação de 38 mil barris diários. Segundo Pedro
de Moura e Felisberto Carneiro, desde 1936 a Standard Oil vinha propondo a barganha de
construir uma grande refinaria em Niterói em troca de concessões na Amazônia e Paraná, em
bases legais estáveis, embora as quantias que ela garantia investir na exploração fossem pouco
satisfatórias.
Muitos oficiais das Forças Armadas defendiam a tese segundo a qual o petróleo era um
produto estratégico cuja exploração não deveria ser entregue à atividade privada, tendo em
vista que não havendo nenhuma empresa brasileira habilitada, fatalmente cairia nas mãos dos
trustes estrangeiros. Para os nacionalistas tudo que fosse referente ao petróleo devia ser
tarefa exclusivamente nacional. O Presidente do CNP havia visitado o o Uruguai e a Argentina
em 1939 verificando que o estado era hábil o suficiente para controlar aquele ramo
estratégico do desenvolvimento nacional. De algum modo a independência futura do Brasil,
passava necessariamente pelo monopólio estatal do petróleo.
A partir de 1946 iria se travar em relação à política do petróleo o que se pode denominar “o
grande debate” entre nacionalistas e partidários da interdependência. Este debate iria influir
na condução dos problemas pelo governo. A sua atitude de rever a legislação nacionalista de
1938 culminou na apresentação do projeto do Estatuto do Petróleo, em fevereiro de 1948,
para finalmente desistir dele, e pedir ao Congresso verbas para a construção de refinarias
estatais. O governo não voltou atrás na decisão de permitir a refinação de grupos privados
nacionais, dando-lhes, inclusive, apoio financeiro pelo Banco do Brasil, mas sem dúvida se
mostrou sensível à necessidade da iniciativa estatal no setor, voltando-se assim ao aspecto
essencial das diretrizes de 1938 para cuja implementação tanto lutara o general Horta
Barbosa. E, agora, para que fosse alcançado tal resultado, a sua atuação foi decisiva,
enfrentando a tese patrocinada por Juarez Távora, que atuava no sentido de resguardar o
interesse nacional de acordo com o que lhe parecia uma realidade inapelável -a incapacidade
brasileira de conduzir a solução do problema do petróleo por meios próprios.
A campanha “O petróleo é nosso” ganhou as ruas sob a liderança do Centro de Estudos e
Defesa do Petróleo, instalado solenemente no dia 21 de abril de 1948, na sede do Automóvel
Clube do Rio, tendo a presidência de honra do ex-presidente Artur Bernardes e dos generais
Horta Barbosa e José Pessoa. O ex-presidente Artur Bernardes destacou a expressão nacional
do movimento, sobretudo pela rapidez com que se propagou, superior a da Abolição, da
Guerra do Paraguai e da própria Independência.
Depois de uma intensa campanha popular, o presidente Getúlio Vargas assinou, a 3 de
outubro de 1953, a Lei 2004, que instituiu o monopólio estatal da pesquisa e lavra, refino e
transporte do petróleo e seus derivados e criou a Petróleo Brasileiro S.A -Petrobras para
exercê-lo.

1950

Em 1950 Waldemar de Albuquerque Assis retorna para Minas Gerais para casar-se, em
Passagem de Mariana, com Yvone Pereira de Assis, que havia conhecido três anos antes, em
Ouro Preto.
Retorna para o Rio de Janeiro e é transferido para o Maranhão para trabalhos de exploração
e prospecção de petróleo nas bacias do Parnaíba, São Luiz e parte oriental da bacia
Amazônica, no Setor de Supervisão de Aperfeiçoamento Técnico do CNP, como geofísico,
trabalhando sob a orientação do geólogo Pedro de Moura, cuja sede ficava em Belém do
Pará. Executa os trabalhos durante os anos de 1950 a 1953 passando por diversas
localidades do norte do Brasil. São muitas as lembranças das cidades maranhenses de
Curador, Imperatriz, São Luiz e muitas outras localidades. Em São Luiz nasce a primeira filha
do casal em 1953.
Desde 1950 foram iniciadas com a sísmica a exploração das bacias do Parnaíba, São Luís e
parte oriental da bacia do Amazonas. Em 1951 foi perfurado o primeiro poço na bacia do
Parnaíba, que chegou à profundidade de 1.170 metros, não apresentando indícios de
hidrocarbonetos.
As atenções do Brasil voltaram-se para a região pouco conhecida da Amazônia tal a dificuldade
que apresentava à penetração em suas densas florestas. A recém-criada Petrobras entrou no
cenário geoeconômico da Amazônia rompendo barreiras e tabus e mostrando ao mundo a sua
beleza e riqueza. Em 1954, colocou uma equipe de gravimetria na bacia do Amazonas Oriental
para complementar os dados da sísmica e da geologia de subsuperfície. Por outro lado,
Blankennagel e Kreemer, no período de 1954/55, faziam o reconhecimento geológico de
superfície da bacia do Parnaíba (nordeste do Piauí e parte central do Maranhão) cobrindo uma
área de aproximadamente 60.000 km2.
Cerca de uma dezena de bacias sedimentares estão situadas na Amazônia Legal Brasileira,
perfazendo quase 2/3 dessa área territorial. Três delas -bacias do Solimões, Amazonas e
Paranaíba -são as mais importantes, não só pelo tamanho (juntas ocupam aproximadamente
1,5 milhão de Km²), mas principalmente pelo seu potencial. A bacia do Solimões é a terceira
bacia sedimentar em produção de óleo no Brasil, com uma reserva de 132 milhões de barris de
petróleo. No entanto, a principal vocação da Amazônia é o gás natural. O estado do Amazonas
tem a segunda maior reserva brasileira de gás natural do país, com um total de 44,5 bilhões de
metros cúbicos. Nas outras duas bacias também têm sido encontradas acumulações de gás.
Em 1950 começou a funcionar a refinaria de Mataripe, com 2.500 barris por dia de operação,
primeira etapa de um plano para levá-la a refinar cinco mil barris diários em outubro de 1959.
Estes números eram poucos em face das necessidades que se agigantavam e ainda mais das
que se projetavam para o futuro. A partir de 1945, o consumo de derivados de petróleo
disparara. Em 1950, praticamente triplicara: estava consumindo cem mil barris diários. O
índice de evolução do comércio por vias internas estava demonstrando que o país iria
depender em escala crescente de rodovias para integrar e expandir a sua economia. De 1939 a
1950 o comércio por vias internas havia quase duplicado, enquanto o que se processava pela
cabotagem aumentava de apenas uma vez e meia.

Em outubro de 1953, com a edição da Lei 2.004, a constituição da Petrobras foi autorizada
com o objetivo de executar as atividades do setor petróleo no Brasil em nome da União.
A Petróleo Brasileiro S/A -PETROBRAS iniciou suas atividades com o acervo recebido do
antigo Conselho Nacional do Petróleo (CNP), que manteve sua função fiscalizadora sobre o
setor.
As operações de exploração e produção de petróleo, bem como as demais atividades ligadas
ao setor de petróleo, gás natural e derivados, à exceção da distribuição atacadista e da
revenda no varejo pelos postos de abastecimento, foram monopólio conduzido pela
Petrobras de 1954 a 1997.
Instalou-se a nova empresa estatal no dia 10 de maio de 1954 solenemente. Os serviços até
então dirigidos pelo Conselho Nacional do Petróleo e que deveriam passar à sua
responsabilidade foram-lhe sendo transferidos conforme cronograma que se cumpriu, de
tudo, em 1º de agosto daquele ano: nessa data, as unidades de pesquisa e produção da
Bahia saíram da órbita administrativa do CNP para se incorporarem à da Petrobras, bem
como os campos de petróleo do Recôncavo, reservas recuperáveis de 15 milhões de barris,
bens da Comissão de Industrialização do Xisto Betuminoso; Refinaria de Mataripe
processando cinco mil barris diários, uma refinaria e uma fábrica de fertilizantes em
construção em Cubatão, São Paulo, a Frota Nacional de Petroleiros com vinte navios, e o
mais importante: seu corpo técnico.
A produção de petróleo era de 2.700 barris diários. Vinha dos campos de Candeias, DomJoão, Água Grande e Itaparica, todos na Bahia. O parque nacional de refino atendia a uma
pequena parcela do consumo nacional – então na casa dos 137 mil barris diários.
O Governo deu à nova empresa os recursos para expandir a indústria do petróleo no país.
Com o desafio de atender às exigências da nascente indústria brasileira de petróleo, e
buscando a redução dos custos de importação de derivados, a Petrobras opta pela
construção de novas refinarias e pela criação de uma infra-estrutura de abastecimento, com
a instalação de terminais e melhorias na rede de transporte.
O contrato de Waldemar de Albuquerque Assis passou então para a Petrobrás em 1º de
agosto de 1954. No sentido de dar aos técnicos formação de ponta na área de petróleo o a
Petrobras promoveu intercâmbio com renomadas universidades americanas. Em 1954,
Waldemar de Assis inicia nos EUA, na Universidade da Califórnia em Los Angeles, o curso de
Geologia e Geofísica aplicada. Em 1955 retorna ao Brasil em viagem de navio permanecendo
no Rio de Janeiro na sede da Petrobras até 1956 quando é transferido para Salvador.

Havia a preocupação na estatal recém criada de organizar um departamento de padrão técnico
igual ao das grandes companhias internacionais na parte da pesquisa, para o que se foram
enviados técnicos para estudar nas mais importantes universidades dos EUA e contrataram
por cinco anos os serviços de Walter Link, que acabava de se aposentar como geólogo-chefe
da Standard Oil de Nova Jersey. Mr. Link montou e dirigiu o Departamento de Exploração e
desenvolveu pesquisa nas bacias sedimentares do território brasileiro.
O tom do relatório da Petrobrás a respeito do ano de 1955 era otimista: a produção de
petróleo na Bahia mais que dobrara, dando para suprir com folga a refinaria de Mataripe,
funcionando, agora, com cinco mil barris diários; em 30 de janeiro, a refinaria de Cubatão
havia entrado em operação. As apreensões se referiam à reforma cambial, não definida em
virtude do momento de transição política. Realçava o relatório que no Brasil a política sempre
fora de estimular o consumo de derivados de petróleo, ao contrário da orientação adotada em
relação a outras matérias-primas, não tendo havido restrições ao consumo, a não ser no
período de guerra por motivos óbvios, e destacava finalmente que era necessária uma política
de preços que permitisse o autofinanciamento da indústria.
No final da década foi emitido o Relatório Link que apontava a inexistência de acumulações de
grande porte nas bacias sedimentares terrestres brasileiras, fato que suscitou dúvidas no
corpo técnico nacional e ainda hoje se ouve questionamentos a respeito. A bacia de Solimões,
por exemplo, que fora classificada sem condições geológicas de geração e armadilhamento de
hidrocarbonetos, hoje é produtora de gás e óleo leve (45º API) e aloja os campos de Urucu e
Juruá.
No Brasil inicia-se o Governo de JK e a construção da nova capital federal – Brasília. O
financiamento da industrialização e da construção de Brasília vem de investimentos diretos
das empresas, mas fundamentalmente de emissão de moeda. A inflação se amplia e o Brasil
recorre ao FMI.

Em 1956 Waldemar de Albuquerque Assis é transferido para Salvador, na Bahia, para exercer
as funções de engenheiro de exploração na Direx da Região de Produção da Bahia-RPBA. Em
Salvador se estabelece de 1956 até 1973. Em 1958, em Salvador, nasce o seu segundo filho.

Neste período Salvador era uma cidade tranqüila de pouco mais de 500 mil habitantes. Entre
1940 e 1950, mais de 57% do crescimento da população de Salvador foi devido à imigração
líquida e, década de 1950-60 o número teria saltado para quase 64%. A grande maioria dos
que migraram para Salvador vieram de áreas rurais ao redor da cidade.
No inicio dos anos 50 assim era a descrição da capital da Bahia por Pierre Verger:

“as atividades comerciais como a exportação, importação e setor bancário eram
concentradas entre a Igreja Conceição da Praia e o Prédio da Câmara de Comércio. As
pessoas costumavam discutir os seus negócios nas ruas tranqüilas onde poucos carros
passavam. O ar condicionado ainda não estava na moda e as ruas eram infinitamente
mais bem ventiladas que os escritórios. Bahia manteve sua característica provinciana e
seu ritmo de vida continuou atrelado aos hábitos estabelecidos no começo do século.
Os telefones funcionavam muito mal e as pessoas preferiam discutir os seus negócios
em certas esquinas escolhidas por serem mais frescas a certas horas do dia…”
(Verger,1952)

As mudanças na paisagem da capital, do Recôncavo e da Bahia foram devidas, primeiro, à
atividade crescente da Petrobrás, aos programas de construção de rodovias e à expansão da
administração estadual nos anos 50. A implantação das atividades da Petrobras em Salvador
provocou impacto sobre a massa de salários e investimentos que por sua vez impactaram a
estrutura social e política da região.
Em 1956 era dado início à operação do Terminal de Madre de Deus, na Bahia, o que permitiria

o escoamento para Cubatão do excedente de petróleo produzido naquele Estado. Era possível
atender, já naquele ano, 62% do consumo nacional de derivados.
Em 1957, a descoberta da acumulação de Jequiá foi a primeira na Bacia de Sergipe-Alagoas e,
também a primeira fora do Recôncavo Baiano. Ao final da década de 50, a produção de
petróleo era de 65 mil barris diários, e as reservas somavam 617 milhões de barris. Trabalhos
exploratórios localizavam novas bacias nas regiões norte (Bragança-Vizeu, São Luís,
Barreirinhas e Pará-Maranhão) e leste do país (Jequitinhonha, Nativo no sul da Bahia e Espírito
Santo).
Apesar de a Petrobras ter realizado vários investimentos na Região de Produção da Bahia
(RPBA), a exemplo da construção de uma rede de estradas asfaltadas na área de exploração de
petróleo, da ampliação da capacidade de refino da Refinaria Landulfo Alves de Mataripe RLAM
para 10 mil barris diários de petróleo, da construção de uma rede de dutos e outras
realizações secundárias, tal fato ocorria em benefício de interesses microeconômicos da
empresa que se contrapunham às ações de natureza macroeconômicas, esperadas por seus
interlocutores regionais, os quais tinham suas demandas postergadas e/ou preteridas pela
companhia.
Em 1958, o quadro de técnicos da Petrobras era composto por 136 profissionais dos quais 72
estrangeiros e 64 nacionais. O inglês era a língua dominante nos escritórios do Departamento
de Exploração, e a Petrobras mantinha a estratégia de enviar seus técnicos brasileiros ao
exterior, para treinamento e estudos pertinentes a pesquisa de petróleo.
Ao mesmo tempo, a Universidade Federal da Bahia na gestão do reitor Edgar Santos(19491961)
amplia as suas unidades para atender as necessidades cientificas e culturais da
sociedade criando dentre outras a Faculdade de Geologia.
1960

Waldemar de Albuquerque Assis torna-se professor da Faculdade de Geologia da
Universidade Federal da Bahia entre 1958 e 1963. Simultaneamente, na Petrobras, exerce a
chefia da Divisão de Exploração e em 1968 é nomeado Superintendente da Região de
Produção do Estado da Bahia. Na vida social integra-se á sociedade soteropolitana
pertencendo ao Rotary Bahia Norte e associa-se a clubes de Salvador como o Yatch Clube da
Bahia e Associação Atlética da Bahia. Torna-se membro da Sociedade Brasileira de Geologia.
Estabelece uma rede de amizades compostas por colegas de trabalho da Petrobras e por
amigos feitos durante a permanência na capital baiana. Como superintendente foi sempre
muito querido e admirado por todos alem de profissional dedicado e vencedor. As metas de
produção da RPBA foram sempre superadas.

Nos anos 60, a Petrobras absorvia tecnologia e gradativamente os técnicos estrangeiros eram
substituídos por brasileiros – que voltavam do exterior após a especialização. Após dez anos do
chamado ‘período dos gringos’, os brasileiros assumiram o comando técnico e gerencial da
empresa. As universidades brasileiras começaram a formar regularmente turmas de geólogos.
A Petrobras já estava subordinada ao recém-criado Ministério de Minas e Energia.
Os funcionários ganhavam força dentro da empresa. Naquele ano aconteceu a primeira greve
dos petroleiros no Brasil. Os trabalhadores da Refinaria Landulfo Alves pararam por 15 dias,
reivindicando equiparação salarial com os petroleiros das refinarias Presidente Bernardes – foi
a greve do “Equipara ou Aquipara”.
Na década de 60 foi no mar que a Petrobras encontraria a Bacia de Campos – e onde
conquistaria a liderança tecnológica de produção em águas profundas.
Em 1963, a descoberta do campo de Carmópolis, na Bacia de Sergipe-Alagoas, abria
perspectivas de exploração fora da Bahia.
O relatório de 1965 não só iria confirmar o êxito de Carmópolis, como iria revelar a descoberta
de novos campos no Recôncavo Baiano. Em 1966, o valor da produção da indústria nacional de
petróleo conseguiu ultrapassar a metade do valor do consumo medido a preços da
importação, apesar de ter havido crescimento de 8% em relação ao ano anterior, e para tal
resultado contribuiu bastante o aumento da produção de petróleo bruto. É importante
mencionar que em 1966 foi promulgada nova Lei do Imposto Único e de Preços (Decreto-Lei nº
61, para vigorar a partir de 1º de janeiro de 1967), que se acha em vigência, na sua maior
parte, até hoje. A lei reforçou notavelmente os recursos da Petrobras, inclusive porque adotou
para o cálculo do custo do refino a ser remunerado pelos preços dos derivados, o das refinarias
particulares, critério que obviamente favoreceu a Petrobras, possuidora de refinarias de maior
capacidade de processamento.
A década marcou também o início da exploração na plataforma continental. O país crescia e a
empresa precisava suprir a crescente demanda. As bacias terrestres não atendiam e a empresa
resolveu investir nas bacias sedimentares marítimas – em 1966 sua presidência ordenou a
construção da primeira plataforma para sondagens na margem continental brasileira. Dois
anos depois, duas equipes de sísmicas terrestres foram implantadas, e foi criado o primeiro
Centro de Processamento de Dados Sísmicos da Petrobras. Entre 1967 e 1968, a Petrobras
realiza o reconhecimento com sísmica de reflexão de cobertura múltipla e registro digital de
várias bacias da Plataforma Continental. Decorrentes dos levantamentos sísmicos anteriores,
as primeiras sondas marítimas foram contratadas para perfurar dois poços no mar. No
segundo deles foi descoberto o Campo de Guaricema, localizado na Foz do rio Vasa Barris / SE
– o primeiro campo de petróleo offshore do país. Ao final de 1968, a indústria brasileira
produzia cerca de 163 mil barris por dia – com reservas de 1,247 bilhões de barris. Guaricema,
fruto de investimentos em dados sísmicos e sondas marítimas, traria novas esperanças, e a
Petrobras passaria a redirecionar sua exploração para o mar. Começam ali os primeiros
levantamentos na Bacia de Campos. No ano seguinte, a exploração descobriu o campo de São
Matheus no Espírito Santo. Para dar suporte à pesquisa tecnológica, a Petrobras criou, em
1966, o Centro de Pesquisa e Desenvolvimento – Cenpes, que reuniria todas as atividades de
P&D da empresa.
Em meio a uma crise política e econômica no Brasil eclode o golpe militar de 64, implantandose
o estado burocrático autoritário no país.
Na Bahia inicia-se a constituição do Pólo Petroquímico de Camaçari.
Os êxitos obtidos pela Petrobras na pesquisa e na produção do petróleo ajudaram, sem
dúvida, a empresa a se impor diante da orientação geral do governo que lhe era sabidamente
contrária. Entretanto, a diretriz governamental em favor de uma expansão da iniciativa privada
no setor do petróleo, especialmente na indústria petroquímica, levou o governo de Humberto
Castelo Branco a promover revisões que enfraqueceram a política do monopólio estatal.
A criação de empresas subsidiárias á Petrobras era virtualmente proibida pela legislação de
1953, que visava bloquear qualquer forma de associação possível da empresa com capitais
privados. Somente em 1967, uma legislação específica seria editada, suspendendo as
disposições originais da Lei nº 2.003. Seu propósito era oferecer um quadro legal para a
expansão do setor petroquímico, após o bloqueio, em 1964, da opção puramente estatal,
articulada pela Petrobras em conjunto com o BNDES, e do fracasso dos empreendimentos
privados, já patente ao final de 1966, conduzidos pela Union Carbide e pela Petroquímica
União. O chamado modelo tripartite, consagrado na construção do Pólo Petroquímico do
Nordeste (1972), tornaria a Petroquisa S.A, criada em 1967, o núcleo de uma associação
complexa entre investimentos estatais, capital nacional e empresas multinacionais.
A constituição de subsidiárias, contudo, não se estendeu ao núcleo básico das atividades da
Petrobras e seria repetida apenas para dar conta de atividades não-incluídas no monopólio
estatal.
É um momento de recuperação econômica com profunda concentração de renda expressivo
ao ponto de ficar conhecido como período do milagre brasileiro. Aprofunda-se a repressão.
Politicamente, o período 1967-1970 foi marcante pela criação e entrada em funcionamento da
primeira subsidiária da Petrobras, designada pela sigla Petroquisa, de Petrobras Química S.A.,
e concebida para ser uma holding de subsidiárias e de participações financeiras no
desenvolvimento da indústria petroquímica. O decreto que autorizou a sua criação (Decreto nº
61.981, de 28 de dezembro de 1967) foi o que fixou as condições da instalação e expansão
dessa indústria, na realidade, orientado para as grandes unidades industriais ou pólos
petroquímicos, uma vez que o país até então era carente da produção dos denominados
produtos básicos, que, por sua vez, eram obtidos a partir de refinados do petróleo.
Interpretava-se por decreto a Lei nº 2.004 para se permitir a associação da subsidiária com
capitais privados nacionais e estrangeiros, e se deflagrava do ponto de vista institucional o
processo que se corporifica hoje no chamado sistema Petrobras, um sistema em que a holding
exerce atividades de monopólio, e todas as suas subsidiárias têm objeto social fora desse
monopólio. A partir da criação da Petroquisa houve a tendência de se valer da organização e
dos recursos da empresa para o desenvolvimento de atividades não-monopolizadas.
A administração Ernesto Geisel na Petrobras se revelou muito dinâmica, concluindo ou dando
prosseguimento em prazo relativamente curto a obras já programadas, ou dando início a
novos projetos com o fim de enfrentar a nova dimensão do mercado; negociando operações
de pesquisa no exterior e criando uma subsidiária para esse fim, ao mesmo tempo em que
desenvolvia a pesquisa na plataforma submarina, iniciada em 1968 e projetada, em fase de
autorização de encomendas de equipamentos, desde 1966.

1970

Em 1973, Waldemar de Albuquerque Assis é convidado para assumir a chefia do escritório de
representação da Petrobras em Nova York. Deixa então Salvador e muda-se para a cidade de
Nova York em 1974 retornando ao Brasil em 1977.
O choque do petróleo de 1973 marca o fim do milagre brasileiro.
Em 1977 é convidado pelo presidente da Petrobras para retornar ao Brasil e exercer a recém
criada Superintendência dos Contratos de Exploração de petróleo por companhias
estrangeiras, o que significava o fim do monopólio exploratório do petróleo.
Em 1975, o produto interno bruto brasileiro apresentou notável queda no seu ritmo de
crescimento; a dívida externa aumentou assustadoramente. Em 9 de outubro desse ano, o
presidente Ernesto Geisel, juntamente com outras medidas para corrigir o desequilíbrio do
balanço de pagamentos do país, autorizou a realização de contratos de serviços com cláusula
de risco na pesquisa do petróleo, dando ênfase à definição sobre o alcance da política do
monopólio estatal, conforme a que tivera oportunidade de externar ainda na presidência da
Petrobras, e onde “o monopólio que a lei confere [à Petrobras] deve ser entendido como
meio para que se possa cumprir a finalidade da empresa, qual a de assegurar, nas melhores
condições possíveis, o abastecimento nacional de petróleo”.
Após uma decisão extremamente difícil Waldemar de Albuquerque Assis recusa a oferta e
assume a diretoria adjunta da Petromisa, subsidiária da Petrobras, estabelecendo-se no Rio
de Janeiro em 1977, onde mora até hoje.

No que se refere à exploração de petróleo por companhias privadas, nacionais e estrangeiras,
sob o regime de contrato de risco, os resultados foram pouco significativos, apesar do
interesse demonstrado pelas empresas internacionais. Sob a administração da
Superintendência dos Contratos de Exploração (Supex), ligada à presidência da empresa, criada
especialmente para este fim, foram realizadas ofertas de várias áreas em todo o Brasil. Na
primeira rodada, em junho de 1976, apenas seis propostas foram apresentadas, mas nas
rodadas seguintes, mais de 30 empresas se candidataram à exploração de diversas áreas-,
dentre elas a British Petroleum em Santos e a Shell e a Elf na bacia amazônica. Entretanto,
além de conhecimentos adicionais sobre áreas ainda não exploradas pela Petrobras, 12 anos
de contratos de risco deram origem apenas a uma jazida de gás em Santos, explorada pela
Pecten, e pequenos campos em terra, descobertos por empresas brasileiras no Rio Grande do
Norte.
Petromisa foi a sigla de Petrobrás Mineração SA. Era uma empresa estatal fundada no governo
de Ernesto Geisel e extinta no governo de Fernando Collor, em março de 1990. A atividade
desta extinta empresa era a extração de cloreto de potássio, um adubo químico, em Sergipe.
Atualmente, as mesmas minas são administradas pela empresa Vale. A extração deste potássio
é rentável e privada.Tal extração produz cerca de 12% do potássio consumido no Brasil.
A partir de 1970-1971, a Petrobras passou a operar no exterior, primeiramente de modo direto
com escritórios de representação e, depois, através da subsidiária que criou para operações
fora do país, a Braspetro.
Da década de 1970, o que o mundo do petróleo traz na memória são os dois grandes choques,
que resultaram em um aumento de mais de 1.000% nos preços internacionais do petróleo e
fizeram a companhia redirecionar seus esforços ao upstream.
A primeira crise internacional do petróleo foi desencadeada em 1973 por força da guerra do
Yon Kippur, entre Israel e seus vizinhos árabes, e afetou o desenvolvimento da economia. Os
árabes tomaram como pretexto a guerra e, em uma represália ao apoio do Ocidente à Israel, o
preço do barril saltou de US$ 3 para US$ 12, permanecendo neste nível até 1978. Fundada na
década de 60 por Arábia Saudita, Irã, Iraque, Kuwait e Venezuela, a Opep toma notoriedade a
partir desse embargo. Em 1979, ocorreu o novo choque, dessa vez motivado pela revolução
islâmica que retirou temporariamente o Irã do mercado internacional, e os preços chegaram a
US$ 34, oscilando em torno deste patamar nos cinco anos seguintes, quando vieram as crises
de superprodução e a derrubada dos preços. A turbulência não se resumia apenas aos preços,
mas também à garantia do suprimento.
O desenvolvimento econômico baseado no consumo crescente do petróleo começou a
enfrentar dificuldades sérias a partir de fins de 1973, com a crise deflagrada a partir do conflito
árabe-israelense de outubro daquele ano. As restrições eram ainda muito reduzidas pela
preocupação do governo em minimizar os efeitos da alta dos preços internacionais. Dizia o
relatório da Petrobras de 1973: “O Conselho Nacional do Petróleo ajustou os preços dos
derivados em níveis mínimos, [havendo] aumento do preço médio dos derivados, em relação
ao de 1972, de apenas 13,6%, respondendo o custo do petróleo e a taxa cambial por cerca de
70% dessa elevação.” O consumo foi de quase 20% maior que o de 1972. Contudo, em 1974,
quando se iniciou a chamada política de racionalização, “especialmente através dos preços das
gasolinas automotivas” (relatório da Petrobras de 1974), o crescimento do consumo mostrou
uma taxa (7,7%) pouco acima da que parece ter sido a taxa histórica dos últimos 20 anos (7%
ao ano).
O Brasil via nascer, neste cenário, o Programa Nacional do Álcool – Próalcool, com o objetivo
de ampliar as fontes alternativas de energia para fazer frente à crise do petróleo. Os
investimentos se estenderam para o setor energético buscando um programa que implantasse

o álcool carburante como combustível substituto da gasolina, ao mesmo tempo em que se
desencadeava uma campanha de racionamento de combustíveis.
Em 1972, a infra-estrutura de distribuição de derivados seria incorporada à BR-Distribuidora,
uma empresa que já nasceu líder no setor.
Em 1972 havia três novas subsidiárias, além da Petroquisa: a Petrobras Distribuidora S.A., a
Petrobras Internacional S.A. (Braspetro) e a Petrobras da Amazônia (Copam). Naquele ano
entraram em operação a Petroquímica União e outras importantes unidades industriais em
São Paulo, para o que foi decisiva a atuação da Petroquisa. Criou-se a Copene Ltda. Companhia
Petroquímica do Nordeste, empresa piloto para realizar, sob a orientação do Conselho do
Desenvolvimento Industrial do Ministério da Indústria e Comércio, e apoio financeiro do Banco
Nacional de Desenvolvimento Econômico, o planejamento e a programação de numerosos
projetos que iriam integrar o pólo petroquímico do Nordeste, incluindo as indústrias de
segunda geração (as que têm por matéria-prima os produtos básicos), e envolvendo
investimento global da ordem de quatro bilhões de cruzeiros. Intensificava-se e diversificavase
o consumo do petróleo, tendo por objetivo primordial o desenvolvimento econômico.

Sob o governo Geisel, a criação de subsidiárias da Petrobras já obedecia a diretrizes outras que
simplesmente a expansão de seus negócios. A Interbrás, criada em 1976, deveria usar a
presença comercial da Petrobras nos países exportadores de petróleo para ampliar mercados
para produtos brasileiros. No mesmo ano, a criação da Petrofértil, que agrupava várias
unidades produtoras da Petrobras e da Petroquisa, obedecia aos imperativos da Política
Nacional de Fertilizantes. A Petromisa, criada em 1978 para explorar jazidas de potássio em
Sergipe, também se devia mais aos projetos governamentais para a produção mineral do que
às estratégias empresariais da Petrobras.
Ao longo das décadas de 1970 e 1980, o balanço das atividades de suas subsidiárias seria bem
claro. As atividades ligadas diretamente ao negócio petróleo, geridas pela Petroquisa,
Braspetro e BR-Distribuidora mostraram–se empreendimentos lucrativos. A gerência das
demais atividades revelaria a contradição entre os meios à disposição da empresa e os
objetivos governamentais fixados. A política de preços para os fertilizantes, instrumento
predileto de política agrícola, freqüentemente reduzia a lucratividade da Petrofértil. As
incertezas econômicas do Brasil e do mundo na conjuntura internacional no início dos anos
1980, tornavam difícil o sucesso de uma trading offshore, na passagem da década, a empresa
voltou-se para operações mais seguras. Entre 1982 e 1985, cerca da metade do faturamento
da Interbrás era constituída pela exportação de gasolina produzida pela Petrobras para os EUA.
No caso da Petromisa, avaliações deficientes da complexidade e do custo do empreendimento
atrasaram o início de suas operações comerciais por quase dez anos e sua infra-estrutura
terminou custando três vezes mais do que o projetado.
Quase 90% do petróleo consumido no país era importado – principalmente do Oriente Médio
– o que afetava dramaticamente a balança comercial do país. Em meio à crise mundial, o Brasil
descobre o campo marítimo de Ubarana, na porção marítima da bacia Potiguar, e o campo de
Garoupa, na Bacia de Campos, em 1974. Diante desse quadro, o ex-presidente da Petrobras,
agora na presidência da República, Ernesto Geisel, propõe um projeto de abertura: os
contratos para a prestação de serviços de exploração e produção com risco, possibilitando a
associação da Petrobras com empresas internacionais – com a promessa de trazerem aportes
financeiros significativos para o país. Por razões compreensíveis a Bacia de Campos e a Bacia
do Alto Amazonas – onde seria descoberto o campo de Juruá – não estavam disponibilizadas
para esses contratos.
Mais de cem contratos de risco foram assinados a partir de 1976, permitindo a presença de
empresas estrangeiras – Shell, Exxon, Texaco, BP, Elf, Total, Marathon, Conoco, Hispanoil,
Pecten, Pennzoil – e companhias brasileiras interessadas nas descobertas recém-realizadas na
porção terrestre da Bacia Potiguar. Nesse mesmo ano, Arábia Saudita, Kwait e Venezuela
nacionalizavam as concessões das companhias estrangeiras.
Os resultados foram pífios. A participação de outras empresas auxiliou na avaliação de áreas
ainda inexploradas. De concreto, apenas uma descoberta do campo de gás de Merluza, na
Bacia de Santos, feita pela Pecten (Shell) em 1981, e alguns campos na Bacia Potiguar, pela
Azevedo e Travassos, em 1985.
A vinda das maiores empresas estrangeiras revelou que a geologia brasileira é complicada. O
artigo 177 da Constituição Federal promulgada em 1988 extinguiria definitivamente a
participação privada na exploração de petróleo no Brasil. Constitucionalizaram o monopólio da
União, que era Lei, em 1988.
Nos cinco primeiros anos de atuação da Braspetro, a magnitude das descobertas realizadas no
Iraque (campos de Majnoon e Nahr-Umr), totalizaram reservas recuperáveis estimadas em dez
bilhões de barris de óleo. A Braspetro deu início aos trabalhos de delimitação do campo mas,
em 1979, a Petrobras terminou o contrato com a Iraq National Oil Company – Inoc.
Como importante cliente das companhias estatais dos países da Opep, a Petrobras conseguia
manter o abastecimento do mercado brasileiro – resultado de anos de bom relacionamento.
Essa estratégia de se aproximar das companhias estatais dos países produtores garantiu até
mesmo o abastecimento em tempo de crise. A atitude em relação ao Iraque elevou o prestígio
do Brasil e da Petrobras – esse foi o motivo principal do contrato de risco assinado com a Inoc,
em Basra. Mas as cláusulas envolvendo prazos e as condições econômicas eram extremamente
rígidas.
Apesar disso, a Petrobras iniciou a perfuração exploratória, descobrindo, na região norte da
cidade de Basra, o campo de Majnoon – que permaneceu por duas décadas como a maior
descoberta de petróleo do mundo a partir de 1976. Após algumas perfurações de extensão em
Nahr Umr, constatou-se que o campo se ligava nos horizontes mais profundos, em uma única
estrutura, com o campo de Majnoon.
Esta fase caracterizou-se pela ênfase especial conferida ao treinamento dos técnicos
brasileiros e à contratação de consultores estrangeiros, alinhados com as mais recentes
tecnologias de exploração e produção e, finalmente, pela primeira descoberta realmente
importante, realizada no mar da Bacia de Campos, com o primeiro poço sendo perfurado em
1971.
A ida para a Plataforma Continental baseava-se nos critérios de continuidade das bacias
terrestres costeiras e na analogia com seus resultados ou indícios. Nesta época, estimavam-se
em 20 bilhões de barris as reservas de petróleo da plataforma. Os grandes deltas da margem
continental brasileira, como os da Foz do Amazonas, São Francisco, Rio Doce, Paraíba do Sul e
Rio Grande, geraram grandes expectativas, especialmente pela influência dos consultores
americanos e pela analogia com os deltas do Níger e do Mississipi. O Delta do Níger, no outro
lado do Atlântico, já contava, naquela época, com mais de 20 bilhões de barris de petróleo de
reservas.
Em 13 de agosto de 1977, era produzido o primeiro barril de petróleo no campo de Enchova,
na Bacia de Campos. Passados 26 anos e 3,7 bilhões de barris de petróleo, a província é
responsável por mais de 80% do petróleo produzido no país. Esses volumes de produção
colocam a Bacia de Campos em patamares superiores a vários países membros da Opep, como
Qatar, Síria, Yemen ou Gabão. A Petrobras já vinha realizando atividades exploratórias de
reconhecimento na Bacia. Mas, depois de sete poços secos, a empresa só não abandonou a
área por insistência do diretor Carlos Walter Campos Marinho. Com a perfuração do oitavo
poço – o 1-RJS-9 – em 1974, a primeira descoberta importante acontecia no mar: o Campo de
Garoupa. Estava dada a largada para os constantes êxitos na exploração offshore – que hoje
significa 84% do petróleo produzido no país.
Em virtude principalmente do programa de substituição de importações, pesados
investimentos resultaram na criação de dois novos pólos petroquímicos no final da década.
A definição da localização do segundo pólo petroquímico no país foi precedida de uma
polêmica discussão: ampliar o pólo existente em São Paulo ou criar um novo complexo?
Devido a uma política de desconcentração da atividade industrial e econômica, o Governo do
Presidente Emílio Garrastazu Médici resolve implantar uma indústria petroquímica na Bahia –
assim nascia a Copene, com uma produção de petroquímicos básicos já superior à
Petroquímica União. Na mesma época, são iniciadas as negociações para a instalação de um
terceiro pólo petroquímico no país, desta vez no Estado do Rio Grande do Sul. O modelo
tripartite adotado compartilhava o controle das empresas, em proporções iguais, pelo
Governo Federal (através da Petroquisa), um sócio privado nacional e empresas estrangeiras
(que, normalmente, aportava a tecnologia). Esse modelo, diferente do praticado em outros
países, pode ter causado alguns problemas – como a criação de empresas monoprodutoras e a
fragmentação do setor – mas se mostrou bastante adequado para acelerar o crescimento do
setor petroquímico nacional. Em 1978 é inaugurada a Copene, na Bahia, e em 1982 a Copesul
no Rio Grande do Sul. Com isso estava consolidado o setor petroquímico nacional.

1980

Waldemar de Albuquerque Assis aposenta-se da Petrobras em 1984, após 37 anos de
relevantes serviços prestados. Juntamente com alguns dos seus melhores amigos e
companheiros de trabalho na empresa contribuiu denodadamente para o desenvolvimento
da empresa e do Brasil.
Com muita energia e conhecimento acumulado Waldemar de Assis recebe inúmeros convites
para atuação na iniciativa privada e em consultorias diversificadas.

Uma recessão geral tomava conta da economia internacional por cerca de cinco anos. Países
como o Brasil, que tinham dívidas em petrodólares, foram à bancarrota. O ponto positivo foi o
começo da busca por fontes alternativas de energia. Em 1985, a Arábia Saudita, atingida pelo
esfriamento econômico geral, aumentou a produção de petróleo e o preço do produto caiu
pela metade.
Na bacia de Campos, o grande desafio era representado pelo volume inédito de investimentos
necessários para produção no mar, que exigiria inclusive um esforço importante de pesquisa
tecnológica. Ambos objetivos foram cumpridos satisfatoriamente. Entre 1975 e 1981, o
investimento da Petrobras em exploração e produção aumentou significativamente,
representando, neste último ano, 83% do investimento total da companhia. O desafio para a
produção rápida foi cumprido com o desenvolvimento dos chamados sistemas provisórios de
produção. Estes sistemas previam a completação submarina dos poços, conectados através de
linhas de fluxo em grandes válvulas que conduziam o petróleo para as próprias plataformas de
exploração ou navios-sondas equipados para a separação da água, gás e sal, seguindo então
para navios-tanque ou sistemas em terra.
Apesar das dificuldades na operação dos sistemas provisórios, a produção na bacia de Campos
vai atingindo níveis cada vez maiores. Quando os sistemas definitivos começaram a ser postos
em operação nos primeiros anos da década de 1980 -a primeira plataforma fixa foi instalada
em 1983 no campo de Namorado -, os índices de produção foram sendo seguidamente
superados. Em 1985, o país já produzia metade do petróleo que consumia, muito acima,
portanto, dos 14% registrados em 1979.
Em meados dos anos 1980, a solução interna havia se mostrado a mais eficiente. Em 1983,
antigas áreas produtoras no Recôncavo retomavam o crescimento da produção, conseguido
com novas descobertas e novas técnicas de exploração dos campos. Entre novembro de 1984
e fevereiro de 1985, a empresa anuncia a descoberta dos campos gigantes de Marlim e
Albacora. Ainda que situados em lâminas de água jamais exploradas antes, apontavam, pelo
volume de reservas, para a auto-suficiência e para novos horizontes exploratórios em toda a
plataforma continental. Em 1986, os 30 anos de pesquisa na Amazônia apresentavam
finalmente resultados positivos, com a descoberta das reservas de petróleo no rio Urucu, bacia
do Solimões.
Ainda no início da década de 1980, duas mudanças estruturais na economia norte-americana
(desregulamentação) e do Reino Unido (privatização) influenciaram as transformações porque
passaram a economia mundial os anos 90. Nos EUA, o governo Reagan promove a
desregulamentação da economia e ao mesmo tempo eleva as taxas de juros com o intuito de
conter a escalada inflacionária provocada pela mudança no patamar dos preços do petróleo
ocorrido nos anos 70. Isso fez com que a moeda referencial para empréstimo internacional
ficasse mais cara; o resultado foi o encarecimento das linhas de crédito internacional. Os
países em desenvolvimento, principais tomadores de recursos, passaram por aquilo que se
convencionou chamar “Crise da Dívida Externa”. Esse fato provocou um desaquecimento na
economia global, iniciando um movimento de queda no preço do petróleo
O marco inicial dos processos de desregulamentação e privatização de empresas petrolíferas
foi a venda, em 1979, no governo Thatcher, de 5% de participação na British Petroleum, uma
das dez maiores empresas de petróleo do mundo, cujo processo de privatização foi concluído
em 1987. Entre os principais fatores que motivaram mudanças em quase todas as empresas de
petróleo – estatais, regionais ou internacionais – estão o crescimento da globalização, o
declínio do poder da Opep no controle dos preços internacionais do hidrocarboneto e a
criação de mercados futuros de petróleo através da Bolsa de Nova York (Nymex) e da de
Londres (IPE).
No Brasil, após 21 anos de regime militar, a Nova República nascia em março de 1985. Para
superar as dificuldades econômicas, o novo governo iniciou sua administração anunciando
medidas de austeridade fiscal e monetária, algumas delas diretamente ligadas às atividades da
Petrobras – como o congelamento de preços de derivados de petróleo.
Ao mesmo em que os êxitos da companhia na exploração reforçavam sua posição empresarial,
a culminação do processo democrático, com a eleição do presidente Tancredo Neves e a posse
de seu vice, José Sarney, marcaria o início de uma fase de crescentes dificuldades
administrativas e econômicas.
No plano administrativo, as mudanças mais importantes ocorreram nas relações com o
governo e com os sindicatos de petroleiros. Após décadas de relativo insulamento das
pressões políticas, a administração da Petrobras passou a enfrentar uma ingerência mais direta
do governo em seus assuntos internos.
A história dos trabalhadores da Petrobras foi marcada por intensa atividade – haja visto as
mobilizações da Aepet, Associação dos Engenheiros da Petrobras – e dos vários sindicatos dos
petroleiros.
Um dos marcos na história da Petrobras e dos sindicatos foi a greve desencadeada em 1983
pelos trabalhadores da Replan – que contou com a adesão dos petroleiros da Rlam e de cerca
de 50 mil metalúrgicos do ABC. A comissão de negociação contou até com o então dirigente do
Sindicato dos Metalúrgicos, Luis Inácio Lula da Silva.
Os sindicatos, por sua vez, viam na fraqueza política do governo, sobretudo após 1987, e no
fim da repressão violenta às greves, uma oportunidade preciosa para a luta contra perdas
salariais provocadas pela inflação. Pela primeira vez desde 1962, uma greve de petroleiros é
deflagrada em 1987. Greves, como a que se estendeu de novembro de 1989 a janeiro de 1990,
para a adoção do turno de seis horas de trabalho nas refinarias e plataformas, aprovado pela
Constituição de 1988, se tornariam recorrentes daí em diante.
Outros aspectos importantes do relacionamento entre a empresa, a sociedade e o governo,
que emergiram ao longo da segunda metade dos anos 1980, foram a preocupação com o
impacto ambiental de suas atividades e as disputas com o governo federal por conta do custo
da sustentação do Proálcool.
Por essa mesma época, a queda dos preços internacionais do petróleo e a política de reajustes
dos preços de combustíveis tornaram a política oficial de subsídios ao programa do álcool cada
vez mais irreal, sendo sua pesada conta assumida pela empresa. Em novembro de 1989, era
anunciada uma redução de 1,1 bilhão de dólares nos investimentos previstos para 1990, com
repercussões inclusive sobre o nível de reservas de petróleo, que sofreria a primeira redução
em 15 anos.
A principal fonte de dificuldades para a empresa no período, porém, seria o controle dos seus
preços, uma tentação a que sucumbiu o governo, em todas as fases de luta contra a inflação
em alta. Em dezembro de 1989, em depoimento a uma comissão parlamentar de inquérito
(CPI) criada para investigar a empresa, seu presidente, informava uma perda acumulada de 1,9
bilhão de dólares, provocada pela venda de derivados abaixo do preço internacional. As perdas
com o Proálcool, relativas à estocagem, alcançaram 234 milhões de dólares no ano e a
empresa estava sendo obrigada a vender nafta para o mercado interno a 92 dólares por
tonelada, enquanto comprava no mercado internacional a 160 dólares a tonelada. O relatório
final da CPI, divulgado em dezembro de ano seguinte, mencionava perdas de mais de dez
bilhões de dólares ao longo do governo Sarney, dos quais cerca de três bilhões de dólares
somente pela defasagem dos preços dos derivados.
Com as bruscas elevações de preços do petróleo no mercado internacional, as despesas do
país chegaram à casa dos US$ 10 bilhões, em 1981. Os investimentos em exploração e
produção contribuiriam para reduzir a dependência externa. Nesses anos, a companhia
encomendou US$ 13 bilhões em máquinas e equipamentos – 85% às empresas nacionais.
A exploração na Bacia de Campos foi caracterizada pelo aumento substancial da aquisição
sísmica 3D, com a utilização de navios de fontes e cabos múltiplos que, conjuntamente com a
interpretação sísmica interativa, otimizou a delimitação dos campos descobertos e os estudos
de reservatório. Importantes descobertas de óleo em carbonatos são noticiados na Bacia de
Santos.
A indústria local deu um “salto de modernidade” para atender aos desafios impostos pelas
mais diversas variáveis ligadas à construção, instalação e operação. Em pouco tempo, a
indústria nacional recuperava a participação nas encomendas da Petrobras – chegando ao
recorde histórico de 93% das compras da companhia serem realizadas no país, ao final da
década de 1980. Em terra, boas notícias chegavam da Amazônia: em 1988 entrava em
operação o campo de Urucu – um marco histórico das atividades da Petrobras na região. A
descoberta respondeu a uma antiga indagação, mostrando, afinal, que havia petróleo
comercial, de excelente qualidade, e associado ao gás, na Amazônia. Para escoar esse óleo,
produzido em pleno coração da Amazônia, foi necessário montar um estrutura especial, a
cargo do Dtnest, numa região sem estradas, em que os rios eram praticamente desconhecidos
até a chegada da Petrobras na região.

1990

Waldemar de Albuquerque Assis é homenageado na Escola de Minas de Ouro Preto nos 122
anos da escola. Profere discurso em nome dos ex alunos, emocionado e contundente, cheio
de esperança na juventude e no desenvolvimento do país.

Antes de tudo, quero manifestar a minha satisfação por ter sido distinguido para falar,
em nome dos ex-alunos da Escola de Minas, nesta solenidade de comemoração do seu122º aniversário. É uma incumbência altamente honrosa, mas também muito difícil,
pois envolve enorme responsabilidade na sua significação.
Falar da Escola de Minas, do seu sucesso e da sua inquestionável importância no
desenvolvimento da política mineral do país, é sempre tarefa prazerosa, porquerepresenta o reconhecimento do trabalho executado por Gorceix e seus auxiliares na
criação de uma escola de minas com nível excelente de ensino; entretanto, a análisecrítica da Escola de Minas, nos seus cento e vinte e dois anos de existência, já é tarefaum pouco mais complexa e exige, a meu ver, elaborada coleta de dados e outrasinformações que possam dar consistência e significado aos resultados obtidos naanálise.
Hoje, todas as organizações, sejam empresariais ou educacionais, estão certas de queseu futuro será diferente do presente; o que se faz necessário é empenhar-se
denodadamente para que o futuro, embora diferente, seja também melhor do que o
presente.
Em um mundo dinâmico como o de hoje, caracterizado pelo predomínio do
conhecimento e pelo avanço explosivo da tecnologia, a organização que nãoestabelecer metas arriscadas e não introduzir, em seus métodos de trabalho, a
flexibilidade, a criatividade e a inovação tenderá certamente para o declínio e para aobsolescência.
A grande condição do trabalho é a paz e a grande condição da efetiva solução dos
problemas é a união. Um trabalho de equipe, amplo e pacífico, é forte bastante para
invocar e capturar o “sentimento do êxito”, sintoma certo de que os esforços
engrenam-se no caminho da vitória.
O esforço no presente, com abdicação do comodismo inoperante, é o único recurso de
que dispomos para construir um futuro melhor. ( trechos selecionados do discurso de
Waldemar de Albuquerque Assis de 1998)
No início dos anos 1990, o esgotamento da utilização das subsidárias da Petrobras como
instrumentos para ações de governo era evidente e estas empresas se tornaram alvo
preferencial do programa de reforma de Estado do governo Collor de Melo. Petromisa e
Interbrás foram extintas em suas primeiras horas, as subsidárias da Petroquisa e a Petrofértil
privatizadas nos primeiros anos da década de 1990, permanecendo no organograma da
empresa apenas a BR-Distribuidora e a Braspetro.
Em 1997, o Brasil, através da Petrobras, ingressou no seleto grupo de 16 países que produz
mais de 1 milhão de barris de óleo por dia. Nesse mesmo ano, em 6 de agosto de 1997, o
presidente Fernando Henrique Cardoso sancionou a Lei n º 9.478, que abriu as atividades da
indústria petrolífera no Brasil à iniciativa privada.
Passados a queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética, a década de 1990 começa
com mais uma crise no mercado do petróleo quando, em uma tentativa frustrada, o Iraque
tenta anexar o Kwait e é derrotado na Guerra do Golfo pelos EUA. O exército de Saddam
Hussein chegou a bombardear os poços de petróleo kwaitianos antes da retirada. Por conta
dessa história uma grande especulação fez com que o preço do barril oscilasse violentamente,
passando os preços internacionais do petróleo a sofrer uma forte alta pontual. Mas, assim
como a guerra, a crise também foi rápida e não deixou grandes estragos como as anteriores.
Seguiu-se um período de estabilidade e crescimento.
A característica principal dessa década é a transformação do petróleo numa verdadeira
commodity – os fatores de mercado passaram a ser preponderantes na formação de preço em
detrimento das questões de natureza política. Além disso, o início da década é marcado por
uma queda nos investimentos em exploração, e pela queda da produção do Bloco Soviético
que foi compensada pelo aumento da produção da Arábia Saudita. Também se pode destacar
a mudança no perfil de demanda do petróleo em função de exigências ambientais, quando os
petróleos leves passam a ser mais valorizados.
Sensoriamento remoto, poços horizontais, robótica submarina, produção em águas
ultraprofundas. Considerada a empresa que mais contribuiu, em nível mundial, para o
desenvolvimento tecnológico da indústria do petróleo no mar, a Petrobras alcança, na década
de 1990, o posto de empresa líder mundial em exploração em águas profundas.
Em 1992, a companhia recebeu o OTC Distinguished Achievement Award, o mais importante
prêmio da indústria do petróleo, na Offshore Technology Conference, em reconhecimento
internacional à tecnologia na produção até os dois mil metros de profundidade.
A Petrobras assina os primeiros acordos de parceria com outras empresas privadas para
exploração de petróleo, e obtém 397 concessões em blocos exploratórios, de desenvolvimento
e produção – na chamada Rodada Zero. No ano seguinte, a ANP iniciaria o leilão de áreas para
exploração de petróleo e gás.
Ainda em 1998, seria criada a subsidiária Transpetro, voltada a operação de dutos, terminais e
embarcações para transporte e armazenamento de óleo, gás e derivados. A Petrofertil, que
dois anos antes tinha seu estatuto modificado de forma a permitir sua atuação no segmento
do gás natural, passava a se chamar Gaspetro.
A regulamentação da indústria de petróleo e gás natural instituiu um conjunto de mudanças
de caráter técnico-administrativo e a redefinição no papel do Estado. De produtor e provedor,

o Estado passa para regulador e fiscalizador. Acarretou, ainda, o aumento da arrecadação da
União, Estados, Municípios através dos royalties e participação especial. Antes da aprovação
da Lei 9.478/97, a arrecadação era de cerca de R$ 194 milhões, em 1997. Com as alterações
promovidas pela ANP, a arrecadação atingiu valores de R$ 2,9 bilhões, em 2000.
Desde 1999, quando teve início a abertura do setor de petróleo no Brasil, 38 novas empresas
passaram a atuar no país, das quais apenas 9 brasileiras. Entre as estrangeiras estão desde as
gigantes Shell, ExxonMobil e ChevronTexaco, até companhias independentes, como a Newfield
e Maersk. Das nacionais, figuram empresas que já prestavam algum tipo de serviço à Petrobras
– como a Marítima, Queiroz Galvão e a Starfish. Até hoje, 12 companhias comunicaram
descobertas de óleo ou gás à Agência Nacional do Petróleo.
A primeira empresa estrangeira a produzir em grande escala no Brasil foi a Shell. Os campos
localizados na Bacia de Campos fazem parte de uma parceria realizada entre a Petrobras e a
Entreprise – empresa que acabou sendo adquirida pela Shell. Antes da Shell, as únicas
companhias estrangeiras a produzir no Brasil foram a Devon Energy, e a UP Petróleo,
subsidiária da americana Anadarko. Das brasileiras, a Starfish iniciou a produção, também em
parceria com a Petrobras, na Bacia de Santos.
Em um cenário de abertura, a Petrobras teria que repensar seu papel. A estratégia seria a
atuação integrada e a internacionalização. Com uma produção de petróleo que passa de 1,5
milhão de barris por dia, um parque de refino capaz de processar 1,8 milhão de barris por dia,
além de ativos em distribuição, transporte, petroquímica e geração de energia, a Petrobras
avança no mercado externo, onde já está presente em oito países. Três áreas são prioritárias:
Costa Oeste da África, Golfo do México e América Latina. O maior exemplo dessa estratégia é a
Argentina, onde adquiriu 58% das ações da Perez Companc e a Santa Fé, além de firmar
contrato de troca de ativos com a Repsol YPF.

2000

Waldemar de Albuquerque Assis continua morando no Rio de Janeiro com a sua
companheira de toda vida, sua adorada esposa Yvone. Sua filha mora em Salvador, bem
como sua sobrinha, e seu filho mora em São Paulo. São sete os netos. A família está sempre
que possível no Rio de Janeiro recebendo as bênçãos e os conselhos deste grande pai, deste
grande homem que se conserva lúcido e forte e acompanha com orgulho o sucesso da
Petrobras e os novos e mais promissores caminhos do país.

Em 2003, coincidindo com a comemoração dos seus 50 anos, a Petrobras dobrou a sua
produção diária de óleo e gás natural ultrapassando a marca de dois milhões de barris, no
Brasil e no exterior.
No dia 21 de abril de 2006, o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu início à produção da
plataforma P-50, no Campo de Albacora Leste, na Bacia de Campos, o que permitiu ao Brasil
atingir auto-suficiência em petróleo.
Atualmente, a Companhia está presente em 27 países. Em 2007, a Petrobras foi classificada
como a 7ª maior empresa de petróleo do mundo com ações negociadas em bolsas de valores,
de acordo com a Petroleum Intelligence Weekly (PIW), publicação que divulga anualmente o
ranking das 50 maiores e mais importantes empresas de petróleo.
No início de 2008, a Petrobras foi reconhecida através de pesquisa da Management &
Excellence (M&E) a petroleira mais sustentável do mundo. Em primeiro lugar no ranking, com
a pontuação de 92,25%, a Companhia é considerada referência mundial em ética e
sustentabilidade, considerando 387 indicadores internacionais, entre eles queda em emissão
de poluentes e em vazamentos de óleo, menor consumo de energia e sistema transparente de
atendimento a fornecedores.
Bibliografia

Assis,1998-Discurso Proferido na EMOP.
Alban, Marcus Suarez, 1986-Petroquimica e Tecnoburocracia-Ed. Hucitec
Oliveira, Francisco – O elo perdido – Classe e identidade de classe na Bahia-2003-Ed.
Fundação Perseu Abramo.
Petrobras -site oficial.
Vicente, Cesar José – Historia de Capela Nova – 1790-1990-Belo Horizonte – Editora O lutador.

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