PRINCÍPIOS EDITORIAIS E A COBERTURA DO JORNAL NACIONAL SOBRE OS PREPARATIVOS PARA A COPA DO MUNDO E COPA DAS CONFEDERAÇÕES NO BRASIL


 

Bruno da Silva Tavares 1

1 Mestrando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Sergipe. E-mail:
brunotavares001@hotmail.com.

Resumo

Este trabalho pretende contribuir com a discussão sobre qualidade no jornalismo, a partir do
referencial teórico da gestão da qualidade aplicada ao negócio jornalístico, desenvolvido no
âmbito do Programa de Pesquisa Aplicada em Jornalismo com ênfase na Qualidade, Inovação
e TI. Tratar-se-á aqui especificamente da conformidade dos compromissos organizacionais
firmados com o produto da empresa – a cobertura jornalística. Será observado em que medida
o principal telejornal da Rede Globo cumpre os preceitos jornalísticos estabelecidos pela
própria emissora (valores fundados e reconhecidos na tradição da atividade) frente a eventos
cujos direitos de transmissão são detidos pelo veículo. Deve-se analisar também a carta de
princípios editoriais da emissora enquanto mecanismo de gestão editorial.

Palavras-chave: Qualidade. Telejornalismo. Princípios editoriais.

Introdução

Este artigo constitui uma etapa da dissertação a ser proposta ao Programa de Pós-
Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Sergipe, cuja pesquisa visa testar
ferramentas de avaliação de qualidade editorial, com foco em duas dimensões: a gestão
editorial e a avaliação do produto de organizações jornalísticas. Essas ferramentas estão sendo
desenvolvidas no âmbito do Programa de Pesquisa Aplicada em Jornalismo, com ênfase na
Qualidade, Inovação e TI (Qualijor), coordenado pelo prof. Dr. Josenildo Guerra, do
Laboratório de Estudos em Jornalismo (Lejor). A dissertação ora em andamento visa
contribuir com o esforço de consolidação do programa, testando os fundamentos teóricos e
metodológicos das ferramentas em análise e oferecendo, após a realização dos testes,
contribuições no sentido de avaliar seus resultados e desdobramentos futuros.

Para essa análise de avaliação de qualidade, foi escolhida a produção jornalística das
Organizações Globo, tendo como objeto especificamente: a análise da gestão editorial, através
do documento Princípios Editoriais das Organizações Globo, que estabelece diretrizes e
procedimentos para o jornalismo praticado por seus veículos; e a análise dos produtos – a
cobertura do Jornal Nacional, principal produção jornalística da empresa – sobre os
preparativos para a Copa das Confederações e Copa do Mundo de Futebol.

Eventos quadrienais organizados pela Federação Internacional de Futebol (FIFA),
Copa das Confederações e Copa do Mundo mobilizam gestores do poder público e agentes da
iniciativa privada, no fomento de recursos empregados em infraestrutura e serviços
relacionados com as competições. Serão discutidos aqui aspectos concernentes a essa natureza
ambígua e difusa entre interesse público e interesse privado que está no cerne da cobertura
dos preparativos desses eventos, de modo a investigar também o conflito de interesse presente
na cobertura jornalística de um veículo que se pretende isento, quando possui,
simultaneamente, os direitos de transmissão das competições e parceria comercial com a
entidade organizadora.

A análise de qualidade a ser empreendida pretende então: verificar se a gestão
editorial das organizações jornalísticas contempla requisitos de qualidades caros ao
jornalismo; e verificar se a Globo respeita esses princípios numa cobertura jornalística na qual
está potencialmente configurado um conflito de interesse entre os interesses privados da
emissora e o interesse público pelo qual, em tese, a emissora deveria se orientar em sua
cobertura jornalística.

Qualidade no jornalismo

A constante apropriação do termo “qualidade” pelos atores sociais envolvidos nas
esferas de produção, recepção e observação analítica da atividade jornalística está
dimensionada em contextos diversos, convergentes de modo geral no dever ser da instituição.
A diversidade de contextos corresponde a diferentes critérios técnicos, deontológicos,
políticos, morais; a questões debatidas de modo isolado como função social do jornalismo,
propriedade dos veículos, popularização da audiência (Gomes, 2006) e, frequentemente,
difusas em uma ausência de sistematização, seja por serem analisadas separadamente ou pela
ausência de unidade teórica em relação a pontos fundamentais que norteiem a atividade
jornalística. A despeito deste cenário, o ponto de convergência consiste em uma suposta
neutralidade que mobiliza os atores envolvidos a acionarem sua relação entre qualidade e
jornalismo, uma vez que parece ser ponto pacífico que a reflexão e execução de expedientes
próprios à qualidade são interessantes a proprietários, jornalistas e público.

Ao definir Sistemas de Responsabilização da Mídia, que propusessem para além da
autorregulação, mecanismos de controle de qualidade, serviço ao usuário, educação, sempre
na perspectiva de assegurar a função social primordial dos meios de comunicação de
prestação de um bom serviço público, Claude-Jean Bertrand (1999) descreve esta dimensão
do dever ser que alinha as instâncias envolvidas.

O “conceito de qualidade”, conceito pouco utilizado até agora no quadro midiático,
tem, primeiramente, a vantagem de ser amplo: engloba moral, deontologia e também
as iniciativas da direção da mídia visando a melhor satisfazer o público. Tem,
sobretudo, a vantagem de ser neutro, de poder agradar a todos os protagonistas. Para
os usuários, evoca um serviço valioso. Para os jornalistas, significa produto melhor,
credibilidade acrescida, logo, prestígio aumentado. Para os proprietários, ele evoca os
sucessos comerciais japoneses, portanto lucros crescentes. Por fim, evoca ação, não
conversa fiada. (BERTRAND, 1999, p.53)

As diferentes bases teóricas nas quais se sustentarão a argumentação sobre critérios
de avaliação da qualidade no jornalismo podem ser consideradas o primeiro obstáculo nesta
abordagem. A premissa de consenso entre as instâncias envolvidas (produtores, consumidores
e neutros como instituições de pesquisa) quanto aos parâmetros que designarão qualidade a
um produto ou serviço, prevista na norma ABNT NBR ISO 9000, é obstruída pela
divergência de ordem gnosiológica e epistemológica que, em última análise, pode ser refletida
na oposição entre o paradigma da mediação e aplicação das teorias construcionistas e
subjetivistas (Tuchman, 1983, fala dessa apropriação construcionista). Ainda que,
eventualmente, se perceba alguma contribuição de determinada corrente validada ou
considerada pelo movimento contrário, há de pontuar que, à medida que parâmetros
fundamentais que engendram a instituição são categoricamente refutados por determinada
corrente, a persecução de determinados valores é relativizada ou fragilizada, estagnando-se
sem a proposição de um passo adiante à crítica pela crítica.
Sobre as raras convergências entre as correntes opostas mencionadas, convém
destacar a revisão experimentada por teóricos do paradigma da mediação no tocante à posição
dogmática sobre a verdade e relevância autoevidentes dos fatos, e às instâncias de
significação prévias acionadas pelo sujeito ao conhecer o fato (Guerra, 2008); bem como o
reconhecimento, por parte dos teóricos dos modelos construtivista e culturalista, da noção de
objetividade e imparcialidade enquanto pilares da instituição jornalismo socialmente aceita,
fornecendo parâmetros que lidam com jornalistas, organizações e receptores no processo de
produção de sentido (Gomes, 2006). Sem a pretensão de aprofundar este debate, este trabalho
alinha-se à compreensão atualizada do problema do conhecimento, dialogando com as
contribuições construcionistas, sem refutar a possibilidade da objetividade, verdade e
relevância enquanto expedientes basilares da atividade, logo, parâmetros para persecução dos
profissionais e avaliação dos receptores.

Aqui, por opção metodológica, entende-se como objetivo o método de apuração e
operacionalização do texto jornalístico, não o jornalista. Quanto à questão da verdade factual2,
fala-se de uma forma prática e funcional da verdade, que possa ser operada no cotidiano, no
mesmo nível que um fato é operacionalizado por policiais ou juízes em suas atribuições
profissionais. A verificação e a síntese são turnos engendrados pela objetividade enquanto
método utilizado pelos jornalistas, diferenciando este ofício de outras formas de comunicação.
Esse ponto de vista estabelecido por Kovach e Rosenstiel (2004) reforça o esclarecimento
apresentado pelos autores quanto às implicações oriundas desta confusão sobre a
objetividade:

2 O resgate histórico sobre esta discussão é trabalhado por Gomes (2009).

Uma delas é que a voz imparcial utilizada por muitas empresas jornalísticas, aquele
familiar supostamente neutro estilo de redação das notícias não é um princípio
fundamental do jornalismo. Ao contrário, é quase sempre um recurso oportunista que
as empresas usam para destacar o fato de que produzem alguma coisa obtida por
métodos objetivos. A segunda implicação é que essa voz neutra, sem uma disciplina
da verificação, cria um verniz que esconde alguma coisa turva. Os jornalistas que
selecionam as fontes para expressar o que na verdade é seu próprio ponto de vista, e
depois usam a voz neutra para que tudo pareça bem objetivo, estão trapaceando. Isso
prejudica a credibilidade da profissão ao fazê-la parecer sem princípios, desonesta e
preconceituosa. Este é um alerta muito importante, numa era em que os padrões
jornalísticos são postos em dúvida. (KOVACK e ROSENTIEL, 2004, p.117).

Esta opção pelo modelo de jornalismo desenvolvido nas sociedades democráticas
ocidentais (Schudson, 1978) é fundamental no enfrentamento da questão da qualidade, pois
seus valores serão os parâmetros balizadores dos processos e produtos abordados. A definição
de qualidade neste trabalho é perpassada também por conceitos da Administração. Ao
mencionar tal conceito para as Normas da Organização Internacional de Normalização (ISO
9000), Lidia de la Torre e Maria Teresa Téramo (2007) definem qualidade como uma forma
de fazer as coisas em que, fundamentalmente, predomina a preocupação em satisfazer o
cliente e melhorar, dia a dia, processos e resultados. A preocupação do jornalista em satisfazer
a sede de verdade do público, segundo as autoras, deve estar combinada com a lapidação do
conceito de qualidade proposto às notícias e aplicá-lo ao processo produtivo com ênfase na
satisfação do interesse da população.

À luz da abordagem das ferramentas de gestão, avaliação e certificação de qualidade
no tocante à atividade jornalística proposta por Guerra (2010), este trabalho pretende testar
mecanismos de avaliação de coberturas jornalísticas, desenvolvidos no âmbito do Qualijor,
que é baseado nos valores veracidade, relevância, pluralidade, diversidade e transparência.
Afirmados também em documentos públicos de princípios editoriais, tais valores
possibilitam, à medida que se afere a conformidade com compromissos, um avanço na
avaliação jornalística de modo a superar a caixa-preta metodológica que designa qualidade de
acordo com a credibilidade de um veículo, ou a falta de qualidade pela crítica negativa
fincada em percepções pessoais ou alheias a uma observação sistemática para
aperfeiçoamento das práticas.

A escolha da temática que serve de pano de fundo para averiguação da qualidade na
cobertura jornalística analisada neste trabalho é consoante com o pressuposto que relaciona a
atividade jornalística em uma perspectiva de serviço público, que provê informações e
conteúdos aos cidadãos; amplia-se a publicidade e transparência imprescindíveis ao vigor das
democracias ocidentais, particularmente no que concerne a expedientes de responsabilização
dos agentes públicos na gestão das ações pertinentes à coletividade (Habermas, 1984).

Portanto, qualidade será entendida aqui como um recurso que vincula a esfera de
produção e a esfera do consumo de bens e serviços, oferecendo retornos para as organizações
comprometidas com ela e segurança para os consumidores de que o produto oferecido contém
aquilo que é buscado (Guerra, 2010). Este grau de conformidade entre as notícias publicadas e
as expectativas da audiência (em dimensão privada/gostos – e dimensão pública) será
trabalhado em dois aspectos: gestão editorial, no qual compromissos e estruturas são
abordados pelo crivo do valor transparência, no documento Princípios Editoriais das
Organizações Globo; e avaliação do produto, que analisará a cobertura do Jornal Nacional
sobre os preparativos para a Copa do Mundo e Copa das Confederações.

Sobre os eventos Copa do Mundo e Copa das Confederações

Eventos esportivos3 como a Copa do Mundo de Futebol e os Jogos Olímpicos
mobilizam atores políticos e agentes da iniciativa privada dos países-sede, de modo que a
natureza do financiamento das obras frequentemente é o cerne do conflito de interesses na
tensão entre poder público e privado. Embora a organização seja iniciativa de federações
nacionais em parceria com a federação internacional que gerencia a modalidade, toda
candidatura à condição de sede é pleiteada pela federação local em conjunto com os gestores
políticos locais. Esses representantes do poder público justificam a demanda de recursos
empregados em razão das receitas imediatas impulsionadas pelo turismo, e principalmente,
pelo legado em infraestrutura acelerada em decorrência das instalações de aparelhos
esportivos, mobilidade urbana e serviços públicos. No Brasil, essa relação próxima é
conferida no implemento de Parceria Público-Privada (PPP) em diversas instalações
esportivas, a exemplo do Estádio Maracanã 4e Arena Pernambuco5, nas quais o Estado
concede à iniciativa privada a administração do estádio por um determinado período, após
custear total ou maior parte da obra.

3 Para conceito de megaeventos esportivos, ver: Gurgel (2008); Mezzaroba; Messa; Pires (2011).

4 Disponível em: http://www.maracanario2014.com.br/cliente/. Acesso em:01/09/2013.

5 Disponível em: http://www.itaipavaarenapernambuco.com.br/pt/odebrecht.aspx. Acesso em: 01/09/2013.

6 Exemplos de abordagens que ilustra essa tensão: http://veja.abril.com.br/311007/p_114.shtml;
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/06/130626_copa_gastos_ru.shtml. Acessos em: 01/06/2013.

7 Exemplo dessa relação difusa entre Governo Federal e FIFA:
http://copadomundo.uol.com.br/noticias/redacao/2013/05/27/governo-entra-com-mais-r-31-mi-na-transmissao-
de-tv-da-copa-das-confederacoes-para-a-fifa.htm. Acesso em: 01/06/2013.

De 2007 a 2013, diversos veículos noticiosos acompanharam a evolução ou
estagnação de obras em arenas, aeroportos, portos, telecomunicações, muitas vezes sob a
tensão 6entre supervalorizar receitas e subestimar despesas à luz do discurso da FIFA,
patrocinadores e governo local, bem como o inverso, consoante com os discursos daqueles
que direta ou indiretamente são prejudicados pela realização do evento ou discorda de sua
promoção no país. A questão da natureza do financiamento do evento7 – incentivos fiscais,
Parcerias Público-Privadas – a linha tênue que separa o interesse privado e o engajamento de
recursos públicos, em maior ou menor escala, foi agendada nos últimos anos pela imprensa
brasileira, e justamente, diante desta gama de possibilidades de coberturas jornalísticas, faz-se
necessário investigar em que medida importantes veículos se apropriaram de forma
diversificada e plural deste tema de relevante impacto na agenda pública brasileira. A Tabela
1 ilustra as relações de interesse correspondentes aos principais atores que fomentam a Copa
do Mundo. As respectivas ações e objetos desses atores estão fundamentadas nos portais
oficiais de cada entidade, no documento Matriz de Responsabilidades8 e quanto à imprensa,
no dever ser da instituição segundo a tradição teórica já referida neste trabalho.

8 Disponível em: http://www.copa2014.gov.br/sites/default/files/publicas/04242013_matriz_atualizada.pdfm.
Acesso em 01/09/2013.

9 Exceto Estádio de Brasília.

10 Exceto Rio Grande do Sul e São Paulo.

11 Apenas nos estádios participantes das cidades de Curitiba, São Paulo e Porto Alegre.

12 Apenas em Brasília, Natal e São Paulo (Guarulhos e Viracopos).

13 Disponível em: http://pt.fifa.com/worldcup/media/newsid=1657337/index.html. Acesso em: 12/08/2013.

Tabela 1 – Relações de Interesse

Interesse público

Atores

Ações

Objeto

Governo federal

Financiar e/ou investir

Mobilidade urbana, estádios9, aeroportos, portos,
telecomunicações, segurança e turismo.

Governo estadual

Investimento

Mobilidade urbana, estádios10 e turismo.

Governo municipal

Investimento

Mobilidade urbana e turismo.

Comitê Popular da Copa

Denunciar e fiscalizar

Violações de direitos decorrentes da realização da
Copa do Mundo e Olimpíadas.

Tribunal de Contas da
União, T.C. dos Estados e
Comissões de Fiscalização
do Senado Federal e da
Câmara dos Deputados

Fiscalizar

Gastos com a Copa do Mundo e Olimpíadas,
disponibilizando dados e documentos importantes a
respeito desses eventos.

Imprensa

Dar visibilidade

Conjunto de instalação e ações sobre temas de
interesse público, prioritariamente, e privados.

Interesse privado

Atores

Ações

Objeto

FIFA

Promoção

Mobiliza seleções participantes, licenciamento das
transmissões e venda de ingressos.

Construtoras

Investimento

Estádios11

Consórcios

Investimento

Aeroportos12. Segurança interna dos estádios.

TV Globo

Promoção e
transmissão do evento
e produção de conteúdo
jornalístico

Exibição pública dos jogos13, material promocional
dos eventos, suporte técnico junto à FIFA, material
jornalístico.

Operadoras de telefonia
móvel

Disponibilização

Tecnologia 4G nas cidades-sede.
Fonte: Elaborada pelo autor.

Neste artigo, foi analisada a cobertura do Jornal Nacional, principal telejornal da
principal emissora aberta do país – Rede Globo (Gomes, 2011, p.2). A escolha pelo telejornal
baseou-se na sua importância e alcance nacional, além da condição de transmissora e parceira
da Rede Globo junto à FIFA quanto aos eventos Copa do Mundo e Copa das Confederações.
A possibilidade de conflitos éticos no âmbito jornalístico, presentes nesta relação de aquisição
dos direitos de transmissão pela empresa que produz entretenimento e também produz
jornalismo, pode ser fundamentada no próprio documento “Princípios Editoriais das
Organizações Globo”, na alínea “m” do item Isenção quando assegura: “As Organizações
Globo são independentes de grupos econômicos, e os seus veículos devem se esforçar para
assim ser percebidos. Por esse motivo, as decisões editoriais sobre reportagens envolvendo
anunciantes serão tomadas a partir dos mesmos critérios usados em relação aos que não sejam
anunciantes14”. Pode uma empresa que é parceira empresarial na transmissão e divulgação da
Copa do Mundo cobrir, com a devida isenção, a Copa do Mundo e demais fatos vinculados ao
evento? É essa resposta que se busca, através da aplicação das ferramentas de avaliação de
qualidade aqui testadas.

14 Disponível em: http://g1.globo.com/principios-editoriais-das-organizacoes-globo.html. Acesso em:
25/07/2013.

Metodologia

A pesquisa vai avaliar a gestão de qualidade e a qualidade efetiva de um produto das
Organizações Globo. Para tal, utilizou-se o sistema de categorização que segue os princípios
quanti-qualitativos da análise de conteúdo (AC) (Bardin, 2010). O compromisso das
Organizações Globo com a qualidade editorial de suas produções jornalísticas e a qualidade
dos produtos veiculados em sua principal produção, o Jornal Nacional, serão o objeto da
análise aqui realizada. Para avaliação do compromisso, será avaliado o Documento de
Princípios Editoriais. Para avaliação do produto, serão avaliadas as matérias publicadas no
período que compreende o ano anterior da abertura da Copa das Confederações. A avaliação
de qualidade proposta nesse primeiro momento da pesquisa desenvolve-se ainda em fase
experimental, portanto, possibilita eventuais ajustes tanto na metodologia de obtenção e
geração dos dados quanto no tratamento qualitativo que receberão. A proposta de avaliar o
conteúdo noticioso do Jornal Nacional pelo crivo do documento de princípios editoriais das
Organizações Globo foi antecedida pela averiguação da conformidade das garantias e
diretrizes do documento da empresa, com os requisitos essenciais que sustentam a atividade
jornalística – veracidade, relevância, transparência, pluralidade e diversidade – parâmetros
estes sustentados pela tradição teórica já referenciada neste trabalho. Todos esses valores
foram identificados no documento em proporções diferentes, ocorrendo então opção por
avaliar a conformidade de apenas três itens neste estágio da pesquisa – relevância, pluralidade
e diversidade (neste artigo, apenas os resultados no item “relevância” serão apresentados).

O período das matérias observadas compreende 15 de junho de 2012 e 15 de junho
de 2013, intervalo entre a abertura da Copa das Confederações e seu ano anterior. Através do
site do Jornal Nacional15, utilizando os termos chave “Copa das Confederações” e “Copa do
Mundo”, as matérias foram obtidas, em um total de 105 – incluindo notas relatadas pelos
componentes da bancada do telejornal, desde que cobertas por imagens correspondentes.
Foram excluídas matérias que tratavam estritamente sobre resultados de jogos de seleções
participantes e treinos preparativos anteriores ao mês de realização da convocação, em uma
tentativa de direcionar os resultados para o cerne temático da pesquisa – os preparativos para
a realização dos torneios. A ideia era a avaliação de qualidade no tocante à propriedade do
interesse público deste objeto16, abdicando de um diagnóstico hipotético de mera afirmação
de uma cobertura viciada em propagar eventos interessantes à emissora – prática refutada pelo
documento dos princípios editoriais quando em sua alínea “p” do item Isenção diz: “É
inadmissível que jornalistas das Organizações Globo façam reportagens em benefício próprio
ou que deixem de fazer aquelas que prejudiquem seus interesses17”.

15 Disponível em: http://g1.globo.com/jornal-nacional/. Acesso em 24/07/2013.

16 Sobre essa finalidade ambígua entre fornecer um serviço em benefício da cidadania e “captar” a maior parte
do público, ver Charaudeau (2010).

17 Idem, 14.

A matriz de análise foi construída com base na leitura flutuante das matérias
(identificação de temas a partir da agenda midiática), e a partir de pesquisa documental
(relatórios e documentos que apontam a agenda política, governamental e pública),
sistematizando a disposição de problemas que corresponderia a temáticas fundamentais da
realização dos eventos. Assim ficaram dispostos: Cumprimento de cronogramas de entrega
das obras; Atendimento médico em estádios; Serviço de voluntariado para os torneios;
Preparativos no setor do turismo; Repercussões quanto à segurança pública e defesa
nacional; Telecomunicações para viabilizar comunicação durante as copas; Repercussões
referentes aos estádios; Promoção dos eventos; Protestos e manifestações; Mobilidade
urbana e obras no entorno de estádios; Preparativos dos aeroportos; Preparativo dos portos;
Repercussão política e Outros (categoria aglutinadora de matérias não tipificadas).

Após o mapeamento das relações entre opiniões, relatos informativos e teses, os
resultados foram inferidos na perspectiva de avaliar – ainda que através de dados absolutos de
frequência – a persecução dos parâmetros de qualidade fundados na tradição jornalística e
reforçados pelas Organizações Globo em seu documento editorial público.

Análise dos resultados

Análise do documento Princípios Editoriais das Organizações Globo

A publicação de princípios de orientação editorial é um mecanismo que proporciona
visibilidade aos procedimentos adotados, visando à demonstração da correção de seus
métodos. A possibilidade de mensuração por parte do público acerca da persecução destes
procedimentos sinaliza para a promoção da transparência nos processos editoriais. A Tabela 2
sintetiza a análise do documento das Organizações Globo sob esse prisma, agrupando os
dispositivos em razão do cumprimento dos valores fundamentais da atividade jornalística e
enquanto procedimento de gestão transparente dos procedimentos.

Tabela 2 – Análise dos Princípios Editoriais: Avaliação do requisito
Transparência

Indicadores

Padrões

Item

Não

Parcialmente

Sim

A1a – A empresa afirma os compromissos com os requisitos verdade
do produto em relação ao conteúdo;

X

A1b – A empresa afirma os compromissos com os requisitos relevância
do produto em relação ao conteúdo;

X

A1c – A empresa afirma os compromissos com os requisitos
pluralidade do produto em relação ao conteúdo;

X

A1d – A empresa afirma os compromissos com os requisitos
diversidade do produto em relação ao conteúdo;

X

A2 – A empresa define procedimentos ou protocolos para garantir o
cumprimento dos requisitos fundamentais do produto em relação a
conteúdo;

X

A3 – Avaliar se a empresa informa/adota sistemas de avaliação para
averiguar se os requisitos fundamentais são atingidos ou não em
relação a o conteúdo;

X

B1 – A empresa adota uma carta de princípios editoriais.

X
B2 –A empresa adota uma política de publicação dos de seus
princípios editoriais e compromissos de transparência de conteúdo;

X

B3 – A empresa divulga os procedimentos de avaliação adotados para
verificar o efetivo atendimento aos requisitos e;

X

B4 – A empresa divulga os resultados obtidos por eles em relação ao
conteúdo.

X

B5 – A empresa tem um canal para recebimento de críticas e torna
público o conjunto de reclamações apresentadas e respostas fornecidas
pela empresa.

X

TOTAL

3

3

5

Fonte: Elaborada pelo autor.

Tabela 3 – PADRÕES DE REFERÊNCIA

Conduta voltada à transparência

Padrões

Nível de Conformidade

Todos Sim

ÓTIMO

Entre 7 a 9 Sim e demais parciais

BOM

Entre 4 e 6 Sim, com no máximo 2 Não

REGULAR

Menos 4 Sim

RUIM

Fonte: Elaborada pelo autor.

Ao falar em estruturas para receber e processar observações do público, fontes e
atores das reportagens, o documento não estabelece nem um mecanismo próprio que avaliasse
o cumprimento das garantias firmadas, nem a publicidade dessas observações dos
consumidores da informação, de modo que legitimasse um processo real de gestão da
qualidade que utiliza o monitoramento contínuo da produção para correção e aperfeiçoamento
das práticas. A transparência enquanto requisito essencial desta avaliação não é contemplada,
segundo os parâmetros de qualidade apresentados ao longo deste trabalho. Cabe ressaltar que
só foram elencadas as garantias de conteúdo do documento. As garantias que versam
estritamente dos processos jornalísticos e gestão organizacional (sem implicação direta no
conteúdo) possivelmente serão abordadas no estágio seguinte desta pesquisa.

Avaliação de qualidade do produto

Do requisito Relevância

Para avaliação deste requisito foi considerada a utilização de Valores-Notícia de ordem
pública em comparação com a utilização de Valores-Notícia de ordem privada. Para isso, os
desdobramentos previstos na Tabela 1 que versam sobre as relações de interesse que forjam a
realização dos eventos, fundamentados no levantamento documental já referenciado
nortearam esta avaliação. Guerra (2008) divide essa expectativa referencial da audiência em
seu aspecto ou ordem privada, e aquela relativa ao uso público da informação, ou de ordem
pública. Ora, enquanto na primeira é notável o apelo relacionado a motivações, gostos e
preferências segmentadas, no segundo a expectativa está alinhada com a ideia de
responsabilização do indivíduo com a coisa pública, especificamente, o cidadão enquanto
agente participante e transformador na democracia, que toma para si o conhecimento basilar
para sua integração ao sistema político e social ao qual pertence. Denominado Valor-Notícia
de Referência Universal, consideram-se informações de interesse público aquelas que podem
aglutinar todo o público; fatos que atinjam uma única pessoa, mas no tocante a direitos ou
deveres próprios à cidadania e fatos que de modo secundário contemplam as situações
anteriores (Guerra, 2008). Não deve se perder de vista que a relevância da informação
jornalística também neste aspecto só se concretiza quando acionada no contexto cognitivo do
receptor.

Foram estabelecidas quatro categorias: Interesse público contemplado, Interesse
público parcialmente, Interesse privado contemplado e Interesse privado parcialmente. Uma
matéria poderia ser enquadrada em até duas categorias. Foi estabelecido o seguinte critério:

Interesse público: pronunciamento de representantes oficiais do governo, obras com
investimento ou financiamento público (incluindo estádios nestas condições).

Interesse público parcialmente: algum pronunciamento ou relato de medida de
representante do governo que seja endereçada para o agente privado. Exemplo: Governo lança
programa de voluntário para Copa; Ministro apresenta instrumento musical para Copa.

Interesse privado: estádios ou obras sem recursos públicos; e matérias estritamente
direcionadas ao evento. Exemplo: definição de sedes, seleções participantes (inclusive a
brasileira).

Interesse privado parcialmente: apenas é mencionada alguma informação útil ao
evento, sem pronunciamento de nenhum ator relacionado.

Deste modo, o montante de 105 matérias apresentou o seguinte quadro:

Tabela 4 – Relevância de acordo com o interesse público

Interesse Público

Interesse Privado

Contemplado

50

61

Parcialmente

10

14

Total

60

75

Fonte: Elaborada pelo autor.
As trinta matérias que apresentaram Valores-notícia tanto de ordem pública quanto
de ordem privada, em grande parte trataram do cumprimento de prazos nas obras de estádios
com recursos públicos, evocando atores das instituições privadas que cobravam em prol da
realização do evento. A análise evidenciou um maior apelo do telejornal em agendar o evento
nas duas semanas que antecederam a abertura da Copa das Confederações, com grande
utilização de matérias com Valores-Notícia de ordem privada, mais especificamente sobre
países participantes e detalhes da transmissão do evento.

Se considerado o seguinte padrão: 41 a 60% do material sendo de Valores-notícia de
ordem pública para avaliação “satisfatório/ ótimo”; 31 a 40 % para ser considerado “bom”; 20
a 30% para “regular”; e menos que 20 para “ruim”, pode-se concluir que:

Considerada as ocorrências em que valores-notícia de ordem pública foram
contemplados ainda que o interesse público fosse parcial (de acordo com os critérios
apresentados), 57% das matérias acionaram este expediente, portanto, sendo satisfatória a
avaliação da relevância da cobertura de acordo com os critérios apresentados. Entretanto, se
considerarmos que a maior parte das matérias acionou valores-notícia de ordem privada, em
71% do montante da cobertura, há de salientar a prioridade da cobertura em reforçar aspectos
concernentes estritamente à promoção do evento. Igualmente, há de se frisar que este recorte
compreende apenas matérias veiculadas no telejornal correspondentes aos eventos Copa do
Mundo e Copa das Confederações, o que implica a necessidade de outros levantamentos que
mostrem em que medida a cobertura desses eventos pautaram suas edições.

Observa-se que os critérios de relevância utilizados pelo JN na cobertura dos
preparativos para a Copa do Mundo FIFA e Copa das Confederações no período destacado,
em termos quantitativos, perseguiram a identificação do espectador com os eventos, através
de matérias com conteúdo meramente promocional – reportagens sobre países participantes,
detalhes da transmissão dos jogos, bolas, ingressos e outros. Em que pese este levantamento
não ter pontuado a profundidade que foi dada a cada tema, nem a centralidade de cada tema
nas matérias (embora a ocorrência –primária ou secundária – tenha sido registrada), é notória
a disparidade entre o número absoluto de matérias que tratam do cumprimento de prazos de
obras em estádios e promoção das competições, em detrimento a outros problemas (Tabela
13).
Isso sugere, além da baixa diversidade da cobertura, uma pequena preocupação do
telejornal em acionar expedientes de responsabilização quanto ao investimento público (a
maior parte das obras fora financiada pelo poder público – diretamente, por empréstimos via
BNDES ou por parcerias público-privadas). Pode-se concluir que o pequeno volume de
informações sobre valor de obra, natureza do financiamento e modelo de gestão a ser
implantado, implica a baixa relevância de temas como legado dos novos aparelhos esportivos
e políticas públicas no esporte em um círculo viciado de discussões de prazos e concomitante
sedução do evento por meio de conteúdo promocional.

Considerações Finais

Incipientes em literatura específica e, por conseguinte, experimentais na formulação
de metodologias de gestão de processo e avaliação dos produtos, abordagens acerca da
qualidade em jornalismo podem contribuir em todas as instâncias envolvidas na produção e
consumo de notícias, ao passo que diferentes correntes teóricas de apropriação da atividade
jornalística ofereçam e sustentem seus parâmetros basilares da instituição, na perspectiva de
aprimoramento das práticas que configuram desde o processo de produção da notícia até as
expectativas demandadas pelo público.

Neste contexto, procurou-se utilizar parâmetros reconhecidos pela principal empresa
de comunicação do país como balizadores de sua cobertura, de modo a vislumbrar não só a
relação garantias x conformidade, como também, projetar algum movimento de
constrangimento jurídico ou ético da empresa pelos usuários, em um cenário de cobrança por
um desserviço à função pública cujos meios de comunicação são incumbidos, em especial
aqueles que utilizam o espectro e concessão pública.

Referências

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de Qualidade – Fundamentos e vocabulário. 2005.

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