Da multidão-massa à multidão-potência: contribuições ao estudo da multidão para a Psicologia Social


From multitude-mass to multitude-potence: contributions to the study of multitude to Social Psychology

 

 

Stéfanis CaiaffoI; Rosane Neves da SilvaII; Iacã MacerataIII; Christian PilzII

IUniversidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)
IIUniversidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
IIIPontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS)

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O trabalho da multidão na atualidade, associado à idéia de redes virtuais e à experiência de um “ativismo interativo”, permite analisar as formas de captura e as estratégias de resistência presentes nos modos de subjetivação contemporâneos. Ao invés de tomar a multidão como uma mera “unidade em agrupamento” (multidão-massa), trata-se de considerá-la como uma “multiplicidade em dispersão” (multidão-potência) capaz de produzir alternativas singulares à lógica do capitalismo mundial integrado. Os movimentos antiglobalização na atualidade expressam algumas destas alternativas. Ao redimensionar o tema das multidões a partir da problematização dos conceitos de multidão-massa e multidão-potência, pretende-se colocar novamente em questão o tema da multidão para a Psicologia Social contemporânea.

Palavras-chave: Multidão; Subjetividade; Política.


ABSTRACT

The activity of multitude actually, associate with the idea of virtual networks and to the experience of “interactive activism”, may analyze the capture forms and the resistance strategies in the contemporaneous subjtetivation forms. To adverse of take the multitude like a simple “unity in grouping” (multitude-mass), to present considerate it like a “multiplicity in dispersion” (multitude-potence) able to produce singularies alternatives to the logic of the global capitalism. The anti-globalization movements in the actuality express some of those alternatives. After situated the multitudes in the problematization of the concept of multitude-mass and multitude-pontence, we pretend to put in question again the theme of multitude to the contemporaneous Social Psychology.

Keywords: Multitude; Subjectivity; Politic.


 

 

INTRODUÇÃO

O tema da multidão está diretamente relacionado ao surgimento da Psicologia Social como campo específico de saberes e práticas: podemos dizer que as multidões, tal como foram problematizadas por Le Bon (1963), constituíram-se em um dos primeiros objetos de investigação desse campo.

Entendemos que a constituição de determinados objetos de investigação não é alheia aos processos de subjetivação presentes em uma formação social específica, uma vez que tais processos caracterizam o modo singular como um determinado conjunto de práticas produz formas específicas de relação consigo e com o mundo.

Neste sentido, a própria produção de saberes não está desvinculada de uma tecnologia política cujo mecanismo expressa os jogos de verdade de uma determinada configuração social (SILVA, 2001). Os objetos de conhecimento não são, portanto, naturais; ao contrário, consideramos que tais objetos – e, conseqüentemente, a própria Psicologia Social – surgem na interface de condições, estratégias e virtualidades que determinado espaço-tempo agrega e aí se inscrevem em uma posição problemática e ativa. Assim, ao analisarmos as condições de emergência de determinados objetos de conhecimento, estaremos analisando também as implicações políticas e subjetivas decorrentes de um determinado campo de saberes e práticas em um contexto histórico específico. Veremos, a seguir, que o conceito de multidão varia de acordo com o modo de colocar o problema relacionado a tal conceito: a multidão pode ser pensada em uma perspectiva individualizante e tomada como uma unidade agrupada em torno de um líder que a controla enquanto massa de indivíduos (multidão-massa) ; ou pode ser entendida como uma multiplicidade que expressa a singularidade dos movimentos de resistência e criação (multidão-potência).

Utilizaremos uma comparação entre as perspectivas de Le Bon (1963) e de Antonio Negri e Michael Hardt (2001) para ilustrar esta discussão, mas desde o início cabe dizer que elas não são as únicas formas por meio das quais o problema das multidões foi abordado. Sua escolha serve mais à ilustração de nossos argumentos sobre as diferentes formas de tratar do problema das multidões e suas implicações na delimitação de certas abordagens em Psicologia Social. Ao problematizar o conceito de multidão, pretendemos colocar em questão a articulação entre subjetividade e política na constituição da própria Psicologia Social como campo específico de saberes e práticas. Não se trata, portanto, de uma exposição exaustiva e final sobre o tema específico das multidões. Inscritas em condições históricas bastante diferentes, na distância entre as concepções de Le Bon e de Negri e Hardt encontramos a espessura necessária ao desenvolvimento de nossa argumentação.

 

DA MULTIDÃO-MASSA À MULTIDÃO-POTÊNCIA

O fenômeno das massas que sacudiu a Europa no final do século XIX foi, sem dúvida, o principal motivo pelo qual as multidões se tornaram objeto de uma investigação sistemática em diferentes campos de saber – como a Sociologia e a Psicologia, por exemplo. Por seu caráter turbilhonar e explosivo, que ameaçava a ruptura dos equilíbrios sociais e comportava o risco de tornar evidentes as contradições inerentes ao arranjo liberal da sociedade capitalista naquele momento, o estudo das multidões tornou-se fundamental para a manutenção do status quo.

Interessa-nos analisar como se produziu uma primeira aproximação da Psicologia com o tema das multidões, entendendo que é a partir desta aproximação inicial que se pode situar a emergência de uma Psicologia Social na virada do século XIX para o século XX dentro de um determinado campo político e epistemológico marcado pela dicotomia entre indivíduo e sociedade.

Podemos dizer que Gustave Le Bon, quando escreveu seu livro Psicologia das multidões em 1895, procurou analisar este fenômeno tomando o indivíduo como matriz para pensar o social, reforçando assim esta dicotomia entre indivíduo e sociedade que caracterizava a tecnologia política efetivada pelo poder moderno. Le Bon (1963) mostrou que a principal característica das massas é a fusão dos indivíduos em um espírito e em um sentimento comuns, fusão esta produzida de um modo inteiramente irracional e que demandava, para tanto, a direção de um líder. Com isso, ocultava-se toda a dimensão política do movimento das multidões para fazer sobressair unicamente sua dimensão “patológica” que era associada ao fato de as massas buscarem unicamente subverter a ordem estabelecida.

No final do século XIX, o mesmo fenômeno – isto é, a efervescência das multidões e a questão do pauperismo desencadeado pela ordem econômica liberal – engendrou pelo menos duas interpretações diametralmente opostas: em uma delas, as multidões traduziriam uma revolta de classe que levaria a uma nova ordem social; na outra, as multidões representariam uma massa irracional que, com o seu enorme potencial explosivo, estaria prestes a estilhaçar todos os vínculos que tornavam possível a coesão social. Marx, por um lado, e Le Bon, por outro, podem ser considerados as figuras emblemáticas de cada uma dessas posições antagônicas a propósito das multidões.

Marx (1975) procura mostrar que o caráter subversivo das multidões seria o sinal evidente de uma mudança que levaria a uma nova ordem social. O fenômeno das multidões seria então a expressão viva daquilo que, na perspectiva marxiana, era considerado como “o motor da História”, ou seja, a luta de classes. As multidões atestariam o movimento de uma nova classe social – o proletariado – contra a opressão e a pauperização desencadeadas pela nova organização do capital.

Le Bon (1963), ao contrário, considerava o fenômeno das multidões de uma perspectiva abertamente reacionária: essas subversões assinalariam os riscos de ruptura do modelo social em vigor, modelo este que deveria a qualquer preço ser preservado. Para Le Bon, as multidões não evocariam o apelo de uma classe explorada e, ao mesmo tempo, essencial às engrenagens da máquina capitalista; elas seriam apenas uma massa nebulosa, imprevisível e, portanto, ameaçadora.

Analisar o fenômeno das multidões como a expressão de uma luta de classes ou como a eclosão de uma massa informe e irracional faz uma grande diferença e exprime uma escolha política cujos efeitos se encontram na própria construção teórica de cada uma dessas posições.

A proliferação dos fenômenos de massa ao longo do século XIX constituirá, sem dúvida, o ponto de partida de uma reflexão em Psicologia Social, e as idéias desenvolvidas por Le Bon vão aí desempenhar um papel fundamental: o primeiro movimento da Psicologia em direção ao social foi no sentido de estabelecer uma aproximação entre o social e o patológico a partir do estudo do caráter irracional das multidões e de sua vulnerabilidade diante do poder de sugestão exercido pelos líderes.

Para Moscovici (1981), a Psicologia das massas apresentada por Le Bon é, juntamente com a Economia Política, uma das duas ciências do homem cujas idéias fizeram a história – ao contrário, por exemplo, da Sociologia, da Antropologia ou da Lingüística, que são ciências que a história fez. Ao abordar a questão da força dos líderes e da sugestionabilidade das multidões, a Psicologia das multidões teria dado importantes subsídios teóricos que foram utilizados por alguns dos grandes ditadores do século XX, como é o caso de Hitler, que fazia menção à obra de Le Bon em sua autobiografia. Isso não significa que Le Bon deva ser responsabilizado pela ascensão do nazismo, mas coloca em questão a dimensão política inerente a toda construção teórica.

Para Le Bon (1963), os fenômenos de massa constituíam o ponto decisivo para toda interpretação do mundo moderno. Ele considerava que as multidões representavam a explosão de um lado irracional que conduziria necessariamente a uma crise generalizada na sociedade moderna. Por essa razão, a Psicologia das multidões deveria se constituir como a ciência de uma nova política, que passaria a estudar daí por diante os efeitos da sugestão como um elemento central do debate político, traduzindo, assim, as preocupações do poder político da época em encontrar um meio de impedir o esfacelamento da coesão social necessária ao bom desenvolvimento do capitalismo industrial. A principal contribuição da obra de Le Bon foi ter mostrado que as massas são, antes de tudo, um fenômeno social e que, para compreender a amplitude de tal fenômeno em nossas sociedades, era preciso situá-lo em uma nova perspectiva: não mais a do Direito ou da Economia Política, mas a da Psicologia.

A novidade apresentada por Le Bon consistia em buscar na Psicologia uma explicação plausível para as desordens provocadas pelas massas naquele momento, considerando que a principal característica das multidões era a fusão dos indivíduos em um espírito e em um sentimento comuns. A sugestão explicaria como se produz o desaparecimento dos caracteres individuais para aparecer essa fusão dos indivíduos no grupo. Desta forma, Le Bon introduz, por intermédio da Psicologia, um elemento irracional na política, uma vez que até então o debate político estava supostamente centrado na razão.

Isso explica por que as idéias de Le Bon foram aplaudidas pelo mundo político de sua época. Buscando descobrir o que une o líder ao povo, Le Bon fornecia importantes subsídios às classes dirigentes, que viam aí uma explicação plausível para justificar seu poder na condução das multidões desprovidas de razão. Sendo assim, Le Bon imprime à arte de governar uma nova dimensão: a dimensão psicológica. A “contribuição” da Psicologia será no sentido de estudar o comportamento ameaçador das multidões, negligenciando os motivos que engendravam tal comportamento, fazendo sobressair unicamente sua dimensão “patológica”. A multidão passa, assim, a ser considerada como uma massa anônima, sem outra função a não ser a de subverter a ordem estabelecida.

Ao mesmo tempo em que se coloca em evidência o lado patológico das multidões em detrimento de seu lado de classe, reforça-se a idéia de indivíduo em detrimento da idéia de coletivo. É precisamente esse movimento que nos interessa analisar, porque ele já revela a orientação de base dos desdobramentos ulteriores da Psicologia moderna em seus múltiplos campos de aplicação.

Tomando o conceito de multidão na perspectiva proposta por Negri e Hardt (2001), encontramos uma outra forma de colocar o problema. Para estes autores, o conceito de multidão não se reduz à idéia de uma unidade em agrupamento, como se pode depreender das idéias apresentadas por Le Bon (1963); a multidão deve ser tomada como uma multiplicidade em dispersão, constituindo uma espécie de “vírus” que prolifera por toda parte.

Para situar o tema das multidões nesta outra perspectiva teórica e construir uma problematização desta temática no âmbito da Psicologia Social, é preciso entender as características essenciais da sociedade contemporânea. Talvez a principal característica seja o fato de esta sociedade ser marcada por uma revolução tecnológica e cibernética que produz um novo arranjo do tecido social a partir do advento de novas tecnologias resultantes dos avanços da informática. Este conjunto de novas tecnologias aliado à concentração de poder do capital financeiro internacional oferece condições para a criação de uma nova ordem mundial, um megamercado planetário conhecido pela expressão “globalização”. A globalização implica não somente a eliminação de limites bem definidos, como também uma aceleração da velocidade que se traduz pela simultaneidade dos acontecimentos. Deste modo, podemos dizer que a principal característica desse novo arranjo do social é estabelecer novas coordenadas nas relações de tempo-espaço, criando uma superfície lisa para a expansão “ilimitada” do capital que vai, sem dúvida, afetar os modos de existência em escala planetária.

Negri e Hardt (2001) chamaram de Império esta nova ecologia ou economia política contemporânea, esta nova forma de organização e de controle da vida que emerge e se consolida nas últimas duas ou três décadas. O Império é a feição contemporânea do poder capitalista que reorganiza tanto as agrimensuras do espaço, formatando um sistema imediatamente global e totalizante, como as cronometrias do tempo, utilizando-as para acelerar o ritmo dos corpos e propor o fechamento da historicidade no que seria a sua distensão final, ou seja, o próprio capitalismo.

De posse da totalidade do espaço e do tempo, o capitalismo imperial põe em funcionamento uma série de equipamentos muito apropriados. Precipitando-se sobre a falência dos Estados nacionais, de seus aparelhos administrativos e jurídico-legislativos, bem como de seu antigo sistema produtivo de ordem taylorista, o Império instala, no plano mundial, organizações supranacionais privadas ou mistas (grandes bancos, fundos, organizações multilaterais) e todo um aparato produtivo que cria um imenso conjunto de articulações informativas e comunicacionais com longo e visado alcance.

No momento em que o Império incide diretamente sobre a vida, cercando cada um dos corpos com seus equipamentos e instaurando uma axiomática forjada sobre a idéia de “crise permanente”, é também de cada um dos corpos que emerge a possibilidade de uma resistência ativa. É a partir desta noção de resistência que Negri e Hardt (2001) vão problematizar a multidão como multiplicidade e potência, diferenciando-se da noção de multidão como um mero agregado de indivíduos.

Nesta perspectiva, a multidão é um coletivo formado por aqueles corpos que, mesmo dispersos uns dos outros, em um dado instante estão a produzir alternativas singulares para além das bordas do Império. Como o próprio Império, a multidão também é imediatamente mundial e seu poder é ascendente, proliferando entre as redes do Império, como um conjunto de partículas soltas no seu próprio mecanismo.

Foucault (1999) utiliza-se da noção de biopoder para apontar uma tecnologia de gerenciamento da vida organizada pelos dispositivos de poder na transição das sociedades disciplinares para as sociedades de controle. Esta tecnologia pretende o controle da multiplicidade, tomando a vida e seus meios de reprodução e expansão como principal foco de intervenção. Para este autor, trata-se da produção de uma vida suscetível à intervenção de discursos de saber-poder que objetivam tanto a domesticação dos corpos quanto o governo das populações, por meio de diferentes regulamentações. Podemos dizer que o modo de considerar a multidão como objeto de investigação da Psicologia tal como foi proposto por Le Bon (1963) no final do século XIX é a expressão desta tecnologia de gerenciamento da vida organizada pelos dispositivos de poder neste momento de transição do modelo disciplinar para as sociedades de controle.

É importante, neste momento, marcar uma diferenciação conceitual entre os termos massa e multidão. Podemos dizer que, quando Le Bon (1963) se refere às multidões, ele acaba tomando-as como uma massa homogênea, irracional e sem outra função a não ser a de produzir um desequilíbrio na ordem estabelecida. Neste sentido, a idéia de multidão proposta por Le Bon pode ser entendida como uma multidão-massa, como uma unidade em agrupamento. Já para Negri (2002), a multidão é entendida como uma potência constituinte que produz uma tensão que pode levar à transformação da ordem estabelecida. A multidão, neste caso, é entendida como uma multiplicidade em dispersão, como multidão-potência. A posição de Negri, como vemos, aproxima-se daquela proposta por Marx (1975) ao pensar o problema colocado pela luta de classes.

Para Negri (2002), a multidão constitui um coletivo formado por corpos que, mesmo dispersos uns dos outros, em um dado instante estão a engendrar alternativas singulares para além das formas de assujeitamento produzidas pelas estratégias do biopoder. A multidão tem a defesa da vida como lugar comum, ela é dotada de uma virtualidade molecular, de uma potência carregada de sinergia coletiva, potência de variação de formas de vida. Logo, a multidão é dotada de biopotência, constituindo uma resistência biopolítica agenciada coletivamente e expressando um conjunto de variações com potencial para tornarem-se quantidades sociais. A multidão constrói um corpo vital e expansivo no coletivo, cujo processo de produção tem conseqüências éticas, estéticas e políticas.

Neste contexto, a idéia de multidão é deslocada do caráter negativo proposto por Le Bon (1963) – multidão enquanto massa desordenada que carece de organização e padece sob a sugestão de um líder –, assumindo um papel positivo, no sentido em que é colocada enquanto instrumento da potência comum de produzir a própria vida. É como se o poder sobre a vida se deslocasse de seu caráter negativo para assumir sua positividade de poder da vida, como expressão de um potencial inventivo capaz de desencadear inúmeras estratégias de resistência e inaugurar outras formas de vida.

A idéia de multidão-massa mantém o foco em um princípio macropolítico voltado para uma intervenção massiva e controlada: é a multidão tomada como unidade sujeita ao comando de um líder. A multidão-potência, ao contrário, trabalharia com a idéia de um exercício micropolítico voltado para a potência de afetação de cada corpo inscrito no plano coletivo: é a multidão tomada como multiplicidade. É justamente na experimentação desta multiplicidade que está a potência efetiva do trabalho da multidão como resistência.

O trabalho da multidão-potência envolve o que Negri (2000) chama de cérebro e de cooperação na produção do comum. O cérebro é a produção de novas cartografias, novos conceitos, novos territórios lingüísticos e novos planos de sensação; a cooperação é um movimento produtivo de incidência material que se processa entre a multidão, um poder constituinte. O comum passa a ser este conjunto de meios e fins, procedimentos e produtos, línguas e corpos criados coletivamente.

Se estamos confinados no interior de uma lógica capitalista, é preciso inventar um “lado de fora” (NEGRI, 2001/2002, p. 52) que se constitua assim em uma brecha de possível. Para Negri (2001/2002), a invenção deste fora passa necessariamente pela constituição do problema da multidão na contemporaneidade, entendendo-se que o conceito de multidão sempre esteve de algum modo associado aos desdobramentos do trabalho como função constituinte do social e do político.

 

O TRABALHO DAS MULTIDÕES NA ATUALIDADE

Hoje em dia, o problema da multidão está diretamente relacionado a um novo tipo de ativismo (BERARDI, 2002) que alia a ação direta das multidões com a potência interativa resultante do movimento das novas comunidades virtuais (ANTOUN, 2001/2002). Na concepção de Antoun (2001/2002), as novas tecnologias não são apresentadas como o “verdadeiro” sujeito das transformações – como sugere, por exemplo, Pierre Lévy (1995, 1998) ao analisar este tema, mas como a expressão da atividade que se apropria destes novos meios para desenvolver suas potencialidades. Sendo assim, a articulação entre multidões e ciberespaço aponta para a reinvenção do sentido das práticas de resistência na contemporaneidade, pois expressam uma possibilidade de ruptura com o status quo.

Podemos dizer que o problema das multidões na contemporaneidade está relacionado às questões suscitadas pelo ativismo interativo que, sobretudo após a experiência de Seattle em 1999, introduz uma outra pragmática nas formas de luta e resistência em função de um novo modo de colocar o trabalho das multidões, articulando-o ao campo do ciberespaço.

Pretendemos problematizar o que este acontecimento “multidão” produz na interface com outras formas de expressão tais como a interação via internet. Para tanto, elegemos como campo de análise as estratégias de intervenção de alguns movimentos antiglobalização e suas repercussões na produção de um ativismo interativo que possibilite a problematização da relação entre subjetividade e política. Tomaremos dois movimentos, o zapatista e o da Ação Global dos Povos, para pensar o trabalho das multidões na atualidade.

O movimento zapatista1

O movimento zapatista desperta interesse em função da militância e da presença de um pensamento múltiplo de afirmação das potências enquanto invenção e criação de diferentes ferramentas de luta.

Este movimento surgiu oficialmente em 1º de janeiro de 1994 quando homens e mulheres com o rosto coberto ocuparam, de armas em punho, cidades do estado de Chiapas, no México, no mesmo dia em que começava a vigorar o Tratado de Livre Comércio entre Estados Unidos, Canadá e México (em inglês, North American Free Trade Agreement – NAFTA). Estes indígenas mexicanos reivindicavam trabalho, teto, terra, alimentação, saúde, educação, independência, democracia, justiça, liberdade, cultura, direito à informação e paz. Eles se denominavam Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN).

A luta dos zapatistas vem sendo construída a partir de um processo de ação política e afirmação das diferenças que aponta para a multiplicidade e tem por finalidade inaugurar uma nova estratégia no exercício do poder. O discurso zapatista, inicialmente, não contempla metas, não busca realizar o grande acontecimento, “A Revolução”, mas viver um processo permanente de criação de um mundo novo. A constituição de líderes, bem como um discurso de verdade única, são rejeitados permanentemente, criando, assim, uma das ferramentas fundamentais de sua legitimidade.

Sua organização interna contempla um comitê auto-regulador e suas decisões e pronunciamentos são discutidos e permitidos, ou não, pela coordenação do movimento. O subcomandante Marcos assina os pronunciamentos, mas colocando-se sempre como integrante do movimento e não como líder. Por isso o título “subcomandante”. Como dizem os próprios zapatistas: “Marcos somos todos”. Seus rostos cobertos, além de servir para preservar a identidade dos guerrilheiros, servem como símbolo de descentralização e bandeira de uma luta que não é somente dos chiapanecos, mas abrange todos os “excluídos, esmagados e oprimidos” em todos os continentes. Esta união em amplas redes de resistência e de construção de um mundo novo, a fim de enfrentar e ir desconstruindo as redes de dominação até seus últimos vasos capilares, é convicção profunda dos zapatistas e aparece reiteradamente em seus discursos.

Desde o levante de 1° de janeiro de 1994, além de ter promovido uma série de ações com a sociedade civil – como a construção da Frente Zapatista de Libertação Nacional (FZLN)2, uma eficiente rede de comunicação e solidariedade foi se constituindo e alastrando-se ao redor do planeta, utilizando os recursos do correio eletrônico e das redes em todo o mundo, mobilizando assim ativistas de Direitos Humanos, simpatizantes da causa zapatista e movimentos sociais alternativos. Desde as primeiras semanas da aparição pública do EZLN, os comunicados da comandância zapatista e os do subcomandante Marcos já podiam ser acessados eletronicamente de diversas partes do planeta a partir de listas de discussão sobre Chiapas na internet. Além da ocupação física dos municípios de Chiapas, os zapatistas travavam uma verdadeira guerra de informação praticamente em tempo real. No início do conflito, as grandes emissoras de telecomunicação mexicanas, ligadas ao governo, “ignoravam” os acontecimentos do sudeste mexicano. Mais tarde, porém, acabaram sendo obrigadas a noticiar o levante zapatista, visto que, em decorrência do imenso poder de propagação da causa zapatista, o mundo inteiro já tinha tomado conhecimento do que estava acontecendo em Chiapas.

O grupo “!Ya Basta!” surge em 1994 com a finalidade de disseminar informações da questão zapatista e servir para dar voz aos zapatistas na rede. Foi criado o site <http://www.ezln.org>, que não tem ligação direta com os zapatistas e nem mesmo constitui um site oficial do EZLN. Este foi o primeiro endereço eletrônico dedicado inteiramente à causa zapatista. Os sites zapatistas não têm nenhum direito autoral sobre os textos e estimulam a sua propagação. Para eles, a internet pode ser uma ferramenta poderosa no ativismo e na difusão de informação, onde as pessoas que participam vão construindo seus próprios aportes históricos que contextualizam o movimento em diversas direções, sustentando a não-existência de uma proposta esquemática estrutural que defina prioridades ao movimento ou de um centro que homogeneíze as partes da rede. Por meio das redes de comunicação, é mantida a riqueza de uma trama diversificada de propostas e de resistências ao capitalismo mundial integrado.

Esta característica de descentralização também se manifesta na própria condição do subcomandante, que subverte a figura tradicional do líder de uma massa que necessita ser controlada e direcionada. Este movimento prescinde da figura do comandante, fazendo com que o subcomandante Marcos seja tomado como pura virtualidade: é a rede que impulsiona o movimento.

Outra característica que chama a atenção no movimento são as intervenções realizadas pelo exército sem-rosto, ou seja, as ações agregam um conjunto de indivíduos que escondem seus rostos e que utilizam esta escolha também como forma de protesto. Assim como o subcomandante Marcos não possui um rosto, o exército também se desfaz dele, fazendo disto uma política que dá ao movimento um caráter múltiplo.

Para Deleuze e Guattari (1980), o rosto é uma política que coloca em questão a tendência à universalização e à homogeneização das identidades, bem como os agenciamentos de poder que atribuem ao rosto uma produção social de sentido único. Por isso, o que o movimento zapatista faz é atribuir ao rosto o seu caráter de inacabamento, na medida em que ele é uma superfície/mapa em relação a uma paisagem onde é possível inventar novas coordenadas.

Este movimento sem-rosto engaja um devir-clandestino na medida em que a imagem do conhecido já não serve mais para nada. Com isso, explode a máquina de produção social de rosto, que opera a rostificação do corpo e a paisagificação do mundo (DELEUZE; GUATTARI, 1980). Essa relação com o sem-rosto funciona como um dispositivo para a constituição de uma subjetividade coletiva, que não é resultado do somatório das subjetividades individuais, mas de contrapoderes e resistências à submissão e opressão das regulamentações do poder sobre a vida. O devir-clandestino opera na desconstrução dos agenciamentos concretos de poder despótico e autoritário, dando sentido ao ideal de descentralização do movimento zapatista.

A Ação Global dos Povos

A Ação Global dos Povos (AGP) teve sua primeira conferência em fevereiro de 1998 na cidade de Genebra. Encontraram-se na cidade movimentos de todos os continentes, lançando aí uma coordenação mundial de resistência contra o mercado globalizado, o comércio “livre” e a Organização Mundial de Comércio (OMC). Todavia, o germe do que viria a ser a AGP foi lançado em 1996, em um encontro promovido pelos zapatistas que reuniu cerca de seis mil pessoas para conversar e compartilhar experiências contra o inimigo comum: o capitalismo. No ano seguinte, ocorreu um novo encontro em Barcelona, na Espanha. O objetivo deste encontro foi promover uma campanha global mais concreta.

A primeira prova da capacidade mobilizadora e aglutinativa de pessoas e movimentos da AGP ocorreu no dia 16 de maio de 1998. Nessa data, estava ocorrendo uma reunião anual do G8 (os sete países mais ricos e a Rússia) na Inglaterra e um encontro da OMC em Genebra. Esse foi o primeiro de muitos dias que passariam a ser chamados de Dias de Ação Global (datas em que, simultaneamente, em várias partes do mundo, se protestaria por justiça global). É importante enfatizar que o sucesso não só da primeira manifestação como também das seguintes teve a internet como uma grande aliada, que facilitou de forma decisiva a articulação de pessoas e movimentos.

A AGP conta com a participação de uma rede que congrega entidades, ativistas de pequenos coletivos autônomos, movimentos sociais, alguns sindicatos e pessoas sem nenhum tipo de afiliação. Não existe entre os participantes dos Dias de Ação Global e da AGP uma filiação doutrinária unitária, apesar de alguns dos coletivos que compõem esta multidão se proclamarem comunistas, socialistas, anarquistas e mesmo socialdemocratas. Da mesma forma, a multiplicidade desses coletivos produz e apresenta diferentes demandas e formas de organização do trabalho comum. Para Negri (2002), este é o caráter da desutopia constitutiva que permeia os movimentos de multidão: não uma utopia, um projeto fixado de antemão que responderia aos anseios da multidão; antes disso, o que há é uma vontade de constituição, uma vontade de libertar a potência da multidão para a criação constante de novas alternativas.

Como as manifestações não tinham nenhum tipo de coordenação para além de acordos situacionais entre os coletivos ou pessoas participantes, estas multidões que tomavam as ruas não empreendiam um mesmo tipo de ação, como, por exemplo, uma marcha coletiva sobre um mesmo caminho. Ao contrário, agiam como “enxames” tomando as cidades, surgindo de todos os lugares, aglutinando-se e dispersando-se em muitos pontos ao mesmo tempo.

A AGP retrata, assim, uma determinada estratégia dos movimentos de multidão na atualidade na qual um grande coletivo aglutina diferentes movimentos de procedências diversas, articulando diferentes formas de expressão, diferentes demandas e diferentes táticas de confronto.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao analisarmos as modulações da subjetividade contemporânea a partir do tema das multidões, buscamos entender como a lógica capitalista operacionaliza uma axiomática de controle contínuo sobre a vida, e como o trabalho das multidões pode ser considerado um dos dispositivos de resistência à constante homogeneização da experiência subjetiva. A articulação entre multidões e ciberespaço permite reconfigurar as estratégias de resistência na atualidade e pensar o conceito de multidão-potência. A multidão passa a ser tomada não como a expressão de uma anomalia social, mas como uma das formas de resistência e criação na contemporaneidade. Ao retomar o tema das multidões no âmbito da Psicologia Social, recolocando-o de um modo distinto daquele encontrado nas primeiras aproximações da Psicologia em direção ao social, procuramos mostrar que a forma de construção dos problemas e dos seus respectivos objetos de estudo remete à indagação sobre a função política das estratégias de produção de conhecimento deste campo de investigação.

Assim, ao analisarmos o trabalho das multidões a partir das novas formas de luta produzidas pelos movimentos antiglobalização, podemos pensar as formas de captura da subjetividade e os modos de resistência à subjetivação capitalista e colocar, sobre outras bases, o tema das multidões no âmbito da Psicologia Social.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência

Stéfanis Caiaffo
E-mail: caiaffo@gmail.com

Rosane Neves da Silva
E-mail: rosane.neves@ufrgs.br

 

Recebido em: 12/06/2006
Revisado em: 22/03/2007
Aprovado em: 01/06/2007

 

 

1.As informações desta sessão foram colhidas em diversos endereços eletrônicos. Para maiores informações sobre o movimento zapatista, sugerimos os seguintes: <http://www.ezln.org.mx> e <http://www.radioinsurgente.org>.
2A Frente Zapatista de Libertação Nacional pode ser considerada o braço político do EZLN. É constituída por membros da sociedade civil com a finalidade de ser um órgão regulador do governo e do próprio EZLN, bem como engajar a população nas questões políticas do país e do mundo inteiro.

 

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