As razões da paz duradoura (100 anos da 1ª Guerra Mundial)


Por Maristela Basso.

Os efeitos econômicos e desenvolvimentistas aparecem instantaneamente ao examinarmos as consequências da paz nos períodos que se seguiram à Primeira e à Segunda Guerras Mundiais. A Primeira foi oficialmente encerrada com a assinatura do Tratado de Versalhes, em 1919, pelas potências europeias, após seis meses de negociações, em Paris, como continuação do acordo de armistício de novembro de 1918, celebrado em Compiègne (França), o qual tinha posto fim aos confrontos armados. Diferentemente, a Segunda Guerra foi encerrada com a assinatura por parte dos países beligerantes (e de outros) da Carta de São Francisco, em 1945, muito mais promissora e que deu origem à Organização das Nações Unidas (ONU).

A “paz de Versalhes” foi uma reedição da “paz cartaginesa”, ou seja, da humilhação imposta por Roma no âmbito das guerras púnicas, em que até o solo da velha colônia fenícia era coberto de sal, para que nada mais aí pudesse ser semeado e crescer. O que não correu com a “paz de São Francisco”.

No Tratado de Versalhes os termos impostos à Alemanha incluíam, além da indenização pelos prejuízos causados durante a guerra aos países da Tríplice Entente (aliança entre Reino Unido, França e Império Russo), a perda de uma parte de seu território para nações fronteiriças, de todas as colônias sobre os oceanos e sobre o continente africano. A Alemanha também ficou obrigada a abrir mão de todos os seus grandes navios de carga e a entregar suas principais minas de carvão. Recursos financeiros e bens particulares e privados de cidadãos alemães em outros países foram confiscados, o que nunca havia sido feito em nenhum outro tratado internacional anterior. O Tratado de Versalhes obrigou a Alemanha a entrar no túnel do tempo e retroceder ao tomar dela suas três principais fontes de riqueza: a indústria metalúrgica associada à exploração de ferro e do carvão, o comércio externo e o sistema de transporte.

Versalhes fora manipulado pelos interesses de uma França decadente e sob a ótica dos interesses ingleses. Na Alemanha, o Tratado causou choque e humilhação na população, o que contribuiu para a queda da República de Weimar, em 1933, e a ascensão do nazismo.

Contudo, logo apareceu uma voz em defesa do continente europeu: John Maynard Keynes, membro da comitiva inglesa de negociações para a paz, que discordou frontalmente dos termos impostos à Alemanha, referindo-se ao Tratado de Versalhes como a imposição de uma “paz cartaginesa”. Foi, então, que escreveu as razões de sua revolta no brilhante panfletário “As Consequências Econômicas da Paz”, publicado no fim de 1919, que chegou como um tsunami na Europa e nos Estados Unidos.  Segundo Keynes, as exigências do Tratado de Versalhes não prostraria apenas a Alemanha, mas colocaria de joelhos toda a Europa Central que caminharia em direção à ruina econômica e à instabilidade política.  Versalhes traria consigo o radicalismo político vingativo, a instabilidade psicológica das classes operária e capitalista, a desvalorização do dinheiro, a inflação acelerada na Europa (e em particular na Alemanha), gastos superiores ao fluxo de novas divisas e um novo (futuro) confronto bélico.

No ínterim entre a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais os europeus viveram tempos sombrios, com a estagnação do comércio e da economia, protecionismo, desemprego, inflação e pobreza.

A história não demorou a demonstrar que Keynes foi profético. O Tratado de Versalhes não previa nenhum mecanismo de recuperação e ascensão da Europa e, quando nos anos 20 os preços dispararam, a Alemanha já não escondia suas chagas econômicas e sociais e o nazismo não encontrou obstáculos para se infiltrar e cronificar na sociedade fragilizada. Vinte anos depois, as tropas nazistas não encontraram resistência para marchar sobre a Polônia abrindo as comportas da Segunda Guerra Mundial.

Quando terminou o segundo grande conflito, a Europa nada mais era do que um cenário em ruinas. Era preciso alimentar, vestir e alojar populações famintas e, na (re)construção da paz, os erros do Tratado de Versalhes não poderiam ser repetidos. O ideal agora não era mais apenas buscar a paz e punir os responsáveis, e sim evitar que outra guerra ocorresse. Para tanto, os beligerantes vitoriosos passaram a difundir a noção da “paz duradoura por meio da coexistência pacífica e da cooperação econômica”. Daí por que, são celebrados os Acordos de Bretton Woods, como incentivo à recuperação comercial e econômica, à abertura dos mercados, ao reescalonamento das dívidas entre aliados e ao equilíbrio monetário e cambial. As lições de Keynes foram, portanto, retomadas. A palavra de ordem após Bretton Woods e São Francisco passou a ser a reabilitação de todos e a reconstrução da Europa. Foi neste contexto que se inseriu o Plano Marshall de Reconstrução Europeia, tão bem administrado pela Organização Europeia de Cooperação e Desenvolvimento (hoje OCDE), precursora das Comunidades Europeias – hoje União Europeia.

Portanto, diferentemente da “Falsa Paz (Cartaginesa) de Versalhes”, a “Paz da Cooperação Econômica dos Acordos de Bretton Woods e da Carta de São Francisco” fez a Europa prosperar e, a reboque, o resto do mundo – uns mais, outros menos, mas, ao final, ganhamos todos.

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