Transtorno Bipolar do Humor: saiba como identificar e tratar a doença


Transtorno Bipolar do Humor é um transtorno mental caracterizado por uma alternância do humor. A pessoa apresenta episódios em que fica com o humor exaltado, ou eufórico…

Veículo: Jornal O Município de Sorocaba
Seção: Saúde
Data: 09/04/2010
Estado: SP

Você conhece alguém que sem motivos e, com frequência, de uma hora para outra muda de humor radicalmente? Saiba que ela pode estar sofrendo de Transtorno Bipolar do Humor.

Mais comum do que se pensa, a doença que é caracterizada especialmente por mudanças recorrentes do humor, acomete 8 em cada 100 pessoas e manifesta-se igualmente em homens e mulheres, sendo mais frequente entre pessoas solteiras e divorciadas.

Humor eufórico, distração, exaltação, gastos excessivos, irritabilidade, impaciência, intolerância, otimismo exagerado, são alguns dos sintomas deste transtorno.

Depois de nos esclarecer questões importantes sobre o TOC- Transtorno Obsessivo Compulsivo, em entrevista ao O Município, o Dr. Manoel César da Camara Oliveira, médico Psiquiatra, fala sobre Transtorno Bipolar do Humor.

O Município – O que é Transtorno Bipolar do Humor?

Dr. Manoel – Transtorno Bipolar do Humor é um transtorno mental caracterizado por uma alternância do humor. A pessoa apresenta episódios em que fica com o humor exaltado, ou eufórico, constituindo a fase maníaca e também pode apresentar episódios em que fica com o humor rebaixado, muito triste, melancólico, constituindo a fase depressiva. Se um indivíduo, apresentar apenas episódios de mania (euforia) embora esteja ausente o polo depressivo, mesmo assim também é portador de transtorno bipolar do humor, e após o segundo episódio, pois se ele nunca apresentou quadro de mania (euforia) ou de depressão, anteriormente, é diagnosticado como portador de episódio maníaco. Se um indivíduo apresentar só fases depressivas, em toda a sua vida o seu diagnóstico é de transtorno depressivo recorrente ou depressão unipolar e isto após o segundo episódio, pois se ele nunca apresentou quadro depressivo anteriormente, é diagnosticado como portador de episódio depressivo. No diagnóstico do transtorno bipolar não levamos em conta apenas a presença do humor patológico (eufórico ou deprimido), mas também observamos a presença de várias perturbações associadas, algumas delas serão descritas abaixo. A psiquiatria tem considerado a depressão unipolar e o transtorno bipolar como transtornos separados, contudo, a possibilidade de que o transtorno bipolar seja na verdade uma forma mais grave de depressão tem sido reconsiderada recentemente, daí surgiu o termo depressão bipolar o que do ponto de vista psicanalítico não é novidade, pois no campo da psicanálise a mania é considerada como uma defesa contra a depressão, pois quando a depressão atinge um grau insuportável para o ego, este desenvolve um mecanismo de defesa que transforma a melancolia em euforia. Muitos pacientes bastante maníacos, eufóricos conseguem perceber isto, e nos dizem “doutor estou alegre por fora, mas por dentro sinto que estou profundamente vazio e muito triste”.

OM – Quais as causas da doença?

Dr. Manoel – Como nos demais Transtornos Mentais a causa não é única, mas existem inúmeros fatores envolvidos na etiologia desse transtorno. A) fatores biológicos: principalmente desregulações nos neurotransmissores cerebrais, serotonina, noradrenalina e dopamina; desregulação neuroendócrina, envolvendo os hormônios da tireóide, o hormônio do crescimento, a redução da secreção noturna da melatonina, alterações cerebrais detectadas em exames de imagens (tomografia cerebral, ressonância magnética e outros exames) etc. B) fatores genéticos: a incidência do transtorno bipolar é bem maior em parentes da pessoa que tem o transtorno do que na população geral, e é mais alta quanto mais próximo o parentesco e maior ainda em se tratando de gêmeos idênticos; se um adoecer, a taxa do outro também adoecer fica entre 33% a 90 %. Se um dos pais tem transtorno bipolar, há 25% de chance de que qualquer filho venha a ter um transtorno do humor; se ambos os pais têm o transtorno, a chance aumenta para 50 a 75%. C) Fatores psicossociais: acontecimentos na vida e estresse ambiental, fatores da personalidade e fatores psicológicos tanto no campo psicodinâmico (Freud, Melanie Klein, Karl Abraham, Bertram Lewin), como no campo cognitivo (Aaron Beck). Em resumo, as causas envolvem fatores bio-psico-sociais.

OM – Qualquer pessoa pode ser acometida deste tipo de problema ou ele atinge um determinado grupo de pessoas?

Dr. Manoel – A prevalência do transtorno bipolar é 1% para população em geral, mas incluindo o espectro bipolar, que engloba casos sub-clínicos chega a 6% a 8%. O transtorno bipolar tem uma prevalência igual entre homens e mulheres. A idade de início vai dos 5 ou 6 anos até os 50 anos, com uma idade média de 30 anos. O transtorno bipolar é mais frequente entre pessoas solteiras e divorciadas. Existe uma prevalência maior em pessoas de nível socioeconômico mais alto.

OM – Quais os sintomas deste transtorno?

Dr. Manoel – Os sintomas variam conforme a fase em que a pessoa se encontra. Quando o indivíduo apresenta uma fase maníaca (eufórica) mostra: humor eufórico, distração, exaltação, gastos excessivos, irritabilidade, impaciência, intolerância (pavio curto), pensamento acelerado, aumento de energia e disposição, otimismo exagerado, aumento da autoestima, ideias grandiosas, redução do sono, falta do senso crítico, as vezes hipersexualidade.Em casos mais graves podem ocorrer: abuso de álcool e ou drogas, delírios e alucinações, desinibição exagerada, comportamentos inadequados e idéias de suicídio. Quando um indivíduo apresenta uma fase depressiva, mostra: sentimento de medo, tristeza, insegurança, desespero e vazio, isolamento social e familiar (esconde-se das pessoas, fica no quarto, não atende o telefone), apatia desmotivação, desânimo, cansaço mental, dificuldade de concentração, esquecimentos, aumento ou diminuição do sono, aumento ou diminuição do apetite, pessimismo, sentimentos e ideias de culpa e ruína, baixa autoestima, redução da libido. Em casos mais graves podem ocorrer: dores e problemas físicos como cefaléia, sintomas gastrintestinais, dores no corpo, pressão no peito e ideias e tentativas de suicídio, delírios e alucinações. O transtorno bipolar, tanto a fase maníaca quanto a depressiva, pode ser: leve, moderado e grave e a forma grave, tanto a maníaca quanto a depressiva, pode se apresentar sem sintomas psicóticos ou com sintomas psicóticos.

OM – Com é realizado o diagnóstico da doença?

Dr. Manoel – O diagnóstico é realizado preferencialmente por médico psiquiatra e se baseia na obtenção da história da doença, nos antecedentes pessoais e familiares, no exame físico, no minucioso exame mental. O dia-gnóstico é feito com base em parâmetros aceitos mundialmente, como o CID (código internacional das doenças) e o DSM, classificação americana.

OM – Tem cura? Qual o tipo de tratamento indicado?

Dr. Manoel – Os episódios depressivos e os episódios maníacos, após um tratamento bem feito, às vezes têm cura, o paciente não volta a ter outros episódios, mas quando se trata do transtorno bipolar não se fala em cura, mas na tentativa de remissão dos sintomas e no tratamento profilático para se tentar evitar outros episódios. O tratamento farmacológico do transtorno bipolar é realizado principalmente com os medicamentos chamados estabilizadores do humor, como o lítio, e anticonvulsivantes, como a carbamazepina, o valproato e divalproato de sódio, a lamotrigina, o topiramato e também com neurolépticos atípicos, como a risperidona, a olanzapina, a clozapina, a quetiapina e o aripiprazol. Os antidepressivos devem ser usados com muita cautela, pois podem tirar o paciente da fase depressiva e levá-lo para a fase maníaca. As psicoterapias de qualquer linha sempre ajudam muito no tratamento, mesmo que seja apenas para conscientizar o paciente da necessidade de tomar os medicamentos assiduamente e aprender a reconhecer quando est` iniciando uma recaída, a reforçar a necessidade de abster-se de álcool e drogas, a ter noção dos seus limites e a levar uma vida regrada. Nos casos mais graves devemos recorrer a outras formas de tratamento, como a terapia ocupacional, arteterapia e a musicoterapia.

OM – Como a família pode colaborar no tratamento?

Dr. Manoel – Quando perceber as alterações em alguém da família deve-se tentar convencê-lo a aceitar a ajuda, estimular esta pessoa a tomar os remédios corretamente, a não faltar nos retornos e outros tratamentos recomendados, e aprender a identificar quando está iniciando uma recaída, pois a intervenção precoce pode debelar mais fácil a recaída e evitar internação psiquiátrica, que pode aumentar o estigma social, bem como criar outra doença no paciente e mesmo na família, o hospitalismo, em que, por qualquer motivo o paciente e ou a família quer recorrer à internação.

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