Olympio Faissol – Muito além do high society


Quantas histórias cabem na trajetória de vida de Olympio Faissol? Confira a biografia dele, que é muito mais que o “dentista das celebridades”.

Olympio Faissol
Reportagem: Adilson Fuzo e Christiane Benassi
Ilustração: Lézio Custódio Júnior

Dentista das celebridades? Sim! Mas também cidadão do mundo, introdutor da Reabilitação Oral no Brasil, pesquisador, militante contra o mercúrio e o flúor, apaixonado pela maricultura… quantas histórias cabem na trajetória de vida de Olympio Faissol?

Olympio Faissol Pinto costuma ser apresentado nas colunas sociais como o “dentista das celebridades”. Sim, é verdade que presidentes, músicos, atores, empresários e alguns dos nomes mais influentes da política e da cultura brasileira já passaram pela cadeira de seu consultório e, por conta da convivência, muitos deles também se tornaram seus amigos. No entanto, reduzir a apresentação de Faissol a “dentista das celebridades” é uma enorme injustiça.

Ver matériaFilho de dentistas, sendo sua mãe – Martha Faissol Pinto – uma das primeiras do Brasil, Olympio Faissol diz não ter tido outra escolha e acabou cursando Odontologia pela Faculdade Nacional de Odontologia da Universidade do Brasil (mais tarde, rebatizada para Universidade Federal do Rio de Janeiro), concluindo sua graduação em 1957. “Acabei abraçando a ideia de me tornar cirurgião-dentista, visto que o meu mundo era o consultório dos meus pais. Era lá que eu passava grande parte do meu tempo, brincando com os moldes dentários e, mais tarde, acompanhando e auxiliando meu pai, que foi um homem muito habilidoso e audacioso”, recorda.

O consultório de seu pai, Olympio Domingues Pinto, ostentava os melhores equipamentos e móveis da época, atraindo os olhares curiosos dos moradores e visitantes da cidade de Ituiutaba, no triângulo mineiro, como se fosse um ponto turístico. Um investimento altíssimo, para uma cidade do interior na década de 1940, equivalente a 40 automóveis. Entre as muitas imagens gravadas na memória do filho, está a do pai substituindo as amálgamas de seus pacientes por restaurações em ouro. “Além de um profissional completo da saúde, meu pai era um verdadeiro ourives, muito habilidoso com o manuseio do ouro. Entretinha-me acompanhá-lo no preparo do material e, quando não estava esculpindo dentes, ajudava-o a encher buraquinho de dentes. Tudo isso contribuiu para a minha formação e identidade como profissional”, revela.

Anos mais tarde, quando a família trocou Ituiutaba pelo Rio de Janeiro, o pai de Faissol tornou-se um profissional influente na capital federal, tornando-se dentista de figurões da política brasileira, como o presidente da República, Getúlio Vargas. O jovem Faissol, que ajudava seu pai como assistente na época dos estudos, foi incentivado pelo próprio Vargas a completar sua formação nos EUA.

Assim, em 1958, Faissol partiu na viagem mais importante de sua vida, em uma jornada que começaria pela Universidade de Georgetown, em Washington.

Início difícil em Washington

O jovem cirurgião-dentista chegou aos EUA com pouquíssimo dinheiro no bolso, uma bolsa de estudos e uma ajuda de apenas 82 dólares por mês. Passou por grandes dificuldades financeiras para conseguir se manter enquanto cursava seu mestrado.

A adaptação foi difícil, mas, aos poucos, o brasileiro foi conquistando o seu espaço. Sua intenção inicial era pesquisar o risco de contaminação do mercúrio contido na amálgama usado nas restaurações. No entanto, a direção da universidade considerou o tema extenso demais e mercadologicamente inconveniente.

Restou a Faissol escolher outro tema para sua tese. Ele decidiu, então, se dedicar ao estudo da ATM, o que resultou em um trabalho inédito sobre o ligamento maleomandibular, que ajudava no diagnóstico diferencial entre os problemas de origem neurológica daqueles associados ao nariz e à boca.

Ao final do segundo ano do curso, faltando quatro meses para a defesa de tese, o dinheiro acabou. Restava a Faissol apenas os trocados que usaria para pegar um ônibus até a embaixada brasileira, onde ele pediria repatriação. Na véspera de sua partida para o Brasil, ele participava de um evento em que teve a oportunidade de explicar sua pesquisa para alguns ex-alunos da universidade. Um deles, Irwing Freitag, ficou entusiasmado com o estudo do brasileiro e resolveu salvá-lo, hospedando-o em sua própria casa e pagando suas despesas até a conclusão do curso. “Com sete filhos, ele me convidou para morar com a família dele. Em troca de moradia e alimentação, eu fazia próteses para a sua clínica. Sem essa ajuda, eu teria voltado para o Brasil sem terminar o meu trabalho, teria fracassado e ficado traumatizado por toda a vida”, relembra Faissol emocionado.

Aos poucos, o horizonte do jovem cirurgião-dentista foi clareando. Freitag lhe apresentou para vários cirurgiões-dentistas importantes da cidade, para que ele falasse sobre seus estudos em ATM e oclusão. Depois de alguns contatos, uma coisa levou à outra e ele conheceu um importante professor de Nova York, Louis Alexander Cohn, que o convidou para trabalhar em seu consultório e o indicou para fazer 50 conferências pelos EUA. Finalmente ele passou a ter condições de se manter financeiramente.

Seguindo os passos de Alexander Cohn

Nos anos seguintes, Cohn foi o mentor profissional de Faissol. Atendendo pacientes abastados, como a família Rockfeller e a família real inglesa, convenceu Faissol a desistir de seus planos de investir em uma carreira eminentemente acadêmica para se dedicar também à atividade clínica, cujo retorno financeiro era muito maior. Assim, entre 1960 e 1962, o brasileiro trabalhou na clínica de Cohn e o ajudava em suas pesquisas e aulas.

Em determinada época, Cohn adoeceu gravemente e licenciou-se para tratar da saúde. Foi quando eles foram apresentados a Melvin Page, um distinto cirurgião-dentista que conciliava o tratamento odontológico com Nutrição. Infelizmente, Cohn acabou falecendo por conta de um infarto meses depois, mas a influência de Page sobre Faissol seria decisiva pelo resto de sua carreira. “A partir do meu encontro com o Page, passei a estudar sua filosofia com dedicação. Foi com ele que aprendi a curar gente, e não dente. A saúde deve vir de dentro para fora e tudo depende da nutrição e do equilíbrio bioquímico do organismo das pessoas”, afirma.

Atuando por tanto tempo ao lado de Cohn, Faissol construiu certo prestígio entre os professores norte-americanos. Tanto que, logo após a morte de seu primeiro grande mestre, o brasileiro já foi adotado como discípulo por outro expoente da Odontologia mundial: Peter K. Thomas. Reconhecido até hoje como uma das maiores autoridades no estudo da Reabilitação Oral e Gnatologia, Thomas convidou o mineiro para ajudá-lo em sua clínica, em Beverly Hills, e também para ajudá-lo na preparação de suas aulas. O que Faissol tinha a perder?

Com Peter Thomas em Beverly Hills

Muito mais do que apenas uma autoridade acadêmica no mundo odontológico, Thomas era também o cirurgião-dentista dos astros norte-americanos, envolvido sempre com gente famosa, como Howard Hughes, Marilyn Monroe, Elisabeth Taylor, Frank Sinatra, Marlon Brandon e muitos outros. Ao seu lado, Faissol pôde não só complementar sua formação profissional, como também desfrutar um pouco do vertiginoso estilo de vida do chefe bon vivant.

Trabalhando com a indústria cinematográfica, o brasileiro teve a oportunidade de aprimorar muito sua prática na estética odontológica. Nos anos 1960, os estúdios costumavam contratar os bons dentistas da região para modificar o formato dos dentes dos atores, ajudando-os na caracterização e expressão de seus personagens.

Apesar de viver muito bem no centro do mundo, Faissol sentia falta do Brasil e de sua família. Assim, em 1965, depois de uma temporada enriquecedora de sete anos vivendo nos EUA, ele retornou ao País.

Dr. Faissol

Olympio havia deixado o seu país como um talentoso garoto recém-formado e retornou como um homem, o Dr. Faissol, um profissional rodado, com experiência internacional e de considerável bagagem acadêmica.

Ao chegar no Rio de Janeiro, foi trabalhar com o pai, que naquela época já começava a pensar em aposentadoria. Bem instalado no bairro de Botafogo – onde permanece até hoje, herdou com facilidade os bons e influentes pacientes de seu pai. Naquele momento, ele começou a estabelecer sua própria reputação diante da elite carioca – estava começando a nascer o “dentista das celebridades”.

Nos anos seguintes, Faissol convidou muitos de seus colegas norte-americanos para ministrarem palestras para cirurgiões-dentistas brasileiros. Ele tinha um legítimo prazer em partilhar com os colegas tudo o que ele havia visto durante sua viagem.

Enquanto isso, em sua clínica, o mito das colunas sociais se intensificou a partir da amizade de Faissol com o jornalista e empresário Roberto Marinho, dono das Organizações Globo. Seguindo os passos do chefe, muitos diretores das empresas do grupo passaram a frequentar o consultório de Faissol. Depois, parte do elenco da emissora seguiu o mesmo caminho. “Um paciente indica o outro, sabe como é…”, resume.

Peter Thomas, que a essa altura já se tornara um grande amigo, veio diversas vezes ao Brasil a seu convite. Graças a essa iniciativa, o conceito de Reabilitação Oral foi introduzido com sucesso e consistência na Odontologia brasileira, assim como o aprofundamento nos estudos da Gnatologia. Por conta disso, ao lado de influentes cirurgiões-dentistas, como Renato de Andrade, de São Paulo, Walter Eddy Rohlfs e Hamilton Luiz da Costa Mourão, de Belo Horizonte, ajudou a fundar a Sociedade Brasileira de Reabilitação Oral (SBRO), com o intuito de promover a reciclagem e o intercâmbio entre profissionais dedicados à área.

Prestigiado, Faissol ganhou dinheiro e adotou um estilo de vida confortável. Seu retiro predileto, na ilha da Gipóia, em Angra dos Reis, foi batizado como Praia do Dentista. Tornou-se um entusiasta da maricultura, chegando a ter várias fazendas marinhas e ajudou a fundar o IEDBIG – Instituto de Eco Desenvolvimento da Baia da Ilha Grande, uma organização de proteção da região, hoje com mais de 20 anos de existência, produzindo juvenis de Cauquilles de Saint Jacques (Vieiras) e formando doutores em Biologia Marinha.

Da pesquisa à militância

A partir dos anos 1970, Faissol também deflagrou uma batalha contra a utilização da amálgama nas restaurações, por conta do risco de contaminação do paciente e do cirurgião-dentista por mercúrio. Depois de estudar assunto por mais de dez anos (desde que chegou à Universidade de Georgetown), ele passou a se posicionar publicamente e radicalmente pela proibição da amálgama nos tratamentos odontológicos. Em uma conferência no México, em 1973, ele se destacou ao debater o tema com outros especialistas da área diante da comunidade internacional. “Falei claramente que era ruim, envenena porque dura mais, é tóxico e, sobretudo, é acumulativo”. Desde então, Faissol foi muito combatido por suas posições, mas hoje a toxidade do material é reconhecida por órgãos importantes, como o Food and Drug Administration (FDA).

Outra bandeira de Faissol que lhe rendeu muitos ataques foi seu posicionamento contra a fluoretação do sistema público de fornecimento de água. O ponto alto dessa militância foi em 1992, quando levou o debate do tema aos principais jornais e emissoras brasileiras de TV, por ocasião do congresso Eco Odonto Rio 92. Seus opositores não lhe pouparam críticas.

Até hoje ele permanece fiel às suas bandeiras e fala com entusiasmo sobre o envenenamento por mercúrio e flúor. No entanto, não quer mais ficar na linha de frente dos debates. “Já nos anos 1920, meu pai era criticado por ter fama de curandeiro em sua cidade. Assim que cheguei ao Brasil, tal rejeição foi transferida para mim, quando comecei a falar sobre o mercúrio. Ninguém suporta passar tantos anos levando porrada”, brinca. Por sua contribuição, recebeu a condecoração “Humanitarian Award”, concedida pela Academia Internacional de Medicina Oral e Toxicologia (IAOMT).

Aos 81 anos, Olympio Faissol continua sendo um profissional conceituado e muito bem relacionado. Pai de nove filhos, ele trabalha em parceria com uma de suas filhas, Martha Faissol, liderando a equipe de profissionais que atende em sua clínica, em Botafogo.

Muito mais do que um mero “dentista de celebridades”, Faissol construiu uma trajetória impressionante na Odontologia, contribuindo pontualmente em diversos aspectos. Sua atitude pioneira também ajudou a abrir os olhos dos profissionais brasileiros para enxergar além das fronteiras do País.

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