Coisas que estou perdendo graças à meditação


19 de dezembro de 2013

Perguntaram ao Shakyamuni Buda:
– O que você ganhou com a meditação?

Eis que ele respondeu:
– Nada. Mas deixe-me dizer o que eu perdi: Raiva, Ansiedade, Depressão, Insegurança, Medo da Velhice e da Morte.

Eis que navegando pela internet esses dias, vi circulando por aí o texto acima. Achei muito verdadeiro, e, embora eu esteja muito longe de ser um Buda, resolvi me atrever a escrever um pouco sobre essas perdas que eu venho sofrendo graças à prática diária de meditação.

Importante notar que a maioria das práticas de meditação que eu conheço tem uma matriz devocional. Ou seja, não é algo que se faz visando outro objetivo senão a total entrega a uma consciência superior, aos antepassados, a Deus, ou ao que quer que você acredite. O que importa não é a quem você entrega, e sim o sentimento de entrega. Por isso, acho particularmente difícil falar em algo como “meditação funcional”, pois meditar é perder-se. Dificilmente alguém que busque meditar visando ganhar ou conquistar algo (inclusive as coisas citadas abaixo) vai conseguir alcançar seus objetivos, porque já está começando difícil… lembrando que isso não é nada mais do que a minha opinião, apenas, e pode ser que eu esteja muito errada!

Bom, se estamos claros, então vamos lá…
Graças à meditação, eu estou perdendo:

raiva
Porque sentimos raiva? Depende. Quando a raiva é momentânea, acontece porque alguém fez algo que nos desagradou de alguma forma. Quando é crônica, é porque insistimos em alimentar a lembrança da raiva que alguém ou algo nos fez ou faz sentir em alguns momentos. No primeiro caso, pode acontecer com qualquer um e é mais fácil de trabalhar. Já no segundo é mais complicado, porque envolve um rancor acumulado em direção a algo ou alguém.

E porque a meditação afugenta a raiva? Porque nos tornamos mais amorosos e compassivos. Isso nos dificulta direcionar raiva para outras pessoas, pois passamos a enxergar que apesar de sermos diferentes, somos em essência todos iguais. Entendemos que todos precisam melhorar em algum aspecto, e que, sobretudo, somos todos irmãos, parte da mesma consciência superior. Percebemos que alimentar sentimentos negativos sobre outras pessoas é o mesmo que beber veneno. Aprendemos a aceitar e agradecer tudo o que acontece conosco, pois tudo é fonte de aprendizado, principalmente as coisas ruins. Por isso é mais difícil sentir raiva de uma pessoa, e passa a ser mais fácil sentir gratidão pelo aprendizado.

ansiedade
O que é ansiedade senão o medo do futuro? O tão famoso “sofrer por antecipação”, sobretudo por algo que você nem sabe se realmente vai acontecer… Ansiedade é estar em um lugar que não existe, preso às mil e uma possibilidades da imaginação. Quem nunca?

Mas a prática de meditação faz você entrar em contato com o presente da forma mais nua e crua possível. Esse é um dos maiores presentes da prática: a oportunidade de perceber a paz arrebatadora que reside no aqui-agora. É uma experiência que, a princípio, apenas o silêncio profundo consegue proporcionar. Com o tempo, você consegue apreciar esse fenômeno mesmo nas atividades diárias.

A ansiedade vai aos poucos parando de fazer sentido, pois você aprende a estar verdadeiramente presente. Entende que passado e futuro são apenas produtos da lembrança e imaginação, por isso não há nada a temer, apenas fazer o melhor possível hoje, aqui, agora.

depressão
Tristeza, pessimismo, desânimo, baixa autoestima… Qual é o sentido de tudo isso? Nos sentimos assim quando nos comparamos com os outros, quando não nos sentimos capazes, quando pensamos que não somos bons o suficiente. Quanto mais olhamos pra o silêncio, entretanto, mais vemos o quanto esses pensamentos nos impedem de ver a realidade claramente, pois estamos olhando apenas para o pequeno eu, com “e” minúsculo, o eu do mundo.

A meditação nos faz entrar em contato com a nossa verdadeira essência, que é o silêncio. O silêncio é simples, e é ao mesmo tempo a semente de mil possibilidades. É o Eu, com “e” maiúsculo. Com a meditação, percebemos que somos o todo e ao mesmo tempo uma expressão única dentro desse universo de possibilidades. Graças a isso, paramos de nos comparar com os outros e passamos a nos concentrar em nos expressar da forma mais autêntica possível. E isso espanta de vez a tristeza e o desânimo, dando lugar a uma alegria inimaginável. Não uma alegria eufórica, mas uma alegria serena e tranquila, feliz por estar finalmente se expressando…

Nos sentimos deprimidos quando nos vemos exaustos, incapazes de expressar nossas potencialidades, ou pelo menos de reconhecer o valor delas. Mas assim que conseguimos perceber a nossa verdadeira essência, eliminamos também o próximo ponto.

insegurança
Diante do vislumbre do Eu, automaticamente nos tornamos mais seguros, pois sentimos que conquistamos para sempre um terreno seguro por onde andar. Não importa o que você faça na vida, nem quais são os papéis que você representa: no momento em que você entra em contato com o silêncio, com o verdadeiro Eu, tudo desaparece, e só resta a fonte primordial, que a tudo dá origem.

No momento do silêncio e da concentração profunda, nada mais existe, nada mais importa. Lembrar-se disso constantemente traz uma paz muito profunda. O acesso constante a essa fonte orienta o nosso pequeno eu com os valores da verdade, da humildade e da integridade, de modo que possamos viver no mundo da melhor forma possível. É isso o que nos faz verdadeiramente seguros e felizes.

medo da velhice
Porque a ideia de perder a juventude corporal causa mal estar entre tantas pessoas? Porque têm medo do que os outros vão pensar da sua aparência? Por causa do medo das doenças? Porque temem não serem mais respeitadas?

A meditação manda embora o medo da velhice graças a uma simples constatação: em essência, nós não temos idade. O envelhecimento do corpo é como uma roupa, que de tanto ser usada vai ficando velha e gasta… mas é só isso. Perdemos o medo da velhice porque em um dado momento a consciência não mais se identifica com o corpo que carregamos. Afinal, a vida é um continuo presente. Ou não é?

medo da morte
Basicamente as pessoas têm medo da morte por dois motivos: a dor que imaginam que vão sentir e o medo de perder a consciência, de deixar de existir. Resumindo: ansiedade. Se perdemos a ansiedade, perdemos o medo da morte. O segundo motivo é mais complexo, entretanto, pois depende muito de crença pessoal. Mas pense comigo: se você acredita que a consciência sobrevive à morte, não há o que temer, pois você sabe que não perderá a consciência. Se você não acredita nisso, também não há que temer, pois uma vez que não terá mais consciência, não poderá sentir falta dela… certo? Quando você dorme, você se preocupa com a sua existência? Não, pois está inconsciente. Ninguém consegue definir exatamente aquele momento exato em que se cai no sono.

Ah, tem também um terceiro motivo: a inevitável saudade que imaginamos que sentiremos das pessoas que amamos… bem, isso é algo que você tem que se trabalhar hoje. Como eu disse antes, a meditação nos faz aprender a estar plenamente presentes. Com isso, os momentos com as pessoas queridas vão se tornando cada vez mais completos e suficientes. E, por mais que queiramos estar com aquelas pessoas mais vezes, sabemos que mesmo que elas estejam longe, elas realmente nunca nos deixam (e nós nunca as deixamos).

Bem, espero que, lendo isso, outras pessoas também se sintam inspiradas a experimentar essas grandes perdas. Lembrando sempre que esses não são os objetivos da meditação, mas sim algumas consequências inevitáveis da sua prática constante e ininterrupta. Não busquem a meditação por causa de objetivos mundanos, busquem somente a entrega, e vocês verão o mundo inteiro se abrir diante de vocês.

Desejo a todos ótimas perdas.

Namastê 😉

CRÉDITOS DA IMAGEM: http://meditationaustralia.org.au/

29 anos, soteropolitana, praticante e instrutora de yoga, estudante de vedanta, formada em design gráfico, criadora, autora e ilustradora do respire e seus yoginhos. Acredita que ser feliz é coisa simples e que yoga é para todos.
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