DOUTRINA DA IMPESSOALIDADE OU NÃO-EU: ANATTA


Buda

O Budismo é uma filosofia de cunho essencialmente psicológico que leva o indivíduo ao autoconhecimento e à Correta Compreensão, mas para este propósito são necessários os conhecimentos básicos fundamentais que estão em nós mesmos. Assim a ignorância, o desejo, o apego, o conceito do “eu” e do “meu”, as três características da existência e tudo o mais, São fenômenos que estão em nós; inútil é procurar algo fora de nós. A compreensão nos dará, aos poucos, o autoconhecimento e a conseqüente gradativa libertação. A vida baseia-se fundamentalmente na idéia de “roeu”, que é o apego, e de “eu”, que e a existência. Para o Buda e outros Iluminados continua a haver a existência de um fluxo até a morte física1, mas não há mais a existência de um eu psicológico. Assim, o Buda vivia, porém neste sentido não existia, porque vivia livre da existência de um “eu”, o vir-a-ser tinha cessado. A compreensão de como surge o conceito do “eu” e do “meu” é importante para que se possa entender todo o drama da nossa mente, com o objetivo de sobrepujar ou passar para além do sofrimento. Uma criança, ao nascer, é como uma tábua rasa, não tem qualquer idéia de “eu”, nem de “meu”, naturalmente traz uma carga cármica de vidas anteriores, produto das ações rneritórias e demeritórias. Então, a criança vê a mãe a seu lado, limpando-a, alimentando-a, cuidando-a e embalando-a. A criança ainda muito tenra, muito antes de ter qualquer pensamento por palavras – pois a atividade verbal da mente só surge depois que aprendemos a falar, e o pensamento da criança. é muito primitivo ainda, é por imagens – vê a mãe que lhe dá todo o carinho, cuidando-a da melhor maneira possível. Então, Pela estrutura do pensamento, na mente surge imediatamente a idéia de “meu”, ou “minha”, no caso da mãe. A criança, embora sem pensamento, compreende que “ela é minha”, porque toda vez que chora, está com fome, ou suja, a mãe logo vem; então, surge na mente da criança, em primeiro lugar, essa idéia de propriedade, de “meu”, “ela é minha”, e esse “meu” aponta para um “eu”; começa assim a consciência indicativa de um “eu” e de um “meu”. Antes de a criança saber pronunciar a palavra “eu”, pensar em “eu” e “meu” em relação à mãe já aponta para um “eu”; desde que ela é “minha’, tem que haver um dono e esse dono sou “eu”. Depois vê o pai, que a carrega e brinca com ela, e na estrutura de seu pensamento surge: “ele é meu”, e este “meu” aponta para um “eu”. Desde que o pai é meu, eu sou o dono, deste modo o “eu” começa a se formar. Depois vê as mãos, quer mexer com elas para um lado e para outro, elas lhe obedecem quando tem uma determinada intenção. Descobrindo isto pensa, mesmo antes das palavras: “Estas mãos são minhas”, e isto aponta para “eu”, pois desde que estas mãos são minhas, tem que haver um dono e “eu sou o dono”. Depois, ela possui vários brinquedos e os considera a todos como “meu”, esse “meu” aponta para um “eu” que vai, cada vez mais, se reforçando. Depois, acaba por descobrir todo o corpo e conclui: “Ah, este corpo é meu” e o “eu” vai-se tornando cada vez mais forte, acaba tornando o lugar do corpo. Prosseguindo, considera todas as coisas em volta sempre como sendo “meu”, “meu” e “meu”. Mesmo que não pense, a criança é condicionada a pensar. Recebendo um nome, logo se identifica com ele, então, o condicionamento do “eu” fica gradativamente mais forte; nessa 114 altura dos acontecimentos, quando começa a falar, o “eu” e conseqüentemente o “meu” já estão enraizados. Assim, esse “eu” é sempre formado, condicionado; não é um “eu” permanente que saltou de uma existência passada para esta existência. Tudo o que se chama “eu” é condicionamento desta própria existência. o que veio de outras existências é resultado do carma, das ações rneritórias e demeritórias. Carma e renascimento formam o princípio fundamental da doutrina budista. Essa crença prevaleceu na Índia antes do advento de Gautama Buda, mas foi ele quem a explicou e formulou na plenitude como a concebemos hoje. Também encontrarmos no Budismo um certo numero de conceitos e termos pertencentes ao Hinduísmo, tais como Nirvana, dharma, samsara, Maya, etc., que foram interpretados com mais clareza e precisão pelo Mestre. A doutrina budista do renascimento deve ser diferenciada da teoria da reencarnação e da transmigração da alma dos outros sistemas filosóficos, porque o Budismo nega a existência de uma alma permanente em transmigração, como sendo criada por um Criador, ou emanada de um Paramatma (causa primeira). O Budismo resume o ser vivente em mente e matéria, isto é, nome e forma, num estado de fluxo constante. o processo total desse fenômeno físico e mental, que está constantemente em transformação, e, as vezes, em termos convencionais, chamado simbolicamente Ego, ou Atta, por Gautama Buda, mas somente no sentido de um processo no tempo, e não como uma entidade permanente. No Dhammapada, vers. 160 encontra-se: O Ego é o senhor (mestre) do eu, – Atta hi attano natho… Cada um é seu próprio refúgio. Quem outro poderia ser? O completo controle de si mesmo É único refúgio difícil de lograr O termo Atta, em páli, ou Atman, em sânscrito, é geralmente empregado como sinônimo do Eu Superior, alma ou espírito. Assim, esse verso do Dhammapada significa “CADA UM É SEU PRÓPRIO REFÚGIO OU CADA UM E SEU PRÓPRIO MESTRE E APOIO”. Vê-se, assim, a ênfase com que Buda realçava a responsabilidade individual, colocando o indivíduo como responsável por suas ações. A teoria da salvação budista difere da salvação de outras crenças; Gautama Buda nunca invocou um salvador. Para ele, o salvador e o que se salva se identificam, cada um é, ao mesmo tempo, o que salva e o que se salva. “Quando o homem age mal, é por si mesmo que é impuro; quando o homem age bem, também é por si mesmo que é puro. o estado de pureza ou impureza é criado pelo próprio homem, nada podendo ser feito para que um indivíduo purifique um outro. (Dhammapada XII, 165.) A filosofia budista não nega a existência de um ser, ou de um indivíduo que é denominado de Santati, isto é, um fluxo ininterrupto ou fenômeno de continuidade mental e física condicionado pelo carma. Como disse o Buda: “O mundo é um fluxo contínuo e impermanente; uma coisa desaparece, condicionando o aparecimento da seguinte em uma 115 série de causas e efeitos.” Não há substância invariável; não há nada por trás da corrente que possa ser considerado um Ser permanente, uma individualidade; nada que possa ser realmente chamado “eu”. Porém, quando os Cinco Agregados, que são interdependentes, trabalham associados psicofísicamente, formamos a idéia de um “eu”. É uma noção falsa, uma formação mental; é uma ilusão. Esta continuidade do processo não tem qualquer origem no passado sem princípio, nem fim, na sua continuação no futuro, a não ser através da Nobre Senda Óctupla isenta de conceitos; é o substituto budista para um espírito permanente, ego, Atman ou alma eterna, interpretado como um último ser, idêntico a uma entidade permanente, por alguns sistemas filosóficos e religiosos. Essa é uma das principais diferenças entre o Hinduísmo e o Budismo. O princípio básico do Budismo é que o objetivo de pensar sobre o mundo é escapar dele, e não explicarlhe a origem. Conseqüentemente, o conceito de um Deus foi substituído Pela Lei do Carma; o conceito de Eu Superior, Ego ou Atman, pelo Dhamma (Doutrina, Caminho ). Assim, Podemos observar que o ponto de vista que interpreta o Budismo como doutrina de filosofia e pensamento ateus, só porque Gautama Buda não usava o termo “Deus”, não deve ser aceita. Pode-se, contudo, argumentar: “Concordamos com que a alma não seja para ser encontrada em nenhuma parte do nosso corpo e mente, mas Podemos dizer que a totalidade de nosso ser é a “alma” (cinco agregados), e ainda pode-se acrescentar que, se a aparência de um todo é meramente uma ilusão, que ‘todo’ poderá haver em algo, em que cada partícula está constantemente e continuamente mudando?” Há duas idéias psicologicamente enraizadas no indivíduo: a autoproteção e a autopreservação. Como autoproteção, o homem criou a imagem de um Deus pessoal do qual ele depende como uma criança de seus pais, para sua própria proteção, salvaguarda e segurança. Quanto à autopreservação, o homem concebeu a idéia de uma alma imortal, permanente, que viverá eternamente. Perdido entre o temor e o desejo, o homem necessita dessas duas coisas para se assegurar e confortar. Por isso ele Se apega a ambas, como uma criança que deseja agarrar um arco-íris simbolizando a ilusão. Como o arco-íris são todas as coisas: há um processo, um condicionamento, mas em nenhuma hipótese há o mínimo traço de algo permanente. A vida é um momento entre o passado e o futuro; é apenas um fenômeno, ou melhor, uma sucessão de fenômenos produzidos pela Lei de Causa e Efeito, ou Carma. Cada um de nós é meramente uma combinação de características materiais e mentais; todo ser, ou coisa, é um “aglomerado”, um composto, em suma, um ajuntamento de coisas que permanecem separadas enquanto persiste no samsara ou Roda da existência continuada, causada pelos desejos insaciáveis do homem, na sua sede de satisfação egoísta. Os ensinamentos de Gautama Buda não apóiam este temor e este desejo de autoproteção e autopreservação, mas procuram esclarecer o homem sobre estes conceitos enraizados profundamente. Sabia disto tão bem que, textualmente, disse que seu ensino ia “contra a corrente”, isto é, contra os desejos egoístas dos homens. O desejo de uma existência separada ou egocêntrica (descrito na Segunda Nobre Verdade) é um dos mais fortes, porque todos nós temos um desejo de continuidade, um desejo de vir-aser, um desejo de existência, de um ego, de que este suposto eu viva eternamente. Baseada 116 neste desejo ergue-se toda estrutura religiosa, porque existe a ilusão de algo permanente, de um eu permanente, existe a idéia de continuidade Pelos ensinamentos do Buda, de acordo com a Realidade (Verdade absoluta), este Eu permanente é uma ilusão. O supremo objetivo do Budismo está no oposto desta vida egocêntrica, está na vida Una com o Todo. Em muitas escolas de filosofia, no Hinduísmo, na Teosofia, no Ioga, todos falam na vida una, na união. Assim, na Vedanta e no Ioga falam que a criatura vai Se unir ao Criador, o Eu vai se unir a Brahma a “gota d’água vai voltar ao oceano…” O Budismo, porém, diz: desde que o Absoluto é Uno, não pode haver um segundo para se unir a ele. O Budismo esclarece que, na Iluminação, nada une a criatura ao Criador; a Iluminação surge quando, pela suprema Sabedoria, a idéia de um ego, essa ilusão de um eu, cai completamente por terra. O indivíduo vê a Realidade e então, nesse momento, o Absoluto, o Eterno, a Iluminação, o nome que se queira dar não importa, vem à existência neste indivíduo. As outras escolas de filosofia na Índia tinham sempre a idéia de buscar uma união com Brahma, com o Absoluto, mas nunca conseguiram o objetivo supremo, porque sempre pensavam em termos de “Eu me vou unir ao Absoluto”. Gautama Buda penetrou esta Realidade interna e percebeu que não havia clareza na idéia de querer unir um eu, quando não há nada para unir. Diversas filosofias pregam esta união, mas também pregam o aniquilamento do eu ou da personalidade, isto é, separam o ego e o “eu”. O ego seria o inferior, o corpo, a mente pensante, a sensação etc., e o Eu seria o superior (o Espirito). Porém o Buda percebeu que tudo o que é conceituado como “eu inferior” ou “eu superior” é mente, e que o eu superior é uma extensão do eu inferior, e, portanto, criação mental do próprio indivíduo. Alguns têm a ilusão de que a vida, a existência, cessa com a morte e dizem: “Ah, o descanso para mim vai ser só na sepultura!” Nos que se expressam dessa maneira, neles, já existe um desejo de aniquilamento, pois este descanso não existe, é uma ilusão. o aniquilamento sempre implica a existência de um ego, de um eu ilusório. O desejo de aniquilamento apenas confirma a existência do ego, pois é baseado na ilusão da existência de um “eu” e “meu”, ou pessoa que será aniquilada após a morte. Este desejo jamais leva à cessação da existência, pois para se conseguir isto deve-se seguir um treino especial, isto é, trilhar a Nobre Senda Óctupla. No Budismo, não há aniquilamento nem eternalismo; segundo o Buda, um processo continua, não há um eu permanente que salta de uma existência para outra. Quando se joga uma pedra na superfície da água, várias ondas se propagam. Tem-se a ilusão de que é a mesma marca d’água que vai, porém, na realidade, cada onda é uma diferente marca d’água. O choque da pedra produz uma energia e essa energia na água se propaga em diversas ondas cada vez maiores, mas nada vai de uma marca d’água para outra, apenas as moléculas vibram e essa energia se propaga. Desta maneira, cada onda seria uma existência separada, mas na realidade é uma energia que se propagou. Essa energia é produto do carma (ações meritórias e demeritórias); desta maneira, a vida continua como as ondas. Os Cinco Agregados da existência como objetos de apego é o que o Buda chama “pessoa”, ou “ser”, a saber, o corpo, as sensações, as percepções, as formações mentais e a consciência. Portanto nos ensina que somos compostos de Cinco grupos ou Agregados, sempre como objetos de apego, isto é, tomados como “eu” e “meu”. Neste sentido, a personalidade é 117 analisada e dissecada em suas partes constituintes, como já foi visto na Primeira Nobre Verdade. Todo tipo de apego deriva da ilusão fundamental de um ego, de um eu permanente, eterno. Não podemos modificar o corpo, nem nossas sensações ao nosso bel-prazer; tudo ocorre de uma maneira impessoal. A velhice vem, a doença vem, a morte vem, tudo de uma maneira incontrolável. Penetrando esta realidade interna, aos poucos, compreendemos que todos os fenômenos psicofísicos são impermanentes, insatisfatórios e impessoais, isto é, não me pertencem, não são o meu ego, eu não sou o proprietário ou dono. Portanto, este subjetivismo, esta idéia de “eu” e “meu” é uma decepção, uma ilusão, uma impossibilidade sempre levando a desapontamento e sofrimento. Mas, de acordo com a Realidade e a verdadeira Sabedoria, nós não somos donos deste corpo, nem das nossas sensações, nem das nossas percepções, nem das nossas formações mentais, e nem da nossa consciência. Se fossemos donos, não deixaríamos o nosso corpo adoecer, envelhecer nem morrer; só teríamos sensações e pensamentos agradáveis. Se não somos nem donos dos nossos Agregados, como seríamos donos de outras coisas? Tudo isto constitui um fluxo que surge e passa. A fortaleza do apego esta neste subjetivismo que dá origem a todos os apegos e isto nos leva a compreender o drama do Sofrimento. Assim, os ensinamentos do Buda tem o objetivo de explicar o que é o Sofrimento, para podermos passar para alem dele. A concepção budista que nega a ilusão de um eu ou ego, uma alma eterna, é conhecida como doutrina da Impessoalidade ou Não-Eu: Anatta. O Budismo afirma que a crença em uma alma permanente é o mais perigoso e pernicioso de todos os conceitos, a mais enganadora das ilusões, e a “raiz de todo o sofrimento”. A crença num eu separado cria o egoísmo e o personalismo, que produzem idéias falsas e imaginárias, origem do perigoso conceito antropomórfico de um Ser Supremo, ou Deus pessoal, que só trouxe orgulho, ódio, desejos egoístas, separatividade, perseguições, mergulhando os seres na eterna Roda da existência, o eterno vir-a-ser, ou morrer e renascer continuadamente – samsara. A doutrina da Impessoalidade – Anatta – Buda a concebeu através da análise profunda da relatividade de tudo o que nossa mente pode conceber. Por esta razão, o Budismo é também denominado filosofia do Conhecimento Analítico – Vibhajjavada. Há três versos extremamente importantes no Dhammapada, cap. XX, 277-279, essenciais no ensinamento do Mestre, que afirmam a doutrina da Impessoalidade e não-substancialidade de todas as coisas: 1. 2 3. Todas as coisas condicionadas são impermanentes. – Sabbe SAMKHARA anicca. Todas as coisas condicionadas são insatisfatórias. – Sabbe SAMKHARA dukkha. Todos os Dhamma, estados condicionados e não-condicionados, não têm eu ou substância própria (todas as coisas sem exceção). – Sabbe Dhamma anatta. Analisando Os dois primeiros versos, pode-se dizer que o termo samkhara representa os Cinco Agregados, todos condicionados, interdependentes, tanto físicos como mentais. É 118 evidente que Os Cinco Agregados da existência ou toda entidade, como pessoa, alma ou eu, é Anatta, não tem eu, nem substância própria (é vazia). No que concerne ao terceiro verso, o termo dhamma tem um sentido muito mais amplo que samkhara: não só compreende as coisas ou estados condicionados, como também os nãocondicionados, o Absoluto ou o Nirvana, que também é Anatta pois está totalmente ausente e vazio da auto-ilusão e do egocentrismo que estão enraizados na Ignorância. o Nirvana, ou Absoluto, está totalmente livre de qualquer “eu”, seja individual ou universal; este último nada mais é que uma extensão do anterior. Quatro semanas após sua Iluminação, Gautama Buda refletiu: “Alcancei esta Verdade, que é profunda, difícil de captar, difícil de compreender…, só compreensível para os esclarecidos… Os homens envolvidos pelas paixões e rodeados de escuridão (ignorância) não podem ver esta Verdade sublime, que vai contra a corrente.” Com estes pensamentos, o Buda hesitou, perguntando a si mesmo se não seria um ato vão tentar explicar ao mundo iludido a Verdade que ele acabara de alcançar. Comparou o mundo a um pequeno lago com lótus: alguns lótus permanecem submersos, outros alcançam o nível da água, e outros crescem acima do nível e a água não os toca. Deste modo, no mundo, há homens de diferentes níveis de desenvolvimento; só poucos compreenderão a Verdade. Entretanto, resolveu ensiná-la e prosseguiu durante 45 anos mostrando sua grande compaixão, pregando e difundindo seus ensinamentos à Humanidade sofredora até a sua morte – Parinirvana. Gautama Buda era um instrutor prático e objetivo, de grande compaixão e sabedoria; não respondia as perguntas para mostrar seu saber e profunda inteligência, mas, sim, para ajudar aqueles que o procuravam. Somente usava a Palavra, e a Palavra era seu único meio de persuasão. Falava às pessoas tendo sempre em mente o grau de desenvolvimento, as tendências, o modo de pensar, o caráter e a capacidade de compreensão de cada um. Assim, tratava as perguntas de quatro maneiras diferentes: algumas devem ser respondidas diretamente, outras devem ser respondidas pela análise, outras devem ainda ser respondidas mediante outras perguntas, como no caso de Malunkya-putra*1, e, finalmente, há perguntas que não devem ser respondidas, e como veremos adiante no caso de Vacchagota, o errante. Certa vez, um bhikkhu formulou a seguinte pergunta ao Buda: “Existe o caso de alguém se atormentar por não encontrar em si mesmo algo permanente? – Sim, bhikkhu, o caso existe, porque as idéias de “não serei mais” ou “não terei mais” São atemorizantes para um homem comum, não-esclarecido.” (MajjhimaNikaya, I.) Resposta ao Brâmane Kutadanta *2 Kutadanta: – Se não existe a alma, como pode existir imortalidade? Se a atividade da alma cessa, nossos pensamentos também cessarão. O Buda respondeu: Nossa faculdade de pensar desaparece, porém nossos pensamentos continuam existindo. Cessa o raciocínio, porém continua o pensamento. É como se durante a noite alguém tivesse necessidade de escrever uma carta. Acende a luz, escreve a carta e, uma vez escrita, apaga a luz. Embora esteja a luz apagada, a carta continua escrita. 119 De modo análogo, o raciocínio cessa, mas o conhecimento persiste. A atividade mental cessa, porém a experiência, o conhecimento e o fruto de nossas ações não são perdidos, continuam… … Faze com que tua mente repouse na Verdade, difunde a Verdade e põe a Verdade em tua alma. E, na verdade, viverás eternamente! O “eu” é a morte; a Verdade é a vida. O apego ao “eu”, ou personalidade, é morte continua ao passo que quem vive e se move na Verdade, alcança o Nirvana, o Eterno. O Conselho ao Kaccana – Há uma dualidade, ó Kaccana; este mundo tem o costume de se apegar ao “existe” e ao “não-existe”. Mas, ó Kaccana, para aquele que percebe em verdade e com sabedoria como as coisas se produzem neste mundo, não há “não-existe” neste mundo. Para aquele, ó Kaccana, que percebe em verdade e com sabedaria, como as coisas perecem neste mundo, não há “existe” neste mundo. A dor só se produz lá onde qualquer coisa se produz; a dor desaparece lá onde qualquer coisa desaparece. “Tudo existe” é um dos extremos, ó Kaccana. “Nada existe” é o outro extremo. O Perfeito, ó Kaccana, Se mantém afastado desses dois extremos. (Samyutta Nikaya.) O Silêncio de Buda Muito se escreveu, discutiu e se especulou a respeito do silêncio de Gautama Buda e sobre o que sabia e não nos disse. Certa vez, um asceta errante chamado Vacchagota perguntou ao Sublime: – Ó Venerável Gautama, o Eu – Atman existe? – o Sublime permaneceu silencioso. – Como então, ó Venerável Gautama, o eu não existe? – E de novo o Sublime guarda silêncio. Vacchagota não obtendo resposta, levantou-se e partiu. Logo após a partida de Vacchagotta, Ananda, que assistia ao colóquio, perguntou ao Buda por que não havia respondido às perguntas formuladas por Vacchagotta. O Mestre, então, lhe explicou o motivo: – Ananda, quando Vacchagotta, o errante, me perguntou: “Venerável Gautama, o eu existe?” Se eu tivesse respondido: “o eu existe”, isso significaria aderir aos reclusos e brâmanes que sustentam a doutrina eternalista, ou da imperecibilidade. Ananda, e quando Vacchagotta me perguntou: “Então, o eu não existe?” Se eu tivesse respondido: “o eu não existe”, isso teria significado aderir aos reclusos e brâmanes que sustentaria a doutrina niilista, ou do aniquilamento. Por outro lado, Ananda, quando Vacchagotta perguntou: “o eu existe?”, se eu tivesse respondido: “O eu existe”, então, Ananda, estaria isso de acordo com meus ensinamentos, que todos Dhamma não tem o eu? – Certamente, não, Senhor! 120 – E ainda, Ananda, quando Vacchagotta me perguntou: “Venerável Gautama, o eu não existe”, se eu tivesse respondido: “o eu não existe”, então, Ananda, seria para Vacchagotta uma confusão maior ainda, para ele que já é confuso, porque certamente teria pensado: “Anteriormente, eu tinha um eu, mas agora não existe mais.” (Samyutta Nikaya, IV.) *3 Assim ficou esclarecida a razão de o Mestre permanecer em silêncio em certas ocasiões. Segundo os ensinamentos de Gautama Buda, é um erro sustentar tanto a idéia “não tenho um eu”, que é a doutrina niilista, como sustentar a idéia, “tenho um eu”, doutrina eternalista, porque ambas são laços que nos prendem à falsa idéia de “eu sou”. Com respeito à doutrina do Anatta, o correto é não sustentar opiniões e pontos de vista, mas tratar de ver as coisas tais como elas são, de um modo objetivo, sem projeções mentais. é preciso compreender que o que se chama “eu” ou “ser e apenas uma combinação de agregados físicos e mentais que atuam conjuntamente e interdependentemente, num fluxo de mudanças contínuas dentro da lei da causa e efeito; que nada é permanente, eterno ou imutável na totalidade da existência universal. A doutrina do Anatta não deve ser considerada como negativa ou niilista, do mesmo modo que o Nirvana, ou o Absoluto, é a Verdade e a Realidade; e a Realidade não pode ser negativa. O negativo é a falsa crença de um eu substancial, de uma personalidade ou individualidade; a doutrina do Anatta dissipa a neblina das falsas crenças e convida a ver a Realidade, que é a Sabedoria. A filosofia budista não critica nenhuma forma de religião, acentua apenas que o homem é um ser responsável, que ele realmente faz as suas próprias condições e se outorga as suas próprias recompensas e castigos, como uma conseqüências natural de seus atos. A ilusão do eu é a fonte de todo mal e de toda dor. Não há mal algum que não provenha do eu, não ha dor alguma que não seja filha do eu. A consciência do eu cega os olhos da mente e oculta a verdade. É a origem do erro, a fonte da ilusão e o gérmen do mal. Não há injustiça que não seja produto da afirmação do eu; é o princípio de todo ódio, da iniqüidade, da calúnia, da impudícia, da indecência, do roubo, da opressão e da efusão de sangue. O eu é Mara, o tentador, o malfeitor, o criador do mal.*4 O eu ou ego engendra o egoísmo, o que se percebe pela própria etimologia da palavra. A Verdade não se liga a nenhum eu, é universal e conduz à equanimidade. O dissipar da ilusão do eu, é o Despertar completo – a permanente Vigilância – Plena Atenção ou Observação Pura, em função da qual há autoconhecimento e dissolução do determinismo cármico; é o fim dos renascimentos. 121 1. Corpo físico: obra do carma passado. Um Buda, não alimentando subconsciente, não cria mais carma; Assim, o carma passado se extingue com a morte do corpo. *1 Cula-Malunkya sutta, cap. 1, “Budismo como Ciência, Moral e Filosofia”, p. 15. *2 Resumo da tradução de Yogi Kharishnanda, o Evangelho do Buda. Obra citada. *3 Walpola Rahula, L’Enseignement du Bouddha, na tradução da Páli Text Society. Obra citada. *4 F. Carus, o Evangelho de Buda.

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