UM NOVO TEMPO APESAR DOS PERIGOS


 

Ao longo dos séculos, o desenvolvimento das várias formas de produção de conhecimento fez da Ciência uma máquina de produção de verdades, onde a razão humana se auto-elege porta-voz do conhecimento, responsável por decifrar os mistérios da Natureza. O império da razão – racionalismo – se exerce a partir do momento em que o homem pensa, fala e comunica sobre aquilo que ele vê e analisa. Sua relação com o mundo não é mais a da crença ou representação, mas a de um movimento que, ao longo da história, fez estabelecer da Academia o principal acesso à verdade das coisas.

Para Márcio Tavares do Amaral, a Ciência Ocidental é uma aposta humana na possibilidade de conhecer a Natureza e comunicar resultados de sua investigação, no sentido de poder estabelecer relações com o meio a partir dessa compreensão. Justificativa de origem filosófica para essa forma de produzir conhecimento, que se evidencia no mundo das idéias de Platão, ou na essência aristotélica.

No cerne desta visão se ergue uma ponte onde ciência e comunicação se apresentam interrelacionadas, pois parte-se do princípio que se comunica aquilo que se conhece. Numa evidente contraposição aos sofistas, que propunham uma visão de mundo onde “nada pode ser conhecido; se pudesse, não poderia ser comunicado; se pudesse, não poderia ser compreendido”.

O componente mecanicista que marca esta visão teve tão forte influência de dois pensadores modernos, que esses passaram também a ser adjetivos que o caracterizam. O paradigma cartesiano-newtoniano (referência à René Descartes e Isaac Newton) é criticado por pensar uma concepção de Universo como máquina, com relações de causa e efeito que podem ser descritas objetivamente, tornando distintos, portanto, o objeto do sujeito que a revela; e a Natureza – cujas leis são decifradas pelos homens com o objetivo de dominá-la, da Cultura – que faz com que o conhecimento seja produzido e repassado através de gerações.

A fragmentação era a premissa presente na base do pensamento cartesiano, que acreditava ser a análise capaz de mostrar o verdadeiro caminho pelo qual uma coisa foi metodicamente inventada. Mediante o processo lógico de decomposição do objeto em seus componentes básicos, o filósofo René Descartes inaugura um modo de pensar que vê o corpo humano como um conjunto de órgãos, funcionando de modo complementar, mas ignora o ser que o carrega. Deriva também desta concepção a divisão do processo comunicacional nos conhecidamente imutáveis emissor, mensagem e receptor, entre outras possíveis enunciações.

Descartes consolida o processo de dissociação do homem em relação à natureza, iniciado pelos clássicos gregos. Traduz em objeto o mundo que lhe é exterior, onde, para ele, até mesmo Deus veio a se tornar objeto de estudo passível de ser comprovado cientificamente. Pretendeu converter em clareza pura racional todos os eventos do Universo regido, a partir dessa visão, por leis matematicamente perfeitas.

Por sua vez, o filósofo empirista Francis Bacon contribui com a justificativa dessa metodologia. Acreditava ele que, através dos fatos concretos de experiências, era possível se chegar às leis e causas da Natureza. Via no conhecimento científico a suprema finalidade de servir ao homem e propiciar-lhe poder sobre a natureza, estabelecendo assim o imperium hominis. É fácil perceber como as conexões produzidas a partir dessa concepção, entre saber e poder – poder e dominação, tornam-se necessidade para o fortalecimento de instituições no sentido de se perpetuarem no poder. Até hoje elas se imbricam e perpassam a vida de todos nós, gerando níveis de dependência em todos os matizes.

Todas as justificativas desse paradigma ocidental, apresentadas por Roberto Crema no seu livro Introdução à visão holística, não se bastam por si, se não contam com atos historicamente significativos para garantir a manutenção e a expansão dos impérios já consolidados institucionalmente no continente europeu.

Diante da necessidade de descobrir uma nova rota para a Índia, portugueses e espanhóis desenvolvem a navegação. Encontram o Novo Mundo no meio do caminho e com ele a possibilidade de abrir novos mercados, além de terras férteis e ricas, pessoas para trabalhar como escravos ou ainda, mão-de-obra barata consumidora da produção obtida. A ciência ocidental surge para reforçar o poder dos Impérios. Com isso, outras formas de conhecimento são sufocadas por uma articulação do sistema científico à organização mercantil, apoiados por outra força fundamental no processo de colonização, cuja legitimidade não se baseia na prova, mas na crença – a Igreja Católica.

Também visando, a sua maneira, expandir terreno junto a seus fiéis seguidores, a Igreja Católica se imbui de um tom missionário, articulando-se com o poder dominante. Dentro do esforço conjunto de colonização e aculturação dos nativos selvagens, utilizou os mesmos métodos da ciência recém-constituída, que, a partir daí, passa a se expandir: estabelecer uma visão de mundo como verdadeira e conquistar hegemonia em relação a outras visões, universalizando não só o poder, como também o alcance de teorias e dogmas.

Pode-se dizer que essa estrutura modelar de compreensão da realidadeé hegemonicamente dominante, pois diz respeito diretamente ao controle dos espaços de poder como manifestação de autoridade e estabelecimento de uma determinada visão de mundo onde, segundo Ubiratan d’Ámbrósio, Ciência, Religião e Política não podem ser vistas dissociadamente, pois servem à construção de um mesmo projeto que se convencionou chamar Modernidade.

Diante dessa interação tão ampla, complexa e bem articulada, o Iluminismo representa não a origem, mas a revitalização desses princípios. Quando falamos hoje em Modernidade e os impactos do projeto moderno, não podemos nos restringir aos ideais do Iluminismo, que nomeou a razão como luz do conhecimento humano. Esse é somente a continuidade de um pensamento que, como já vimos, se inaugurou em Platão e Aristóteles, onde o homem não coabitava o mundo das idéias, mas sim caminhava – em vão – ao seu encontro.

O Iluminismo surge assim para distinguir-se daquilo que não acompanhava o ritmo do tempo, mas também de uma determinada relação das pessoas com o mundo e a constatação da necessidade de exercer poder através de instituições que atuam na vida econômica, política, cultural, social e pessoal. Segundo Wilson Gomes, no Iluminismo “natureza, sociedade e cultura estão inseridos dentro de um curso histórico cujas leis são derivadas não mais de Deus, mas do homem”.

A Modernidade, por sua vez, não pode ser tratada somente como um mero adjetivo. Diz respeito a um conjunto de crenças e comportamentos que visava romper com uma maneira mística de estar no mundo, na medida em que estabelece um relacionamento dos homens com o meio numa base de superstições e crendices. Sendo assim, o projeto moderno fez da razão o seu braço direito e da desmistificação sua espada fatal, colocando-nos frente a duas categorias que se constituíram articuladas: o da Verdade e o do Poder.

Revelar a Verdade para conquistar Poder. Conquistar Poder em nome da Verdade. Na Modernidade esses princípios são interdependentes, já que são necessários para a sustentação dos setores privilegiados. Aquele que possui a verdade sempre exerce poder e impõe respeito devido a sua autoridade. Pode-se porque se sabe aquilo que é. Sendo assim, as idéias de propriedade, posse e poder estão intimamente ligadas. Deseja-se possuir poder para se apropriar dele, como algo que existe no mundo, não em si, devendo-se ir à luta para conquistá-lo.

Incentivam, dessa forma, a produção de micro-estados que, nem sempre compartilham das mesmas concepções, mas se contrapõem, tomando por base a mesma estrutura determinista. O Estado nas sociedades modernas se constitui por si só em um aparelho ideológico, sustentador de outros – estados, micro-estados – que se consolidam a partir da existência deste, ou das forças que o dirigem e/ou dominam. Fruto de uma noção de riqueza totalmente deturpada, que gera necessidades e faz o ser humano sempre olhar para fora de si para se sentir completo, realizado.

Isso se faz presente em vários momentos do pensamento político. Se para os modernos o Estado era o “produto da razão”, para os contemporâneos ele é visto ainda como finalidade última, sendo a sociedade civil, a responsável por sua configuração. O que mudou de lá prá cá foi a crença na capacidade de transformação, mas o Estado continua sendo o espaço último de realização das necessidades políticas. Portanto, espaço a ser disputado para o exercício do poder.

E o que são os movimentos de caráter ideológico, senão a tentativa da criação de micro-estados, na medida em que arquitetam o mundo conforme suas previsões e crenças? Visam apenas substituir uma lógica dominante que organiza e determina as relações sociais. “Aprendemos, diz Ciro Marcondes Filho, com a crise do conceito de história e com a ruína das noções de progresso e evolução, que o mais razoável é dar crédito às alternâncias, que vivemos e convivemos com disparidades, paradoxos e excentricidades. Isso porque não há – e nunca houve – centro algum, a não ser na forja intelectual do Iluminismo”. Propor novos métodos, paradigmas, teorias ou ideologias é tentar trazer de volta a pretensiosa luz da Razão.

Com a ideologia, cientistas e políticos desenham o fim da história, dirigindo assim toda sorte de acontecimentos para críticas e/ou elogios que se desenvolvem a partir de suas visões de mundo. Ideologia aqui não é entendida como as crenças que motivam o cotidiano e formam as individualidades, mas como a vontade manifestada de criar um mundo a partir de suas próprias intenções.

A crise do conceito de história não pode assim ser confundida com a tentativa do estabelecimento do “fim da história”. Este decreto toma por base um conceito que está em crise, uma noção de tempo linear que não contempla a complexidade sócio-cultural-política-econômica de territórios existenciais que se entrecruzam e redefinem através de movimentos imprevisíveis.

Se a idéia de fim da história significa esgotamento de possibilidades alternativas de atuação, diante da supremacia de uma ideologia em relação às demais, também essa visão não satisfaz por dois motivos: assim como o sistema político dominante se recicla, também os movimentos contestadores se reorientam, apresentando um quadro de novas problemáticas, questionamentos e reivindicações.

Por sua vez, o sistema capitalista não atendeu às necessidades básicas da humanidade. São crescentes os níveis de desemprego e pobreza, bem como as disparidades sociais. A lógica perversa de sua essência se explicitou através da Guerra do Golfo, evidenciando a necessidade de preservação da indústria bélica, onde os interventores do mundo posaram – ao grande público, através da mídia – como pacificadores de conflitos internacionais.

Mostrou-se também com esse conflito, a incapacidade do sistema em gerar fontes renováveis de energia. “Uma das causas da conflagração foi a luta pelo controle do fornecimento de petróleo, uma das fontes não-renováveis de energia essenciais para o capitalismo”, afirma José Pedro Soares Martins, que lança ainda a incômoda pergunta: “Até quando a paz mundial ficará sujeita à disputa geopolítica pelo domínio de uma fonte não renovável de energia?”

Na concepção de desenvolvimento sustentado está contemplada a sustentação econômica, política e financeira dos países cujo movimento mais recente é o da reorganização em grandes blocos multilaterais, no sentido de se autopreservarem, gerando uma interdependência aparente, pois, segundo Leonardo Boff, “ela oculta verdadeira dependência dos países periféricos em face dos países centrais, pois as relações não são simétricas e eqüitativas … há profunda dependência tecnológica, financeira, política e ideológica por parte dos países que não garantiram um desenvolvimento auto-sustentado”.

O processo de globalização é, de certa forma, falacioso. Concebe dominantes e dominados, exploradores e explorados. O projeto neo-liberal no Brasil, América Latina e África é o da manutenção da dependência dos países do 3º mundo, onde uma minoria privilegiada serve de agentes locais da usurpação.

Mesmo assim, quando pensamos em termos de satisfações coletivas, vemos que esse projeto está falindo, pois a miséria se volta contra seus próprios territórios … Que fazer diante dos altos níveis de desemprego e da imigração daqueles que apostam suas economias para viver as maravilhas do mundo desenvolvido? A crise dos paradigmas científicos se encontra com a crise dos sistemas políticos, e o Ocidente se repensa, seja questionando suas verdades preestabelecidas, seja reformulando suas estratégias de dominação.

Se para as forças dominantes a relação é dada desta maneira, os que vão de encontro a esta condição também se referenciam pelos espaços instituídos onde o poder pode ser exercido. Contesta-se um determinado setor social que faz uso do aparelho administrativo estatal, mas não as deficiências do próprio aparelho. Os esforços nesse sentido visam apenas democratizá-lo, torná-lo mais participativo.

Referencia-se pela mesma ótica dominante e não se atinge a raiz do problema. Na superfície, se discute apenas as condições de ocupar o Estado, mas não o que este, como princípio de organização política, representa para a sociedade. Dentro do projeto moderno o Estado éapenas e, dentro desse contexto se inserem até mesmo os anarquistas, que se opõem por princípio à qualquer forma de autoridade. Para esses o Estado não é.

Sendo assim, a movimentação não é contra o estabelecido, mas sim, contra-hegemônico. É contra uma determinada força hegemônica que venha deter o poder estatal e/ou empresarial. Dessa maneira, o movimento se posiciona apenas como manifestação anti-organismos estatais, não quando é an-, ou seja, a negação de sua existência.

Sendo contra-hegemônico, é próprio dos movimentos disputar hegemonia e ser contra. Mostrando, dessa forma, que não trazem um projeto como bandeira, mas sim uma negação do projeto dominante. Ao se apresentarem como diferenciais ao estabelecido, apenas se contrapõem à força oposta, não à base que origina essa forma de articulação.

Prática esta, que se mostra presente tanto no pouco incentivo aos espaços alternativos de concretização de políticas públicas, quanto no modo de fazer e pensar a cultura e a comunicação por parte dos movimentos sociais. Temos. por conseguinte, o crescente esvaziamento de ações e crenças em relação aos partidos políticos, como a também crescente indignação improdutiva que, não apostando na criação de espaços e políticas alternativas, não contribuem para enriquecer possibilidades de atuação de um movimento aberto para o questionamento de espaços tradicionais.

Podemos dizer então que os movimentos que contestam a lógica dominante das instituições ocidentais também compartilham da mesma base paradigmática: criação de condições objetivas para a viabilidade de suas ideologias. As articulações e movimentos políticos levaram o mundo a se dividir em duas megatendências de organização sócio-política: o capitalismo e o socialismo. Com isso, inviabilizam a convergência de interesses em torno de um projeto global, apostando na conquista de espaços onde, legitimar uma concepção significa superar as demais.

O outro causa estranheza e o homem, envolto por suas certezas torna difícil a convivência na diversidade cultural, criando regras, julgamentos e ritos de iniciação. “As fronteiras entre as nações têm suas raízes na fantasia da separatividade e no apego e possessividade que ela engendra”, afirma Pierre Weil, se referindo à revolução nos países socialistas, onde, segundo ele, a noção de propriedade continua a reinar. Nesse caso, a fronteira entre nações foi gerada pela fronteira entre sistemas, caminho possível para a implementação de uma ideologia, e por conseqüência, da construção de trincheiras.

Foi derrubado o socialismo real, mas não a prática de um movimento carente de uma experiência concreta para se referenciar. Um movimento que elencou a questão do trabalho como diferencial de concepções, onde a relação opressor-oprimido se dá a partir do mundo do trabalho, através da exploração de operários proletários por parte de proprietários burgueses.

Não só hoje a relação é mais complexa, como mesmo também nos tempos em que Marx escrevia O Capital.  Sendo condição humana a busca da felicidade e da realização pessoal, a idéia de se identificar como proletário é contrariada pela vontade de experiência existencial de sua autonomia possível. Sobre esta, comenta André Gorz, o movimento operário se torna impedido de questionar, devido aos imperativos políticos da luta de classes.

Marx – e também o marxismo – via o proletariado como revolucionário em potencial, na medida em que, não só o auto-conhecimento se produzisse, mas também a consciência de classe. Os movimentos de esquerda que se sucederam, viam, portanto, como fundamental a questão do trabalho, não a da dominação que se desenvolve também em outras esferas, fazendo transitar o poder – em todas as suas variantes – entre burgueses e proletários.

Diante da incapacidade em contemplar a variedade de conflitos, outras questões além do trabalho passaram a ser abordadas pelos movimentos. Pensando a classe trabalhadora, ou mesmo a população, como um todo, desconsiderando suas particularidades, restringiu-se à multiplicidade das relações culturais. “No lugar da coletividade que a tudo e a todos assimila, veio a tendência ao uso do plural no afirmar das identidades”, afirma Rubem César Fernandes, a respeito de um movimento que ao se ampliar, passou a diversificar sua atuação.

Foi assim que o papel da mulher passou a ser discutido no interior de grupos, tendências e partidos políticos de esquerda, a partir de sua própria emancipação. Pode-se descobrir assim, o quanto era inibida a participação deste segmento nas discussões e omitidas as questões que particularmente lhe diziam respeito.

Também os negros, a partir da reivindicação de espaços, igualdade de direitos e da reconstrução histórica de suas lutas, fizeram enriquecer o leque das manifestações contra a opressão. Mais do que a luta pela liberdade, o que se colocou em questão foi a afirmação da cidadania deste setor nos mais diversos espaços sociais.

Mulheres e negros em busca de seus espaços trazem à tona a valorização da auto-estima em contraste com uma idéia também freqüente que é a da luta pela igualdade de direitos, discussão complexa que evidencia tendências de atuação no interior desses movimentos.

Ter a igualdade de direitos como bandeira é poder fazer, ser ou poder tanto quanto homens ou brancos, ter como experiência pessoal e de um coletivo a possibilidade de reproduzir o autoritarismo, a opressão, a institucionalidade, características contra as quais esses movimentos se organizam. Bandeira radicalmente diferente é a afirmação da cidadania desses setores sociais.

Tão amplas foram as questões que se apresentaram, que chegaram ao ponto de transcender a dimensão humana, e porque não dizer também ideológica. O alerta à destruição do planeta é um tema que diz respeito a todos nós, cidadãos do mundo. Evidentemente as soluções apresentadas a partir daí partem de diferentes concepções preestabelecidas, mas um movimento visando a defesa da qualidade de vida é produzido em escala mundial.

Pode-se concluir a partir daí que, com a unidimensionalidade da questão do trabalho, os movimentos contestatórios não contemplavam os direitos humanos de modo geral, nem a questão do meio-ambiente. Autocentrados em discussões relativas ao mundo do trabalho e do trabalhador, reproduziam um mundo machista e antropocêntrico. Concepções que vieram a ser importadas e retrabalhadas pelos movimentos de emancipação no continente americano.

Se é verdade que opressor e oprimido fazem parte da mesma moeda, também é preciso lembrar Paulo Freire, que alertava na sua pedagogia do oprimido sobre a necessidade de libertação do estado de opressão do opressor sobre o oprimido, para que este, liberto, pudesse cooperar na auto-libertação dos oprimidos.

Estranhamente, os setores populares são tidos pelo autor como oprimidos. Como podem ser oprimidos aqueles que conseguem sobreviver com um salário mínimo (ou menos!), dando um ‘jeitinho para esticá-lo’ até o final do mês? Ao tratar tais setores da sociedade como oprimidos – carentes, ou qualquer outro adjetivo depreciativo – coloca-se uma necessidade de dependência de um agente externo – o intelectual orgânico à frente da vanguarda revolucionária. Faz-se da consciência crítica um processo de assimilação ideológica e se evidencia a dimensão de religiosidade e doutrina existente nas correntes socialistas no Brasil.

Trabalhar a partir da ótica da compaixão para com os oprimidos reforça o tom restrito das manifestações e a desvalorização do uso da cultura. Não pode ser oprimido um povo que se prepara durante todo o ano para o carnaval em fevereiro, fazendo economias para realizar o sonho de desfilar na avenida. Se por um lado percebemos tais hábitos como mitificação ou alienação, não se pode deixar de levar em conta que uma série de desejos são manifestados. Um movimento que não interiorize a questão cultural em suas manifestações tende ao distanciamento em relação ao seu público.

Dessa forma é que várias tentativas de aproximação com a sociedade esbarraram na incompatibilidade de discursos e expectativas, ou ainda com a adesão de pessoas ou grupos que – cooptados para uma causa que passaram a ver como deles – compartilham das mesmas causas e aflições. Reproduziu-se, assim, a mesma prática manipulatória dos setores aos quais chamavam dominantes.

Experimentou-se a forma doutrinária e demagógica ao se preestabelecer o que é cultura, ou pior, o que é cultura popular, como foi o caso do CPC da UNE. Tentou-se utilizar uma linguagem já consagrada com um conteúdo alternativo, principalmente fazendo alusões à TV Globo, poderosa rede de televisão que tem abrangência nacional e qualidade técnica e artística de altíssimo nível. Na maioria das vezes um artifício implícito, que, quando se faz evidente, ganha uma dimensão política: nós podemos fazer o que os donos dos meios de comunicação também fazem!

Quando fazemos uma analogia entre a dimensão cultural e a política, vemos que a referência e a utilização de artifícios da ótica dominante é um recurso utilizado para garantir a participação em pé de igualdade, ganhar legitimidade junto às instituições. A cidadania se desfaz na medida em que não é mais a pessoa ou grupo atingido que reivindica, mas alguém, algum grupo ou ideologia em nome de uma coletividade.

Transformar tal comportamento é uma atribuição extremamente difícil, pois toca na raiz da formação da sociedade ocidental: obedecer e respeitar autoridades competentes, entendendo-se aqui a assimilação de normas e ensinamentos que estão presentes desde a infância, na figura do pai, passando pelo papel do professor, do médico, do padre e enfim, do patrão e do governante – daquele que sabe, e, portanto tem autoridade para atuar nos espaços que lhe dizem respeito.

Dentro desse tradicional espírito militante é presente também a necessidade de exercer autoridade dentro dos movimentos, mediante o desenvolvimento de estruturas verticais de poder. Se fazem evidentes quando uma palavra de ordem é levada à frente como o verdadeiro caminho para se chegar a uma sociedade mais democrática, ou ainda, quando dirigentes de entidades sindicais incorporam hábitos patronais e comandam seus aparelhos com braço de ferro.

Muitas vezes foram empenhadas bandeiras ao longo da história com a determinação que sempre acompanha os bem-intencionados. De maneira contraditória, mas sem deixar de ser surpreendente, essas mesmas bandeiras são erguidas com o fanatismo que impede a abertura para opiniões divergentes e mesmo o diálogo com o outro.

Existe assim, por associação, a livre e sempre presente tendência a criar representações, a partir da infância no convívio familiar, tanto de pessoas como comportamentos. E, como afirma Roberto Freire, “a pedagogia que vem depois na fase escolar, é padronizada, trata-se de um complemento da doméstica”. Cabe portanto, para um trabalho alternativo ao sistema, no uso comum da palavra, que sejam ‘desligados os aparelhos repressivos’, processo a ser desenvolvido a partir da afirmação de alternativas concretas e globais, mas não universalizantes – macropolíticas alternativas.

Justamente por nos acostumarmos desde cedo aos micro-estados é tão difícil promovermos uma transformação individual. É difícil, até mesmo hipócrita, falarmos em liberdade se não conseguimos nos libertar a nós mesmos. Liberdade coletiva e individual se fazem um processo conjunto, mas não há liberdade coletiva sem liberdade individual.

A ideologia constantemente foi encarada como um ponto futuro no fim da história para o qual a humanidade caminha. Esse procedimento mostrou provas evidentes de sinais de cansaço e do fim da potencialidade experimental e produtiva, abrindo margem para um colapso mundial, de abrangência incalculável, principalmente se consideramos que os condutores das instituições, espaços de produção social do conhecimento e organização política são exatamente os que estão em crise.

Observamos a partir daí, a falência das promessas do modelo neo-liberal e, também, uma crise de alternativas da esquerda tradicional. As crenças se fazem valer através da construção de aparelhos ideológicos, no sentido mesmo que Althusser estabelecia, mediante a criação de máquinas produtoras de ideologia – família, escola, ciência, religiões, mundo do trabalho – dentre as quais se incluem concepções específicas do Estado.

Tanto o modelo hegemônico quanto o dos movimentos contestadores têm a mesma base paradigmática que é o império da razão. Quando falamos hoje em crise dos paradigmas, depois da queda do Muro de Berlim e da derrocada do socialismo real, tocamos na insuficiência desses dois grandes metarrelatos em satisfazer os desejos da humanidade. Na verdade, é a própria Modernidade que está em crise, na sua ansiedade em ver a luz fora da caverna.

Às forças transformadoras da sociedade e que percebem seus efeitos colaterais na própria pele é que cabe a implementação das mudanças. No que se convencionou chamar aqui de movimento contestador – forças sociais que questionam o sistema dominante – observa-se também o desejo de mudança imediata para o estabelecimento de um outro estado das coisas. A própria concepção materialista dialética prevê uma síntese que se transforma em tese. Circula uma frase hoje a respeito de alguns militantes de maio de 68 que expressa bem essa limitação: “incendiário aos 20, bombeiro aos 40”. Admitir novos aparelhos de estado – entendidos aqui como mecanismos sociais e políticos que travam a multiplicidade cultural – num movimento que concebe o fluxo como princípio soa como contra-senso.

Como vai ser então? é uma pergunta que se costuma fazer nesses momentos onde o impasse é evidenciado, mas dar respostas de antemão é cair de novo nesta armadilha filosófica: para se afirmar algo é preciso utilizar a razão. Uma nova atitude diante deste impasse é que a partir do momento em que pensamos em construir algo que é um-todo-movimento. Não é possível conceber de antemão, mas somente ter a humildade em dizer não sei e arriscar construirmos juntos.

Quando se fala em desligar aparelhos repressivos, faz-se referência também à tentativa de desconstrução de metarrelatos ideológicos, cujo processo apontou Jean-Francois Lyotard: “legitimando o saber por um metarrelato, que implica uma filosofia da história, somos conduzidos a questionar a validade das instituições que regem o vínculo social: elas também devem ser legitimadas … o saber pós-moderno aguça nossa sensibilidade para as diferenças e reforça nossa capacidade de suportar o incomensurável”.

A legitimação do saber a partir de uma prática se coloca, dessa maneira, como conseqüência de uma performance – outro conceito que é caro ao filósofo francês – não por objetivo. Não se consegue esta relação através de uma lei, ou decreto, ou novo paradigma, mas através da vivência. Não pode haver império possível, senão aquele que extíngua a autoridade de uma vez por todas: oimpério da não-autoridade.

Não se apresentando como ideologia (pois não prevê ponto futuro), nem ruptura epistemológica (já que epistemologia crítica é questionamento ao modo de produção científico), este anarquismo se faz ciência, pois não deixa de ser um meio de travar relacionamento com o mundo; religião, já que é pura crença numa vivência e arte, ao se revelar um permanente estado de criação, renovação e revalorização de estruturas.

Para transpor referências, um projeto revolucionário tem que transcender a objetividade, a ordem natural das coisas ou o sentido da vida. Segundo Foucault, “desvincular o poder de verdade das formas de hegemonia no interior das quais ela funciona no momento”. A preocupação não deve ser o que é?, mas sim o que faz as coisas serem?, ou seja, serem identificadas como tal. Essa deveria ser uma nova preocupação da ciência em tempos pós-modernos: a formação e a difusão de identidades.

A hermenêutica deste novo paradigma tem uma dimensão religiosa no sentido estrito do termo: religar a razão ao espírito, convergir formas de produção do conhecimento humano, de produzir e fazer fluir identidades e significados. Nesse sentido, podemos falar em comunicação, diretamente atrelada à dimensão científica, mas dentro de uma nova perspectiva.

Diante da proposição sofística da qual falou-se no início, uma outra se coloca mais adequada: “Onde antes se dizia conhecer, agora se diz simular; onde antes se dizia comunicar, agora se pode dizer, produzir simulacros, e onde antes se dizia compreender, agora se diz algo como seduzir”.

Mas juntos com quem? Outra armadilha é colocada nessa questão. Pois construir juntos significa estar do lado até mesmo de nazistas, por exemplo. Nos acostumamos a viver sob o signo da razão, onde a violência do discurso é tão malígna quanto a violência física. o que está em jogo é a vida num mundo não violento, onde se entende por violência inibir as pessoas de serem o que são, o que podem e o que querem ser, ou seja, a existência em toda a sua plenitude. Um movimento essencialmente opressor não constrói por sua própria concepção. Ao contrário, dão origem a espaços onde as criatividades se estimulem e desenvolvam, as subjetividades se afloram, experimentam a liberdade na sua própria produção.

“Estaríamos na antevéspera da implosão de algo inédito na história do planeta: num de seus membros, na espécie humana, emergeria uma convergência das linhas ascendentes de evolução rumo a uma unidade orgânica.” – nos diz Leonardo Boff, apresentando a noosfera traduzida pelo filósofo cristão Teilhard de Chardin como: a esfera da mente humana unificada.

Também podemos dizer dessas novas formas de pensamento e comportamento que são Holísticas no modo de proceder. Da Holística como paradigma se diz que “o todo está nas partes e as partes estão no todo, a esta síntese do todo e das partes está refletida no caráter holístico das funções das partes, quanto do todo”. Holístico aqui faz referência tão somente à convergência: de estados de consciência, de campos do conhecimento e de sistemas de organização política, tal como nos fala Joseph Campbell, de forma maestral: “É evidente, portanto, que qualquer que seja a mitologia futura de nosso planeta, a ser unificado em breve, sua história da criação e evolução das civilizações não procederá ao engrandecimento de um, dois ou três exemplos monádicos da vasta coleção polimórfica. Nossos cientistas e historiadores já estão preparando a trama”.

Prof. Adilson Cabral
Professor da Universidade Estácio de Sá – RJ
Mestre e Doutorando em Comunicação Social pela
UMESP – Universidade Metodista de São Paulo

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