O IMPÉRIO DA NÃO-AUTORIDADE


 

Estamos vivendo uma época de big crunch do conhecimento, convergência de discursos da ciência e da religião, das ciências entre si e das religiões entre si. Compartilha-se de uma visão de mundo que integra o homem à natureza, o sujeito ao objeto, passando a ser visto como um todo harmônico dentro de uma visão de não-exploração, não-conquista. A busca da verdade absoluta não é mais o que motiva a humanidade, mas a convivência e a interatividade. Unidade na multiplicidade. Uma nova interpretação aos escritos antigos, onde real e representação se confundem e o projeto Iluminista se desfaz.

Trazendo esse debate para a cenário da comunicação, observamos a predominância de duas tendências teóricas: a revisão epistemológica por um lado, tentando situar a comunicação no campo das ciências humanas e, por outro, a tentativa de definir a comunicação dentro de um campo específico do conhecimento. Acreditamos que, por suas características intrínsecas, a Comunicação possa contribuir com elementos para refletir a assim chamada crise dos paradigmas.

Segundo Maria Immacolata, “a comunicação constituiu-se como um campo de estudos que progressivamente se autonomiza dentro da grande área de conhecimento que são as Ciências Sociais e Humanas”. Esta idéia encontra bastante respaldo entre os teóricos da área e chama a atenção para dois pontos relevantes: um saber ganha autonomia dentro de uma área do conhecimento científico devido a alguns fatores (o mercado de trabalho e o acúmulo de pesquisas sobre o assunto, influenciando diversos campos) e encontra-se aqui inserido nas Ciências Humanas.

A comunicação como um campo do conhecimento é transdisciplinar em sua essência. Se nos interessa analisar o discurso, recorremos à Semiótica; se nosso objeto de estudo são as organizações sociais, nos utilizamos da Sociologia e da Política, mas se falamos dos sujeitos constituintes, voltamos nossos olhos para a Psicanálise. Mais do que qualquer outro campo do conhecimento, a comunicação denuncia a inconsistência da fragmentação científica em disciplinas isoladas, revelando-se como saber próprio, dotado de cientificidade, a necessidade de uma produção de conhecimento articulada e multidisciplinar.

Os paradigmas predominantes na comunicação se constituíram a partir de uma visão determinista que esgotou sua potencialidade criativa, força de atuação e influência. Sofremos as conseqüências de uma motivação que moveu vários sistemas de pensamento: o científico, onde a prova adquire estatuto de verdade; o religioso, cuja relação com o mundo é determinada a partir de postulados dogmáticos e o artístico, cujo valor e reconhecimento são determinados a partir da boa aceitação de uma obra em particular.

Angustiados à procura do entendimento da realidade que os cerca, os cientistas apostaram na interpretação analítica e racional para a explicação dos fenômenos. O cientista produz verdades através de suas análises e comunica aos seus interlocutores, legitimando assim sua elaboração através da prova.

Imaginando o homem dissociado de Deus, as instituições religiosas faziam da crença uma verdade possível. Crer é poder acreditar, conquistar a condição de crente. Em nome da crença numa determinada idéia, impérios foram construídos e destruídos, não deixando de manter sua casta de privilegiados: os que podem fazer e ser. São mantidos pela maioria silenciosa que os sustenta. Esta por sua vez é reprimida pela força de suas próprias crenças na impossibilidade de autonomia e desejo de submissão a um Deus tido como superior.

A representação também ganha status de real (como se precisasse de legitimação científica para tal). O desenho de um cachimbo não é um cachimbo, mas o próprio cachimbo também não o é. Ou ambos, desenho e cachimbo são cachimbos de diferentes naturezas. O que dá existência às coisas é a crença e o ato também se faz manifestação artística. O homem é muito mais do que pode ser, mas a despeito disso, cria, com a mesma paixão que se coloca contra ou a favor de algo, instituições perenes e conservadoras.

Aquele que se apropria da verdade, seja qual for o seu referencial, sempre exerce poder e impõe respeito devido a sua autoridade. Pode-se porque se sabe o que é, diferenciando-se assim dos pobres e incapazes que não têm acesso ou clareza do conhecimento que possuem. Não obstante isso, a humanidade, envolta por suas certezas, torna difícil a convivência na diversidade cultural, criando regras, julgamentos e ritos de iniciação.

Opressores e oprimidos são faces de uma mesma moeda. Sustentam instituições que são criadas no sentido de manter o sistema dominante, entendido aqui como produtor de verdades estabelecidas. O mecanicismo que tanto se critica atualmente está presente na própria prática científica, no distanciamento com que são tratados os objetos de estudo ou na determinação daqueles que assumem um compromisso político e com suas propostas pretendem mudar o mundo.

Com a ideologia, cientistas e políticos desenham o fim da história, dirigindo assim toda sorte de acontecimentos para críticas e/ou elogios que se desenvolvem a partir da forma pela qual o mundo é interpretado. Ideologia não é entendida dessa forma como as crenças que motivam o cotidiano e formam as individualidades, mas a vontade manifesta de criar um mundo a partir de suas próprias intenções.

Sendo assim, as idéias de propriedade, posse e poder estão intimamente ligadas. Deseja-se possuir poder para se apropriar dele. Ciência, religião e arte se alimentaram, hegemonicamente, do paradigma da conquista na história da humanidade e é dessa maneira que se estabelece a relação entre homem e natureza, sujeito e objeto. Poder é algo que existe no mundo, não em si e deve-se ir à luta para conquistá-lo.

Mitifica-se o poder, faz-se dele entidade e instituição. É preciso estabelecer uma nova relação com o poder. Não como um prêmio a ser conquistado numa disputa onde uns ganham e outros não, mas como vontade manifestada de ampliação de possibilidades, no sentido de promover a sua desmistificação. Não se consegue esta relação através de uma lei, ou decreto, ou novo paradigma, mas através da vivência. Não pode haver império possível, senão aquele que extíngüa a autoridade de uma vez por todas: o império da não-autoridade.

Não se apresentando como ideologia (pois não prevê ponto futuro), nem ruptura epistemológica (já que epistemologia crítica é questionamento ao modo de produção científico), este anarquismo se faz ciência pois não deixa de ser um meio de travar um relacionamento com o mundo; religião, já que é pura crença numa vivência e arte, ao se revelar um permanente estado de criação, renovação e revalorização de estruturas.

Parte-se aqui da premissa de que os paradigmas teóricos da comunicação estão diretamente vinculados e até mesmo determinam a atuação de pesquisadores latino-americanos que sempre intencionaram uma reação ao colonialismo cultural.

Em contraposição às pesquisas funcionalistas comprometidas com o expansionismo econômico e cultural dos Estados Unidos, os teóricos que estavam abaixo do Equador abraçaram a teoria crítica como paradigma e desenvolveram seus trabalhos a partir de uma resposta à recém-desenvolvida indústria cultural na América Latina.

A partir daí costuma-se agrupar frankfurtianos e funcionalistas num espécie de esquerda e direita intelectual, formando preconceito em relação à análise de conteúdo, como também supervalorizando negativamente a indústria cultural. Da primeira critica-se a intenção, o desdobramento; em relação à outra, compartilham do mesmo universo monolítico e unidimensional no qual se situavam os alemães.

Tudo estaria em perfeita calmaria, não fosse a vontade de participação política por parte de cientistas e do movimento social latino-americano. Se os meios de comunicação se caracterizam como massificadores, caberia à intelectualidade e aos setores populares organizados da sociedade desenvolver meios alternativos contra-hegemônicos que pudessem fazer com que se garantisse a qualidade política das informações e a organização das lutas dos trabalhadores.

O mimeógrafo se contrapõe ao computador, a microcomunidade fechada no seu gueto à interligação da aldeia global. Pesquisadores descobrem que a revolução tecnológica precisa ser acompanhada de perto e mais! Descobrem o risco do isolamento ao falarem de passividade e dependência em seus trabalhos. Como podem promover a consciência crítica de um público que é constantemente manipulado pelos meios de comunicação? Como podem se relacionar com essas pessoas que constantemente chamam de alienados?

As premissas frankfurtianas não poderiam ser levadas em conta, se a intenção fosse desenvolver um trabalho de formação política. Como se isso só não fosse bastante, as pessoas continuam vendo nos meios uma importante fonte de conhecimento e entretenimento e sabem distingüir o joio do trigo, na qualidade e na veracidade, na conversa de bar, ou ainda, à maneira das massas: nas pesquisas de opinião.

Sendo assim, as pesquisas de comunicação deveriam mudar o seu enfoque. Não só o meio de comunicação era importante, mas deveria-se dar especial atenção à maneira pela qual os programas eram apreendidos. Se por um lado os funcionalistas investigavam as necessidades do público para adequar seus interesses à uma determinada programação, ou vice-versa, os estudos promovidos pelos adeptos da teoria da recepção tinham por objetivo promover uma leitura crítica da programação exibida.

A massa não era dessa forma tão homogênea quanto as mentes mais fatalistas poderiam conceber. Dando viva voz e participação ao objeto de estudo, e conseqüentemente a si próprios, os pesquisadores descobriram que a interpretação das mensagens era bastante diversificada devido a algumas mediações que influenciavam no entendimento. A massa nem sempre era massificada e quanto mais fatores fossem levados em conta na recepção, maior o discernimento do conteúdo das mensagens por parte do público.

Vários elementos vieram a ser colocados em consideração. Os indivíduos não só trabalham como também moram, possuem gênero, raça, família, religião … e desejos. A relação de exploração e dominação não poderia continuar a ser vista somente pela ótica dos trabalhadores. Esta mudança de comportamento era comum ao movimento social e à academia. Novas formas de organização estavam reivindicando o seu espaço.

O receptor não poderia mais ser visto como aquela pessoa que se senta frente ao seu veículo de comunicação disposto a engolir pela goela tudo o que o emissor tem para oferecer. Primeiro porque nunca foi assim, depois porque, com o tempo, a mídia perde a sua mágica. Se há muito tempo as pessoas corriam assustadas da locomotiva que aumentava de tamanho a medida que se movia em direção à tela do cinema, hoje não mais se incomodam em ver efeitos especiais computadorizados na telinha da TV.

Notícias não podem enganar aqueles que se informam dos assuntos por outras fontes. Nenhum pesquisador bem intencionado pode investigar o que passa pela mente das pessoas. Não se pode combinar a crítica da manipulação com a alegação de que as notícias dos telejornais não são compreendidas após a sua exibição. Mesmo levantando o problema das mediações, elas existem como um coletivo de subjetividades em um determinado indivíduo, fazem sua relação com o mundo e não podem ser vistas como entidades isoladas.

Emissores, receptores e mensagens não podem ser mais vistos como entidades dissociadas. A incorporação das mediações como categoria de análise dos efeitos dos meios de comunicação ainda não conseguiu acompanhar a nova concepção de sujeito que se instaura a partir desta ótica, justamente porque cada fator determinante de uma mediação específica é visto em separado. Os sujeitos se movem com o mundo em sua maneira de percebê-lo. Não pertencem nem ao tempo, nem ao espaço.

As mediações de origem social e psicológica atuam ao mesmo tempo, fazendo do indivíduo um portador do caos, hospedeiro do movimento do mundo. Esta visão é uma tentativa política de buscar uma atitude que não encontrou o seu espaço, pois vem acompanhada de uma modificação profunda na natureza da Ciência e na maneira de viver e perceber a existência humana.

O estudo dos efeitos dos meios de comunicação a partir das mediações foi desenvolvido a partir da evidente insuficiência teórica existente, proporcionada pelos avanços dos estudos no terreno da psicanálise. Necessidade política de legitimação do discurso acadêmico, que estava perdendo terreno e público na insistência com categorias de análise preconceituosas e elitistas. Cada vez mais se torna evidente que é preciso se fazer Ciência do mundo como seres humanos, não somente como cientistas. Este novo renascimento do fazer científico demanda uma postura que não pode ser enunciada por qualquer paradigma possível senão o da vivência.

Segundo Marcuse, o socialismo pós-industrial será feminino ou não será socialismo. “As novas relações que estão por vir pressupõem uma revolução cultural que, ao nível dos comportamentos individuais tanto quanto dos sociais, venha extirpar o princípio do rendimento, a ética da competição, da acumulação e da luta pela vida, para afirmar a supremacia dos valores da reciprocidade, da ternura, de gratuidade e de amor à vida sob todas as suas formas”.

Feminino, não-competitivo, vivencial … as novas formas de relacionamento que já se podem observar visam, não só orientar procedimentos de pesquisa ou prática científica, mas introduzir uma nova relação com o mundo: de troca, não de exploração, onde a liderança não se faça perceber em autoridade, mas justamente quando não se fizer mais necessária.

Prof. Adilson Cabral
Professor da Universidade Estácio de Sá – RJ
Mestre e Doutorando em Comunicação Social pela
UMESP – Universidade Metodista de São Paulo

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